Eu gosto de ouvir o catalão porque me faz lembrar dela e do meu avô; quando ela era viva e eu pequena, ela falava em catalão e eu respondia em português, porque ela não sabia falar porutguês... e descobrimos que, lá na Espanha, ela só falava em português (coisa que aqui ela jurava de pé junto que não conseguia), porque dizia que já havia se acostumado e não conseguia mais falar catalão. E as poses pra fotos?... affff. Até aqui, desavisados leitores, vocês até podem pensar se tratar de uma pessoa completamente normal, mas não era.
Ela tinha uma história que, um dia, um raio entrou pelo cabo de um ferro de passar roupa que estava ligado na tomada e saiu pela janela (se a dita história não foi bem assim, eu não sei, mas é o que eu me lembro... acredite, se quiser!) e aí, toda a vez que chovia, ela já começaca a ficar preocupada. Um dia, minha mãe conta que ela tinha saído da casa da minha mãe, que fica até hoje em cima de um morro, para a casa dela, que ficava no morro seguinte, só que no meio do caminho caiu o mundo, um baita de um pé d'agua, com tantos raios e trovões que não teve jeito: minha mãe pegou um taxi e foi àprocura da minha yaya.
Eu imagino a felicidade da D. Mont que saiu por aí perguntando se alguém tinha visto uma senhora descabelada e nervosa dando piti por aí. Ela acabou encontrando. Estava dentro da casa de uma mulher que ficou com dó dela (mas acho que se arrependeu depois): minha yaya estava debaixo das cobertas, deitada na cama da mulher, tremendo e esperando a chuva passar.
Já que estou falando dela, preciso dizer que ela salvou minha vida. Um dia fomos as três mulheres (hehe... eu devia ter uns 2 ou 3 anos, eu acho) pegar o trem pra Mogi; mas eu acabei caindo no vão que fica entre o vagão e a plataforma. Minha sorte é que a minha yaya estava me segurando pela mão e não me largou... eu fiquei com a minha roupa todinha suja e ainda perdi uma pulseirinha. A única coisa que eu me lembro é da minha mãe se descabelando e xingando todo mundo dentro do trem, que ninguém se levantou pra ajudar e que eu podia ter morrido, e eu morrendo de vergonha porque, além de tudo, estava imunda.
Naquela época achei que a culpa era minha por ter sujado a roupa, mas ela gritava porque ninguém veio ajudar, e o trem ia partir e eu morrer. Poderia ter sido o triste fim desta Policarpa Quaresma... Obrigada, yaya.
Lembro que quando a gente ia ao dentista, em Mogi na Dra. Alguma coisa Brasil, na volta era inevitável uma paradinha num prédio que tinha uma doceria meio escondidinha e onde eu sempre pedia um pedação de torta de morango, daquelas bem basiquinhas com massa podre, creme de baunilha e gelatina com pedaços de morango. Eita, coisa boa. Às vezes ainda peço essa torta porque me traz a lembrança dessas andaças :) Meu vô Enrique era muito bravo em tudo, até na sua bravura: ele foi um guerreiro na guerra contra o Franco: salvou muita gente que estava marcado para morrer só porque era contra o regime. Ele foi soldado de fronteira e deixava o povo fugir, até que o denunciaram... aí o perseguido era ele, of course. Numa das suas rotas de fuga, ele passou pelas ilhas Canárias (devo ter parente lá) e seu objetivo era a Venezuela, mas acabou no porto de Santos mesmo. Uma das unhas da mão esquerda dele tinha uma fenda enorme que ele me contou que fez na prisão e que doeu muito, mas não entrou em detalhes. E eu acho que puxei a unha do meu polegar da mão esquerda dele: é quadradinha igual. (A Cacá é toda feliz porque tem uma orelha pontudinha igual a do SÔrmindo... ela tem a quem puxar, afinal) .
Mas meu avô era um verdadeiro mulherengo, e a minha yaya disse que o que o disvirtuou foi ter entrado para os Mossos d'Esquadra, uma polícia independente de Barcelona, eu acho que a mais antiga da Europa!!!
Esse uniforme fazia as mocinhas ficarem apaixonadas, nem importava se era casado ou não.
Eu, sinceramente, acho que tenho muitos tios e tias por aí. E a minha yaya já ficou tão irritada com ele que num determinado momento da vida dela, ela proibiu o meu avô de ver ela pelada.
Quando eles se mudaram para a última casa deles (eles já eram velhinhos) e que tenho orgulho de dizer que é minha agora, era só ela entrar no banho que ele tentava ver se conseguia espiar pela janela. A minha yaya ria, quando contava isso.
Os pais da minha yaya eram mais pobres que do meu avô.
Ele era guarda florestal, numa épocada vida dele, e a minha bisavó andava quilometros para visitar a casa da minha yaya e os netos dela. Pois, no dia que minha bisyaya ia visitar minha yaya, meu tio com uns 12 anos de idade, não tomava café, esperava que ela chegasse e ainda desse pãozinho na boca dele.
Teve uma ocasião que minha yaya queria cortar o cabelo curto, isso antes de se casar, e pedia pro pai dela que nunca deixava. Um dia, ela resolveu fazer sem a permissão dele.
Quando ele viu, ele disse que ficou bonito, mas que tinha sobrado umas pontinhas, que ele ia levá-lapara o barbeiro dele só pra acertar, mas quando chegou lá, o homem virou o demo: mandou raspar careca.
Estamos falando dos anos 30.
Minha yaya pegou os cabelinhos do chão e costurou numa boina de croche dela, mas é claro que todos percebiam e os meninos ficavam tirando sarro dela na rua.
Ela mesma nunca me contou dos pais, só lembro da Conchita, a irmã dela.




















