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11 novembro, 2016

Quem matou Odete Roitman?






Só quando chegamos de novo no Maledetotel é que ficamos sabendo o que tinha acontecido para que Rafa e Rodrigo não participassem do batizado e o porquê toda a demora do resto do povo de Aracaju: O sem-vergonha-filho-duma-italiana-mal-falada-mãe-do-recepcionista-do-hotel acusou o Rodrigo de roubar o quarto de um casal de hóspedes e levar o dinheiro. Pensa bem: "quem poderia roubar senão os brasileiros? ", pensou o recepcionista.

Depoimento 1: No dia anterior ao batizado, a tropa aracajuzense foi passear e gastar dim-dim porque ninguém é de ferro; mas Rafa passou mal e quis voltar para o hotel. Rodrigo a acompanhou e, como a chave do quarto ficara com S. Nilo, pediram uma sobressalente ao sem-vergonha-filho-duma-italiana-mal-falada-mãe-do-recepcionista-do-hotel que, de muita má vontade disse que usasse e trouxesse rapidamente pois era uma chave mestra reserva.
Naquela agonia de acabar com a cólica que arrancava a alma, Rafa tomou remédio, tomou banho, tomou passe, tomou conta da cama e foi deitar... só aí, uns tantinhos de tempos depois, é que Rodrigo levou a dita cuja pro sem-vergonha-filho-duma-italiana-mal-falada-mãe-do-recepcionista-do-hotel.
Acabou aqui o relato do acusado.

Depoimento 2: No dia seguinte de ter batido na quina do armário, ainda meio mancando, o sem-vergonha-filho-duma-italiana-mal-falada-mãe-do-recepcionista-do-hotel foi para seu trabalho sempre desafiador, conversando com hóspedes de todo o mundo (naquele dia mesmo, à noite, teria uma mulher do Equador que conversara com ele, poliglotamente, e ficaria uns dias em Roma). Um brasileiro chegou e veio com uma historinha de que precisava sacudir, quero dizer, acudir a namorada que passava mal. Ele achou estranho; entretanto, pela insistência e convencimento das quase lágrimas derrubadas pelo rapaz, ele forneceu a chave mestra reserva... não antes de passar todo um rosário de preocupações, como as mães fazem.
Certamente tudo fora muito bem arquitetado pois, saindo dali, engambelaram o circuito interno de TV e correram para o quarto das vítimas, que não estavam lá, por sorte... do contrário poderíamos não estar desvendando um roubo, mas um assassinato duplamente qualificado.
Os miliantes (Rodrigo e Rafa) furtaram o dinheiro do cofre (por sorte os passaportes não estavam ali) e, num prazo recorde: ela foi para o quarto, sem acordar o sistema interno de TV, que dormia profundamente nessa hora, e o líder do grupo voltou com a chave e a maior cara de pau para a recepção.
Acabou aqui o relato do sem-vergonha-filho-duma-italiana-mal-falada-mãe-do-recepcionista-do-hotel

Desvendando o caso: Era um dia como outro qualquer, o sem-vergonha-filho-duma-italiana-mal-falada-mãe-do-recepcionista-do-hotel subia no autobus e reclamava das dores causada pela surra que levara no dia anterior da saracusa italiana, a Máfia. Ele até era um bom rapaz: trabalhador, gentil, mas perdia a cabeça no seu 'acetosa' perna-de-pau (alazão, em italiano, óh, ignorantes). Se ele pudesse, pelo menos, recuperar o dinheiro investido... eles deram o recado: ele não passaria daquele dia se não levasse o dinheiro na bibóca das ruínas do czar romano José Gesoino. O que faria? O que farofa? 
Ele viu aquele casal de velhos turistas saindo do hotel... e nem largaram a chave com ele. Isso vai contra as regras do hotel. Em seguida, chegaram os brasileiros com jeito de quem não brigam com ninguém e pediram a chave. 
Um turbilhão de ideias passaram pela sua cabeça agitada de apostas frustradas: sim, ele entraria no quarto dos velhos, pegaria o dinheiro e jóias do cofre (os velhos perguntaram como colocar uma senha... então deve ter coisa de valor lá), e colocaria a culpa no casalzinho. Perfeito! Mas eles não podem demorar em devolver a chave mestra reserva, senão os velhinhos poderiam chegar e seu plano, e sua vida, estariam comprometidos.
Ele acompanhou o trajeto do casalzinho... [espera]... porca miseria, eles estão demorando com essa chave... [espera mais um pouco]... 'fancullo' (tradução: Vá tomar no ...)... que demora!... 
Finalmente a chave.
Ele esperou, então, o rapaz adentrar em seu quarto, saiu correndo, passou pela entrada do edifício, deu uma olhadinha lá fora pra ver se o casal vinha... se ele corresse bastante, mesmo que o casal chegasse, eles eram lentos. Daria tempo... abriu a porta com a chave mestra reserva, foi direto ao cofre que estava aberto (é... eles não conseguiram mesmo entender), não tinha jóias, mas tinha dinheiro. Pegou tudo, saiu correndo de volta para a recepção e ficou lá, com cara de paisagem.
Como as vítimas levaram a chave, totalmente contra as normas da empresa, não poderiam dizer que foi ele.
De noite o nervosismo ainda era tamanho, que ele teve que pedir ajuda a uma linda outra mulher brasileira, morena, alta, simpática, e ainda falava inglês e espanhol........ euzinha aqui!.............. Esse fora um dia de sorte para ele.
Ele voltou para sua casa, e pagou diretamente para o Zé Dirceu, na sua pizzaria sem levantar qualquer surpresa.
Acabou aqui o relato dos agentes Salsicha e Scooby-Doo que, além de desvendar o caso, tiraram o rosto falso do sem-vergonha-filho-duma-italiana-mal-falada-mãe-do-recepcionista-do-hotel, e todos puderam ver: Berlusconi em pessoa, que saiu esbravejando e rogando praga. Pediu somente que o colocassem numa prisão feminina.
Por sorte e muita conversa de bastidores internacionais, não houve qualquer resquício de carceragem ao nosso jovem mancebo e sua amada, mas eles perderam a cerimônia de batizado de Lilóvsky. Por sorte, esta não estava nem aí com ninguém.  

07 novembro, 2016

A coisa não estava boa...


A História é a comprovação de feitos incríveis do ser humano... incríveis que chegam a ser tão geniais quanto bestiais... uma prova disso são os romanos. Os antigos e os nem tanto... eita povo louco!
Nero foi, certamente, o que oferecia as melhores festas para os ricos; mas foi Vespusiano que criou a política de pão e circo para o povo.
Nero foi um desprezível imperador que queria ser um grande artista, artista de qualquer coisa: literatura, música... fosse o que fosse, ele queria ser lembrado por seus feitos magníficos. E foi: dizem que ele tocava sua lira enquanto via uma parte da cidade (a mais pobre, oboviamente) pegar fogo. 
Sua casa de campo era dentro da cidade, a Domus Aurea, e tinha o que todos queremos até hoje. Ela era luxuosíssima, mas minúscula para caber tanta ignorância... ele decidiu que queria expandí-la... sei lá... uma casa de banhos, um lago artificial na parte mais baixa do vale, mas lá existiam casas de pessoas pobres comuns; logo, as casas desapareceram e ele implantou não somente o lago como também uma colossal imagem de si mesmo como o deus-sol: a estátua tinha 35m de altura, em bronze, de onde saiam raios solares que adornavam sua cabeça. Todos viam o ego de Nero refletir de longe.
Aliás o Coliseu se chama assim por causa desse 'colosso' que era a dita cuja... ela não resistiu até os dias atuais porque, provavelmente, foi derretida para a reciclagem do seu material caro.
Por sua política voltada exclusivamente aos ricos, e não aos aos pobres, ele não era uma figura pública das mais populares; e foi isso que seu sucessor, Vespasiano, quis mudar.
Nero era tão ruim no que fazia, que nem se suicidar ele conseguiu sozinho: teve que pedir para um de seus criados que o ajudasse a enfiar um punhal em sua garganta. 
"Tarde demais! Isso é que é fidelidade", teria dito num segundo antes da desistência do suicídio... eu já acho que o criado é que foi bem rápido e fingiu nem perceber a intenção do 'Fuhrer' romano.
Do incêndio até sua morte se passaram somente 4 anos... e uma nova era romana começava, a dos Flavianos.
Como primeira ação, o novo imperador resolveu aplicar a damnatio memoriae, ou seja, a 'danação da memória', ou simplesmente sua remoção, o apagar da cabeça das pessoas algo que pudesse trazer vergonha ao Estado Romano. [O Grande Irmão, de George Orwell no livro '1984', fazia a mesma coisa quando algum expoente político prometia que não haveria racionamento do chocolate para o próximo ano e, não conseguindo sustentar essa afirmação, mandava que todos as anotações dessa informação fosse 'retificada' posteriormente, quer fossem em jornais ou revistas, uma vez que estes eram totalmente controlados pelo grande Big Brother.]
A Casa Dourada de Nero foi despida de seus mármores e muitas inovações arquitetônicas, a nível de revestimentos e usos de materiais, foram soterradas pelas Termas de Tito, pelas Termas de Trajano e o Templo de Vênus e Roma.
O Lago artificial deu lugar ao Amphitheatrum Flavium, ou simplesmente o conhecido Coliseu de Roma, numa tentativa de elevar o moral da população, implantando a política de pão e circo ao povo.
A praga do Nero morto foi poderosa e Vespasiano morreu também; quem inaugurou o Coliseu foi o imperador Tito, o filho dele, que não se livrou completamente da praga... um pouco antes da inauguração, o Vesúvio entrou em erupção, a peste corria solta e outra região da cidade pegou fogo. Achou pouco?
Mas para tanta desgraça, um pouco de folia, e foram mais de 100 dias de alegria: as manhãs eram adornadas com os jogos selvagens, onde eram realizadas competições entre animais selvagens e domesticados; ao meio-dia, era a hora das execuções de desertores, prisioneiros de guerra e criminosos; e de tarde, o duelo de gladiadores. 
O roteiro deve ter sido bem estudado porque duelavam animais de espécies diferentes para ver qual sobrepujava sua dominância... foram usados rinocerontes, girafas, elefantes, touros, leopardos, leões, bem como avestruzes, cabras e coelhos.
Verdadeiros cenários eram montados para a atração: florestas, campos e até o mar. Tem-se menção a batalhas navais, com animais, inclusive, dentro do Coliseu !!!
Se essa turma gastasse tanta energia para fazer o bem, o mundo seria outro.
Os condenados à morte viravam personagens heróicos de aventuras épicas gregas, como as desventuras de Prometeu atado às rochas, como castigo de Zeus, com seu fígado sendo eternamente comido por uma águia : um pobre diabo foi amarrado a uma cruz e suas entranhas oferecidas a um urso... blé.
O palco era de madeira coberta por areia (arena, em italiano)  a fim de absorver o sangue dos combates e, sob o espetáculo, os subterrâneos abrigavam todo o tipo de instalações... desde as jaulas dos animais, como os aquedutos que inundavam a arena para as batalhas navais, e a drenavam também; elevadores inseriam animais a qualquer momento, e onde ficava o espaço de concentração dos gladiadores que esperavam a hora da sua entrada.
Os gladiadores são os seres mais estranhos que se tem notícias, porque estes eram, normalmente, jovens livres e fortes que buscavam nessa modalidade fortuna e prestígio... como os jogadores de futebol atuais. Eles viviam em festas e todas as romaninhas da época queriam ser as gladiétes do momento. 
Uma escolinha de gladiadores treinava somente os melhores e, tamanho era o alvoroço em torno das estrelas do dia, que um túnel de passagem ligava essa escola diretamente aos subterrâneos do Coliseu... acho que para não desconcentrar os rapazes; afinal, não tinha ônibus com vidro escuro naquela época, né?
Por uns 400 anos, o Coliseu foi usado como anfiteatro dos imperadores e só deixou de ser porque um terremoto no século V o danificou; na Idade Média, como era um lugar largadinho, o Papa achou que ninguém se incomodaria em usar o mármore branco que revestia as paredes e áreas mais nobres do prédio para recobrir o Vaticano. A própria Via Ápia está cheinha de pedacinhos desse mármore, uma vez que eram carregadas por pessoas sem muitos cuidados. 
Desde a época de Nero, os boatos do incêndio criminoso apontavam os cristãos como os culpados, que eram tidos como 'inimigos do gênero humano', os bodes expiatórios perfeitos ( e nisso concordam até mesmo os romanos que não gostavam de Nero)... não é nem um pouco difícil que alguns cristãos fanáticos (que gente boa e ruim tem em tudo que é lugar) tenham apregoado aos quatro ventos o Apocalypse Now, e que aquele incêndio se dera por castigo de Deus aos pecados romanos praticados... que, tendo tido Calígula como imperador, não deve ter sido poucos... mas os cristãos mortos não foram em maior número que qualquer outro ditador.
O Coliseu teve muitos usos: foi palco, foi fortaleza, foi igreja, foi cemitério, foi quase uma indústria para que as 'moças de vida fácil' tivessem condições de transformar suas vidas fáceis em difíceis, foi desprezado pela natureza, pelas ações de terremotos, e foi arruinado pela cobiça de seus materiais... seu mármore travertino foi lá pra Basílica de são Pedro. Paciência, né?
Já no século XVII, para se redimir, o Papa Bento XIV declarou-o como um lugar sagrado, em homenagem aos fiéis mortos, mas também não devolveu nadinha.
Aí, como desgraça pouca é bobagem... apareceu a Cicciolina. [Brincadeirinha... ela era somente uma Tiririca da Itália] o Benito Mussolini!

Um dia de Realeza



A história deste grande dia começou, na verdade, na noite anterior.
Na tarde do dia anterior, fomos até a Piazza di Spagna. Devia ter me informado melhor na época porque não sei o porquê da famosidade: É um largo com uma escadaria imponente, bem bonita, com gente jogada em seus degraus.
O que me marcou lá foi um lazarento de um vendedor de traquitanas, tipo tio Félix, só que ambulante. Já estava escurecendo e ele queria porque queria vender um chaveirinho pro Vitor, que oboviamente, ficava torrando as paciências porque queria, né?
Eu não sabia de fato o que era tão fascinante naquela porcaria e a peste do vendedor resolveu fazer um test-drive gratuito comigo mandando apertar um botãozinho e .......... BZZZZZZ ....... levei um choque da chapuleta. Ai, que ódio mortal. Queria mandar o chaveiro, o vendedor, meu pai que ficava rindo e o tranqueira do Vitor praquele lugar. Eu me recusei a comprar, mas meu pai comprou.
Sai de perto de mim com essa coisa, senão vou jogar lá no meio da Fontana di Trevi... e isso não era brincadeira.
Voltamos andando vagarosamente, porque nessa altura não dava nem pra levantar as mãos se alguém dissesse: "Assalto, mano in alto" (Perceba que assalto é igual em tudo que é lugar) porque não ia dar certo.
Fomos pegar as chaves na recepção. Fui só eu e o Vitor, porque meus pais foram economizando andadas e já me esperavam no alto da outra escada. Sim, tinha todo o percurso do Fusilli: sobe e desce e nunca aparece.
Quando cheguei na recepção, o italiano filho-de-uma-italiana estava numa dificuldade revigorada, tentando falar com uma mulher do Equador, que não falava italiano nem inglês.
Eu, como uma pessoa maravilhosa, vitaminada, linguisticamente desenvolta, respondi que "sí... io parlo spagnol".
Foi a alegria do ano novo. Mandei a chave pelo Vitor e peguei o telefone.
Aí foi aquela tradução simultânea: ela me falava em espanhol, eu passava pro italiano em inglês, que me respondia num outro idioma, pra eu reportar pra mulher em latim. Afff... uma confusão. Ela queria um quarto pra fevereiro, e quase que eu falei pra ela tinha que fazer pilates antes de vir pras pernas ficarem boas.
Só que não acabou por aí, o lazarento chechelento do italiano queria saber o nome do outro brasileiro que veio na comitiva canarinho.
Acho que foi a mão divina, porque não lembrei de jeito nenhum. Lembrei do S. Nilo, D. Gil, meu pai, da Rafa, mas nada do Rodrigo. Depois fiquei sabendo que ele estava armando uma cama de gato pra ele.
Bom... o Grande Dia chegou.
Toma lanchinho take away rápido, toma banho, passa perfume e espera o povo de Aracaju. Nada. Espera mais um pouquinho... já está ficando em cima da hora, e nada. Vambora, moçada porque agora a gente já vai ter que sair correndo.
A igrejinha, uma belezinha de igreja de não sei que século, era pequena, aconchegante ainda que bastante escura; tudo lindo, mas meus pés pareciam uma sardinha deformada naquele salto... pensa num passeio na parte antiga de Paraty de salto, só que com o agravante que aqueles paralelipípedos viram Júlio César.
Chegamos na dita cuja da igrejinha. Manuelita, Cinho, Lilóvsky, Imperador, Imperatriz e até o padre brasileiro estava lá... esperando a nós. Para meu espanto, não éramos os últimos e continuamos esperando por um tempão.
D. Gil e S. Nilo chegaram atrasados com a irmã e sobrinha de D. Gil. Reza a lenda que elas correram naquela peste de paralelepípedo com os salto na mão. Acredito, porque eu faria o mesmo.




Bom, correu o batizado conforme o manuscrito, e fomos pra casa imperial pro almoço.
Realmente sou uma pessoa chique, mas humilde de alma, porque me senti feito peixe fora d'água naquele lugar. A imperatriz pode até ser boa pessoa (quem sabe?) mas me senti engessada... sei lá, não era eu. Não éramos ninguém... duvido que alguém tenha sido si mesmo ali, acho que nem a própria realeza. 
A casa era boa, nada magnífica; mas o quintal... esse sim: deslumbrante. TINHA UM PEDAÇO DA MURALHA DE ADRIANO NO QUINTAL.
Pasmem, podem cair durinhos de inveja, mas eu passei a mão nas pedrinhas que algum escravo muito maltratado assentou sem amor algum. De qualquer forma, era um marco histórico, um divisor social e velho pra chuchu.
Tinha se ar melancólico, aquele musguinho verde bonito e podia-se sentir alguma energia antiga se tivesse tempo a perder com um pouco mais de calma... não era esse o caso.
Comemos uma comida boa e simples: O chef, brasileiro e novinho, quis nos homenagear fazendo comida tradicionalmente brasileira... ??? (imagina minha cara de 'será que eu entendi direito?'). Tudo bem, estava mesmo uma delícia.
Nesse mundo existe protocolo pra tudo, e todos tentamos fazer tudo certinho. Até demais.



Ficamos sabendo que, quando os anfitriãos servissem o licor, era pra levantar acampamento. O licor, ma-ra-vi-lho-sís-si-mo de laranja foi servido lá pelas 4 da tarde, e às 4 e meia acho que já estava todo mundo no táxi. Foi muito rápido.
O Henrique ficou triste em saber que a fêmea do labrador, que ele conhecera no Equador, morrera. Sobrou só o macho, que o Vítor ficou brincando.




04 novembro, 2016

Para Roma, com amor



É difícil ficar na casa dos outros, parece que a gente está sempre incomodando... ainda mais quando não se tem nenhuma tanta intimidade com a dona da casa.
Fomos até a casa da Magda, Montse e Lola para tomar um chazinho da tarde e jogar dominó.
Lola é a mãe da Montse, companheira da Magda.
Tivemos uma afeição gratuita logo de início. A Magda me contou que eu fui a primeira pessoa que a tratou não como sendo a vovozinha de todos, mas como pessoa. Na verdade, eu dei atenção a ela, e o que eu recebi em troca, além da afeição para sempre, foi a sua história: 
Ela teve duas filhas, a Montse e uma outra filha (que agora já não lembro o nome), mas que morreu novinha. Foi a abertura de um poço de desespero e angústia que todos nós já conhecemos e, como ela estava a beira de um abismo, o médico propôs que ela fosse fazer algo como remédio, tipo caminhada. Sim, que ela fizesse caminhadas.
Ela disse que começou a caminhar e nunca mais parara. Teve trekkings que duraram dias nas montanhas, e foi isso que a curou da sua dor.
Isso tudo ela me contou nessa última viagem à Espanha que eu ganhei do Cinho e da Manu, e ela estava toda emocionada, contando, só que os outros que estavam em outra conversa queriam fazer um brinde; não ia cortar a velhinha, né? Levei bronca do meu pai.
E não nos demoramos em Barcelona... larga os milhões de goiabada aí no apê da anfitriã e s'imbora que Roma nos aguarda.
Quando se abriram as portas da esperança do desembarque em Roma foi uma alegria. Todo mundo lá, menos quem eu conhecia.
O motorista do táxi, muito solícito, perguntou de onde éramos, se já conhecíamos a cidade. "Não. É a nossa primeira vez... Filho, olha lá o Coliseu!!!"
Realmente, ele ficava lá meio longinho, e o nosso guia-motorista se prontificou em dar uma voltinha para vermos melhor. Topei.
Devo confessar que fiquei um tantinho decepcionada porque achei que ele seria algo colossal ... afinal, tinha que ser um espaço que coubesse todas as atrocidades que são do seu escopo. Pensando bem, devia ser grande para a época.
Pega as trouxas e vamos fazer check-in no nosso hotel maravilhoso chamado Residenza Montecitorio, que D. Gil conseguiu por um precinho camarada bem no coração da velha Roma.
O hotel não tinha anúncio da sua existência em lugar algum, tínhamos o endereço e, pelo interfone, dissemos que tínhamos reserva, no mais alto estilo italiano macarrônico.
Bom, abriram.
Um corredor escuro, depois um pátio interno, não muito grande, e duas opções: esquerda ou direita?
Pra esquerda, parecia mais hotel do que pra direita, que dava num corredorzinho menor ainda que pro outro lado. Fomos pra direita. Pegamos o elevador...... minúsculo: cabia 3 pessoas magras e espremidas. O Vitor até que cabia apertadinho também, junto com meu pai, minha mãe e eu. Como tinham as malas, meu pai foi depois.
No ápice de onde poderíamos chegar, uma porta de vidro trancada, e um interfone.
Novamente, com o meu excelentíssimo italiano, disse que éramos nós, os hóspedes.
"Sì, sì, claro... ma è il otro lato" .................. ??? ...................
Toca descer tudo de novo e ir pelo corredorzinho macabro, depois de passar por uma porta aberta que parecia de uma casa de pessoas morantes, e não hospedadas. Que vontade de pedir desculpas pelo incômodo.
Uma coisa bem interessante que acontecia nesse lugar é que os andares pares tinham parada de elevador, mas os ímpares, não! Se seu objetico era o 3 (tipo o nosso), ou você descia no 2 e subia de escada meio lance, ou descia no 4, e descia meia lance. Meio lance de quinhentos degraus, diga-se de passagem.
Chegamos no 2 e subimos: pai, mãe, Tico, eu e as malas... muitas malas grandes, gordas e pesadas.
O animal detrás do balcão, acostumado com todo esse transtorno, fingia que nem sabia que tinha gente chegando, então nem precisava ajudar também.
Fizemos o check-in. Bom e o quarto?
"Sì, sì, claro... ma è il otro lato" .................. ??? ................... O QUÊ?????
Depois falam dos portugas......... Affff. 
Toca fazer o retorno: Agora descemos meio lance (COM AS MALAS), pegamos o elevador, andamos pelo corredorzinho macabro, passamos pelo morante, atravessamos o patio, subimos no elevador, espremidos. Uma parte das pessoas e das malas ficaram pro segundo turno; descemos no 6 e andamos, MALAS ABAIXO, meio lance de quinhentos degraus. Tivemos ainda que tocar o interfone para que ele tivesse certeza que, depois de uma meia hora, tínhamos chegado ao destino, aí ele abriu, achamos nosso quarto comunitário e entramos.
Que louco!
Um pedaço do Renascimento no quarto. Michelangelo deve ter dormido naquele quarto porque o cheiro era daquela época mesmo.



Claro que foi reformado, mas o mal gosto e cheiro continuou.
Vamos comer que a minha Linguine aqui estava morta... minha lombriga ganhou nome.
Eram umas ruinhas, calçadinhas, lojinhas, pizzinha... se tudo for pequenininho por aqui, os japoneses vão até revidar que a fama caia sobre os romanos. Hihihi
A pizza gigante era pequena, o precinho camarada era gigante... uma terra de disparates.
Dia seguinte, vamos nos adaptar. Fui comprar 'capuccino e snacks takeaway'.
Deu certo.
Andamos por ali, vimos cada lugar bonito, mas não podíamos esquecer o motivo da vinda: o batizado; e as comemorações já começavam: Fomos direto para um restaurante onde o imperador, que ia ser o padrinho, oferecia um almoço para os convidados. Éramos seis (mentira... hihihi. Esse era o nome da novela da minha yaya). Éramos um monte: Cinho, Manu, e a estrela do evento Lilóvsky, meu pai, minha mãe, S. Nilo, D. Gil, Rafa e Rodrigo. Além do malacabado e eu, e acho que mais um casal.
Pena que não me lembro do nome do restaurante. Belíssimo, chiqérrimo, de comida boa mas nada farto.
Lembro que nossa mesa foi no fundo do bar, onde tinha uma enorme mesa decorada, e separada do resto do restaurante por uma cortina de veludo vermelha. Bem ao estilo Al Capone. Certeza que algum mafioso comeu lá... espero que nenhum tenha morrido lá.
Vai saber... italiano é tudo doido.




Todos conhecidos: Imperador e Imperatriz, Manu com Lilóvsky, meu pai, minha mãe, um casal legal de brasileiros (ele trabalhava numa missão permanente da OMC, na Suiça), uma prima da Manu, uma tia da Manu, euzinha e meu malacabado sem o boné de lata, Rodrigo, Rafaella, D. Gil e S. Nilo. Quem tirava a foto foi o Cinho, e ele ficava de blefô pra pcortina de veludo vermelho sangue.
Quando chegamos no Maledetotel, fomos bater perna... a eternidade é grande pra descansar, né?
A imperatriz até que deu uma boa dica: " Peça desculpas porque você não fala italiano, mas que precisa de uma informação. Faça isso em italiano e depois pergunte em inglês mesmo". Fácil, não? O duro é quando o inglês está pior que o italiano.



Nas ruas de Roma, e o bunitim já com o boné de lata que o V'Ormindo comprou.

20 outubro, 2016

Dia de Milagres



Chegamos em Barcelona... uma viagem infinita.
O Tuim com fome. Mentira, mas como eu fiquei com dozinha da viagem e como ele queria aquela porcaria de balinha ou chiclete que tinha no Brasil (eita, menino patriótico), e a peste do meu primo não tinha chegado ainda, fui comprar numa lanchonete circular quase em frente ao desembarque. Nesse meio tempo, o Jordi chegou e não nos achou, porque estávamos no redondo oposto da visão de quem vai para a porta de desembarque e nós, que não sabíamos que ele já tinha chego, ficamos rodando na lanchonete. Imagina aquela coisa maravilhosa do desencontro. No fim, bem no fim, deu tudo certo e fomos direto pra casa da Pilar.
A cidade é linda a noite.
Depois de pouco falatório: cama. Ainda bem que ela é uma ótima anfitriã. E que bom que ela nos deu hospedagem, porque a grana ainda era curta e eu ainda estava um pouco insegura de sair assim pro mundão.
No dia seguinte, como eu, praticamente já sou uma expert em Barcelona (cof-cof), vou liberar minha anfitriã para mostrar a 'Sagrada Família' para o meu filho. Tá, tudo bem... de novo? Pois é. Não sei o que me deu, mas eu queria algo que ele pudesse identificar como marco da cidade e se lembrar da viagem toda vez que o visse. Então... vambora.
No caminho, fomos vendo as praças, as 'carnicerías' (açougues), peruquerías (cabelereiras) e ríamos de tudo. Caláro que ele não ia se contentar somente em ver as coisas, e queria um donut porque, possivelmente, lembrava o Hommer Simpson; "Chega de bobagens, animalzinho... andando", mas eu sou coração mole mesmo e acabei compensando os donuts por umas cartinhas do Pokemón (ai, desgraça): era um jogo de tabuleiro, com umas pecinhas pequenininhas e umas cartas.
Aí, deslumbramento para mim: a igreja de Gaudí. Enquanto dávamos a volta na dita cuja pra achar o fim da fila da entrada, ele deixou cair um botton do jogo dentro do tapume que protegia algumas obras internas, e eternas, da Sagrada Família. Caraca... nem compramos e já perdeu? Mas o desespero opera milagres, talvez pelo clima espiritual do lugar, afinal, as pessoas são meio rabujentas por lá, mas um operário que passava por ali  e que eu vi pelo vãozinho entre tapumes (algo impossível, por isso o milagre) nos ajudou (esta é a parte 2 do milagre) e nós, por conseguinte, desistimos de entrar (parte 3, porque só eu queria, o Tuim, não).
Ai, que ainda é o primeiro dia e eu já tô morrendo.
Do outro lado da rua, na lateral esquerda da entrada principal, tem uma pracinha aconchegante, com caminhos lindinhos, algumas barraquinhas arruinadas e um lago. Como estávamos com fome e a Pilar só ia nos encontrar no final do dia, o jeito era se arrumar por aqui mesmo. Imagina um lugar que não tem nem um salgadinho de saquinho digno, então, era lá. Compramos uma batatinha frita que nem o meu filho queria comer de tão ruim. Imagina, né?
Por sorte, tinham uns banquinhos de praça pra gente perder um tempo, porque as perninhas curtas do animalzinho faziam que ele se cansasse  a todo momento (tá bom... eram as minhas).
Caia mais batatinha no chão que na boca, e foi quando ele percebeu que tinha um camundonguinho roubando as migalhas. 
Pra quê? 
Foi um tal de alimentar esse mickey que um senhor, de lá mesmo, esperando pela morte (quem sabe hoje?), percebeu o que o Vítor fazia e ria, discretamente.
Por outro lado, o meu filho não se contentava somente em alimentar... tinha que tirar fotos: do ratinho, da ratinha, do amigo rato, dos outros parentes... sim, tinha um monte deles naqueles matinhos. Eu até comentei com aquele velhinho: "Vem gente do mundo todo pra tirar foto de lá (e apontei a Igreja), e ele tirando foto dos ratinhos". O homem se divertiu quando compramos mais comida pros bichinhos.
Passamos o dia andando e comendo bobagens, meus pés queriam um banho de imersão; voltamos nos arrastando pro apartamento dela. 
Ela não estava. Fui comprar um donut pro bunitinho.
Esperamos, esperamos, esperamos, e nada. Já não aguentávamos mais, comprei outro donut pro Vitor e ele sentou na calçada mesmo. Umas 3 hora depois do combinado, chega a Pilar pedindo perdão: a Lolin tinha parado no hospital. Pensei comigo que, se ela demorasse mais um pouco, seríamos nós que ela teria que procurar no hospital.
Reza a lenda, e a Pilar, que antes de morrer, o tio do Jordi, também Jordi (uma imaginação pra nomes), fez que ele jurasse de pé junto que não deixaria Lolin desamparada e que cuidaria dela. 
E a promessa se cumpriu, todo mundo foi cuidar dela, e ninguém de nós.
Maria Dolores era o nome verdadeira de Lolin que se casou com um catalão, mesmo sendo uma murciana. Deve ter sido um escândalo na família, como foi quando o rei Eduardo VIII; mas imagina um rei torto: era ele.
Gostava de mulheres mais velhas e casadas, e acabou abdicando da coroa por causa de uma 2X divorciada americana que, pelo que dizem as más línguas, era quem segurava o chicotinho da relação. Se não bastasse, ele era, supostamente, simpatizante com o nazismo e, por isso, foi designado governador das Bahamas. Mas ela, que não era boba nem nada, preferiu acabar seus dias na noite boêmia da França que catando coquinho no Caribe. Esse escolheu a dedo. hihihi
Então... 
O que lembro de Lolin era de uma mulher loira, parecendo a Farrah Fawcett espanhola, muito bonita; mas com voz grossa de homem. Aff Falava pelos cotovelos e também gesticulava muito. E, quando novinha, recém chegada de Múrcia, foi trabalhar na Canjorba. Imagina o antigo Mapping, ou o Corte Inglés, nos seus primórdios... acho que ela caixa lá. E foi conquistada pelo olhar apaixonado de Jordi: um mancebo, magrelo, narigudo e 10 anos mais novo. Pelo menos ela não era casada.
Dessa relação não surtiram filhos, mas pelo que meu vô Enric falava, eles tinham dinheiro. Jordi, o marido, morreu do coração, e Jordi, o sobrinho, tinha ganho de presente a herança e a mulher do tio: já meio senil e sem muita firmeza nas pernas. Por isso ela caiu... foi num descuidinho da enfermeira que ela caiu de nuca no chão. Outro milagre do dia: ela não ter morrido.
Pois é... entendemos tudo isso. Pilar se redimiu com o Vitor quando preparou um macarrão cheio de manteiga: coloque uma colher de manteiga no prato e jogue o macarrão escaldante por cima. Misture e fique em forma o resto da vida (forma de bola). A mim, ela me conquistou com uma taça de vinho e sem manteiga no meu macarrão.

03 outubro, 2016

Cabeçuda eu?


Como a gente sempre precisa de uma desculpa pra viajar, arrumamos uma: o batizado da Lilóvsky.
Como o Bibi e a Cacá já foram pro Equador com os meus pais, agora seria a vez do Tico viajar comigo. Eita, dureza que não vamos todos juntos... iremos um dia... (Na verdade, não tínhamos previsão para irmos ainda nessa época, mas como o post foi escrito ANOS depois, já tivemos nossa viagem familiar ao exterior, que foi maravilhosa. Atenção aos capítulos a seguir).
E assim, começa nossa nova aventura.

Depois de algumas horas no avião, você parece um panda preguiçoso lambido por uma vaca... e não adianta ficar horas na cabelereira antes de ir pro aeroporto, porque o glamour dos cachos vai durar somente até a hora do jantar do desgosto dentro da aeronave. A pele vai ficando esbranquiçada, e logo aparecem as olheiras, o seu corpo vai ficando lento, o tempo ganha outra cadência e a sensação é de que só se come e não se gasta energia nenhuma... e nada disso é pior do que acontece com o cabelo: ele vai descendo, vai se transformando numa grande pasta e vai escorrendo até que, quando você menos espera, ele já está todo grudado na testa. Pra quem não vive sem chapinha deve ser uma maravilha, mas no caso das cabelereiras-pirulitos-de-vaca (eu, minha filha, minha mãe, minha yaya... ou seja, uma família inteira femininamente de cabelo escorrido) é catastrófico. Quantas vezes não coloquei uma roupa elegante e desconfortável, comprada somente para o momento da chegada no outro país, e acabo parecendo uma louca imigrante com cara de traficante? Bom... não foram taaaantas vezes assim, afinal... mas também não importa. 
Chegamos por fim em Schiphol, o aeroporto de Amsterdã. 
O meu filho Vitor e eu, a caminho do batizado da Lilóvsky, em Roma, e depois Suiça e Espanha.
Mas que gente chique que eu sou, né?
Em 2007, esse aeroporto foi eleito o melhor da Europa ... era melhor mesmo que fosse muito bom: iríamos ficar ali por 8 horas! O rapazinho que me 'ajudou' a comprar as passagens só não tinha me dito esse pequeno detalhe...
Como a gente não tinha pressa fomos correndo pegar as malas na esteira (eu sou um pouco preocupada de que alguém resolva roubar minhas malas vermelhas da Le Postiche,  recém-compradas em 10X no cartão). Uma certeza eu tinha: se elas não tivessem sumido  na Holanda, no Brasil, ou no caminho entre os dois, pelo menos eu não teria surpresas desagradáveis de que alguém tivesse mexido nas minhas coisas... afinal meu Marids embalou as maravilhosas com aquele plástico etiquetado verde limão super chique e que disseram que vem com chip de localização.
Passou uma, outra, mais um milhão de malas e... por fim... elas! As maravilhosas vermelhas revestidas de plástico verde.
Veio a grande primeiro. Pego como quem não sente o peso das lembrancinhas.
E não é que os fiosdumaégua dos carregadores quebraram a alça metálica retrátil? P@##$%
Vamos esperar a outra... já nem tava tão feliz assim, mas a pequena veio inteira.
Imagine a cena: eu com uma mochila muito mais vermelha que as duas maravilhosas nas costas, as duas maravilhosas sendo arrastadas (porque eram daquelas que tem 3 rodinhas e não precisa tombar pra andar), um menininho bunitinho do meu lado com uma mochila preta nas costas e o Bart Simpson no colo... com um detalhe importantíssimo: eu estava com um sapatinho de salto, que não perco a pose por nada!
Que faremos? Que farofa? Banheiro, é claro.
Dilema na porta do banheiro: mas eu não vou deixar o meu bichinho entrar sozinho no banheiro dos homens e ser abduzido por nenhum chupa-cabra-maníaco-assintomático-europeu. "Não, senhor... você vai comigo no das mulheres."
Ele quis a morte, mas ele também tinha medo da Loira do Banheiro (e loiras aqui são muito comum, sabe?). Entramos.
Fui na frente e vi que não existia vivalma.
"Rápido, Vitor... pro último banheiro" Por sorte a cela pipictórica era bem grande e, enquanto eu fazia xixi, ele olhava pro outro lado. Vice-versa, of course.
Saí pra dar aquela arrumadinha no visual. Tô lá me maquiando, escovando as madeixas e, só dá gente entrando... espio que, lá da última cela, uns olhinhos espiam também tudo com pesar... acho que ele se perguntava em como sair dali sem chamar atenção.
Na hora de ir embora, chamo o bichinho... nada... vou até lá... ele se recusa a sair com tanta mulher (umas duas) por ali. Ficamos uns minutinhos dialogando, quando saí, vi uma mulher desconfiada me olhar... dali a pouco sai ele, com um pano cobrindo os olhos e me segurando pra saber por onde andar. Nem morto que ele ia ficar olhando mulheres num banheiro de mulher. Até a mulher riu.
Bom, que faremos agora de novo? Taí uma pergunta que não me abandonou por um tempão. Comer, é claro.
Dentre tantas opções, o tanqueirinha-mor queria o quê? Um McDonald's. Tentei explicar que o gosto era igual no mundo inteiro porque se tratava de uma comida em pasta modeladacom formato de hamburguer, mas que nada! Ele queria ter certeza e tirar a prova dos nove. Vamos, né? Afinal eu já estava com dozinha dele por tudo que ele já tinha passado e ainda passaria... culpa minha, não dele de ficarmos ainda tanto tempo ali. Aliás, culpa do operador da agência de viagem, mas deixa pra lá.
O piso do aeroporto todo era um piso frio... mas, não sei por que cargas d'água, BEM NA FRENTE DO MCDONALD'S existia um pedaço de piso de madeira... pra dar um charme, né?... mas foi bem ali que eu fui pro chão, espatifei, fiquei feito um ovo estalado, esparramado, com os cascos pra cima e toda a dignidade pra baixo. Fez um barulho do cão e isso muito me preocupou, afinal, primeiro mundo devia ter medo de atentado e nada mais discreto do que um ser como eu, acima de qualquer suspeita, para ser uma mulher-bomba... atenção, inhorantes: mulher-bomba; nunca mulher-canhão!
Só não fiquei com mais vergonha do que a vergonha que eu fiz o Tiquinho passar; mas ele manteve a pose e me acudiu, e ainda olhou o meu joelho e cuidou de mim.
Depois daquele incidente, quem levava as malas era ele, e quem dizia por onde ir também......... :P
O esquema da comida era um pouco diferente porque a gente pedia primeiro e ia com a comida no check-out (caixa) pagar. Como aqui a gente paga primeiro e depois pega a comida, deixei a comida lá, fui pagar, vi as pessoas com a comida pagando, voltei pra pegar o lanche e paguei. E atenção: Isso tudo sem mancar depois do tombo na frente de todos eles. Pois é... ninguém me acudiu, mas devem ter me achado um pouco estranha. 
Estranhos são eles, povo branco e de cabelo amarelinho (ainda que nem todos fossem assim).
Bom... depois de comer, fomos andar. 
Nós dois e as malas andamos muito. Por sorte,por sorte o aeroporto era grande e tinha muita coisa pra fazer.
Lojas, bares, banheiros, chaveirinhos de tamancos. Gente comendo, conversando, gente bonita no geral... e nós andando. As lojas eram pequenas e sem muito atrativo para nós, porque eram roupas, artigos de luxo, jóias, relógios. Que a gente ia querer?
Depois de andar muito e mapear todo o lugar (estava me sentindo naquele filme: "O Terminal", com Tom Hanks), já sabíamos onde comer, onde ficavam os guardinhas e que tinha uma funcionária da limpeza que era mal-humorada, como no filme.
Ela não nos deixou ficar numas cadeiras porque ela ia limpar. Claro, demos razão a ela, saímos... mas depois vimos que a grande limpeza dela não passava de um paninho muito do mal passado e enxaguado numa água suja pra burro. Começamos a rir porque, pra fazer uma porquice daquelas a gente podia ter ficado onde estava mesmo; ela percebeu, falou algo que a gente não entendeu com um outro lá, mas nos vingamos falando mal dela em uma língua que ela também não entendia: a nossa! E rimos de novo.
Passamos por uns restaurantes chiques e achei que tinha visto um mafioso. Melhor sair dali.
Fomos num espaço tipo galeria de arte aberta com pessoas sentadas em bancos psicodélicos. Eram umas pessoas estranhas com jeito esquisito, saímos de lá também.
De tanto que andamos, ficamos cansados, e a dor de garganta de quando saímos do avião começou a querer ficar pra sempre, e se manifestar. Caramba... melhor comprar um remédio.
E agora? Como comprar anti-inflamatório sem falar nem o meu inglês macarrônico? Cadê uma farmácia? Bom... existia uma drogaria lá do outro lado de onde a gente acabara de vir. Toca voltar. Chegamos feito retirantes: cansados, com sede, arrastando os pés e, tenho certeza, se a gente levantasse a palma da mão, davam uns trocadinhos.
Entramos, mas era uma perfumaria... tinha de tudo: cosmético, fragrâncias, desodorantes, protetor solar... cadê os remédios? O Tico me mostrou, mas eu não consegui escolher qual. Vamos procurar mais. 
Dali a pouco, o bichinho sumiu. Dali outro pouco, chega ele e uma moça com um remédio na mão: ele já tinha explicado que eu, a mãe dele, estava com dor de garganta e ela havia pego o remédio, no mesmo monte que ele tinha me mostrado antes.
Ele cuidou de mim. Que gracinha.




Olha a farmácia aí ------------>




Quando saímos de lá, paramos numa loja de brinquedos. Comprei um lego que se transformava num barco-anfíbio, num helicóptero ou num avião super-sônico.
Descobrimos, depois de somente umas 3 horas, que tinham poucos lugares pra gente ficar.
Fomos pro mais quietinho, na parte de cima. Era legal porque eram cadeiras de dormir, colocadas em duplas, viradas para o vão do pé direito duplo do hall principal.
Tinha gente dormindo, com as malas largadas perto das pernas, mas não tinha um par de cadeiras juntas sobrando... esse povo não tinha medo de ser roubado. Ficamos numas mesas ali perto, pelo menos o Tico montou e desmanchou o lego várias vezes.
Cansei de descansar, vamos andar. 
Nós e as malas andamos muito de novo. Por azar, o aeroporto não era tão grande assim e não tinha mesmo muita coisa pra fazer.
A internet gratuita não funcionava, então compramos, num bar, acesso por meia hora... queria dizer que ainda estávamos vivos e bem. Até o barman ficou com dozinha do Vitor, do jeito como ele me tratava e me ajudava, e deu um agrado a ele: um desses brindes gratuitos da cerveja Heineken. Era um radinho AM FM em formato de bola de futebol, com uma fita pra colocar em volta do pescoço e  fones de ouvido. O homem foi tão gentil que não tivemos coragem de dizer que o radinho não funcionava... quando chegasse no Brasil ia ver se eram as pilhas, mas não vi até hoje.
Num outro lugar, aquele que a internet grátis não pegava, estávamos comendo alguma coisa quando vimos, na mesa do lado, uma mãe e duas filhas comendo também. A menina mais nova estava de pijama cor-de-rosa... hihihi... sim, pijama. Eita, povo esquisito.
Quando conseguimos sentar numa daquelas cadeiras de descanso, vi um árabe dormindo. Ele tinha muito jeito e cor do deserto, e usava turbante. Tinha uma mala de couro bem bonita, mas não parecia que tinha muito dinheiro, não.
Quando dei por mim, já estava na hora ... ALELUIA ... vamos pro embarque de novo.
Chegamos, por fim, ao nosso gate, quase correndo, que eu só não posso perder esse avião e ficar mais meia hora sequer nesse aeroporto de novo.
Ainda bem que tinha bastante tempo porque andamos pra dedeu. Descemos umas escadas e pronto! Agora era esperar o avião abrir as portas.
Que vontade de ir no banheiro.
Toca subir tudo de novo (e com as malas na mão, porque não tinha escada rolante) pra voltar de novo lá pra baixo pra pegar o avião.
Quando deu tudo certo, abriram os portões... e fomos a pé pro avião, andando pela pista, no meio dos carrinhos de malas e outras aeronaves.
A última vez que eu andei na pista pra pegar um avião, quase morri... mas isso é outra história.

12 julho, 2016

Como os anjos nascem




O sentimento era de total desespero, um fogo que comia o peito e que, apesar de todo preenchido pelas chamas, ainda ardia com num vazio desolador. Certamente ele fora um covarde; é claro que ele poderia ter tirado aquela criança de lá, se não tivesse sido covarde daquele jeito. O touro já não importava mais... uma vida tinha ido. E a culpa era dele... ele não chegou a tempo... eu não cheguei a tempo.
Retrocedendo um pouco a cena, é possível ver uma casa numa parte mais elevada de um terreno quase plano. Ela era toda em madeira, desde as paredes até o telhado, toda muito rústica, e com uma grande varanda na frente. A porta se abre e o homem, de uns 38 anos, sai de dentro dela. É um entardecer, mas ele parece estar sorrindo, e olha para frente, na minha direção.
Ele vê a menina, uns 4 anos, novinha e inocente, e ela vai entrar na baia onde o touro esta. Esta baia não é grande, é estreita e comprida, feita por toras de pinheiro.
É como se eu estivesse no epicentro de um furação porque ele olhava na minha direção, com uma expressão muito diferente de quando saiu da casa, ele abana e grita, então sai correndo, em disparada para algum lugar bem à minha esquerda. Ele não me vê; eu não me viro de novo para ver a cena, e todo o mal segue seu curso, como antes.
Avançando para uma hora depois de tudo que aconteceu, ele ainda está lá, largado no chão da sua casa, inconformado, tentando entender e querendo que aquilo nunca tivesse acontecido. Agora ele carregaria aquilo para sempre.
Seu rosto já não chorava, ele estava em estado de choque, o tempo não passava.
Eu fui até ele, e eu sentia tudo que ele estava sentindo porque ele era eu também. Fiquei bem na sua frente, e tentei falar que ele não tivera culpa, que ele poderia superar tudo aquilo... tentei falar muitas coisas, mas nem as palavras saiam. Ele me olhava mas não me via, não me sentia, era como se eu não estivesse ali; mas eu, ao contrário, sabia e sentia tudo que passava dentro dele.
Num acesso imenso de amor que eu tive por aquele ser em profundo sofrimento, e sabendo que nada do que eu falasse seria possível confortá-lo, eu o abracei por cima de suas costas e disse, com convicção: "Eu vou cuidar de você".
Nessa hora, eu já não era o homem e nem a pessoa disposta a ajudá-lo, mas um observador externo e a cena que eu vi era de uma anjo abraçando alguém.
Eu entendi o 'SOMOS UM', e presenciei o nascimento de um anjo.
Ainda que não fique conectada àquele ser o tempo todo, sei que uma parte de mim ficou com ele, e que ele cuidará do outro.

11 julho, 2016

Eu? Jamais!



Um capítulo à parte para a nossa ida ao Guarujá.
Rebobinando...
Quinta-feira - Helena, a articuladora cuidadora do meu tio, liga e diz que o homem foi internado porque não fazia xixi: Inflamação dasbraba. 
Minha mãe aqui, em Ribs, pro meu niver da sexta.
Sexta - Helena, a desesperada amiga do meu tio, chora porque ele está com insuficiência renal.
" Também... O S'Enrique não toma água. Só bebe suco e come fruta, e diz que a fruta tem água." (Helena)
"Você acha melhor eu ir aí?" (Mãe)
"Não, Dona Montserrat, só dá mesmo pra dormir uma pessoa com ele no quarto, e tem que ter força pra levantar o homem. A senhora ia ficar sem fazer nada aqui" (Helena)
"Bom, vamos nos falando, então" (Mãe)
Sábado - Estamos meu Bãrids e eu na Neuzelaine quando a Carol me liga, e segue diálogo:
"Mãe, a yaya disse que a Helena ligou e disse que o tio pode morrer a qualquer hora e que era melhor ela ir lá ver o irmão" (Carol)
"Dãhhhh?" (oi?)
"Ela quer saber se você vai com ela" (Carol)
Pouco tempo depois, minha mã, meu Bãrids e eu estávamos indo pro litoral.
No caminho, já sabíamos que o estado não estava tão ruim assim. Meu irmão, que tinha ido no dia anterior com meu pai, disse que ele estava xingando bastante, então não estava tão ruim assim.
Pois é, a mulher que a Helena arrumou pra passar a noite com ele era a manicure que cuidava do pé dele e disse que ele foi uma crica do cão. Que não conseguiu dormir nada, que ele só resmungava, que não saia xixi, que ela era 'muy amiga' de arrumar essa casca de ferida pra ela, e outros 'quês' infinitos. Foi a manicure que achou que o meu tio estava tendo um surto xingatórico de morte-não-súbita e que, em vista desse quadro, só havia uma saída: abotoar o terno de madeira.
Ai, tem dó, né, doida? 
Só não foi pior porque ele ficou bem feliz de ver a gente, quero dizer, o Lemão e eu, porque a minha mãe ele nem olhava: a braveza veio porque a Helena, a estrategista, bota toda culpa na minha mãe pra ela se safar. "Mas foi a D. Montserrat que mandou isso..."
Enquanto estávamos lá, ela veio com uma história que revistaram as nossas bolsas pra não entrar cigarros no hospital.
Em minutos, o quarto virou uma farra. Era a Helena e minha mãe de um lado, meu marido no celular, e eu com meu tio de outro.
Quando já era hora de sair, perto das 20h, chega a Camila, sobrinha da Helena, trazendo a enfermeira da noite.
E ele pedindo cigarro pra ela, que fumava também.
Todo mundo dizendo que não podia, e blá, blá, blá. Eu fiquei com dó, porque o bichinho estava na abstinência desde quinta. Pra quem fumava um maço por dia...
No dia seguinte, soubemos da noite anterior.
A Camila tinha dado um cigarro escondido, que ele fumou no banheiro (provavelmente jogando a fumaça direto na janela, que ele é velhinho mas não é nada bobo). Mama nia, e a enfermeira? Ela resolveu acobertar a arte dele, porque não tinha jeito mesmo, e começou a borrifar perfume, que ela trazia na bolsa, pelo quarto todo.
Entrou uma enfermeira da enfermagem, torceu o nariz e perguntou se ela fumava.
"Claro que não! Eu também sou enfermeira, sei que não pode ..." acho que foi aí que ela conquistou ele, que devia estar naquela posição de velhinho indefeso e olhar inseguro de que a vida foi mal com ele. Que artista!
Dali um outro tanto de tempo, entraram dois seguranças reclamando que tinha cheiro de cigarro, e o único paciente que fumava naquele andar, era quem? O próprio.
Diz ela que, nessa hora, o cheiro já tinha sumido bem, então não deu pra afirmar que era dali.
Lembrei de uma história que o Josep, ou Papito, primo da minha mãe contou, de uma época que ele ficava na casa da minha yaya, em Barcelona: um dia meu avô Enric jogou um vaso com planta e tudo pra acertar o meu tio que estava mais abaixo do terraço porque ele voltava tarde da gandaia, e não adiantava mais brigar... aí ele tentou métodos novos. Sorte que não acertou a cabeça, e acho que nem o orgulho, porque ele continuou.
Com o meu tio razoavelmente bem, minha mãe foi na missa, e meu marido e eu fomos andar, antes de irmos ao hospital de novo.
Saímos de uma ponta da Praia de Pitangueiras e fomos ao final da Praia de Astúrias. 
O problema não foi nem a puxada de um milhão de quilometros que fizemos, mas eu não fui preparada para caminhadas, e eu tinha uma botinha maior que meu pé e com salto anabela.
Pensa numa pessoa torta que não entrega a pose. Ai, meus calos.
Quando chegamos no hospital, ele dormia como um bebê.
Não tinha dormido até as 4 da madrugada, e ficou contando toda a sua história de vida pra enfermeira que encobriu a arte dele do dia anterior.



Na época em que vacas voavam




Todo mundo sabe que pescador é um ser que tem na genética cromossômica supercalifragilística um 'quezinho' de mentira (ô pai, nem tô falando de você... sua época de pantanal já foi, né? Tudo é fase na vida)... então, mas uns pescadores foram presos por causa disso, e pasmem: nem eram portugas ou gregos... eram japoneses!!! Que feio, Terra do Sol.
Eles foram resgatados do mar enquanto seguravam nos destroços do barco que já chamaram de seu e, quando perguntados o que aconteceu, disseram que foram acertados em cheio por uma vaca que caiu do céu. Todo mundo pra cadeia... eles só podiam querer dar um tomé na seguradora. Vai que eles tinham feito seguro do barco contra mamíferos leiteiros alados, ou queriam notoriedade para virar filme hollywodiano. Pois é, não aconteceu nem uma coisa nem outra, mas como consolo, virou um filme arrentino, o 'Un Cuento Chino' (devo admitir, é arrentino mas é muuuito bom). Duas semanas depois do ocorrido, a notícia dos japinhas presos deve ter chegado à Russia e que, com o coração mole e a garganta molhada de vodca que somente Bóris Yéltsin teve, o governo russo admitiu: alguns tripulantes de um avião cargueiro da força aérea russa roubaram uma vaca que pastava próxima a um campo de pouso na Sibéria. Aparentemente, eles a pegaram para ter carne fresca por um tempo; mas, como não eram preparados para o transporte de carga viva, a bichinha ficou claustrofóbica e começou a se debater violentamente buscando um pouquinho de ar. Ela pode ter pensado, também, que fora abduzida por extraterrestres... muitos seres de duas pernas juram isso ainda nos dias de hoje.
Sem ter muito o que fazer, abriram a comporta e lá se foi a Mimosa voadora. Devem ter olhado para aquele monte de picanha indo ladeira abaixo. Triste para eles, e pior para ela. Estavam sobre o Mar do Japão. Mas, se eles saiam da Sibéria, pra onde estariam indo pra passar sobre o Mar do Japão? Pro Hawai? Porque pra Moscou é que não era.
Agora, se vocês, caros leitores assíduos e persistentes, pensam que vacas voam somente no exterior, estão redondamente enganados. Há um município, até bem perto de Ferraz que já existia na época das vacas voadoras. E elas não caiam, não... elas voavam. E quando soltavam fertilizante do céu, este caia e o som quando chegava ao chão era: POÁ. Nascia uma cidade.
Mas nada se compara a fazer aniversário numa data como a que eu faço: 8 de Julho.
Eu que sempre quis, de pequena, um niver alegre e quentinho, tinha que me contentar em brincar de esconde-esconde de esquimó, tanto era o frio que se fazia. A coisa boa é que tinha morango no meu bolo. E eu queria de chocolate. Tudo bem, mãe. Eu te entendo.
O do ano de 2.014 (aposto que nenhum brasileiro se lembra mais que houve uma Copa do Mundo por aqui) foi, digamos, marcante; o de 2.015 foi maravilhoso porque tive Petit Gâteau com parabéns cantado e acompanhado de um acordeon numa cantina daqui de Ribeirão. Só não foi mais legal porque lá é muito caro e o Vitor não foi. Animalzinho ocupado.
Mas este aniversário não tivemos muita escolha: fomos num restaurante japonês. A Lei Divina é maravilhosa porque eu estava programando ir no japa só no sábado (mal sabia que teríamos que ir ao Guarujá porque disseram que o tio Enrique estava indo dessa para melhor), então qual a solução? Um carro branco, num desenho que não favorecia o ocorrido, bateu num poste de energia elétrica, e derrubou-o: ele e outros dois postes. Ficamos sem luz até as 22h. Ou seja, fomos jantar sushi, sem sequer tomar banho. 
Pelo menos estava frio também.

09 julho, 2016

Acabe-ei, acabe-ei ...



Por que tanta felicidade por acabar de escrever uma viagem? Porque ela aconteceu a QUATRO ANOS ATRÁS!!!
Já aconteceram tantas outras: Peru, Chile, outra pra Espanha, Suíça e Itália; e, por fim, esta está no fim.
Eis o motivo da alegria. É como o fim de uma era: a Era do Atrasado.
Vou escrever rapidinho todas as outras e aí, sim... a liberdade sonhada.

Meu Bãrids toca 'O Pato' no violão, o Bibi toca 'Fantasma da Ópera' no piano, a Kátia Flávia pinta a óleo, a natureza morta; e o Vituim faz decalque de papel em madeira, dentre tantas outras habilidades... Uma família de artistas, como se fosse possível não ser, afinal temos algum sanguinho de Josep Carreras, Monstserrat Caballé, Gaudí, Miró, Dalí, Picasso... esse último tem que falar bem baixinho porque o filho-da-mãe não é catalão, descobri só hoje. Afff. Aliás, antes que alguém fale, o meu Marids não tem sanguinho catalão, mas a convivência comigo foi uma benção pra ele, virou artista: dança o dia inteiro (hihihi).  Descobri, hoje, também que o meu outro querido, o Calatrava usava demais o arco parabólico quaternário, assim como Gaudí, uma forma muito comum na natureza, pois usa o desenho das forças da gravidade para sua própria formulação. Já me sinto uma gênia por saber tudo isso.
Tentei entender Gaudí: de família meio pobre, não morreu rico; morreu, sim, atropelado e solteiro, casquinha de ferida por ser politicamente um verdadeiro catalão, e corre o risco de ser beatificado pelo Papa. Nada mal... mas fiquei pensando o que a sua mãe sofria por ele.
Fomos ao Parc Güell, no nosso último dia de Espanha... meu, pelo menos.
Naquela época de quando a gente era pequeno, lá em Barbacena do Norte, também viemos a este parque, e quer saber? Não mudou nadica de nada e, pelo que eu me lembro, nem o entorno.
Quando a minha mãe era pequena, porque mães já foram pequenas por mais estranho que possa parecer, ela ia para a escola OU pelo caminho da favelinha de Cambaru, que tinha gente boa e uma escadaria da Penha; [pausa - afinal, como toda boa lei de Murphy, ela morava num lado do Mont Carmel (Carrer Montserrat de Casanovas, 215) e, é claro que o Col.legi N. S. das Graças, ficava no pé do outro lado do morro,numa pracinha que só existe na cabeça da minha mãe, a praça Sanllehy, que eu acho que era o Parc de les Aigües - despausa]; OU cortando caminho pelo Parc Güell, que era o caminho mais comprido... então não sei como uma pessoa pode cortar caminho por ali. E, o Parc Güell era um parque do povo local, o povo pobre que morava por ali, e se reuniam de domingo naquele lugar meio bizarro, a la Gaudí, para dançar Sardana e fazer piquenique.
Nós fomos de metro e andamos até as tripas sairem pelo umbigo, num terreno íngreme, cheio de matinhos parecidos com a vegetação do nosso cerrado, e uma terra arenosa da chapuleta que nos deixava com o suor grudado no corpo pela poeira. Uma verdadeira delícia de óleo de fígado de bacalhau. Agora, se é assim em tempos atuais, com vendedor ambulante vendendo garrafinha a torto e a direito, imagina na época dos piqueniques... Pois é.
A D. Mont conta que a casa do Carmel era linda pois quem construiu era o dono de uma marmoraria, então tinha muito mármore pela casa toda. Claro que tinha mármore também no sótão, onde eles moravam, mas hoje tem um predinho muito do sem graça.
Eu adoraria ver aquela casa, mas imagino que para as pessoas da redondeza era só uma casa velha que deu oportunidade a mais pessoas morarem lá. E quem vendeu a propriedade foi a Magda, herdeira da Justa, a tia dona da dessa casa.
As fotos, fico devendo: perderam-se no tempo. Isso que dá demorar tanto. Snif.
Dalí, fomos direto pra casa da Pilar pra uma despedida regada a vinho e tapas... e quando digo direto, é porque foi mesmo: saímos atrasados e nem deu tempo de tomar um banhinho no nosso hostal (sabe aquele abraço meio de longe? foi o que rolou lá).