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09 julho, 2013

A vida sob outro prisma


Dia de Maratona familiar........ só mais um, dentre todos os que a gente não tem descansado muito.
Minha mãe conta que meu avô sempre gostava de passear no zoológico porque ele entrava de graça (pobre é uma meleca mesmo... até trem de graça pra Xexênia), e entrava assim, gratuitamente, porque tinha nome de bicho. Devia ser naquelas épocas de vacas magras, quando os administradores desesperados faziam qualquer coisa pra botar um público, por mais estranho que fosse, pra dentro do zoo. Tor, parece ser o nome de um pássaro... minha mã que disse; era esse o passaporte dele. Esta certo, viu, Cacá... é mã mesmo, não mãe... ainda que, embora o contrário pudesse ser, acaba sendo a mesma coisa.
E num daqueles repentes, bem guardados, estava o animal preferido dele: um filhote de elefante. Meu avô ficou tão apaixonado por aquele bichinho, que aqui, no Brasil, o maior sonho dele era ter um filhote do paquiderme. Esse era um sonho bem grande e impossível... ainda bem que ele não ficou encantado por uma píton, ou talvez acabaríamos tendo uma lá em casa; já que seria mais acessível.
Não fomos até o zoológico e não entramos também no Clube do Barça, para o desespero do Marcos e que o meu primo falava com todo orgulho que tem mais visitas/dia do que a Sagrada Família. Também não fomos à Casa de Mies van der Rohe, mal vimos o Bairro Novo das Olimpíadas e passamos numa carrera pelo Bairro Gótic, onde minha yaya morou. Fora isso, tudo que o que podíamos, vimos. E foi tudo muito rápido.
O ônibus era daqueles turísticos, de dois andares e com fone de ouvido azul... tinha até tradução para o português... quanto avanço. Pegamos na Praça de Catalunya e fomos direto até a Sagrada Família.
Gaudí era fogo, viu? Cantou, em pedras, o maior hino em homenagem à sua Terra: uma catedral que fosse mágica, em luzes filtradas naturalmente em dourado e azul, com a presença do branco, a mais pura das cores... ainda que na sua ingenuidade, ela some todas as outras, sejam elas claras ou sujas. Alta o suficiente para não ser maior que as montanhas que a circundam, pois sua obra divina não poderia se sobrepujar à obra natural de Deus.
As imagens retorcidas mostram uma dualidade da fragilidade de meninos angolanos e a rudeza dos nazistas sem coração... ou seja, algo universal, humano e atual. Nada de modismos, algo de eterno. Ricamente genial.




Quando fomos a Barcelona, na época que o Jurassic Park ainda estava nas suas primeiras páginas, subimos  uma das torres altas.
Fomos o João e eu. Cerca de 700 degraus.
Claro que passamos, e fomos passados, por outras pessoas que faziam o mesmo: alcançar o topo. Sempre para o alto e avante. Claro que a gente cansava, mas não tinha muitas rotas a tomar; foi só num momento, quando as duas torres se juntam num corredor em comum, que dá pra escolher o caminho a seguir: a torre da direita ou a da esquerda. Nem me lembro qual escolhemos, mas fomos juntos.
Posso visualizar ainda algumas janelinhas na escadaria, que se via os andaimes e os eternos trabalhadores do Santuário da Cidade. Conforme íamos chegando ao topo, o espaço ia diminuindo... parecia um caminho da Alice no País das Maravilhas, que se estreita até não se poder mais passar.
Chegamos, enfim.
Lá, pessoas que escreviam seus nomes, do tipo: Estive Aqui! E foi o que fizemos.
Depois fiquei sabendo que isso era uma profanação e me senti envergonhada, mas nossos nomes já estavam lá.
Pensei em voltar lá em cima, mas além da probabilidade de ter que subir as duas torres (porque, certamente, seria somente na outra que estaria nossos nomes) a chance de encontrar dois nominhos numa sujeira de outros rabiscos... bom, nem tentei. Desisti.
A Rose queria muito subir de elevador para ver a cidade lá de cima. Outro arrependimento meu que, ao ver a fila da dita cuja, disse que não, nem parecia tão legal assim. Mentira... devia ser a coisa mais linda.
De lá fomos andar de ônibus com fone azul. Subimos até o Parque Mont Juic e descemos até a praia. Vimos prédios modernos, antena de TV famosa, parque aquático, parque terrestre, lojinhas, Avenida Diagonal... mas foi quando passamos pelo Bairro da Gràcia, que tive vontade de pular de lá. Parecia que aquele lugar me chamava.
Um dia volto e ando tudo aquilo até sentir o lugar de uma forma carinhosa, saudosa.
Saudades.
Sinto saudades de uma vida que nunca foi minha. 

Bateu uma fominha !


Meus pais foram direto pra casa da Pilar... quem sabe estivessem mortinhos da silva de tanto andar, né? Ela deve ter feito um lanchinho muito gostosinho a base de jamón, queijo, pão e vinho. Mas e nós, pobres mortais?
Por sorte bem na esquina do nosso hostal, tinha um barzinho-lanchonete. A Rose queria água... melhor, então, já sentar e comer, né? As lombrigas já estavam disputando o quarto maior dentro das tripas, de tanto espaço vazio que tinha.
Sentamos na parte de dentro porque lá fora já batia um ventinho.
O barman-garçon é que nos olhou com uma cara meio de poucos amigos... oh-oh... parece que ele não quer nos dar comida! Comecei a ver nossa saga por comida novamente, como naquele dia em Portugaile, que quase matamos de fome um monte de gente faminta. O mais interessante é que, quanto mais eu achava que não teria comida, mais fome me dava.
O Marcos foi falar com ele... já deve ter chegado falando que era um retirante rico do Brasil, que veio a nado por causa de uma promessa e que ainda trouxe a mulher grávida de uns 5 filhos (porque até daria pra acreditar) só pra fazer romaria em Montserrat e que, enfim, cumprira seu legado e cá estavam: todos mortos de fome e aquele ser ma-ra-vi-lho-so em sua frente surgia como seu grande salvador.
"E aqueles outros ali?", deve ter perguntado o gaijo espanhol com cara de muçulmano, nosso garçon.
"Encontramos na travessia do Atlântico e resolvemos adotá-los", respondeu o Marcos.
Claro que as frases eu não podia ouvir, mas o tom era esse. Certeza. 
A verdade é que tanto fazia o que ele falou, o importante é que deu certo.
A chapa já estava desligada, então teríamos que comer lanches frios. Tudo bem.
"Bom, e o que vocês vão querer? Escolham rápido antes que ele mude de ideia"
Pronto... foi aquela avalanche de pedidos de comida e bebidas, parecíamos mesmo uns desesperados.
Quando chegou a comida... "Vixe, não foi isso que eu pedi"
Vai... tira o tomate, coloca o jamón, um pouco mais de azeite... e lá foi o Marcos de novo. Tudo ele!
"Não, deixa pra lá... eu como isso", "... e eu como aquele..." foi mais ou menos assim o coro, quando a gente viu a cara do marroquino se transformando num dos guerreiros de Genghis Khan, com aqueles olhos malvados e puxadinhos. Isso porque o Marcos pediu pra consertar o que nem sequer ele tinha entendido direito com o portunhol misturado com catalão que corre nas veias de meu querido irmão.
Esse episódio me fez lembrar da primeiríssima vez (no ano de mil novecentos e zerente zero) que viemos a Barcelona, quando a Magda ainda tinha a pensão nas Ramblas: meu pai, cansado porque essas viagens é sempre muito relaxante para o cérebro (afinal nem dá tempo de pensar no tantão de dinheiro que você está gastando), mas para por aí o relaxamento porque o corpo fica moído. então... meu pai pediu para que o João e eu fôssemos nas lojinhas de baixo para comprar duas metades de cabeça de carneiro assado.
Lembro que minha mãe ainda retrucou: " Mas eles? Sozinhos?" e meu pai disse: "Pois se é aqui em baixo, é só descer, pedir e subir". Pois é... quase tudo funcionou dessa forma senão fosse um pequeno contratempo: não sabíamos falar nadica de nada que não fosse português. Claro que o catalão a gente entendia por causa do vô e da yaya.
Só chegamos e pedimos: "Queremos duas metades de cabeça de carneiro", e apontávamos pras cabeças.
O homem detrás do balcão perguntou umas quinhentas vezes e ainda trouxe um amigo pra nos traduzir. Quando ele começou a abanar a cabeça, declarando positivamente, que tinha nos entendido, abanamos a nossa também, concordando com ele.
E esperamos, esperamos, esperamos. Outros clientes passavam na nossa frente e a gente cochichava que, se a gente fosse gente grande, eles não fariam isso... mas a gente não podia ir embora, porque nosso pai estava esperando as cabeças pra almoçar.
Que impasse!
De repente, o homem começou a colocar no balcão um monte de sacolas com um monte de cabeças dentro. Olhei pro meu irmão, que olhou pra mim... ambos incrédulos. "Que é que nós fizemos?"
E pra explicar pro outro que eram só duas cabeças e não duas dúzias de cabeças... mesmo porque o dinheiro não daria.
Que desastre!
Até que chegou um outro... bravo que só (achei que ia bater na gente) e nos deu as duas metades, pegou o nosso dinheiro e ficou lá xingando o outro pelo prejuízo. Quando chegamos em 'casa' meu pai disse que já estava se aprontando pra ir atrás de nós.
Acho que os traumas nascem assim, né? Por isso eu comeria até joelho de camelo tostado no mel e mostarda, se fosse pra deixar aquele homem muito bravo, feliz.
"Ah, então está tudo certo? Não é pra mudar nada?", perguntou o Marcos, na frente daquele brutamontes com olhar perpetrantemente gélido para nós.
"Não, não precisa mudar nada... tá ótimo assim..."
O Marcos veio pra mesa. Comemos e, na hora de pagar, um pouco mais de encrenca... mas aí eu já estava no meio do caminho de casa.
Bom, nada melhor que um pouco de paz num dia conturbado como esse. Fomos dormir.
No dia seguinte fiquei sabendo: a água que a Rose queria, o Marcos tinha esquecido de pegar, por isso voltou no bar do Genghis Khan.
O Marcos falou que, quando o garçon viu que ele entrava de novo, ele simplesmente não acreditou, porque ainda não tinha se recuperado da raiva que passara, mas ainda assim vendeu a água. Acho que ele pensou que meu irmão não batia bem da cachola... voltar sozinho... ele podia apanhar.
Ai, Marcos, que você é um bobão mesmo. Ele disse que até pensou em ir em outro lugar, mas estava tão cansado e tudo já estava fechando... então foi lá mesmo............. :P


06 julho, 2013

Uma sendo a outra, sem ser exatamente a primeira

Dia de muitas emoções.
Já devo ter esquecido algumas sensações dessa viagem porque já faz tanto tempo que estou escrevendo sobre ela, que está sendo surpresa pra mim mesma recordar algumas coisas... graças a Deus, existem fotos.
Quando o trem ainda estava em movimento, pude admirar as pessoas... tão estranhas. Era tudo familiar, mas distante de mim. Outro dia mesmo eu percebi que eu tenho uma sensação parecida com os homens endinheirados de Minas, Brasília ou da região nordeste. Não esses meio fajutos que eu conheço, mas aqueles que tem um jeito de pensar muito distinto do meu... nem melhor ou pior, só diferente. 
E as paisagens, então? Fomos saindo da cidade por baixo dela e, quando me dei conta, lá estavam as montanhas... tão íngremes.
Não era a toa que os pastorinhos que descobriram a imagem de Montserrat estivessem com preguiça de ir lá em cima. Nós fomos pelo bondinho, parecido com  aquele da Urca, e ficamos vendo o rio Llobregat, o viaduto e a estação ficarem cada vez mais pequenininhos... mas teríamos outras duas opções, se quiséssemos: um bondinho terrestre ou a pé mesmo; mas nenhuma parecia melhor que a do bonde nosso pendurado porque, ou a gente chegaria com torcicolo ou não chegaríamos nunca, porque subir aquilo lá, ninguém merece.
O lugar é bonito, com o toque alaranjado dos tijolos e uma escultura fascinante, logo no caminho de entrada, de um 'Jesus' à la Gaudi que parecia nos seguir com os olhos, onde quer que fôssemos. Outro ponto indiscutivelmente lindo é um mirante ladeado por arcos góticos com a visão do vale... só que, nessa hora, meu pai já estava com fome então quase não ficamos lá.
Mas o que importava mesmo era a imagem da Santa. Foi pra isso que fomos lá, afinal.
A Igreja não faz jus à grandiosidade da crença: ela é pequena e escura, ainda que reluzente a ouro por todos os lados. Se pensarmos numa gruta, o Santuário realmente remete à meditação.
Não se deve tirar fotos lá dentro... como não podia nas Nações Unidas também, mas tiramos.




A imagem de Jesus que fica seguindo a gente com o olhar






Hoje sinto até uma pontada de vergonha, ainda mais tendo que colocar isso no blog porque isso depõe contra a minha chiqueza; mas naquela hora parecia impossível não fazer: Eu precisava registrar a Dona Mont em Montserrat.
Assim como eu precisava, por tudo nessa vida, registrar o mundo do meu irmão em Genebra. Preciso de mais coisas que eu preciso, eu acho.
Depois de rezar na nave principal olhando a imagem bem acima de todos, fomos pelo corredor lateral para fazer a visitação... e olha que andamos, viu? Nem parecia que a Igreja era pequena. Subimos degraus  e, enfim, a Santa.
Ela envolta em vidro, somente com um furo para o mundo que ela segura numa mão. E, no mesmo mundo, a mão da minha mãe, a Dona Montserrat, pedindo pelos netos, pela família, amigos e tanta gente que já partiu, com certeza.
Uma santa segurando a mão da outra.



Foi emocionante.

Viemos de longe para isso e era o momento dela, que ninguém estragaria.
Fomos para a capela atrás da Imagem. Eu tenho certeza que todos nós ali queríamos que minha mãe conversasse com a Mãe de Todos tudo que ela quisesse... e assim foi.
A saída foi tão interessante porque tinha uma parede inteira dedicada às velas, e eram de todos os tamanhos também.


A única coisa que eu sei é que, de uma hora pra outra, tínhamos que voltar logo pro bondinho. Parece que o horário de fechamento era por aquelas horas... e voltar a pé... nem pensar.
Analisando toda aquela imensidão que nos separava do mundo lá embaixo, o Marcos resumiu direitinho: Os monges não eram obrigados a ficar lá na clausura... eles podiam ir onde quisessem, desde que estivessem em seus quartos às 8 da noite.......... kkkkkkkkkk

Um grande momento de tensão: na última hora do último minuto para o embarque do último bondinho, meu pai sumiu.
Acho que ele foi no banheiro... e essa aguinha do joelho iria lhe custar uns 5 dias de descanso nas pernas.
O bondeiro já reclamava e, enquanto andávamos devagarinho, devagarinho, para a caixinha voadora, eis que ele chega. Vambora, S'Ormindo. Por último ainda entrou mais um homem atrasado... ele deve ter agradecido a gente.
Sei que todos fomos bem quietinhos, já bastava a cara do bondeiro, com aquele humor de fim de dia, que queria ir pra casa. Do nada surgiu o assunto do bondinho ser seguro e aí o bondeiro contou que já deixaram um maleta suspeita, uma vez ali.
Depois da descida, o mundo real.
Saímos todos quando, de repente... sobrou uma mochila !!!
Como sobrou uma mochila? Marcos é sua!
Não, não é não.
O bondeiro já começou a perder a cara boa de mal-humorado dele e agora estava realmente ficando estranha.
"No, no... perdona... és mia." , era do homem atrasado... ai, carácoles.
Parecia até que era uma piada sem graça com o pobre funcionário.
Acho, até hoje, que ele achou aquilo uma brincadeirinha dos brasileiros... mas eu juro que a gente não conhecia aquele homem.


Esta pessoa sem nariz, sou eu.
Uma linda paisagem
Tadinhos dos monjes ... hihihi


S'Ormindo achando que o último bonde se foi (antes de sumir pra fazer xixi)
Seria um furo de reportagem se na mochila tivesse uma bomba
De volta no trem pra civilização... tudo bem.
Fomos em pé, tinha muita gente no trem. Hora do rush. Gente cansada, gente sem expressão no rosto, gente querendo só chegar em casa, e nós.
Não sei o que falávamos, sei que já tínhamos conseguido sentar... e o assunto era a minha mãe. De repente eu disse: "... mas ela não tem culpa, né? Casou com um português."
Meu pai, que estava quieto o tempo todo, disse, como o Gato de Botas do Shrek: "Mas eu tô aqui quieto, e a culpa é minha? Isso é bullying !"
Naquela hora de extremo cansaço, todos nós caímos na risada. Foi tão intenso e espontâneo que o vagão inteiro olhou pra gente, e pude ver uma moça... só uma... que ria como a gente.
Quem sabe ela não era brasileira também, e tinha entendido tudinho...

18 maio, 2013

... e o vento queria levar... mas não levou.






Este é um autêntico possante inglês, o Lanchester do final do século XIX. 
Fico me perguntando a quantos km/h ele poderia andar.
Não sei se foi com um desses, mas o primeiro acidente automobilístico  brasileiro foi em 1897, com o escritor Olavo Bilac batendo numa árvore... Acho que naquela época as árvores corriam.
Carlos Drummond de Andrade foi expulso do colégio por 'insubordinação mental' ( ! ) pelo seu professor de português. Fico imaginando os argumentos de Carlos para se caracterizar uma insubordinação desse gênero.
Fernando Pessoa era meio doido... caláro, né... e só saia de casa depois de ler seu horóscopo. Uma vez, quando precisava sair num dia não afortunado, ele chegou bem atrasado a um encontro com José Régio, outro escritor portuga, desculpou-se, disse que Pessoa não poderia comparecer e apresentou-se como Álvaro de Campos, seu heterônimo... depois dizem que os portugueses são burros. Ora, pois!
Há muitos anos, um imortal da Academia Mineira de Letras reclamava do pagamento do Jeton, (o pobre pagamento regulamentado a eles, por sessões extraordinárias), e proclamava aos interessados, e não interessados também:
"Precisamos dar um jeito nisso! Duzentos cruzeiros é uma vergonha! Ou quinhentos cruzeiros, ou nada!"; entretanto, outro colega mais prudente, praticamente assentia: " Ou quinhentos... ou duzentos mesmo!"
E o que um livro tem a ver com São Jorge? 
Tem tudo: o Dia Mundial do Livro é em 23 de Abril, dia do santo, por iniciativa da UNESCO em homenagem a uma tradição catalã: 
Nesse dia, homens oferecem rosas vermelhas às mulheres; em retribuição, eles ganham um livro. 
Lindo, né?
E o que tudo isso tem a ver com a Bahia?
Bahia tem um Jorge famoso, o Amado; nem tão amado assim por mim, mas admirado. E tem vento... como venta no nordeste! Uma brisa intensa, contínua e por graças, porque o calor é tão grande que ele chega a ser abençoado.
Mas o danado do vento pegou no pé de D. G., ou melhor dizendo, pegou o chapéu dela.
Essa viagem me fez fazer muitas coisas, como andar de buggy nas areias de Tieta, no Mangue Seco. Ponto altíssimo de nossa viagem. Amei, idolatrei, salve, salve.
Vi até as duas palmeiras famosíssimas (que eu não conhecia, mas acho que era só eu que assisto pouca novela) que eram da abertura da novela.
A cada parada do buggy, uma foto... até S.N. já estava ficando aperreado de tirar tanta foto de areia (hihihi); mas além das lembranças, cada parada fazia o vento levar também o chapéu de D.G.; e, por três vezes, meu Marids foi, heroicamente, resgatá-lo.
Na primeira vez, ele desceu (e subiu) uma duna todinha e ainda foi quase atropelado por outro buggy com uns estrangeiros andinos; da segunda, ele correu um tantão (e depois voltou) atrás do danado; e, na terceira e derradeira vez, o chapéu caiu no meio de uma pirambeira de duna, ou duna pirambeira, sei lá. Dessa vez, fiquei preocupada: melhor perder o chapéu que o marido... mas ele foi, valentemente, e voltou, triunfante, com o chapéu. Juro que eu pensei que, pronto!, a duna ia engolir o Lemão. Sabe, tipo o filme dA Volta da Múmia? Mas, pelo menos o marido, voltou.

16 maio, 2013

A Pérola do Nordeste


Eu não estou é me aguentando de vontade de falar (e comer de novo) as ostras de S.N.
Lembro de ter sido apresentada a elas, as ostras, na praia quando criança. Normalmente as pessoas tinham um certo receio daquela coisinha meio gosmenta, que nem dava pra mastigar porque ela escorregava pro outro lado do dente, e cheinha de limão... mas eu não! Eu adorava. Só tinha comido crua até essa viagem a Aracaju.
Tudo começou com nossos anfitriãos nos levando agora apara o lado baiano de Sergipe.
Visitamos, primeiro, o laranjal. Uma cultura rentosa que exige muitos cuidados, mas que tem mercado certo, principalmente quando a Flórida entra pelo cano.
D.G. contou que a família ia todo fim de semana lá e, quando esfriava, ela montava casinha de lençol, como um dossel, para as meninas dormirem quentinhas. 
Lembro que, quando eu era criança e estudava lá no Sesi de Barbacema do Norte, ninguém ia banheiro porque tinha a loira do banheiro. Eu mesma dizia que ela não existia, mas não saia da sala de aula nem amarrada... esperava o intervalo quando sempre tinha um milhão de gente na fila pra fazer xixi. Percebi que, como eu, muita gente também não acreditava na dita cuja.
Mas naquele dia, no laranjal, vi que estava enganada. Não que eu tenha visto a loira, mas vi a sua perereca.
Antes que vocês, ó leitores bobagentos, pensem alguma bobagem, vou logo explicando que a perereca dela tinha uns 10 cm, tinha perninhas e ficava engasgando 'Ooodet, ooodet', quando estava de bom humor. Aquele dia ela não estava porque o silêncio imperava. Era tão forte o silêncio que eu quase fiz xixi em cima dela: metade do corpinho estava pra fora da água dentro do vaso sanitário.
Que situation!
"D.G., a senhora tem uma perereca de estimação no banheiro?", perguntei quando saí do banheiro quase segurando a roupa no colo, de tanto susto. Ela riu e disse que não, mas a danadinha visitava a casa de vez em quando.
Tudo bem, fui num outro banheiro, e alguém se livrou da bichinha... acho que deram descarga. Tadinha, dessa vez acho que desencarnou.
Andamos pela propriedade, vimos a lichia que meu pai dera a elas, mas... vamos pra casa de praia? LÓGICO!!!!
Até mais, casa do campo... agora é a vez do mar. Uai, cadê o Marids?
"Fui no banheiro", ele disse...
"... mas não foi no da pererecadosinfernos, foi?"
"Foi"
"E ela tava lá?"
"Tava" 
[suspense]
"E aí?"
"Aí, o quê?"
[Agora a pergunta que não quer calar]
"Você fez xixi em cima dela?"
"Fiz"
"E daí?"
"Daí, o quê?"
[Essa conversa já estava ficando monótona]
"Você deu descarga?"
"Dei!"
[Melhor não perguntar mais nada ... se ela não morreu antes, não ia ser agora, né?]
O resto da viagem fiquei pensando se aquela perereca não era uma assombração daquele banheiro.
Antes de chegarmos à casa da praia paramos pra almoçar num lugar muito divertido: o nome era 'Pode Chamar'. Era, inicialmente, um restaurante que, fosse a hora que fosse, era só chamar, que a cozinheira se levantava e preparava a comida... por isso o nome.
"Então eu posso vir aqui de madrugada chamar que vai ter comida?", perguntou meu marido Oscarito.
"Ah, pode chamar, sim...", disse a garçonete baiana e bem-humorada "... mas pode morrer de chamar, viu? Porque não vai ter ninguém aqui pra lhe servir, não"
A casa da praia, não sei o nome da praia, era um verdadeiro encanto: rústica, aconchegante, delicada... é daquelas casas onde as janelas parecem terem sido pintadas com lápis de cor, tamanho o carinho de cada detalhe. e a vista, então? Uma coisa encantadora.
Infelizmente, e nisso eu fico torcendo para que já tenha parado, o mar estava engolindo a praia. Vimos só uns 10% do que antes fora uma faixa de areia de uns 300m até a beira da água. D.G. contava que as meninas ficavam com preguiça de ir caminhando pra um banho de mar, e elas usavam um buguinho pra isso. Ao menos a casa parece estar em solo mais firme... e a essa esperança nos apegamos todos.
Foi numa linda mesa no meio do quintal, com uma louça escolhida com esmero, que comemos as ostras gratinadas com limão que o caseiro preparou sob supervisão de S.N., que trouxe e alterou a receita de outra pessoa. Não, não pode ter coisa melhor.
Só quando voltávamos para a cidade, no dia seguinte, é que vi S.N. pagando as bichinhas... e foram 150 OSTRAS.
Comemos tudinho.
Muito obrigada por tudo... vamos trabalhar, aposentar e mudar pra lá.

01 maio, 2013

O Sertão vai virar Mar?


E o grande dia da viagem pra Aracaju chegou! 
Foi a primeira vez que Marids e eu viajamos de avião juntos.
Em Salvador, compramos um CD de música onde vários amadores cantavam uma mesma música ao redor do mundo e, por sorte, escutamos Ivete Sangalo até o fiofó fazer bico... pelo menos não era a Não-Sei-Que-Lá da Mata (até esqueci o nome da bichinha).
O Hotel que ficamos , graças ao meu Marids que encontrou na internet, foi esplendoroso... maravilhoso... encantador. O café da manhã era tão bom, que S.N fez questão de nos acompanhar numa segunda oportunidade. A primeira nós convidamos; na segunda, ele mesmo se convidou... :) ... e não acho ruim, não... sinal somente do bom tratamento que tivemos.
Foi esse aqui, ó: www.hotelpousadadosol.com.br
D.G, que eu sempre gostei porque a achava divertida, era agora a minha ídala. Depois de saber que ela simplesmente descobriu a Igreja de uma santa que ela queria ir, em plena Paris, sem falar francês e gesticulando, apaixonadamente, para duas freiras... Merece todo o meu respeito. Ela colocou em prática a minha máxima: "Quando você quer algo de verdade, nem Napoleão pode te impedir"; tudo bem que ele já morreu, e não conseguiria me impedir de nada mesmo.
A praia que ficamos foi a da Atalaia, e foi ótimo porque era perto do aeroporto, tinha a orla limpa e muito turística... estava praticamente deserta, e as comidas eram  uma delícia.
Na segunda feirinha depois do oceanário do Projeto Tamar (que não fomos porque eu fiquei comprando por mais tempo as minhas lembrancinhas que o esperado), eram muitas barraquinhas de comida, e pedimos 'Escondidinho de Macaxeira com 4 Queijos' de lamber os beiços.
Outra coisa que eu gostei muito foi a 'Umbuzada', que D.G me ensinou a fazer: o segredo é cozinhar a frutinha de umbu com leite e depois bater tudo no liquidificador. A fruta é esquisitinha, parece eternamente verde (não sei se ela fica amarela, mas se ficar, já deve ter passado do ponto). É uma bebida refrescante, doce e azedinha e que eu vou fazer pros meus bichinhos de casa... assim que eu conseguir a fruta. Porque por aqui, ela simplesmente não existe.
O umbu é a fruta do sertão.
Vi a árvore dela. Frondosa, resistente, que dá frutos e sombra, num lugar carente de tudo isso. O calor parece até o daqui da minha cidade; mas é melhor: Aracaju tem praia!
Que inveja!
As pessoas são muito receptivas e nos trataram super bem. 
Pedalamos a cidade por toda a ciclovia. Fomos ao centro, ao Mercado Municipal que nos impressionou demais: tinha uma variedade grande de frutas e, muitas delas, desconhecidas pra mim, e também tinha o açougue (esse tinha um cheiro muito característico porque era tudo ali, exposto e ao ar livre, sem refrigeração e com muita mosca... eca) que passamos depressa. No dia seguinte, estava tramitando um lei pelo noticiário que o açougue seria fechado até se adequar às exigências sanitárias... mas ninguém ali estava muito preocupado com isso: não era a primeira vez que tentavam regularizar e já não tinham conseguido antes, não seria diferente agora.
Comprei um sapo tão bonito de uns 25cm de altura, com olhos vítreos, e as cabeças dos cangaceiros também. Comprei camisetas pra família do Lemonits e uma maria fofoqueira pequenininha de cerâmica pro meu pai. Uma bolsa pra minha mãe, imãs de geladeira pras minhas amigas e um monte de bobagenzinhas pros meus filhos... fora duas colchas de cama, e uma mala a mais pra levar tudo isso. Engraçado que só na hora que comecei a colocar as coisas na mala que percebi que o sapo era um tanto grande (sorte que meu marido não me deixou trazer um outro de uns 40cm).
Tiramos um dia inteiro pra ir até o outro lado do Estado, na divisa com Alagoas, para conhecer o Canyon do Xingó. Fiquei feliz porque S.N. já conhecia, mas D. G. não... seria a primeira vez dela e nossa também!!!
Na verdade aquilo tudo era a água represada do Velho Chico por causa da Usina de Xingó, e como eram vales, as cumeeiras ficaram apontadas pra fora. Muito bonito mesmo... muita rusticidade nas pedras e na vegetação ainda escassa, embora às margens.
A viagem de ida durou 3 horas (consequentemente a volta também) e ainda ficamos um tempão no catamarã até chegar num ponto do rio onde tem um puçá gigante pra turma nadar e, mesmo os que não sabiam, não conseguiriam morrer. Caso de D. G. que, valentemente, se agarrou a dois espaguetes e, junto ao seu colete salva-vidas, se atirou nas águas refrescantes e ainda ficou sentada em mais um espaguete.... Na verdade tinha tanto equipamento de segurança que quase não sobrava espaço pra ela lá dentro... por fim, deu tudo certo e rimos demais. 
Eles ofereciam, também, um passeio de barco à bagatela de R$5,00 por pessoa. O passeio só ficou caro quando vimos o percurso, e isso só aconteceu quando viramos a primeira curvinha... porque não tinha mais nada além dela. 
O nosso guia turístico, um bibs de nome Clodoaldo colocou alguns vídeos pra gente ir assistindo no caminho. Vimos a vida de Lampião e Maria Bonita (ele, um cabra nada macho e ela, uma 'boca de cabelo', como nosso guia acabou revelando, mesmo a contragosto).
Lampião é visto como um herói, mas um desembargador, amigo de S.N., estava pesquisando outras coisas da época e achou tanta evidência que Lampião era gay, mesmo depois de tanto tempo após sua morte, que acabou escrevendo um livro. Este foi proibido judicialmente de ser comercializado porque a neta dos cangaceiros disse ser um injúria contra a honra de sua família.
Cada um julga ser honra o quinhão que lhe cabe, né? 
Nosso guia fez algumas enquetes no nosso trajeto de ônibus. Um era pra saber se queríamos visitar a cidade de Piranhas, onde as cabeças de Lampião, de Maria Bonita e de outros tantos de seu bando capturado, ficaram expostas na escadaria da prefeitura. Agradeci demais quando todos quiseram.
Na verdade todos tiveram que querer, porque somente a unanimidade nos levaria até lá. Tá certo que um casal quase foi rechaçado quando sugeriu que, talvez, preferissem não ir.
O mesmo aconteceu quando S.N. foi o único a se opor a almoçar num restaurante, sugerido por ele, onde 'o lugar é mais simples, tem menos variedade, mas o sabor, com certeza, é muito melhor.'
Logo que saímos do catamarã, vimos uma mesa sem fim, cheia de pratos bem variados e caprichados. Esperávamos isso no outro. Que decepção! 
Uma meia dúzia de pratos, mal servidos, muito temperados e num lugar que não parecia muito limpo. Certeza que Clodoaldo estava faturando em cima da nossa ignorância e confiança nele.
Mas o pior de Clodô ainda não foi isso, para mim. O pior foi ter passado em Piranhas, um lugar tão bacana, e ter saído correndo de lá sem sequer dar uma paradinha nas escadarias famosas. Que bronca eu fiquei dele aquele dia.
Aquele dia vi o sertão de verdade.
Vi a caatinga (que significa mato de tronco branco), vi tudo meio verdinho até, porque tinha chovido a pouco... e no sertão, não é necessário muita chuva pra uma recuperação espantosa.. Vi o umbuzeiro, vi casinhas paupérrimas, mas vi também as camionetes reluzentes de grandes e que fediam ser novinhas do povo dos sem-terra. As únicas lavouras com irrigação aérea, que eu vi, eram as deles. Subsídio, né? Vi o Rio São Francisco... e como ele é grande! 
Foi uma ótima viagem. 
Agradeço muito aos nossos amigos a companhia e o passeio.

Surpresas no elevador.



Meus filhos odeiam, gentilmente, o Kumon. 
Eles até que gostam da Magaly, a diretora. A peste do meu Marido deu a ideia de levar uma melancia pra ela, e os tranqueiras dos meus filhos caguetaram... agora ela quer, porque quer,o raio da melancia. Vou ter que comprar.
Ontem foi terça-feira, dia de Kumon.
Shakira e Fred foram primeiro enquanto o Malacabado Número 3 estava num curso de fotografia na escola. Eles até construíram uma máquina tiradora de fotos com uma lata de leite ninho... quanta criatividade! Mas tudo tem seu preço e, enquanto o Número 2 ia pra casa, a Número 1 pras aulas de tarde da escola, o Tico foi pro Kumon.
Já esqueci a Cacá no balé, quando ela era pequenininha, e o Fred também em tudo que era lugar; mas o Tico tem faniquito quando eu demoro um pouquinho mais e, oboviamente, foi o que aconteceu ontem.
Ele já estava todo bravo mas concordou em entrar na padaria comigo, enquanto Shakira e Papai ficavam dentro do carro escutando musiquinha.
O estacionamento da dita cuja fica sobre a laje da loja (quase rimou, né?), então tem um elevador pra descer até o saguão de entrada... e qual não foi o susto quando a porta automática fechou e as luzes de dentro começaram a piscar freneticamente e em tom vermelho.
"Ai, filho... acho que essa porcaria vai cair. Pelo menos o tombo vai ser pequeno..."
Ele olhou pra baixo e viu, porque era elevador panorâmico, que o despencamento era só de um piso.
"Não tem mais nada lá pra baixo?", perguntou ele prudentemente. Eu disse que não, mas não tinha mesmo.
Compramos, gastamos, e voltamos.
Pegamos o elevador de novo pra subir, e a porta se fechou, e as luzes começaram a piscar.
"Isso aqui até parece uma discoteca... vamos dançar", e comecei a me mexer. Ele ficou meio encabuladinho, mas logo entrou no clima, parecendo o John Travolta com as perninhas abertas e uma mão apontando pra baixo enquanto a outra revezava entre apontar pra baixo e depois pra cima. A cabeça seguia o movimento da mão inquieta... até que ele viu: estava passando um moleque com a mãe pra entrar na padaria... e eles OLHAVAM PRA GENTE.
Mas eu também vou te falar: nunca passa ninguém por ali... tinha que ser bem naquela hora de desestress familiar? O Tico jura de pé junto que viu o moleque rindo, eu já não tenho tanta certeza assim... tenho só uma leve impressão que talvez isso possa ter acontecido.
Bom... já passou.
Hoje, dia 01 de Maio é o dia da nossa Família. Foi o dia que casamos e que ela, efetivamente, começou. É também o dia que meus pais se casaram: 48 anos pra eles... uau.
Como filho de peixe, peixinho é... Tico não se contentou com ontem e hoje, pra comemorar, ele virou uma dose de vodca, de uma vez, goela abaixo. Só um detalhe: o copinho era aquele pequenininho de voda, mas o líquido era café... que eu tinha acabado de passar.
Eita, animalzinho... só vi o bichinho ir pra cozinha (acho que a ideia era pegar um copo de água), ele estava com a cara toda vermelha e os olhos lacrimejando. 
O melhor dos meus filhos é o bom humor porque, mesmo assim, ele ria.
Muito bom ficar em casa em família: eu, enrolando, e Tico também; Shakira estudando matemática; Fred rastelando a grama e Marids na cama com dengue (tá parecendo até a Chiquinha... todo pintado... hihihi).

24 fevereiro, 2013

Uma carta para Florentina.


Querida Florentina.

Não te conheço pessoalmente, mas ainda assim tomo a liberdade de te escrever: seu maior cantador saiu de Brasília e deu um pulinho em Carmópolis (que nome sugestivo, não?) para atuar como advogado. Caláro que ele não poderia se apresentar com sua verdadeira identidade; afinal, ele ainda recebe como parlamentar. A solução foi adotar um codinome: Maíço (que coincidência, né?).
Como o artista que deixa o sucesso subir à cabeça, o mesmo aconteceu com ele e, independente a quem atingisse, saiu executando suas vontades. 
Arrumou um pintor que trabalhava na Petrobrás e nos enviou uma intimação para nos defendermos das acusações de não pagarmos os direitos dele. Direitos? Pintor? Petrobrás? Só pode ser palhaçada mesmo... como esse palhaço advogado é engraçado!
Depois fomos descobrir que ele mandou a intimação para a empresa errada... ai, que pitoresco. Mas nós, réles mortais, tínhamos que comparecer senão seríamos condenados por W.O.
Primeiramente, fomos descobrir onde ficava o picadeiro e qual não foi a surpresa ao sabermos que ficava a 50 km de Aracaju!!!  

Pelo menos uma notícia boa: vamos conhecer Sergipe!!!

Compramos as passagens de avião e reservamos o hotel. A audiência seria dia 20 de fevereiro, então... nada melhor que ficar a semana inteira.

Sabe, Florentina, no começo eu fiquei muito chateada, mas agora até peço que agradeça pela grande presepada: fizemos uma viagem maravilhosa e que recordaremos de tudo com muito carinho... mas veja bem... foi por pouco que não o convidamos também a vir tomar um chopinho aqui, na nossa cidade... ainda que à sua rebelia.
:)

16 fevereiro, 2013

Cansei... eu quero colinho.


Resolvemos ir até o Mosteiro da Nossa Senhora de Montserrat.
Parada obrigatória, sem dúvida, visto que é um lugar muito importante para qualquer catalão que se preze... independente até de culto: é um lugar mágico!
A ida para lá me fez voltar no tempo, na última viagem às Oropas até então, quando eu era mocinha e meus irmãos, umas pestes. Ficaram gravadas em nossas mentes, as inúmeras visitas a igrejas e museus portugueses (também... nosso guia era um padre!), o padre Vítor era muito competente e ficamos tão entendidos no assunto, que não entramos em edifícios cheios de escadaria por um bom tempo.
Principalmente porque o Cinhozite, pequenininho, vivia correndo escadas abaixo enquanto todos ainda estavam no sentido contrário. E lá ia meu pai correndo atrás dele, e voltava com o malacabado nos ombros, pela mão ou pela coleira. Já o macaco do Marcos, que sempre gostou de banana, se recusava comer qualquer outra coisa... e banana era cara! Os parentes portugas achavam que nós erámos muito ricos por dar tanta banana pro menino... meu pai descobriu isso da maneira lógica: quando foi comprar as ditas cujas na Feira de Barcelos e voltou dizendo que o gaijo teria que comer qualquer outra coisa. [Esse blog está ficando com tantas postagens que não consegui achar onde foi que eu escrevi isso antes, mas já devo ter escrito.]
Nossa aventura aos montes rochosos e deslumbrantes da Santa, começou quando resolvemos ir de metro.
Parecia fácil: a entrada do subterrâneo era ali, tão pertinho do nosso hostal... umas duas ou três quadras. Esther, minha prima adquirida por ser esposa do meu primo, nos deu todo o itinerário... agora, era só procurar o trem certo.
Compramos as passagens e fomos direto pro banheiro crímico químico que um homem tinha acabado de sair. Primeiro foi minha mãe, uma expert em qualquer tipo de banheiro; aí, fui eu.. quando dou uma de turista, vou pro que der e vier... além do mais tinha dado uma vontadezinha depois daquele café da manhã.
Era espaçoso, muito maior que os que eu já vi, mas nunca entrei, aqui no Brasil, tinha papel, lavatório, o vaso metálico, e o que parecia ser algum outro compartimento misterioso, mas não dava tempo pra descobrir: tinha um cheiro horrível aquele lugar e líquido pisado pelo chão. Não era preciso ser muito esperta pra saber o que era aquilo no chão, e nem pra saber que, europeu ou não, o ser humano fazia fedido mesmo!
Bom... voltemos pra Santa.
Começamos a andar. Um corredor, outro, passamos por várias plataformas, e nada da nossa... pedimos informações aqui e ali, mas o segredo era andar mesmo. Foram pelo menos uns dez quarteirões subterrâneos quando, enfim, viramos naquele que seria nosso último corredor ... BUT ... ele era enoooooorme, monstruosamente comprido, reto, quente, com gravuras, algumas pixações e músicos de chapéu ... :O ... o Marcos conseguiu resumir esplendidamente: "É... a gente vai poder dizer que Barcelona tem metrô ecológico: o metro fica parado, quem anda é a gente".............. :P
Quando chegamos, descobrimos que nosso trem tinha acabado de sair, então sentamos.


Essa foto quem tirou foi uma maluquinha: gordinha, de mini saia, sandália com meias que cobriam os joelhos, vestida com roupas escuras (preto emagrece em qualquer língua), uma sacola azul e um macaco de pelúcia marrom. Ele, o macaco, não era algo discreto: entre pés e tronco devia ter uns 70cm, mais uma cabeça pendura, e vestido com uma roupinha listrada em vermelho e branco... fora o boné, listrado de azul, ou todo azul, sei lá.
Tentei até tirar uma foto dela fingindo tirar da família, mas não deu!
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Mare de Déu de Montserrat


Bom... essa imagem é carinhosamente camada de 'La Moreneta', ou A Moreninha, porque ela é uma santa negra. Estranhíssimo isso, porque os únicos negros que eu vi em Barcelona eram os africanos assustados que vendiam bolsas clandestinas numa manta quadrada (já na cor de poeira) e com um fio em cada ponta que eles seguravam enquanto chamavam a clientela (assim, quando chegasse a polícia era só sair correndo que a mercadoria não ficava pra trás); ou os indianos, que tinham lojas estabelecidas pela Ramblas toda, e falavam a maioria dos idiomas conhecidos, desconhecidos e até os inventados.

Mas a história mesmo dela se perdeu na escuridão dos tempos.
Uma piedosa tradição conta que foi o apóstolo Pedro [sim, nada menos que ELE] que trouxe a imagem da Virgem Jerusalemitana para a sua viagem à península ibérica... eu li que esta tinha sido esculpida em madeira pelo apóstolo Lucas, mas aí acho que já é santo demais nessa história. Os catalães dizem que foi a viagem dele para Barcelona, não para a Espanha, que seja!

[Pausa pra explicação:   Pra quem não conhece o povo catalão, o meu amiguirmão Palalávius deu uma definição ótima (e até boazinha): "É um povo que se gosta". Eu diria que até demais... :P ... porque não sobra mais nada do verbo gostar pros outros espanhóis, ou seja, os 'africanos', como eles chamam os não catalães.]

A única verdade que se pode afirmar é que ela realmente era venerada na cidade, já no século VI.

Nossa Senhora Jerusalemitana... parecida mesmo com a outra.
Mas a história não pára e nem dá trégua para ninguém... então, com a invasão da Espanha pelos mouros que atravessaram o estreito de Gibraltar, os cristãos tiveram que esconder suas imagens embaixo da terra ou em antros inacessíveis das montanhas, com medo da profanação dos infiéis. Para esse fim, o monte serrado (cujos picos lembravam um serrote), ou mont serrat, oferecia grandes recursos... e a N. S. Jerusalemitana foi levada para lá por piedosos fiéis de Barcelona para ser escondida numa de suas cavernas naturais.
Praticamente dois séculos se passaram, e aqueles que a esconderam não ficaram pra semente... morreram. Então quis os céus que a lembrança daquele tesouro perdido fosse manifestada.
De fato, no sábado de um belo mês de abril, numa primavera florida, provavelmente, Lúcia, Jacinta e Francisco alguns pastorinhos, às margens do Rio Llobregat (e euzinha aqui me lembro desse rio nessa última viagem) viram um grupo de estrelas, mais brilhantes que o sol no alto da montanha, e cânticos angelicais que os deixaram extasiados.
Ficaram extasiados, mas não foram lá ver. Afinal, quem cuidaria do rebanho de ovelhas aqui em baixo?
Entretanto, sábado após sábado, o efeito maravilhoso de som e luzes aparecia no mesmo lugar. Intrigados (e lentos para se decicirem a isso), os pastorinhos contaram o acontecimento aos patrões que, como São Tomé foram lá para ver, e constataram o mesmo... mas o que sobrava de deslumbramento, faltava em vontade de subir aquela ribanceira rochosa.
Foi aí que chamaram o vigário de Olesa... mas ele não subiu, afinal quem cuidaria do rebanho dele também? "...mas peraí: tem o Bispo", alguém deve ter falado.
O Bispo de Manresa ficou pensativo e viu que só teria mais uma pessoa a quem recorrer: o Prefeito.
O Prefeito de Manresa conhecia sua importância, afinal essa cidade é o centro geográfico de toda Catalunya. "Esta bem, ó Bispo... vamos lá!"
"... vamos... ???", deve ter pensado o pobre homem que também conhecia a piranbeira que era a região.
Mas seus esforços não foram em vão, além de perderem uns quilinhos, ainda encontraram a magnífica imagem preta, isto é, enegrecida pelo tempo, da Virgem Maria com o Menino Jesus em seus braços.
Se isso acontecesse aqui no Brasil seria feito uma verdadeira romaria para que a santa fosse levada para o centro da cidade, numa bela igreja, onde pudesse ser venerada novamente... e foi justamente o que eles pensaram em fazer também. Os habitantes da região se uniram à igreja e lá subiram todos para buscar a imagem... só não contavam com a decisão da Santa: quando chegaram ao lugar onde se ergue o célebre santuário, ela simplesmente empacou. Como a espada do Rei Arthur, ninguém conseguia movê-la, ficou simplesmente imóvel, irremovível, paradinha da silva.
Como eu imagino que todos deviam estar cansados às bicas também, concordaram rapidamente que havia algo de sobrenatural ali e, assim sendo, seria mais fácil mandar construir uma capela naquele platô da montanha para abrigá-la do que subir lá uma outra vez.
Príncipes, gente do povo, a alta corte, até os reis de Aragão, de Castella e de Navarra subiram o monte humildemente (montaço, diga-se de passagem) para agradecer e pedir milagres. Foi com os donativos de todos que o majestoso edifício do Mosteiro de Montserrat foi erguido e entregue aos beneditinos.
Olha a coincidência: O atual papa é o Bento XVI, mas foi o Bento anterior, o XV, que deu o título de Abadia ao lugar. Imagino que isso deva ser uma coisa muito especial. Já Leão XIII, que devia ser bem bravo, declarou-a como a Padroeira Oficial da Catalunya.
A entronização (???) foi em 1947, não sei por quem.

Mas os santos dessa história não acabam por aqui.

Inácio, 13° filho de um nobre, nasceu no Castelo de Loyola, no País Basco; e ser o 13º filho deve dar mais sorte que ser o 7°, que vira lobisomem.
Em 1521, enquanto os conquistadores de além-mar ainda se perguntavam o que diabos eles faziam ali, naquela terra de índios e mosquitos; Inácio de Loyola já era soldado, e uma bala de canhão quase lhe arrancou as pernas na Batalha de Pamplona. Quando melhorou de sua longa convalescença, retirou-se em Manresa e aos pés da Virgem Morena atirou suas roupas de soldados e virou padre.
Junto ao seu seguidor e futuro São Francisco Xavier, fundou a Companhia de Jesus, em 1540. Os jesuítas tiveram vital importância na catequisação do Novo Mundo (e do Brasil, obviamente) assim como foram também a linha de frente da Contra Reforma, ou da Grande Cisão de Lutero com a Igreja Católica do Papa.

Moral da história: quando junta basco com catalão, vira tudo santo.

15 fevereiro, 2013

Uma tarde em Poblenou



O dia que vi Angelina lembrei de Conchita... a mesma senhorinha baixinha de cabelos enrolados e uma figura doce, porém engraçada e falante. O bairro é o mesmo (que coincidência, né?), mas tudo já é diferente: para as Olimpíadas reformaram, desapropriaram, acabaram com muita da minha identidade familiar, e a região se desenvolveu... todos gostaram das mudanças, menos o meu lado egoísta, devo admitir.
Angelina se casou com Miguel, filho de outro Miguel que meu avô Enrique salvou de ser morto com a família. No dia do casamento deles, dia de San Jordi, minha casa estava de luto por causa de minha Bis-yaya Carmem (ôh, nome lindo!) e somente a minha mãe foi no casório e ficou super deslocada, no alto dos seus 14 anos, usando seu vestidinho cinza (por causa do luto) com quadradinhos azuis, que sua madrinha ajudara a pagar.
Miguel e Antonia, os sogros de Angelina, eram ricos, tinham fábricas de cestos de vime espalhados no interior de Barcelona e, provavelmente, não deram muita atenção à ascensão do 'africano' Franco (depois explico). Esta besta hululante, o Franco... e o bom de xingar quem já morreu é que, no máximo, eles vem puxar os pés da gente de noite... esta  besta-mor quadrada adotou, como os mesmos de sua laia, a grande solução de matar quem não o apoiasse. Infelizmente, muita gente morreu por isso e, para sorte dessa família, era o meu avô que vigiava a fronteira com a França para que gente, como eles, não conseguissem fugir.
Meu avô quis saber o motivo da fuga e, quando soube que era porque eram monarquistas (meu avô era republicano), ele achou que ter ideias diferentes não era motivo pra ninguém morrer e, assim como essa família, outras também acabaram cruzando a fronteira, ainda que fosse tudo muito perigoso.
Essa atitude acabou gerando uma enorme afinidade entre as famílias, e eles foram os padrinhos da minha mãe. Minha yaya e Antonia se tornaram amigas e, todas as vezes que se encontravam, minha mãe ganhava alguns quadradinhos de chocolate e um copo de refrigerante de ameixa (que estranho). No dia da primeira comunhão, ela que deu o pano do vestido, que minha yaya costurou... mas teve um preço: ela queria ver a calcinha da minha mãe. Deixa eu explicar logo: naquela época, as meninas andavam com as calcinhas cheias de renda e, sabendo que minha mãe era muito tímida, fez o dito pedido. Ah, sei lá... coisa de louco.
Da casa que minha família morou de favor com eles, existe agora um prédio... super sem graça, diga-se de passagem. Foram os outros filhos, que não ficaram com ela que resolveram vender enquanto Antonia, na época viva e viúva, foi fazer uma visita na casa de Angelina e Miguel (o filho). Ela dizia que gostava de ficar lá, mas que queria voltar para a sua própria casa... que dó... não se conformava que sua casa não existia mais. Depois de sua morte, Miguel, o neto (é verdade... os catalães só conhecem uma meia dúzia de nomes) se mudou pro quarto da avó e não mudou em nada a decoração. Não teve coragem de tirar a foto dela, alguns santos normais e a estátua de uma santa de quase um metro sobre a cômoda. Mas esta foi a única parte triste da nossa visita a Angelina.
Ela nos tratou como família, apesar de não sermos. Vimos sua varanda com flores, comemos crema català, cuja receita ela me passou, e curtimos demais a paixão de todos, mas sobretudo dela, pelo Barça.



Toda a vez que o time ganhava, e não eram poucas as vezes, ela decorava o elevador do prédio com novas fotos de revistas. Perguntamos sobre os vizinhos, e ela: " Ah, já estão acostumados!"
Uma pessoa com muita imaginação!



Ela nos mostrou o bilhete do primeiro jogo realizado no Camp Nou, e a carteirinha do clube do ano de mil, novecentos e zerente zero; e mais um milhão de outras coisas que faziam sentido somente pra ela. 
Aqui o marido mostrando, orgulhoso, a sua carteirinha de artesão oficial.



Aquele dia, eu dormi sorrindo.