Dias passados na casa dos nossos amigos, e eu ainda não tinha desentalado o meu inglês... foi difícil pra mim porque eu me sentia muito cobrada, além de sentir vergonha. É aquela coisa da vergonha alheia, mas eu sou a alheia também.
A gente só ia até o Green Kitchen comer salada ceaser, então faltava interação. Pra resolver isso, a Patrícia sugeriu algo bem pontual: pegar lixo na pracinha! Pode parecer estranho mas é a vizinhança que mantém os arredores limpos.
Elá fui eu pra frente da Green Kitchen (sempre ela). Eu me indentifiquei, mostrei minha casa (do Gabriel) e disse que queria ajudar; eles ficaram super contentes de terem uma brasileira mas também não me esperaram muito, não. Foi cada um pro seu lado e eu fiquei com a organizadora, a Siobhán. Ela foi super gentil, entregou um saco azul gigante, um par de luvinhas e um bastão. Lá fui eu, com o saco mais leve que a minha consciência.
Se eu tivesse um grilo falante, ele provavelmente diria: "Minina, volta pra casa, teus rebentos precisam de ti, Cacá está maluca, Bibi está sozinho e Vituim... bom, ele deve ser o único feliz, porque nem nossos anfitriões estavam"
Na verdade, eu só fiquei mesmo rodando em volta da pracinha e da igreja (* tem que entender que eu não sabia onde era o limite da operação, porque eles falaram que era daqui até ali, e de lá até o outro lado, senão a gente entraria na jurisdição do lixo alheio); numa outra ocasião, eu tinha entrado pra ver, e era igual como qualquer outra. Só que eu percebi que o povo chegava, deixava o saco bem cheio de sujeira, dava aquela risadinha de comemoração e saia de novo, e o meu saco vazio de tudo. Como eu não queria 'perder' o jogo do lixo, resolvi dar uma roubadinha: primeiro, comecei a colocar algo mais vultuoso que só os saquinhos que eu encontrava, e comecei a por algumas pedras; só que aí eu percebi que eu ia ficar carregando peso. Bom, o que foi, foi, mas tinha que mudar de estratégia. Não pensei duas vezes: fui até em casa e pedi algum lixinho pra colocar no meu saco. E que saco, a Patrícia não me deixou roubar muito, e o Lemão ficou do lado dela.
Apesar de usar indevidamente a minha inteligência, fui a que tinha o saco mais vazio no final.
Por outro lado, a Siobhán tirou minha foto, publicou no facebook do grupo e ainda me passou seu número de telefone. Disse que eu era a mais animada da turma (por que será, ne?)
As duas meninas que sairam na foto comigo deram o maior trabalho pra Siobhán.
Uma delas era moradora do bairro, com certeza, a outra não tenho certeza; mas deve existir uma lei moral de ajudar na faxina do bairro, e a mãe obrigou as duas a irem catar lixo.
Que programão.
Elas não estavam nada felizes e, por isso, sumiram. Mas, às vezes, o destino dá uma rasteira em nós, os pais dessas crias sem coração, e uma emergência fez com que as meninas tivessem que voltar pra casa com urgência.Caláro que o desespero ficou só com a minha nova amiga irlandesa porque ela ficou na maior gastura, rodando feito peão de rodeio pra ver se a energia das bichinhas atraiam ela pra algum lugar; mas elas apareceram, com a paz dos anjos que não se descabelam nem no juizo final. Elas foram tranquilas pra casa, e a Siobhán voltou a catar lixo.
Aborrescente é a mesma coisinha em qualquer lugar do mundo.
Eu ter ficado ali feito uma boba rodando e matutando em como arrumar mais lixo, só pra não ter aquela sensação de não estar usando todo o potencial do saco azul (o desperdício aqui é tido como uma grande infelicidade humana), fez eu ter a certeza que meu lugar não era ali: em algum momento teríamos mesmo que partir.
Partimos aquela tarde em busca de casa, aluguel, sala de home office, qualquer coisa.



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