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10 julho, 2022

O começo de tudo


A minha yaya sempre foi meio maluquinha (ai, que saudades): ela passava as horas fazendo crochê e assistia Sílvio Santos todo santo domingo. ‘Ah-há, Ih-hi, Lombardi... vai pro trono ou não vai?’ (Se bem que esse daí acho que era o Chacrinha, junto com o ‘Quem quer abacaxi?’ e ‘Teresinha’... até hoje não sei quem era a Teresinha que ele tanto chamava.)
Eu gosto de ouvir o catalão porque me faz lembrar dela e do meu avô; quando ela era viva e eu pequena, ela falava em catalão e eu respondia em português, porque ela não sabia falar porutguês... e descobrimos que, lá na Espanha, ela só falava em português (coisa que aqui ela jurava de pé junto que não conseguia), porque dizia que já havia se acostumado e não conseguia mais falar catalão. E as poses pra fotos?... affff. Até aqui, desavisados leitores, vocês até podem pensar se tratar de uma pessoa completamente normal, mas não era. 
Ela tinha uma história que, um dia, um raio entrou pelo cabo de um ferro de passar roupa que estava ligado na tomada e saiu pela janela (se a dita história não foi bem assim, eu não sei, mas é o que eu me lembro... acredite, se quiser!) e aí, toda a vez que chovia, ela já começaca a ficar preocupada. Um dia, minha mãe conta que ela tinha saído da casa da minha mãe, que fica até hoje em cima de um morro, para a casa dela, que ficava no morro seguinte, só que no meio do caminho caiu o mundo, um baita de um pé d'agua, com tantos  raios e trovões que não teve jeito: minha mãe pegou um taxi e foi àprocura da minha yaya.
Eu imagino a felicidade da D. Mont que saiu por aí perguntando se alguém tinha visto uma senhora descabelada e nervosa dando piti por aí. Ela acabou encontrando. Estava dentro da casa de uma mulher que ficou com dó dela (mas acho que se arrependeu depois): minha yaya estava debaixo das cobertas, deitada na cama da mulher, tremendo e esperando a chuva passar. 
Já que estou falando dela, preciso dizer que ela salvou minha vida. Um dia fomos as três mulheres (hehe... eu devia ter uns 2 ou 3 anos, eu acho) pegar o trem pra Mogi; mas eu acabei caindo no vão que fica entre o vagão e a plataforma. Minha sorte é que a minha yaya estava me segurando pela mão e não me largou... eu fiquei com a minha roupa todinha suja e ainda perdi uma pulseirinha. A única coisa que eu me lembro é da minha mãe se descabelando e xingando todo mundo dentro do trem, que ninguém se levantou pra ajudar e que eu podia ter morrido, e eu morrendo de vergonha porque, além de tudo, estava imunda.
Naquela época achei que a culpa era minha por ter sujado a roupa, mas ela gritava porque ninguém veio ajudar, e o trem ia partir e eu morrer. Poderia ter sido o triste fim desta Policarpa Quaresma... Obrigada, yaya. 
Lembro que quando a gente ia ao dentista, em Mogi na Dra. Alguma coisa Brasil, na volta era inevitável uma paradinha num prédio que tinha uma doceria meio escondidinha e onde eu sempre pedia um pedação de torta de morango, daquelas bem basiquinhas com massa podre, creme de baunilha e gelatina com pedaços de morango. Eita, coisa boa. Às vezes ainda peço essa torta porque me traz a lembrança dessas andaças :) Meu vô Enrique era muito bravo em tudo, até na sua bravura: ele foi um guerreiro na guerra contra o Franco: salvou muita gente que estava marcado para morrer só porque era contra o regime. Ele foi soldado de fronteira e deixava o povo fugir, até que o denunciaram... aí o perseguido era ele, of course. Numa das suas rotas de fuga, ele passou pelas ilhas Canárias (devo ter parente lá) e seu objetivo era a Venezuela, mas acabou no porto de Santos mesmo. Uma das unhas da mão esquerda dele tinha uma fenda enorme que ele me contou que fez na prisão e que doeu muito, mas não entrou em detalhes. E eu acho que puxei a unha do meu polegar da mão esquerda dele: é quadradinha igual. (A Cacá é toda feliz porque tem uma orelha pontudinha igual a do SÔrmindo... ela tem a quem puxar, afinal) .
Mas meu avô era um verdadeiro mulherengo, e a minha yaya disse que o que o disvirtuou foi ter entrado para os Mossos d'Esquadra, uma polícia independente de Barcelona, eu acho que a mais antiga da Europa!!!
Esse uniforme fazia as mocinhas ficarem apaixonadas, nem importava se era casado ou não.
Eu, sinceramente, acho que tenho muitos tios e tias por aí. E a minha yaya já ficou tão irritada com ele que num determinado momento da vida dela, ela proibiu o meu avô de ver ela pelada.
Quando eles se mudaram para a última casa deles (eles já eram velhinhos) e que tenho orgulho de dizer que é minha agora, era só ela entrar no banho que ele tentava ver se conseguia espiar pela janela. A minha yaya ria, quando contava isso.
Os pais da minha yaya eram mais pobres que do meu avô.
Ele era guarda florestal, numa épocada vida dele, e a minha bisavó andava quilometros para visitar a casa da minha yaya e os netos dela. Pois, no dia que minha bisyaya ia visitar minha yaya, meu tio com uns 12 anos de idade, não tomava café, esperava que ela chegasse e ainda desse pãozinho na boca dele.
Teve uma ocasião que minha yaya queria cortar o cabelo curto, isso antes de se casar, e pedia pro pai dela que nunca deixava. Um dia, ela resolveu fazer sem a permissão dele.
Quando ele viu, ele disse que ficou bonito, mas que tinha sobrado umas pontinhas, que ele ia levá-lapara o barbeiro dele só pra acertar, mas quando chegou lá, o homem virou o demo: mandou raspar careca.
Estamos falando dos anos 30.
Minha yaya pegou os cabelinhos do chão e costurou numa boina de croche dela, mas é claro que todos percebiam e os meninos ficavam tirando sarro dela na rua.
Ela mesma nunca me contou dos pais, só lembro da Conchita, a irmã dela.

08 junho, 2017

Férias de verão - 2012



Eu não contei antes sobre as minhas férias de verão, porque não tive tempo. Aconteceram tantas coisas e eram tantas coisas pra contar, que eu precisava estar inspirada e de fôlego renovado (tudo bem que demorou meros 5 anos pra isso acontecer e ainda me pergunto se superei tudo).
Bom, tudo começou com uma prova de esperteza minha de dar inveja ao Soneca, o da Branca de Neve... deve ser um parente distante meu, aliás... Adivinhem ONDE eu fui buscar uma pousada? Na internet.
Opções de pesquisa: apartamento (ou casa), com cozinha, para 5 pessoas, praia do Una, São Sebastião, Toque-Toque Pequeno... caramba... tudo muuuuito caro. BUT, como quem procurava era EU, eu achei um apartamento, maneirinho, bonitinho (tudo branquinho), novo e distante 750m da praia. Tinha tanta opção (laguinho, montanhas, trilhas, cachoeiras, bicicletas, pescaria, surf, etc), pensei: "Achei o lugar".
Fomos para a Praia de Juquehy. litoral norte de São Paulo.
A cidade é feia pra dedéu, ou pelo menos era, naquela época: uma rua principal com algumas saídas para a praia que eram todas de paralelelípedo mais ou menos assentado, em eterna reforma, e o resto era só aquele areião batido, cheio de buracos.
O meu Bãrids já torceu o nariz... mas só se eles me enganaram.
Chegamos, aos sacolejos, na 'pousada' sem nome, na Alameda Galo da Campina, 100.
Na verdade, era um prédio horizontal de dois pavimentos onde um proprietário colocou para locação na temporada.
Mas a nossa habitação, essa sim, era uma graça... igualzinha como na propaganda.



Entramos pela micro sala em conceito aberto com a cozinha, toda equipada e limpinha; de um lado a escada pro quarto no mezanino, e do outro lado, o banheiro e o outro quarto com televisão. Não era nem um pouco ruim... do lado de fora, a vegetação da mata atlântica, com um riozinho sinuoso, uma área de churras e a piscina. Perfeito.
Ficaríamos 1 semana, mas só pra garantir e não deixar os rebentos com fome, trouxe comida pra 1 mês.
Quando a gente começou a descarregar o carro, os vizinhos acharam que eram moradores novos.
Rapidinho descobrimos todas as atenções: o laguinho se formava em cada poça depois que chovia, porque a gente descarregou o carro com aquela chuvinha fina; as montanhas, estávamos no seu sopé, longe de tudo e de todos (menos dos vizinhos); as trilhas, era o caminho para chegar em casa da praia e vice-versa;as cachoeiras... passa pra próxima... bicicletaria era uma oficina de bikes, entre o nosso descanso merecido e a diversão garantida; pescaria e surf, quando chegou nesses quesitos, já tínhamos desistido mesmo.
Arrumamos tudo, mais ou menos, mais menos que mais... e praia.
Demorou um tanto pra chegar, mas ela era legal... só que de tombo... Surf, né, tchonga?
Pra molecada foi maravilhoso, apesar do tempinho, que acabou melhorando. Até hoje eles lembram da praia, da barraquinha de crepe (nossa maior atração turística) e de um hamburguer do tamanho de uma cabeça que os esfomeados pediram. O Henrique pede até hoje... quer voltar lá. kkkk
Embaixo, a cama de casal com TV. O Lemão não sairia de lá por nada... se a TV tivesse alguma programação, que não tinha.
Eu fiquei com as crianças... imagina que eu vou largar meus filhos, ainda pequenos (15, 14 e 10 anos) sozinhos lá em cima? Nem que a vaca tussa (cof, cof)

Saldo do primeiro dia: Dormi num colchão de ar que deu cãimbra até no dedinho do pé.
No dia seguinte aquele sol prometia, nada poderia dar errado.
Foi nesse dia, na verdade, que descobrimos a creparia e o dono mais mal amado do mundo. Ele nos atendia com cara de quem chupou limão, e ai de quem mudasse de recheio depois de pedir (não estou dizendo depois dele ter começado a fazer, estou dizendo só depois de falar mesmo). 
Foi um dia calmo, até chegar no apê e descobrir que o vaso sanitário estava sem água.
Jisuis!!! 
Pensa num marido feliz pra consertar a caixa de descarga porque tudo que não dava era ficar sem descarga.

Saldo do segundo dia: Umas duas dúzias de baldes jogados na privada e do alto, que é para dar pressão e poder fazer aquela meleca toda ir buraco abaixo.
Bom, nada melhor que um dia após o outro. Já nem estávamos mais nos importando com os buracos, o carro indo a 5 km\h e nem a cara feia das pessoas do caminho para a praia, nem ligávamos mais pros cachorros soltos e da cara de ETs dos vizinhos (o que será que eles achavam da gente?). Uma grande decepção nem foi descobrir que os 750m da praia não era nem se pegasse a distância em linha reta, passando por cima da mata... só para ter uma ideia, dali até o Shopping Monjolo, já dava perto de 1 km..........:P........... o verdadeiro desespero bateu quando resolvemos alugar umas bikes, o que foi impossível porque o lugar era só uma bicicletaria. E toda vez que batia aquela fominha, lá ia a gente no carrancudo dos creques. 

Saldo do terceiro dia: No caminho tinha uma rodovia, e nem pensar em passeio natural... vamos quebrar as molas do carro, Bãrids. (Foi o que aconteceu: ele amassou a saia da frente quando despenquelou num buraco básico)
Fomos então ao shopping e era bonitinho mas não achei nada espetacular.
Chega de crepe por hoje, PELAMORDIDEUS!
Sim, meus rebentos comeram um hamburguer impossível de imaginar, e ainda sobrou fome pra ajudar a gente no nosso...eita, poço sem fundo.

Saldo do quarto dia: Pois é, dizem que alegria de pobre dura pouco, né? A nossa não foi pouca, não, foi bem curtida de sol. Foi aquele calor de rachar coco e não conseguir ficar na areia sem sombra. Solução: vamos comprar um guarda-sol no mercadinho que tem de tudo mesmo: carvão, esparadrapo, vela de 7 dias, cerveja, pão, remédio e guarda-sol.
Não tinha tantas opções assim, mas tinha um vermelhinho de joaninha... mas vai ser esse
mesmo, além de tudo, estava na promoção.
E toca pra praia...
Abrimos o mais novo item recém adquirido guarda-sol, que era pra ser de joaninha, mas deu pra entender o por quê da promoção: era de melancia.
Todo mundo sabe que eu não ligo para coisinhas diferentes,mas dessa vez, uma lombriga mexeu dentro de mim. Só o nosso guarda-sol se destacava naquela calmaria de outros guarda-sóis. Descobrimos que viramos ponto de referência na praia quando, enquanto saíamosdo mar, o guarda-sol saiu voando e um homem lutou pra pegar o bichinho e infincar no mesmo lugar, do tipo, o cara realmente se empenhou. Agradecemos, mas aí ele explicou que era importante pra ele também porque os filhos dele, caso se perdessem, tinham que esperar no guarda-sol de melancia.
Isso só nos fez ficar com aquela cara de samambaia: será que a gente ainda agradecia ou cobrava?

Saldo do quinto dia: Tantos dias num só lugar, já estávamos praticamente caiçaras. Tinha dado umas garoinhas, mas e daí, né? Alguém amanheceu com a garganta raspando, tinha poça de água em cada buraco da pousada até a praia, tinha a rodovia no meio do caminho, mas pra que se apressar pra praia? Vamos curtir a piscina e o riozinho da própria pousada.
Na piscina ficamos pouco, porque veio uma família estranha, com jeito esquisito e música sertaneja desespero. Vamos pro riozinho, e aí vimos que era uma valeta de concreto de uns 1,20m mais ou menos com um riozinho de meio metro. A valeta começava no pé da montanha e seguia embora, cortando o terreno. Samambaias e outros matinhos caiam que nem paisagem de filme... era bonito. Toca todo mundo dentro do rio pra uma aventura legal.
Já estávamos na metade do riozinho quando começaram os borrachudos, eita pernilongo do capeta... aquilo morde doído, e aí ainda chegou um cabra pra dizer pra gente que, quando chove na cabeceira, vem água muito forte.
O passeio do riozinho foi curto. Saímos depressa e fomos pra praia mesmo encarar o cara dos crepes pra mais uma batalha.

Saldo do sexto dia: A gente já ia embora no dia seguinte, uma semana já estava ótimo pra descompor as energias, e foi nesse dia que andamos um pouco mais pela praia e achamos um bar que tinha música ao vivo e um polvo simplesmente maravilhoso. Foi caro mas valeu muito a pena. O cara que tocava guitarra, improvisou um sax com uma garrafinha de água cortada no meio com um filme plástico, nem me pergunte como, mas o cara fazia miséria com aquilo lá. Foi simplesmente magnífica a nossa última noite.
Pena que ela não tenha terminado por aí.
Por ser a última noite, o Lemão não queria mais dormir sozinho lá embaixo e usou de seu poder pátreo para dormir com as crianças, na parte de cima.
Tá bom, ne? Fazer o quê? Meio a contragosto, fui para o saco de dormir.
Usávamos o saco de dormir,que já tinha travesseirinho e fechávamos ele todinho com um zíper, ou seja, a pessoa ficava mumificada dentro dele.
Eu tinha acabado de apagar a luz, mas ainda era claro e pude ver, claramente, o apocalipse acontecer em questão de segundos.
Vou explicar, mas saiba que isso já me causa pânico, só de lembrar.
Estava eu acabada de me ajeitar, puxando o último pedacinho de zíper e preparando os olhos para fechar, quando escuto um helicóptero voar sobre a minha cabeça.
Por causa do calor, meu marido semppre dormia de janela aberta, e ele me convenceu a fazer o mesmo, só que uma barata gigante, dessas bem criadas, lustrosas e todas cheias de si, veio voando como quem flutua num dirigível, mas muito mais rápido, potente e intimidador.
Aonde ela pousou, eu não vi, porque meus olhos foram ofuscados pelo meu grito. O problema era o sarcófago, não dava tem po de abrir e sair correndo; a solução: fui pulando da cama até a escada. Cheguei mais rápido que o Lemão. Podia até ter ganho salto em distância, pensando agora.
Dormi com as crianças.

Saldo do sétimo dia: Na Bíblia diz que o sétimo dia era para o homem descansar... nós, pelo contrário, fizemos a maior bagunça: praia de manhã, crepe de despedida e arrumar bagunça, deixar bagunça e voltar para casa.



Vixe... esqueci.




O segredo da felicidade...
é ter uma péssima memória!

kkkkkk

"Nada é mais forte do que o momento de uma idéia". 
Quem disse isso foi Victor Hugo, mas não acho que exatamente como eu disse, talvez outras palavras.

Esta é a foto oficial da Formatura do meu irmão no Itamaraty.
Esta história está AQUI



Ou o Lula é muito econômico, ou ele gostou mesmo dessa gravata........... 


Ele (e a gravata) aqui, viúvo e prestando, historicamente, seu depoimento ao juiz Moro.

07 novembro, 2016

Um dia de Realeza



A história deste grande dia começou, na verdade, na noite anterior.
Na tarde do dia anterior, fomos até a Piazza di Spagna. Devia ter me informado melhor na época porque não sei o porquê da famosidade: É um largo com uma escadaria imponente, bem bonita, com gente jogada em seus degraus.
O que me marcou lá foi um lazarento de um vendedor de traquitanas, tipo tio Félix, só que ambulante. Já estava escurecendo e ele queria porque queria vender um chaveirinho pro Vitor, que oboviamente, ficava torrando as paciências porque queria, né?
Eu não sabia de fato o que era tão fascinante naquela porcaria e a peste do vendedor resolveu fazer um test-drive gratuito comigo mandando apertar um botãozinho e .......... BZZZZZZ ....... levei um choque da chapuleta. Ai, que ódio mortal. Queria mandar o chaveiro, o vendedor, meu pai que ficava rindo e o tranqueira do Vitor praquele lugar. Eu me recusei a comprar, mas meu pai comprou.
Sai de perto de mim com essa coisa, senão vou jogar lá no meio da Fontana di Trevi... e isso não era brincadeira.
Voltamos andando vagarosamente, porque nessa altura não dava nem pra levantar as mãos se alguém dissesse: "Assalto, mano in alto" (Perceba que assalto é igual em tudo que é lugar) porque não ia dar certo.
Fomos pegar as chaves na recepção. Fui só eu e o Vitor, porque meus pais foram economizando andadas e já me esperavam no alto da outra escada. Sim, tinha todo o percurso do Fusilli: sobe e desce e nunca aparece.
Quando cheguei na recepção, o italiano filho-de-uma-italiana estava numa dificuldade revigorada, tentando falar com uma mulher do Equador, que não falava italiano nem inglês.
Eu, como uma pessoa maravilhosa, vitaminada, linguisticamente desenvolta, respondi que "sí... io parlo spagnol".
Foi a alegria do ano novo. Mandei a chave pelo Vitor e peguei o telefone.
Aí foi aquela tradução simultânea: ela me falava em espanhol, eu passava pro italiano em inglês, que me respondia num outro idioma, pra eu reportar pra mulher em latim. Afff... uma confusão. Ela queria um quarto pra fevereiro, e quase que eu falei pra ela tinha que fazer pilates antes de vir pras pernas ficarem boas.
Só que não acabou por aí, o lazarento chechelento do italiano queria saber o nome do outro brasileiro que veio na comitiva canarinho.
Acho que foi a mão divina, porque não lembrei de jeito nenhum. Lembrei do S. Nilo, D. Gil, meu pai, da Rafa, mas nada do Rodrigo. Depois fiquei sabendo que ele estava armando uma cama de gato pra ele.
Bom... o Grande Dia chegou.
Toma lanchinho take away rápido, toma banho, passa perfume e espera o povo de Aracaju. Nada. Espera mais um pouquinho... já está ficando em cima da hora, e nada. Vambora, moçada porque agora a gente já vai ter que sair correndo.
A igrejinha, uma belezinha de igreja de não sei que século, era pequena, aconchegante ainda que bastante escura; tudo lindo, mas meus pés pareciam uma sardinha deformada naquele salto... pensa num passeio na parte antiga de Paraty de salto, só que com o agravante que aqueles paralelipípedos viram Júlio César.
Chegamos na dita cuja da igrejinha. Manuelita, Cinho, Lilóvsky, Imperador, Imperatriz e até o padre brasileiro estava lá... esperando a nós. Para meu espanto, não éramos os últimos e continuamos esperando por um tempão.
D. Gil e S. Nilo chegaram atrasados com a irmã e sobrinha de D. Gil. Reza a lenda que elas correram naquela peste de paralelepípedo com os salto na mão. Acredito, porque eu faria o mesmo.




Bom, correu o batizado conforme o manuscrito, e fomos pra casa imperial pro almoço.
Realmente sou uma pessoa chique, mas humilde de alma, porque me senti feito peixe fora d'água naquele lugar. A imperatriz pode até ser boa pessoa (quem sabe?) mas me senti engessada... sei lá, não era eu. Não éramos ninguém... duvido que alguém tenha sido si mesmo ali, acho que nem a própria realeza. 
A casa era boa, nada magnífica; mas o quintal... esse sim: deslumbrante. TINHA UM PEDAÇO DA MURALHA DE ADRIANO NO QUINTAL.
Pasmem, podem cair durinhos de inveja, mas eu passei a mão nas pedrinhas que algum escravo muito maltratado assentou sem amor algum. De qualquer forma, era um marco histórico, um divisor social e velho pra chuchu.
Tinha se ar melancólico, aquele musguinho verde bonito e podia-se sentir alguma energia antiga se tivesse tempo a perder com um pouco mais de calma... não era esse o caso.
Comemos uma comida boa e simples: O chef, brasileiro e novinho, quis nos homenagear fazendo comida tradicionalmente brasileira... ??? (imagina minha cara de 'será que eu entendi direito?'). Tudo bem, estava mesmo uma delícia.
Nesse mundo existe protocolo pra tudo, e todos tentamos fazer tudo certinho. Até demais.



Ficamos sabendo que, quando os anfitriãos servissem o licor, era pra levantar acampamento. O licor, ma-ra-vi-lho-sís-si-mo de laranja foi servido lá pelas 4 da tarde, e às 4 e meia acho que já estava todo mundo no táxi. Foi muito rápido.
O Henrique ficou triste em saber que a fêmea do labrador, que ele conhecera no Equador, morrera. Sobrou só o macho, que o Vítor ficou brincando.




04 novembro, 2016

Para Roma, com amor



É difícil ficar na casa dos outros, parece que a gente está sempre incomodando... ainda mais quando não se tem nenhuma tanta intimidade com a dona da casa.
Fomos até a casa da Magda, Montse e Lola para tomar um chazinho da tarde e jogar dominó.
Lola é a mãe da Montse, companheira da Magda.
Tivemos uma afeição gratuita logo de início. A Magda me contou que eu fui a primeira pessoa que a tratou não como sendo a vovozinha de todos, mas como pessoa. Na verdade, eu dei atenção a ela, e o que eu recebi em troca, além da afeição para sempre, foi a sua história: 
Ela teve duas filhas, a Montse e uma outra filha (que agora já não lembro o nome), mas que morreu novinha. Foi a abertura de um poço de desespero e angústia que todos nós já conhecemos e, como ela estava a beira de um abismo, o médico propôs que ela fosse fazer algo como remédio, tipo caminhada. Sim, que ela fizesse caminhadas.
Ela disse que começou a caminhar e nunca mais parara. Teve trekkings que duraram dias nas montanhas, e foi isso que a curou da sua dor.
Isso tudo ela me contou nessa última viagem à Espanha que eu ganhei do Cinho e da Manu, e ela estava toda emocionada, contando, só que os outros que estavam em outra conversa queriam fazer um brinde; não ia cortar a velhinha, né? Levei bronca do meu pai.
E não nos demoramos em Barcelona... larga os milhões de goiabada aí no apê da anfitriã e s'imbora que Roma nos aguarda.
Quando se abriram as portas da esperança do desembarque em Roma foi uma alegria. Todo mundo lá, menos quem eu conhecia.
O motorista do táxi, muito solícito, perguntou de onde éramos, se já conhecíamos a cidade. "Não. É a nossa primeira vez... Filho, olha lá o Coliseu!!!"
Realmente, ele ficava lá meio longinho, e o nosso guia-motorista se prontificou em dar uma voltinha para vermos melhor. Topei.
Devo confessar que fiquei um tantinho decepcionada porque achei que ele seria algo colossal ... afinal, tinha que ser um espaço que coubesse todas as atrocidades que são do seu escopo. Pensando bem, devia ser grande para a época.
Pega as trouxas e vamos fazer check-in no nosso hotel maravilhoso chamado Residenza Montecitorio, que D. Gil conseguiu por um precinho camarada bem no coração da velha Roma.
O hotel não tinha anúncio da sua existência em lugar algum, tínhamos o endereço e, pelo interfone, dissemos que tínhamos reserva, no mais alto estilo italiano macarrônico.
Bom, abriram.
Um corredor escuro, depois um pátio interno, não muito grande, e duas opções: esquerda ou direita?
Pra esquerda, parecia mais hotel do que pra direita, que dava num corredorzinho menor ainda que pro outro lado. Fomos pra direita. Pegamos o elevador...... minúsculo: cabia 3 pessoas magras e espremidas. O Vitor até que cabia apertadinho também, junto com meu pai, minha mãe e eu. Como tinham as malas, meu pai foi depois.
No ápice de onde poderíamos chegar, uma porta de vidro trancada, e um interfone.
Novamente, com o meu excelentíssimo italiano, disse que éramos nós, os hóspedes.
"Sì, sì, claro... ma è il otro lato" .................. ??? ...................
Toca descer tudo de novo e ir pelo corredorzinho macabro, depois de passar por uma porta aberta que parecia de uma casa de pessoas morantes, e não hospedadas. Que vontade de pedir desculpas pelo incômodo.
Uma coisa bem interessante que acontecia nesse lugar é que os andares pares tinham parada de elevador, mas os ímpares, não! Se seu objetico era o 3 (tipo o nosso), ou você descia no 2 e subia de escada meio lance, ou descia no 4, e descia meia lance. Meio lance de quinhentos degraus, diga-se de passagem.
Chegamos no 2 e subimos: pai, mãe, Tico, eu e as malas... muitas malas grandes, gordas e pesadas.
O animal detrás do balcão, acostumado com todo esse transtorno, fingia que nem sabia que tinha gente chegando, então nem precisava ajudar também.
Fizemos o check-in. Bom e o quarto?
"Sì, sì, claro... ma è il otro lato" .................. ??? ................... O QUÊ?????
Depois falam dos portugas......... Affff. 
Toca fazer o retorno: Agora descemos meio lance (COM AS MALAS), pegamos o elevador, andamos pelo corredorzinho macabro, passamos pelo morante, atravessamos o patio, subimos no elevador, espremidos. Uma parte das pessoas e das malas ficaram pro segundo turno; descemos no 6 e andamos, MALAS ABAIXO, meio lance de quinhentos degraus. Tivemos ainda que tocar o interfone para que ele tivesse certeza que, depois de uma meia hora, tínhamos chegado ao destino, aí ele abriu, achamos nosso quarto comunitário e entramos.
Que louco!
Um pedaço do Renascimento no quarto. Michelangelo deve ter dormido naquele quarto porque o cheiro era daquela época mesmo.



Claro que foi reformado, mas o mal gosto e cheiro continuou.
Vamos comer que a minha Linguine aqui estava morta... minha lombriga ganhou nome.
Eram umas ruinhas, calçadinhas, lojinhas, pizzinha... se tudo for pequenininho por aqui, os japoneses vão até revidar que a fama caia sobre os romanos. Hihihi
A pizza gigante era pequena, o precinho camarada era gigante... uma terra de disparates.
Dia seguinte, vamos nos adaptar. Fui comprar 'capuccino e snacks takeaway'.
Deu certo.
Andamos por ali, vimos cada lugar bonito, mas não podíamos esquecer o motivo da vinda: o batizado; e as comemorações já começavam: Fomos direto para um restaurante onde o imperador, que ia ser o padrinho, oferecia um almoço para os convidados. Éramos seis (mentira... hihihi. Esse era o nome da novela da minha yaya). Éramos um monte: Cinho, Manu, e a estrela do evento Lilóvsky, meu pai, minha mãe, S. Nilo, D. Gil, Rafa e Rodrigo. Além do malacabado e eu, e acho que mais um casal.
Pena que não me lembro do nome do restaurante. Belíssimo, chiqérrimo, de comida boa mas nada farto.
Lembro que nossa mesa foi no fundo do bar, onde tinha uma enorme mesa decorada, e separada do resto do restaurante por uma cortina de veludo vermelha. Bem ao estilo Al Capone. Certeza que algum mafioso comeu lá... espero que nenhum tenha morrido lá.
Vai saber... italiano é tudo doido.




Todos conhecidos: Imperador e Imperatriz, Manu com Lilóvsky, meu pai, minha mãe, um casal legal de brasileiros (ele trabalhava numa missão permanente da OMC, na Suiça), uma prima da Manu, uma tia da Manu, euzinha e meu malacabado sem o boné de lata, Rodrigo, Rafaella, D. Gil e S. Nilo. Quem tirava a foto foi o Cinho, e ele ficava de blefô pra pcortina de veludo vermelho sangue.
Quando chegamos no Maledetotel, fomos bater perna... a eternidade é grande pra descansar, né?
A imperatriz até que deu uma boa dica: " Peça desculpas porque você não fala italiano, mas que precisa de uma informação. Faça isso em italiano e depois pergunte em inglês mesmo". Fácil, não? O duro é quando o inglês está pior que o italiano.



Nas ruas de Roma, e o bunitim já com o boné de lata que o V'Ormindo comprou.

20 outubro, 2016

Dia de Milagres



Chegamos em Barcelona... uma viagem infinita.
O Tuim com fome. Mentira, mas como eu fiquei com dozinha da viagem e como ele queria aquela porcaria de balinha ou chiclete que tinha no Brasil (eita, menino patriótico), e a peste do meu primo não tinha chegado ainda, fui comprar numa lanchonete circular quase em frente ao desembarque. Nesse meio tempo, o Jordi chegou e não nos achou, porque estávamos no redondo oposto da visão de quem vai para a porta de desembarque e nós, que não sabíamos que ele já tinha chego, ficamos rodando na lanchonete. Imagina aquela coisa maravilhosa do desencontro. No fim, bem no fim, deu tudo certo e fomos direto pra casa da Pilar.
A cidade é linda a noite.
Depois de pouco falatório: cama. Ainda bem que ela é uma ótima anfitriã. E que bom que ela nos deu hospedagem, porque a grana ainda era curta e eu ainda estava um pouco insegura de sair assim pro mundão.
No dia seguinte, como eu, praticamente já sou uma expert em Barcelona (cof-cof), vou liberar minha anfitriã para mostrar a 'Sagrada Família' para o meu filho. Tá, tudo bem... de novo? Pois é. Não sei o que me deu, mas eu queria algo que ele pudesse identificar como marco da cidade e se lembrar da viagem toda vez que o visse. Então... vambora.
No caminho, fomos vendo as praças, as 'carnicerías' (açougues), peruquerías (cabelereiras) e ríamos de tudo. Caláro que ele não ia se contentar somente em ver as coisas, e queria um donut porque, possivelmente, lembrava o Hommer Simpson; "Chega de bobagens, animalzinho... andando", mas eu sou coração mole mesmo e acabei compensando os donuts por umas cartinhas do Pokemón (ai, desgraça): era um jogo de tabuleiro, com umas pecinhas pequenininhas e umas cartas.
Aí, deslumbramento para mim: a igreja de Gaudí. Enquanto dávamos a volta na dita cuja pra achar o fim da fila da entrada, ele deixou cair um botton do jogo dentro do tapume que protegia algumas obras internas, e eternas, da Sagrada Família. Caraca... nem compramos e já perdeu? Mas o desespero opera milagres, talvez pelo clima espiritual do lugar, afinal, as pessoas são meio rabujentas por lá, mas um operário que passava por ali  e que eu vi pelo vãozinho entre tapumes (algo impossível, por isso o milagre) nos ajudou (esta é a parte 2 do milagre) e nós, por conseguinte, desistimos de entrar (parte 3, porque só eu queria, o Tuim, não).
Ai, que ainda é o primeiro dia e eu já tô morrendo.
Do outro lado da rua, na lateral esquerda da entrada principal, tem uma pracinha aconchegante, com caminhos lindinhos, algumas barraquinhas arruinadas e um lago. Como estávamos com fome e a Pilar só ia nos encontrar no final do dia, o jeito era se arrumar por aqui mesmo. Imagina um lugar que não tem nem um salgadinho de saquinho digno, então, era lá. Compramos uma batatinha frita que nem o meu filho queria comer de tão ruim. Imagina, né?
Por sorte, tinham uns banquinhos de praça pra gente perder um tempo, porque as perninhas curtas do animalzinho faziam que ele se cansasse  a todo momento (tá bom... eram as minhas).
Caia mais batatinha no chão que na boca, e foi quando ele percebeu que tinha um camundonguinho roubando as migalhas. 
Pra quê? 
Foi um tal de alimentar esse mickey que um senhor, de lá mesmo, esperando pela morte (quem sabe hoje?), percebeu o que o Vítor fazia e ria, discretamente.
Por outro lado, o meu filho não se contentava somente em alimentar... tinha que tirar fotos: do ratinho, da ratinha, do amigo rato, dos outros parentes... sim, tinha um monte deles naqueles matinhos. Eu até comentei com aquele velhinho: "Vem gente do mundo todo pra tirar foto de lá (e apontei a Igreja), e ele tirando foto dos ratinhos". O homem se divertiu quando compramos mais comida pros bichinhos.
Passamos o dia andando e comendo bobagens, meus pés queriam um banho de imersão; voltamos nos arrastando pro apartamento dela. 
Ela não estava. Fui comprar um donut pro bunitinho.
Esperamos, esperamos, esperamos, e nada. Já não aguentávamos mais, comprei outro donut pro Vitor e ele sentou na calçada mesmo. Umas 3 hora depois do combinado, chega a Pilar pedindo perdão: a Lolin tinha parado no hospital. Pensei comigo que, se ela demorasse mais um pouco, seríamos nós que ela teria que procurar no hospital.
Reza a lenda, e a Pilar, que antes de morrer, o tio do Jordi, também Jordi (uma imaginação pra nomes), fez que ele jurasse de pé junto que não deixaria Lolin desamparada e que cuidaria dela. 
E a promessa se cumpriu, todo mundo foi cuidar dela, e ninguém de nós.
Maria Dolores era o nome verdadeira de Lolin que se casou com um catalão, mesmo sendo uma murciana. Deve ter sido um escândalo na família, como foi quando o rei Eduardo VIII; mas imagina um rei torto: era ele.
Gostava de mulheres mais velhas e casadas, e acabou abdicando da coroa por causa de uma 2X divorciada americana que, pelo que dizem as más línguas, era quem segurava o chicotinho da relação. Se não bastasse, ele era, supostamente, simpatizante com o nazismo e, por isso, foi designado governador das Bahamas. Mas ela, que não era boba nem nada, preferiu acabar seus dias na noite boêmia da França que catando coquinho no Caribe. Esse escolheu a dedo. hihihi
Então... 
O que lembro de Lolin era de uma mulher loira, parecendo a Farrah Fawcett espanhola, muito bonita; mas com voz grossa de homem. Aff Falava pelos cotovelos e também gesticulava muito. E, quando novinha, recém chegada de Múrcia, foi trabalhar na Canjorba. Imagina o antigo Mapping, ou o Corte Inglés, nos seus primórdios... acho que ela caixa lá. E foi conquistada pelo olhar apaixonado de Jordi: um mancebo, magrelo, narigudo e 10 anos mais novo. Pelo menos ela não era casada.
Dessa relação não surtiram filhos, mas pelo que meu vô Enric falava, eles tinham dinheiro. Jordi, o marido, morreu do coração, e Jordi, o sobrinho, tinha ganho de presente a herança e a mulher do tio: já meio senil e sem muita firmeza nas pernas. Por isso ela caiu... foi num descuidinho da enfermeira que ela caiu de nuca no chão. Outro milagre do dia: ela não ter morrido.
Pois é... entendemos tudo isso. Pilar se redimiu com o Vitor quando preparou um macarrão cheio de manteiga: coloque uma colher de manteiga no prato e jogue o macarrão escaldante por cima. Misture e fique em forma o resto da vida (forma de bola). A mim, ela me conquistou com uma taça de vinho e sem manteiga no meu macarrão.

03 outubro, 2016

Cabeçuda eu?


Como a gente sempre precisa de uma desculpa pra viajar, arrumamos uma: o batizado da Lilóvsky.
Como o Bibi e a Cacá já foram pro Equador com os meus pais, agora seria a vez do Tico viajar comigo. Eita, dureza que não vamos todos juntos... iremos um dia... (Na verdade, não tínhamos previsão para irmos ainda nessa época, mas como o post foi escrito ANOS depois, já tivemos nossa viagem familiar ao exterior, que foi maravilhosa. Atenção aos capítulos a seguir).
E assim, começa nossa nova aventura.

Depois de algumas horas no avião, você parece um panda preguiçoso lambido por uma vaca... e não adianta ficar horas na cabelereira antes de ir pro aeroporto, porque o glamour dos cachos vai durar somente até a hora do jantar do desgosto dentro da aeronave. A pele vai ficando esbranquiçada, e logo aparecem as olheiras, o seu corpo vai ficando lento, o tempo ganha outra cadência e a sensação é de que só se come e não se gasta energia nenhuma... e nada disso é pior do que acontece com o cabelo: ele vai descendo, vai se transformando numa grande pasta e vai escorrendo até que, quando você menos espera, ele já está todo grudado na testa. Pra quem não vive sem chapinha deve ser uma maravilha, mas no caso das cabelereiras-pirulitos-de-vaca (eu, minha filha, minha mãe, minha yaya... ou seja, uma família inteira femininamente de cabelo escorrido) é catastrófico. Quantas vezes não coloquei uma roupa elegante e desconfortável, comprada somente para o momento da chegada no outro país, e acabo parecendo uma louca imigrante com cara de traficante? Bom... não foram taaaantas vezes assim, afinal... mas também não importa. 
Chegamos por fim em Schiphol, o aeroporto de Amsterdã. 
O meu filho Vitor e eu, a caminho do batizado da Lilóvsky, em Roma, e depois Suiça e Espanha.
Mas que gente chique que eu sou, né?
Em 2007, esse aeroporto foi eleito o melhor da Europa ... era melhor mesmo que fosse muito bom: iríamos ficar ali por 8 horas! O rapazinho que me 'ajudou' a comprar as passagens só não tinha me dito esse pequeno detalhe...
Como a gente não tinha pressa fomos correndo pegar as malas na esteira (eu sou um pouco preocupada de que alguém resolva roubar minhas malas vermelhas da Le Postiche,  recém-compradas em 10X no cartão). Uma certeza eu tinha: se elas não tivessem sumido  na Holanda, no Brasil, ou no caminho entre os dois, pelo menos eu não teria surpresas desagradáveis de que alguém tivesse mexido nas minhas coisas... afinal meu Marids embalou as maravilhosas com aquele plástico etiquetado verde limão super chique e que disseram que vem com chip de localização.
Passou uma, outra, mais um milhão de malas e... por fim... elas! As maravilhosas vermelhas revestidas de plástico verde.
Veio a grande primeiro. Pego como quem não sente o peso das lembrancinhas.
E não é que os fiosdumaégua dos carregadores quebraram a alça metálica retrátil? P@##$%
Vamos esperar a outra... já nem tava tão feliz assim, mas a pequena veio inteira.
Imagine a cena: eu com uma mochila muito mais vermelha que as duas maravilhosas nas costas, as duas maravilhosas sendo arrastadas (porque eram daquelas que tem 3 rodinhas e não precisa tombar pra andar), um menininho bunitinho do meu lado com uma mochila preta nas costas e o Bart Simpson no colo... com um detalhe importantíssimo: eu estava com um sapatinho de salto, que não perco a pose por nada!
Que faremos? Que farofa? Banheiro, é claro.
Dilema na porta do banheiro: mas eu não vou deixar o meu bichinho entrar sozinho no banheiro dos homens e ser abduzido por nenhum chupa-cabra-maníaco-assintomático-europeu. "Não, senhor... você vai comigo no das mulheres."
Ele quis a morte, mas ele também tinha medo da Loira do Banheiro (e loiras aqui são muito comum, sabe?). Entramos.
Fui na frente e vi que não existia vivalma.
"Rápido, Vitor... pro último banheiro" Por sorte a cela pipictórica era bem grande e, enquanto eu fazia xixi, ele olhava pro outro lado. Vice-versa, of course.
Saí pra dar aquela arrumadinha no visual. Tô lá me maquiando, escovando as madeixas e, só dá gente entrando... espio que, lá da última cela, uns olhinhos espiam também tudo com pesar... acho que ele se perguntava em como sair dali sem chamar atenção.
Na hora de ir embora, chamo o bichinho... nada... vou até lá... ele se recusa a sair com tanta mulher (umas duas) por ali. Ficamos uns minutinhos dialogando, quando saí, vi uma mulher desconfiada me olhar... dali a pouco sai ele, com um pano cobrindo os olhos e me segurando pra saber por onde andar. Nem morto que ele ia ficar olhando mulheres num banheiro de mulher. Até a mulher riu.
Bom, que faremos agora de novo? Taí uma pergunta que não me abandonou por um tempão. Comer, é claro.
Dentre tantas opções, o tanqueirinha-mor queria o quê? Um McDonald's. Tentei explicar que o gosto era igual no mundo inteiro porque se tratava de uma comida em pasta modeladacom formato de hamburguer, mas que nada! Ele queria ter certeza e tirar a prova dos nove. Vamos, né? Afinal eu já estava com dozinha dele por tudo que ele já tinha passado e ainda passaria... culpa minha, não dele de ficarmos ainda tanto tempo ali. Aliás, culpa do operador da agência de viagem, mas deixa pra lá.
O piso do aeroporto todo era um piso frio... mas, não sei por que cargas d'água, BEM NA FRENTE DO MCDONALD'S existia um pedaço de piso de madeira... pra dar um charme, né?... mas foi bem ali que eu fui pro chão, espatifei, fiquei feito um ovo estalado, esparramado, com os cascos pra cima e toda a dignidade pra baixo. Fez um barulho do cão e isso muito me preocupou, afinal, primeiro mundo devia ter medo de atentado e nada mais discreto do que um ser como eu, acima de qualquer suspeita, para ser uma mulher-bomba... atenção, inhorantes: mulher-bomba; nunca mulher-canhão!
Só não fiquei com mais vergonha do que a vergonha que eu fiz o Tiquinho passar; mas ele manteve a pose e me acudiu, e ainda olhou o meu joelho e cuidou de mim.
Depois daquele incidente, quem levava as malas era ele, e quem dizia por onde ir também......... :P
O esquema da comida era um pouco diferente porque a gente pedia primeiro e ia com a comida no check-out (caixa) pagar. Como aqui a gente paga primeiro e depois pega a comida, deixei a comida lá, fui pagar, vi as pessoas com a comida pagando, voltei pra pegar o lanche e paguei. E atenção: Isso tudo sem mancar depois do tombo na frente de todos eles. Pois é... ninguém me acudiu, mas devem ter me achado um pouco estranha. 
Estranhos são eles, povo branco e de cabelo amarelinho (ainda que nem todos fossem assim).
Bom... depois de comer, fomos andar. 
Nós dois e as malas andamos muito. Por sorte,por sorte o aeroporto era grande e tinha muita coisa pra fazer.
Lojas, bares, banheiros, chaveirinhos de tamancos. Gente comendo, conversando, gente bonita no geral... e nós andando. As lojas eram pequenas e sem muito atrativo para nós, porque eram roupas, artigos de luxo, jóias, relógios. Que a gente ia querer?
Depois de andar muito e mapear todo o lugar (estava me sentindo naquele filme: "O Terminal", com Tom Hanks), já sabíamos onde comer, onde ficavam os guardinhas e que tinha uma funcionária da limpeza que era mal-humorada, como no filme.
Ela não nos deixou ficar numas cadeiras porque ela ia limpar. Claro, demos razão a ela, saímos... mas depois vimos que a grande limpeza dela não passava de um paninho muito do mal passado e enxaguado numa água suja pra burro. Começamos a rir porque, pra fazer uma porquice daquelas a gente podia ter ficado onde estava mesmo; ela percebeu, falou algo que a gente não entendeu com um outro lá, mas nos vingamos falando mal dela em uma língua que ela também não entendia: a nossa! E rimos de novo.
Passamos por uns restaurantes chiques e achei que tinha visto um mafioso. Melhor sair dali.
Fomos num espaço tipo galeria de arte aberta com pessoas sentadas em bancos psicodélicos. Eram umas pessoas estranhas com jeito esquisito, saímos de lá também.
De tanto que andamos, ficamos cansados, e a dor de garganta de quando saímos do avião começou a querer ficar pra sempre, e se manifestar. Caramba... melhor comprar um remédio.
E agora? Como comprar anti-inflamatório sem falar nem o meu inglês macarrônico? Cadê uma farmácia? Bom... existia uma drogaria lá do outro lado de onde a gente acabara de vir. Toca voltar. Chegamos feito retirantes: cansados, com sede, arrastando os pés e, tenho certeza, se a gente levantasse a palma da mão, davam uns trocadinhos.
Entramos, mas era uma perfumaria... tinha de tudo: cosmético, fragrâncias, desodorantes, protetor solar... cadê os remédios? O Tico me mostrou, mas eu não consegui escolher qual. Vamos procurar mais. 
Dali a pouco, o bichinho sumiu. Dali outro pouco, chega ele e uma moça com um remédio na mão: ele já tinha explicado que eu, a mãe dele, estava com dor de garganta e ela havia pego o remédio, no mesmo monte que ele tinha me mostrado antes.
Ele cuidou de mim. Que gracinha.




Olha a farmácia aí ------------>




Quando saímos de lá, paramos numa loja de brinquedos. Comprei um lego que se transformava num barco-anfíbio, num helicóptero ou num avião super-sônico.
Descobrimos, depois de somente umas 3 horas, que tinham poucos lugares pra gente ficar.
Fomos pro mais quietinho, na parte de cima. Era legal porque eram cadeiras de dormir, colocadas em duplas, viradas para o vão do pé direito duplo do hall principal.
Tinha gente dormindo, com as malas largadas perto das pernas, mas não tinha um par de cadeiras juntas sobrando... esse povo não tinha medo de ser roubado. Ficamos numas mesas ali perto, pelo menos o Tico montou e desmanchou o lego várias vezes.
Cansei de descansar, vamos andar. 
Nós e as malas andamos muito de novo. Por azar, o aeroporto não era tão grande assim e não tinha mesmo muita coisa pra fazer.
A internet gratuita não funcionava, então compramos, num bar, acesso por meia hora... queria dizer que ainda estávamos vivos e bem. Até o barman ficou com dozinha do Vitor, do jeito como ele me tratava e me ajudava, e deu um agrado a ele: um desses brindes gratuitos da cerveja Heineken. Era um radinho AM FM em formato de bola de futebol, com uma fita pra colocar em volta do pescoço e  fones de ouvido. O homem foi tão gentil que não tivemos coragem de dizer que o radinho não funcionava... quando chegasse no Brasil ia ver se eram as pilhas, mas não vi até hoje.
Num outro lugar, aquele que a internet grátis não pegava, estávamos comendo alguma coisa quando vimos, na mesa do lado, uma mãe e duas filhas comendo também. A menina mais nova estava de pijama cor-de-rosa... hihihi... sim, pijama. Eita, povo esquisito.
Quando conseguimos sentar numa daquelas cadeiras de descanso, vi um árabe dormindo. Ele tinha muito jeito e cor do deserto, e usava turbante. Tinha uma mala de couro bem bonita, mas não parecia que tinha muito dinheiro, não.
Quando dei por mim, já estava na hora ... ALELUIA ... vamos pro embarque de novo.
Chegamos, por fim, ao nosso gate, quase correndo, que eu só não posso perder esse avião e ficar mais meia hora sequer nesse aeroporto de novo.
Ainda bem que tinha bastante tempo porque andamos pra dedeu. Descemos umas escadas e pronto! Agora era esperar o avião abrir as portas.
Que vontade de ir no banheiro.
Toca subir tudo de novo (e com as malas na mão, porque não tinha escada rolante) pra voltar de novo lá pra baixo pra pegar o avião.
Quando deu tudo certo, abriram os portões... e fomos a pé pro avião, andando pela pista, no meio dos carrinhos de malas e outras aeronaves.
A última vez que eu andei na pista pra pegar um avião, quase morri... mas isso é outra história.

11 julho, 2016

Eu? Jamais!



Um capítulo à parte para a nossa ida ao Guarujá.
Rebobinando...
Quinta-feira - Helena, a articuladora cuidadora do meu tio, liga e diz que o homem foi internado porque não fazia xixi: Inflamação dasbraba. 
Minha mãe aqui, em Ribs, pro meu niver da sexta.
Sexta - Helena, a desesperada amiga do meu tio, chora porque ele está com insuficiência renal.
" Também... O S'Enrique não toma água. Só bebe suco e come fruta, e diz que a fruta tem água." (Helena)
"Você acha melhor eu ir aí?" (Mãe)
"Não, Dona Montserrat, só dá mesmo pra dormir uma pessoa com ele no quarto, e tem que ter força pra levantar o homem. A senhora ia ficar sem fazer nada aqui" (Helena)
"Bom, vamos nos falando, então" (Mãe)
Sábado - Estamos meu Bãrids e eu na Neuzelaine quando a Carol me liga, e segue diálogo:
"Mãe, a yaya disse que a Helena ligou e disse que o tio pode morrer a qualquer hora e que era melhor ela ir lá ver o irmão" (Carol)
"Dãhhhh?" (oi?)
"Ela quer saber se você vai com ela" (Carol)
Pouco tempo depois, minha mã, meu Bãrids e eu estávamos indo pro litoral.
No caminho, já sabíamos que o estado não estava tão ruim assim. Meu irmão, que tinha ido no dia anterior com meu pai, disse que ele estava xingando bastante, então não estava tão ruim assim.
Pois é, a mulher que a Helena arrumou pra passar a noite com ele era a manicure que cuidava do pé dele e disse que ele foi uma crica do cão. Que não conseguiu dormir nada, que ele só resmungava, que não saia xixi, que ela era 'muy amiga' de arrumar essa casca de ferida pra ela, e outros 'quês' infinitos. Foi a manicure que achou que o meu tio estava tendo um surto xingatórico de morte-não-súbita e que, em vista desse quadro, só havia uma saída: abotoar o terno de madeira.
Ai, tem dó, né, doida? 
Só não foi pior porque ele ficou bem feliz de ver a gente, quero dizer, o Lemão e eu, porque a minha mãe ele nem olhava: a braveza veio porque a Helena, a estrategista, bota toda culpa na minha mãe pra ela se safar. "Mas foi a D. Montserrat que mandou isso..."
Enquanto estávamos lá, ela veio com uma história que revistaram as nossas bolsas pra não entrar cigarros no hospital.
Em minutos, o quarto virou uma farra. Era a Helena e minha mãe de um lado, meu marido no celular, e eu com meu tio de outro.
Quando já era hora de sair, perto das 20h, chega a Camila, sobrinha da Helena, trazendo a enfermeira da noite.
E ele pedindo cigarro pra ela, que fumava também.
Todo mundo dizendo que não podia, e blá, blá, blá. Eu fiquei com dó, porque o bichinho estava na abstinência desde quinta. Pra quem fumava um maço por dia...
No dia seguinte, soubemos da noite anterior.
A Camila tinha dado um cigarro escondido, que ele fumou no banheiro (provavelmente jogando a fumaça direto na janela, que ele é velhinho mas não é nada bobo). Mama nia, e a enfermeira? Ela resolveu acobertar a arte dele, porque não tinha jeito mesmo, e começou a borrifar perfume, que ela trazia na bolsa, pelo quarto todo.
Entrou uma enfermeira da enfermagem, torceu o nariz e perguntou se ela fumava.
"Claro que não! Eu também sou enfermeira, sei que não pode ..." acho que foi aí que ela conquistou ele, que devia estar naquela posição de velhinho indefeso e olhar inseguro de que a vida foi mal com ele. Que artista!
Dali um outro tanto de tempo, entraram dois seguranças reclamando que tinha cheiro de cigarro, e o único paciente que fumava naquele andar, era quem? O próprio.
Diz ela que, nessa hora, o cheiro já tinha sumido bem, então não deu pra afirmar que era dali.
Lembrei de uma história que o Josep, ou Papito, primo da minha mãe contou, de uma época que ele ficava na casa da minha yaya, em Barcelona: um dia meu avô Enric jogou um vaso com planta e tudo pra acertar o meu tio que estava mais abaixo do terraço porque ele voltava tarde da gandaia, e não adiantava mais brigar... aí ele tentou métodos novos. Sorte que não acertou a cabeça, e acho que nem o orgulho, porque ele continuou.
Com o meu tio razoavelmente bem, minha mãe foi na missa, e meu marido e eu fomos andar, antes de irmos ao hospital de novo.
Saímos de uma ponta da Praia de Pitangueiras e fomos ao final da Praia de Astúrias. 
O problema não foi nem a puxada de um milhão de quilometros que fizemos, mas eu não fui preparada para caminhadas, e eu tinha uma botinha maior que meu pé e com salto anabela.
Pensa numa pessoa torta que não entrega a pose. Ai, meus calos.
Quando chegamos no hospital, ele dormia como um bebê.
Não tinha dormido até as 4 da madrugada, e ficou contando toda a sua história de vida pra enfermeira que encobriu a arte dele do dia anterior.



09 julho, 2016

Acabe-ei, acabe-ei ...



Por que tanta felicidade por acabar de escrever uma viagem? Porque ela aconteceu a QUATRO ANOS ATRÁS!!!
Já aconteceram tantas outras: Peru, Chile, outra pra Espanha, Suíça e Itália; e, por fim, esta está no fim.
Eis o motivo da alegria. É como o fim de uma era: a Era do Atrasado.
Vou escrever rapidinho todas as outras e aí, sim... a liberdade sonhada.

Meu Bãrids toca 'O Pato' no violão, o Bibi toca 'Fantasma da Ópera' no piano, a Kátia Flávia pinta a óleo, a natureza morta; e o Vituim faz decalque de papel em madeira, dentre tantas outras habilidades... Uma família de artistas, como se fosse possível não ser, afinal temos algum sanguinho de Josep Carreras, Monstserrat Caballé, Gaudí, Miró, Dalí, Picasso... esse último tem que falar bem baixinho porque o filho-da-mãe não é catalão, descobri só hoje. Afff. Aliás, antes que alguém fale, o meu Marids não tem sanguinho catalão, mas a convivência comigo foi uma benção pra ele, virou artista: dança o dia inteiro (hihihi).  Descobri, hoje, também que o meu outro querido, o Calatrava usava demais o arco parabólico quaternário, assim como Gaudí, uma forma muito comum na natureza, pois usa o desenho das forças da gravidade para sua própria formulação. Já me sinto uma gênia por saber tudo isso.
Tentei entender Gaudí: de família meio pobre, não morreu rico; morreu, sim, atropelado e solteiro, casquinha de ferida por ser politicamente um verdadeiro catalão, e corre o risco de ser beatificado pelo Papa. Nada mal... mas fiquei pensando o que a sua mãe sofria por ele.
Fomos ao Parc Güell, no nosso último dia de Espanha... meu, pelo menos.
Naquela época de quando a gente era pequeno, lá em Barbacena do Norte, também viemos a este parque, e quer saber? Não mudou nadica de nada e, pelo que eu me lembro, nem o entorno.
Quando a minha mãe era pequena, porque mães já foram pequenas por mais estranho que possa parecer, ela ia para a escola OU pelo caminho da favelinha de Cambaru, que tinha gente boa e uma escadaria da Penha; [pausa - afinal, como toda boa lei de Murphy, ela morava num lado do Mont Carmel (Carrer Montserrat de Casanovas, 215) e, é claro que o Col.legi N. S. das Graças, ficava no pé do outro lado do morro,numa pracinha que só existe na cabeça da minha mãe, a praça Sanllehy, que eu acho que era o Parc de les Aigües - despausa]; OU cortando caminho pelo Parc Güell, que era o caminho mais comprido... então não sei como uma pessoa pode cortar caminho por ali. E, o Parc Güell era um parque do povo local, o povo pobre que morava por ali, e se reuniam de domingo naquele lugar meio bizarro, a la Gaudí, para dançar Sardana e fazer piquenique.
Nós fomos de metro e andamos até as tripas sairem pelo umbigo, num terreno íngreme, cheio de matinhos parecidos com a vegetação do nosso cerrado, e uma terra arenosa da chapuleta que nos deixava com o suor grudado no corpo pela poeira. Uma verdadeira delícia de óleo de fígado de bacalhau. Agora, se é assim em tempos atuais, com vendedor ambulante vendendo garrafinha a torto e a direito, imagina na época dos piqueniques... Pois é.
A D. Mont conta que a casa do Carmel era linda pois quem construiu era o dono de uma marmoraria, então tinha muito mármore pela casa toda. Claro que tinha mármore também no sótão, onde eles moravam, mas hoje tem um predinho muito do sem graça.
Eu adoraria ver aquela casa, mas imagino que para as pessoas da redondeza era só uma casa velha que deu oportunidade a mais pessoas morarem lá. E quem vendeu a propriedade foi a Magda, herdeira da Justa, a tia dona da dessa casa.
As fotos, fico devendo: perderam-se no tempo. Isso que dá demorar tanto. Snif.
Dalí, fomos direto pra casa da Pilar pra uma despedida regada a vinho e tapas... e quando digo direto, é porque foi mesmo: saímos atrasados e nem deu tempo de tomar um banhinho no nosso hostal (sabe aquele abraço meio de longe? foi o que rolou lá).