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28 novembro, 2022

Limpeza profunda



Dias passados na casa dos nossos amigos, e eu ainda não tinha desentalado o meu inglês... foi difícil pra mim porque eu me sentia muito cobrada, além de sentir vergonha. É aquela coisa da vergonha alheia, mas eu sou a alheia também. 
A gente só ia até o Green Kitchen comer salada ceaser, então faltava interação. Pra resolver isso, a Patrícia sugeriu algo bem pontual: pegar lixo na pracinha! Pode parecer estranho mas é a vizinhança que mantém os arredores limpos.
Elá fui eu pra frente da Green Kitchen (sempre ela). Eu me indentifiquei, mostrei minha casa (do Gabriel) e disse que queria ajudar; eles ficaram super contentes de terem uma brasileira mas também não me esperaram muito, não. Foi cada um pro seu lado e eu fiquei com a organizadora, a Siobhán. Ela foi super gentil, entregou um saco azul gigante, um par de luvinhas e um bastão. Lá fui eu, com o saco mais leve que a minha consciência.
Se eu tivesse um grilo falante, ele provavelmente diria: "Minina, volta pra casa, teus rebentos precisam de ti, Cacá está maluca, Bibi está sozinho e Vituim... bom, ele deve ser o único feliz, porque nem nossos anfitriões estavam"
Na verdade, eu só fiquei mesmo rodando em volta da pracinha e da igreja (* tem que entender que eu não sabia onde era o limite da operação, porque eles falaram que era daqui até ali, e de lá até o outro lado, senão a gente entraria na jurisdição do lixo alheio); numa outra ocasião, eu tinha entrado pra ver, e era igual como qualquer outra. Só que eu percebi que o povo chegava, deixava o saco bem cheio de sujeira, dava aquela risadinha de comemoração e saia de novo, e o meu saco vazio de tudo. Como eu não queria 'perder' o jogo do lixo, resolvi dar uma roubadinha: primeiro, comecei a colocar algo mais vultuoso que só os saquinhos que eu encontrava, e comecei a por algumas pedras; só que aí eu percebi que eu ia ficar carregando peso. Bom, o que foi, foi, mas tinha que mudar de estratégia. Não pensei duas vezes: fui até em casa e pedi algum lixinho pra colocar no meu saco. E que saco, a Patrícia não me deixou roubar muito, e o Lemão ficou do lado dela.
Apesar de usar indevidamente a minha inteligência, fui a que tinha o saco mais vazio no final.
Por outro lado, a Siobhán tirou minha foto, publicou no facebook do grupo e ainda me passou seu número de telefone. Disse que eu era a mais animada da turma (por que será, ne?)
As duas meninas que sairam na foto comigo deram o maior trabalho pra Siobhán.
Uma delas era moradora do bairro, com certeza, a outra não tenho certeza; mas deve existir uma lei moral de ajudar na faxina do bairro, e a mãe obrigou as duas a irem catar lixo. 
Que programão. 
Elas não estavam nada felizes e, por isso, sumiram. Mas, às vezes, o destino dá uma rasteira em nós, os pais dessas crias sem coração, e uma emergência fez com que as meninas tivessem que voltar pra casa com urgência.Caláro que o desespero ficou só com a minha nova amiga irlandesa porque ela ficou na maior gastura, rodando feito peão de rodeio pra ver se a energia das bichinhas atraiam ela pra algum lugar; mas elas apareceram, com a paz dos anjos que não se descabelam nem no juizo final. Elas foram tranquilas pra casa, e a Siobhán voltou a catar lixo.
Aborrescente é a mesma coisinha em qualquer lugar do mundo.
Eu ter ficado ali feito uma boba rodando e matutando em como arrumar mais lixo, só pra não ter aquela sensação de não estar usando todo o potencial do saco azul (o desperdício aqui é tido como uma grande infelicidade humana), fez eu ter a certeza que meu lugar não era ali: em algum momento teríamos mesmo que partir. 
Partimos aquela tarde em busca de casa, aluguel, sala de home office, qualquer coisa.

22 novembro, 2022

Você é quem sabe.





O dia que chegamos na Irlanda foi completamente fora do controle. Começou, claro, na alfândega, ou melhor, na imigração. Pegamos a fila dos europeus (sou ou não sou, nem sei mais) e combinamos que falaríamos que iríamos para estudar inglês (pra que falar o que o Gabriel nos orientou, né? Ele disse que era pra falar que íamos ficar na casa dele e que eu sendo espanhola, podia ir pra morar, e ele era meu marido, que tínhamos dinheiro, empresa... mas era conversa demais, então resolvemos fazer do nosso jeito...) Isso mesmo... fizemos e entramos pelo cano: a primeira pergunta que o cara fez foi saber ONDE iríamos estudar inglês. Affff
Aí começou a confusão e já fomos direto para o plano E, de Enrolação. 
Ele podia não estar de bom humor, mas depois de nós, o dia dele deve ter ficado insuportável porque ele começou a se irritar e nos mandou pra fila de não europeus (eu estava muito desesperada pra ficar indignada, então fiquei só depois). O problema é que a gente já estava no guichê, e pra pegar a outra fila, tinha que ir lá pro fim... minha cara de inconformidade deu vez pra cara de pau mesmo e furei a outra fila. O outro cabra, muito mais relax, disse que era impossível fazer o que queríamos, mas também não nos mandou embora, deixou a gente entrar na Irlanda mas teríamos que ir atrás da documentação do Lemão depois, lá na Polícia Federal deles. Que fofo.

Mas veja só: afinal, era a IRLANDA.
Que ficar chateado o quê... vamos aproveitar! Como estamos com fome, vontade de fazer xixi, e sem dinheirinho deles pra pegar ônibus, vamos comer alguma coisinha, arrumar uns troquinhos, ir no banheiro, pegar o ônibs e chegar na casa do Gabriel. Desarrumar as malas, descansar e aproveitar a casa só nossa. É a glória!
Claro que se desse tudo certinho nem ia ter graça, então acho que tem alguns dias que o sol nasce e elege algum grupinho pra deixar a vida emocionante. Certamente não fomos somente nós dois, mas começou a dar tudo errado.
Andamos camelamente até encontrar um banheiro, que ficava bem longe de umas cadeirinhas onde arrumamos pra sentar e comer. Nosso senso de muquiranice já veio ligado porque nada melhor que perder dinheiro logo que se chega num país diferente, e ainda mais em euros. Bom, vamos pro  mercadinho no aeroporto. Cadê o bom senso?
Tinha bastante opção de comida, e parecia que não era tão caro porque tinha muita gente pegando, comendo, pagando. O que faltou mesmo foi o inglês, ainda que sobrasse timidez de falar errado.
O carinha do caixa ficou um pouco aperreado, mas que se dane, não dá pra alegrar todo mundo.
O número do ônibus era o 18, lembro como se fosse hoje. 
Toca procurar o número 18: pelo google maps, dava um lugar; mas as placas do aeroporto indicavam outro... vamos pelas placas, esse GPS brasileiro na Irlanda... hehehe. E andamos, viu? Olha que esse número 18 devia ser escrito deitado, parecendo o símbolo do infinito, porque era do outro lado do mundo, e as nossas mochilas eram pesadas.
Por fim, o ponto do ônibus 18. Mas não era o NOSSO ônibus 18, porque aqueles ali iam somente para hotéis. Andamos muito de barriguinha cheia e paciência vazia, e resolvemos ir pelo google mesmo. Volta tudo pro começo.
E no fim, eu descobri: são dois números 18. Um pra ir pra cidade que era o google; e o outro, do aeroporto, não sei pra quê... acho que pros trouxas mesmo.
Achamos o dito cujo, mas não deu pra pegar... tinha que ser somente com moedas do dinheirinho deles, e nos centavos certinhos. Jisuis.......... que o ânimo começou a fraquejar. 
Volta pro aeroporto, compra qualquer bobagem e pega moedas, volta pro ônibus 18 (outro, que aquele já foi embora), paga com moeda e entra, senta e outra aventura que rapidamente se apossou de nossas cabeças: onde descer?
Google maps já funcionou uma vez, vamos por ele mesmo. Time que ganha não se mexe.
Era longe, mas já era esperado. Os aeroportos sempre são longe de tudo.
Tínhamos que fazer baldeação, então descemos no centro e ficamos encantados. 
Afinal, era Dublin.
Dublin do filme, da obra do Magazine, dos vickings ruivos com cara de bravo, que comiam batata e andavam com o machado do Thor por aí. A cidade estava meio estranha, meio vazia, mas com muita gente nas calçadas indo tudo pro mesmo lugar.
Que povo estranho! Parecia até aquelas seitas, ou zumbizisse bizarra que faz todo mundo agir igual. Depois fiquei sabendo que é o futebol deles, meio futebol nosso com o americano... esqueci o nome... pra ser bem sincera, acho que nem fiquei sabendo do nome.
Ficamos meio timidozinhos, e acho que eu ainda mais, porque eu estava com medo.
Bom... vamos pra casa do Gabriel, e aí arrumamos um lugar pra comer.
Chegamos no ponto certinho, depois de ficar acompanhando o percurso pelo celular, com aquele medo estranho de errar.
Encontramos a casa, e tinha mesmo o parquinho na frente, a igreja mais pro lado e conseguimos achar a casa com a entrada igualzinha da foto que o Gabriel mandou pra gente. Ufa! Mas aí vinha outro mistério a ser resolvido: tínhamos que achar uma vizinha brasileira, muito amiga da Patrícia, a Karen, que ia dar a chave da casa deles (do Gabriel) pra gente, mas como chegamos na hora que o Caetano (filhinho bebe dela) ia dormir, não podíamos tocar a campainha da casa dela, então ela ia deixar o porch(*) destrancado e poderíamos pegar o chaveiro amarelo na prateleira de entrada.  E........... eu sei o quanto eles foram legais com a gente, e que nos receberam e tentaram nos tratar da mellhor maneira que eles podiam, mas que foi um baque, isso foi. Parecia tudo errado.
Achamos a casa da vizinha, o porch aberta e parecia que estávamos fazendo alguma coisa errada, porque a casa não era nossa, e o medo de entrar na casa errada?
Desde que havíamos pisado em solo irlandês, foi um susto depois do outro; e quando achamos que o pior já havia passado, veio a casa do Gabriel.
Ela era antiga, mas não era só antiga: era velha, mofada, cheia de carpete vermelho, não era feia, era estranha. E, pelo que a Patrícia me falou depois, o pai do senhorio deles morreu e levaram a mãe não sei pra onde, mas as coisas dos velhinhos ficaram, e eles não poderiam se desfazer. Muita sujeirinha de séculos que a Patrícia não conseguiria acabar, nem se quisesse, mas acho que ela não se importava. Bem no alto do primeiro lance das escadas, logo que se entra na casa, lá estava ele: um quadro de Jesus, com olhar melancólico... acho que ele ficou assim depois que o Gabriel&Cia mudou pra lá.
Gente do céu... vamos comer.
Rodamos um pouco, já estava esfriando mais um pouquinho e achamos um pátio de food truck. Eram uns 3 carrinhos: bebida, comida frita e a outra de hambuguer e fritas.
O Lemão ficou com alergia nossa estadia toda, e não era nem só por causa da casa, descobrimos depois que é a época de uma alergia geral por causa do pólen de não sei que matinho que é crônico numa grande parte da população, sejam nativos ou não. Nem me pergunte como, mas eu não fiquei com essa alergia.
Nossa rotina era sempre a mesma: a gente acordava logo depois do Gabriel usar o banheiro e sair para o trabalho, e ele só voltaria lá pelas 17h, quando sentaríamos para beber alguma coisa, jogar conversa fora e irmos dormir. Quando saíamos do quarto, eu brincava com a Clarinha até a hora dela ir pra escola, aí tomávamos café e trabalho até de noite. Nosso almoço era quase sempre salada ceaser na Green Kitchen. Nesse meio tempo, oboviamente, dava pra perceber que a Patrícia não estava feliz com a gente lá, e ela dava sinais: não era pra usar a esponja da cozinha desse lado, era pra limpar o reservatório do aspirador depois de usar, pra lavar roupa tem que tomar cuidado porque tem que ligar a tomada não sei de que jeito ...... era tudo coisa que eu sabia fazer muito bem, ou seja, limpeza de casa. 

Talvez devéssemos ter saído logo de lá, mas não foi assim.
E o que eu fiz de muito errado é que eu levei uns 10 presentinhos, embrulhados com papel de presente pra Clarinha, e dava um por dia. 
Ela não gostou e no mesmo dia que ela disse que era pra gente não fazer mais isso por causa do desperdício de papel e consumismo desenfreado, foi o mesmo dia que o Gabriel me pegou de jeito antes de sair pro trabalho (naquele dia, eu acho que ele esperou a gente levantar pra falar, ainda que chegasse atrasado no trabalho). Disse que era pra eu ajudar a Patrícia, e não atrapalhar ela de manhã, que ela já fazia coisa demais, trabalhava demais e se eu ficasse brincando com a Clara toda manhã, ela sempre ia sair atrasada de casa. Ele foi grosseiro, rude e sem clemência.
Nós estávamos numa situação de fragilidade emocional, morando de favor, tentando agradar e engolindo aquela educação fajuta que eles davam pra Clarinha. A menina não podia se aborrecer: se ela queria continuar pintando, tinha que pintar, se ela não queria comer, ela não comia, eles não faziam ela chorar. Era uma história de que todos temos traumas gerados por causa da nossa criança interior, mas acho que eles leram só criança; então ela não teria traumas de infância.
Você entendeu? Não? Nem eu.
Eu fiquei tão machucada com a bronca, que o Lemão me arrancou da casa, fomos pro parquinho, e lá eu chorei muito.
A única coisa que eu sei é que a gente ficou mais isolado depois disso: não saíamos do quarto antes que as duas saissem de casa pra escolinha... e elas continuavam sainda atrasadas mesmo sem a gente ajudar; almoçávamos tarde, só quando elas chegavam da escola e muitas vezes íamos passear ou resolver qualquer pendência de tarde.
A Patrícia quase pediu pra sairmos do quarto de manhã porque a Clarinha queria brincar, mas ela nem finalizou o pensamento, dizendo que se a gente quisesse, a gente podia sair mais cedo e brincar um pouco porque a Clarinha estava com saudades.
Pois é, minha filha... vai torcer fralda de coco pra salvar o meio ambiente porque eu... never more.
Foi bom termos que arrumar coisa pra fazer de tarde porque aí saímos para comprar um monitor de vídeo de um cara que morava num bairro quase não comunista, e o cabra era ainda espanhol.
Eu disse comunista porque foi o país que mais tinha casas iguais que eu já imaginei ver no mundo ocidental. Todas as casas são iguais, na periferia, pelo menos. São bairros e bairros de uma mesma tipologia. Ou eram todas térreas, ou sobrados, ou edifícios conjugados, mas um monte igual. Podiam ter térreas e sobrados, mas todas as térreas tinham a mesma planta, assim como os sobrados também.
Nos primeiros dias que estávamos na Irlanda, o Gabriel fez um pequeno tour com a gente, e descobrimos algumas coisas bem peculiares: não se come nada sem batata frita, e as variações de comidas de boteco são asinhas de frango, costeletas de porco, ou hamburguers.
Uma coisa que muito me impressionou foi ver um naná.
Estávamos andando perto do centro, num canal que tinha uma linha de vegetação muito bonita ao longo de todo o riozinho. Existia uma cerca separando a área gramada da calçada, e sentado nesse gramado, de costas para a cerca: o naná(**).
Ele estava todo de preto, inclusive um capuz. A pele era branca e os olhos muito claros, acho que azuis. Uma cara de atormentado, meio drogado, com uma energia maléfica e acho que tinha um capuz dentro do outro, o que fazia um volume maior atrás da cabeça: Era a encarnação do Woldemort de nariz. Fiquei tentada a tirar uma foto, mas o Gabriel disse pra não olhar e não fazer nada.
Eu já tinha ouvido falar dos naná, mas aquela visão me deixou apreensiva. O Gabriel disse que estando em 3, e ele sozinho, ele não faria nada, apesar de sermos estrangeiros.
Outra coisa muito louca, e essa foi a última coisa ruim que eu vou falar da Irlanda, é sobre os moleques pré-adolescentes que andavam em bandos. Esses eram encrenca pura.
Se você cruzasse com algum deles, não olhe, não faça nada, só se afaste.
O que o Gabriel falou é que, por lei, não se pode fazer nada com eles, mas eles podem atacar as pessoas e até machucar. Os pais são chamados pela justiça, mas pouco é feito.

E se eu passei uma ideia de que o Gabriel pudesse parecer uma pessoa horrível, pelo que eu falei, devo aqui dizer o quanto ele me ajudou também.
Ele me ensinou, com muita paciência, a montar um curriculo, o que falar com os recrutadores, o que responder nos emails e a ter uma posição mais confiável. Ele me incentivou a falar inglês e eu sou extremamente grata a ele por isso.

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(*)PORCH - é aquele hall minúsculo antes da entrada da casa propriamente dita. Tem uns 80 cm, no caso dessas casas, até a porta de entrada. Normalmente é onde se tira o casaco e os sapatos e, no caso do Gabriel, é tudo isso e mais uma infinidade de pequenas coisas amontoadas.
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(**)NANÁ - é daqueles cabras drogados, os 'nóias' daqui. São os inúteis para a própria sociedade, mas não suportam estrangeiros. Eles batem, e batem muito; então, não ande sozinho e desvie deles.