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30 junho, 2016

Larga, Totó



Existe um homem feliz e ele tem uma namorada brasileira.
Não... não estou falando daquele super-homem-feliz-que-casou-comigo, não. Falo de taxista de Barcelona.
Quando já estava voltando para Portugaile, porque comprei passagens de ida e volta, então para voltar para meus filhos, tive que voltar para a terra dos gaijos... e lá estava ele: acho que ia pra Brasil também. Quem sabe não voltaríamos no mesmo voo?
Se eu não fosse tão discreta, teria até tirado uma fotinha do casal: Ele, um loiro carequinha (loiros carecas costumam ser pessoas bem felizes), e uma mulata bem bonitona até. Pegamos o mesmo ônibus do terminal até o avião para a Terrinha.
Se não era ele, era irmão gêmeo; e se não era ele, por que ele olhava tanto pra mim com aquele mulherão do lado? Bom, pode ser porque eu não tirava o olho dele Não leia isso, Marido... mas era por uma boa causa: eu estava conversando em pensamentos.
Ele pensava assim:
"Olha... será aquela mulher que levei pra ver aquela casa inexistente do mapa?"
Aí, eu respondia, pensando, assim:
"Sim, mas sou eu mesma. E você? já está voltando pro Brasil? Cadê seu sotaque, capeta?"
"São tantos anos aqui em Barcelona, que peguei o sotaque espanhol" (porque não era catalão, não).
"Quando a gente falou que era do Brasil, você não disse nada, né, safadinho?"
"Bom, a conversa está muito cabeça, mas deixa eu dar uma atenção aqui pra minha noiva, porque ela veio aqui me buscar pra conhecer a família dela... vamos nos casar no Brasil, e comer muita feijoada, viu?"
"Ah, tá bom... Felicidades ao casal!"
Foi assim o nosso papinho.
Depois daquele ônibus, não vi mais a dupla.
Mas tudo começou dois dias atrás, quando fomos ver a casa que meu bisavô tinha em Barcelona.
Casa inexistente porque parecia enredo de filme: uma casa que meu bisavô, pai do meu avô Enric, morava sozinho com uma empregada que tomava conta dele. Dizem até que tomava conta bem pra caramba. Tanto que, depois da morte dele, ela poderia ficar por uso-e-fruto até sua morte... a dela, mas sei que ela estava lá a uns bons anos e ainda tinha filho e tudo morando com ela.
Fomos o meu pai, o Marcos, o Cinho e eu... com esse taxista.
Que viagem longa. Enquanto minha mãe passava a tarde com as mulheres, no Corte Inglés, fomos nós nos aventurar pela cidade de Barcelona rumo a um pedaço de passado nosso. Começamos saindo do centro, depois fomos saindo da cidade, indo para a periferia, prédios habitacionais num conglomerado enorme de conjunto habitacional, com os apartamentos pequenos... nada diferente da Cohab da vida daqui. E a gente ia, ia, ia, e nada.
Meu pai e o Marcos, desconfiados como somente eles são, decidiram iniciar o aplicativo de GPS do celular para constatar o caminho que o taxista fazia. Não era possível, ele só podia estar dando voltas pra chegar na casa que devia ficar ali na esquina.
No dia anterior (o mesmo que fechamos com chave de ouro: 'Restaurant 7 Portes', e por que 7 Portas? Porque tinha 7 Portas o restaurante... muito inteligente), havíamos ido numa reunião no escritório do Jordi: uma salinha bem derrubadinha, num prédio antigo do antigo Barri Gòtic, perto da catedral de Barcelona, na Av. Portal de l' Àngel. Sei disso porque eles foram na frente enquanto eu comprava a paella do meu marido. Paelleiro de quase mão cheia. O interessante ali foi ver a mala original, do meu pai do meu avô. Grande coisa, também... vermelha, mofada e velha, com papéis antigos dentro.
Quando cheguei, tinha advogada e tudo, e a ideia que o nosso primo cara de pau queria nos fazer engolir guela abaixo era que ele precisava de uma procuração com plenos poderes para gerenciar esse bem imobiliário, uma vez que a casa seria desapropriada por causa que o governo (sempre ele... si hay govierno, jo soy contra) queria implantar ali uma praça. Depois, não sei muito bem como, o contexto era outro: eles queriam a casa para que uma das filhas da irmã, Maria Pilar, pudesse morar porque ia fazer faculdade em Barcelona.
Bom, se ela ia fazer faculdade lá, e tinha que ser um lugar menos longe do que vir de Bellver, então onde que esse cabrón estava nos levando? A casa estava ficando longe demais.
Acho que teve uma hora que o taxista se encheu, parou o carro num semáforo vermelho numa rua (até que com muito trânsito), ao pé de um viaduto, foi no porta-malas, pelou uma trena de fita de uns 7 metros e começou a medir da ponta do carro o tanto que a trena ia, depois foi até a marca imaginária marcada, e marcou mais 7 metros... imagina uma pessoa doida. Então... sorte que o semáforo demorou pra abrir.
E a gente: "Onde que esse caraito vai?" (Bom, quem falou isso aí foi o meu pai). O Marcos não se aguentou e foi tirar satisfação.
Quando o taxista entrou ele disse que estava conferindo o que a maquininha falava que faltava.
Gente, ou ele era português transfigurado de espanhol, ou era brasileiro com parentes na terrinha. Mas foi bom, porque mudou o clima.
Perguntamos se ele morava longe dali, e percebi que ele não queria falar disso; perguntamos como foi a vinda dele pra Barcelona, e ele desconversou; aí, ele começou a virar o jogo, e perguntou o que fazíamos lá, indo pra um lugar sem atrativos turísticos. Contamos,  falamos, aquietamos, e ainda não chegamos.
Acredite se quiser------------------------------>
Quando chegamos, nós nem acreditamos.
A rua, propriamente dita, estava meio baixo astral, mas os arredores estavam bem cheios de vida e eram bem legais de se morar: era um bairro auto-suficiente. Em nada parecia que aquele morro ia virar uma praça, isso até pode acontecer mas acho difícil.


Próximo passo: cadê a dita cuja da casa?
Caláro que foram direto no mais acabado, mulambento e abandonado casebre da rua toda; afinal era uma senhorinha velhinha e pobre que não tem dinheiro e que mora de favor na casa que era de um velhinho que era pobrinho também. Qual não foi a nossa surpresa ao constatar que era um terreno enorme e uma casa amarelinha bem bonitinha.
E aí? Batemos ou não?
Eu queria muito falar com a mulher e saber um pouco mais da vida do meu bisô, mas fui voto vencido e com bons argumentos: imagina chegar um bando de donos da casa, desenterrando um passado e bagunçando todo o futuro? Tá bom... vamos embora.
Demorou uma eternidade pra chegar e não demoramos nada. A constatação foi única: a casa existe e fica na Carrer Natzaret, 57.






29 junho, 2016

Nada é impossível!



Superei muitas coisas nessas viagens que fiz: o banco apertado, por horas, do avião (nada de glamour como eu pensava quando era pequena), o inglês arretado (o meu, claro), os tombos (fica quieto,Vitor!), as comidas boas, as pessoas estranhas (mas interessantíssimas) que esbarramos pelo caminho, as histórias... Viajar é bom, mas voltar pra contar é melhor.
Quando me vi, estava lá eu em Barcelona, com aquele sotaquinho familiar e um monte de coisas, fora do meu controle, acontecendo. Eu era uma turista! Enfim, uma definição de mim mesma para chamar de minha.




Vi uma moça tirando foto na frente da loja de vestidos tipicamente flamencos (nada a ver com Catalunya, mas que se dane... turista, pode!), quando íamos tomar café da manhã, ou o 'esmozar'.




Algumas pessoas me marcaram de uma forma impressionante, e uma delas foi o meu irmão Cinho. Affffff..... quando você tem a oportunidade de ver a irmã gêmea do Mister Bean? EU VI !!! Ela era atendente de uma lojinha de bugigangas que ninguém compra (tipo bússula velha numa loja empoeirada para turistas), bem na esquina da Plaza de Catalunya, onde tudo acontece, com o começo das Ramblas, onde tudo acontecia segundo a minha yaya. Lá era o point. Mas o meu irmão não quis fazer uma pose dentro da loja para eu tirar uma foto dela por trás. Que chato ele, não?
Por outro lado, tirei a foto da costureira d'Os Incríveis, a Edna:






Ao vivo, parecia até mais.
Mas nessas viagens nem tudo são emoções felizes. Na mesma esquina da loja de quinquilharias da irmã do Mr. Bean, na calçada, estavam dois imigrantes que poderiam ser árabes ou turcos, algemados ao lado de policiais esperando para serem deportados.
Nessas situações, não há despedidas de quem fica, não se pega pertences escondidos em algum casebre no fundo da periferia. Só se perde uma vida.
De início, tanto meu irmão e eu não havíamos percebido e ficamos esperando o resto da família até bem perto deles. Quando vi, um deles nos olhava com aquela sensação de que nós éramos bem quistos lá, ainda que não oriundos de lá (falávamos em português), mas éramos felizes e com uma vida boa. Diferente da dele.
Outro episódio muito triste foi na despedida do nosso primo Josép, nas ramblas também, quando estávamos somente o Vitor e eu.
Vínhamos conversando todos nós, mais a Pilar, que nos acompanhava.
Estava frio e já escuro, com uma quase garoa fina e, no chão, encolhido com a cabeça no meio das pernas, um garoto que devia ter uns 20 anos, chorando copiosamente. Provavelmente ele era pedinte mal-sucedido, por ser um turista-mochileiro-sem-grana... essa foi a impressão que eu tive. E fiquei de coração apertado. Será que a família dele sabia o que ele estava passando? Parecia um choro de 'o que eu vim fazer aqui e por quê?'.