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28 dezembro, 2011

A Saga de toda uma Famíla.


Teresa e Miguel tinham três filhos: Domingos, João e Maria; e esperavam mais uma menina, Júlia. As crianças eram pequenas e todos muito pobres... mas era, também, a época da gripe espanhola, lá pelos idos dos anos de 1920 ou 30.

[PAUSA PENSATIVA: Tão estranho pra mim pensar que teve gente vivendo nessa época... parece que, antigamente, somente as pessoas dos livros e dos filmes eram verdadeiramente as únicas sobreviventes desse período. Ironicamente a dos filmes são as mais irreais possíveis. Pois é... Parentes meus não só viveram como pareciam seres apaixonados, do tipo até que a morte os separe... e estou falando aqui de portugueses, pessoas que sempre me pareceram criaturas brutas e de coração frio... pelo menos os antigos. DESPAUSA]

Ana não podia ter Júlia com parteira, como era de costume e, então, foi para o hospital. A menina nasceu, os dias passavam e nada do marido vir vê-lá.
Teresa, inconformada, dizia: "quero ver meu marido. Por que ele não vem? Ele não me deixaria aqui sem me visitar... Se ele não vem, só pode estar morto."
Ninguém lhe dizia a verdade porque temiam pela sua convalescência... seu marido Miguel realmente estava morto, vítima da cólera. Ela se recusava a comer, enquanto não visse o marido... e acabou morrendo também.
Diz meu pai que morreu de saudade.
Eu não acredito que uma mãe, por mais amor que sinta por seu marido, prefira morrer e deixar quatro filhos perdidos no mundo. Por outro lado, imagino que podia ser mais fácil para as crianças, completamente órfãs, serem adotadas por outro casal; do que continuarem filhos de uma viúva...
Naquele tempo precedente da guerra e cheio de epidemia, sobraria a mendicância, na melhor das hipóteses... ainda assim, imagino que não deve ter sido uma escolha, mas sim uma fatalidade.
Como começou a história de amor deles, isso eu não sei... pois afinal a lenda diz que eles eram como unha e carne... não se desgrudavam e eram muito unidos... mas ela terminou de forma drástica e com os meninos sendo criados pela avó; e as meninas, por outra família, da madrinha Luciana (que lá, quem não era pai ou mãe, era padrinho ou madrinha). Se isso, por si só, já parecia inacreditável (porém aceitável em vista da situação); acabou virando desumano, ao pensar que eles não sabiam da existência uns dos outros, ainda que morando no mesmo 'bairro' (a Pousa não é grande nem hoje em dia... não sei como nunca se cruzaram por lá).
A Madrinha Maria nos contou, naquele dia em que estávamos na sua antiga casa, que uma vez ela e a irmã estavam brincando na rua quando uma vizinha (que bem podia ser eu, se eu fosse contemporânea da véinha... e podem me chamar de fofoqueira, nem tô!) lhe disse que elas tinham da irmãos.
"Não, senhora... não temos, não", ela disse.
"Tem sim... E já são moços", caguetou a mulher, "se quiser saber mais, pergunte pra Madrinha Luciana.
Madrinha Maria disse que voltou correndo para a tal fulana e ficou a tarde toda perguntando se era verdade e se podiam conhecer os irmãos. Por fim, ela concordou e levou as meninas... eles estavam super perto delas... bastavam subir o morrinho da frente.
"Mas, Madrinha Maria, a senhora nunca passeava por lá? Nunca se conheceram, mesmo sem saber que eram irmãos?", tá bom... sou curiosa mesmo, eu sei!
"Óh, manina...", ela sempre falava assim, meio queixosa "eu e minha irmã nunca saíamos da beira da porta da casa."
Incrível, não?
Mas a Madrinha Maria adorou saber deles... disse que o João, o pai do meu pai, falou que se alguém mexesse com ela, era só contar a ele, que ele daria uma surra. Imagina se ela não ficou feliz? Antes, os meninos que ficavam puxando as suas tranças e fazendo chacotas por não terem pai nem mãe, agora estavam lascados. João já devia ter seus 16 anos, ela devia ter seus 13. Ninguém sabia de ninguém até aquele encontro... E tudo, graças a uma mulher inconformada (e fofoqueira... faça-se justiça, mas ainda bem, né?).
No final, acabaram morando todos juntos de novo, com a avó. Imagino que não tenha sido ruim pra ninguém, afinal com as crianças maiores, já podendo trabalhar, o sustento da família estava garantido (e acho que a Madrinha Maria não deve ter tido saudades da outra casa. Meu tio contou que ela mesma disse uma vez que, para lavar os únicos vestidinhos surrados que tinham, a Madrinha Luciana colocavam-nas, peladinhas, embaixo da coberta, na cama, até que os mesmos secassem). Eita, miséria.
DOMINGOS, o mais velho.
Domingos também era o nome do nosso bisavô materno, o pai da minha avó Olinda.
Este Domingos, tio do meu pai, teve uma história não menos infeliz que o pai dele.
Ele arrematou um lote de lenha para a queima dos vasos, porque era ceramista também e lá foi ele buscar a madeira com dois carros de bois emprestados. Entretanto, não sei se ele tinha que cortar a lenha ou se a distância era longa, ou se os bois portugueses empacam feito os jegues brasileiros, mas o fato é que ele acabou voltando de noite. Como era habitual, ele acendeu uma tocha de palha de centeio e veio conduzindo os carros pela rua principal: ele ao lado do primeiro boi, segurando o fogo no meio da estrada para indicar aos automóveis, que vinham na outra direção, da sua passagem.
Não se sabe dizer ao certo o que aconteceu, mas um caminhão que transportava batata (sempre elas!) o atropelou com tanta violência, que o partiu em dois, separando as duas pernas e parte do corpo do resto.
Tamanha a cena de horror que ninguém parava para ajudar, até que passou um padre, e o enrolou com sua batina levando-o ao hospital.
Ele dizia que sabia que ia morrer, mas que queria ver sua família primeiro, e assim trouxeram sua mulher e filhos.
A Leonor, que atualmente é vizinha do meu pai, era um bebê de colo; e o filho e sua esposa é que, hoje, cuidam da Madrinha Maria.
Depois disso, ele morreu.

JÚLIA, a mais nova.
Esta eu sei que morreu e deixou uns 3 ou 4 filhos... mas se perdeu completamente o contato... talvez estejam na região do Porto.

MARIA, a Madrinha.
Nunca se casou, nem deixou filhos, não sei se é Madrinha mesmo de alguém e parece ser uma pessoa boa, embora pareça chorar toda vez que fala.
Ela não diz palavrão, coisa que dizia que os irmãos falavam muito e, toda vez que pé imitava falando dizia 'carvalho', ao invés do 'car*lho', que eu também não falo... :)
Infelizmente a véinha já está de cama e não anda mais pra canto nenhum.

JOÃO, o nosso avô.
Nós nem o conhecemos; minha mãe, sim.
A única coisa que sei dele é que era uma pessoa muito honesta, muito rígido com os filhos e muito trabalhador.
Vi a casinha que eles moraram, quem sabe foi a primeira deles... lá nasceram o Marinho, o meu pai e o Antonio. Uma pobreza de dar gosto... em 3 cômodos viviam ele, minha avó Olinda e os filhos. O Joaquim e a Arminda nasceram na casa de Póvoa de Varzim, já maior.
João, com seu instinto de desbravador do continente americano, veio só para o Brasil.
Ficou uns 5 anos por aqui e, quando voltou, foi para nunca mais voltar para terrinha do samba. Mas como nada na vida é para sempre... o meu pai resolveu que, se o meu avô não queria, tudo bem... ele queria. Um ano e meios depois, juntando dinheiro pra viagem e arrumando um 'padrinho', digamos assim, que o ajudaria a arrumar emprego por aqui... estava pronto para a viagem. Mas aí, o Antônio resolveu que queria vir também. Meu pai ainda mexia no torno de cerâmica, mas o meu tio, não!
Segundo o meu pai, meu avô disse assim: "Um nó-cego ir pro Brasil sozinho, ainda vá lá... mas DOIS!!?".
Juntaram mais dinheiro e resolveram vir todos os 3.
Depois de uns 3 anos aqui, chegou a vez do Marinho aparecer por aqui... e cerca de 10 anos depois, meu avô escreveu para minha avó e disse assim:"Ou tu vens pra cá, e a família fica junta de novo, ou tu ficas aí sozinha, porque os que estão aqui não voltam mais".
Ela veio com a Arminda.
Meu avô morreu novo... com 48 anos, vítima de leucemia.

O Plano Infalível de Armindolinha




Era um dia como outro qualquer na vida de Armindolinha: a sacolinha de trapo que fazia as vezes de mochila de escola de uma alça só, que vinha do ombro pra ficar largada na barriga ou nas costas; e os pés descalços, que andavam na terra ou no gelo, e que era o seu orgulho por ter um casco tão grosso que entortava até espinho.
Todos os dias ele ficava de castigo no começo das aulas porque ajudava o Quico, que era homem já feito (de azar) que trabalhava para uma família. Um dia ele trabalhava no rio, ou descascava milho e depois foi tomar banho no rio, sei lá... o fato é que, pelo choque térmico que eu levou, ficou corcunda. Veja bem... ele não ficou com um calombo nas costas, ele ficou encurvado a 90 graus em relação às suas pernas, e sua locomoção ficou completamente comprometida, fazendo qualquer caminhada virar um verdadeiro sacrifício.
De família, ele tinha somente uma irmã surda-muda, acabou perdendo o emprego por causa da deficiência adquirida e acabou perdendo o gosto pela comida... só gostava mesmo era de beber... vinho. Alguns ficavam com pena dele, e lhe davam vinho. Coisa que ele ficava bebendo fazendo até a hora que meu pai passava para ir à escola.
"Óh, Armindolinha... me leva pra casa, Armindolinha... por favor", ele pedia.
"Ai, Quico... está bem... mas anda depressa que eu ainda tenho que ir para a escola ainda"
Quico correndo? E ainda com as pernas trançando por causa da bebida? Não podia dar certo mesmo, né?
Quem chegava com as pernas doendo era Armindolinha na escola, depois de correr da casa do Quico até lá. Ele morava bem perto da porta da escola, mas tinha que chegar até lá, afinal de contas, e a subida era animal.
"... mas eu só estou chegando atrasado por causa que levei o Quico pra casa...". já implorava Armindolinha.
"E o quico tenho a ver com isso?" e apanhava mesmo.
Conhecemos a sua escola... e, apesar de ter sido erguida outra mais nova, a antiga ainda permanecia lá, com todas as suas paredes de tijolos grossas, e os arcos ornados nas duas entradas, e até o pátio de terra batida nos fundos. De lá, avistamos a casa da Professora Rosinha, que morava na rua dos fundos... e que não era cor-de-rosa, era amarela.

Provavelmente era nessas mazelas do seu dia-a-dia que ele pensava... 
De repente... um baita dum estrondo!!!
"MEU DEUS... SERÁ O FIM DOS TEMPOS?", pensou ele, "mas, peraí... ainda não é o ano 2000!" Sim, porque Armindolinha acreditava quando lhe diziam: "Dos 1000 passarás, mas nos 2000 não chegarás"... (melhor pensar que o mundo acabaria mesmo no ano de 1999... pelo menos faltava ainda uns 45 anos pela frente).
Mas nem deu tempo de fazer muitas contas, Armindolinha sempre se assustava com ele que era, praticamente, uma baleia dentuça e cuspidora de fumaça diesel. Tá bom... na verdade era somente um caminhãozinho que abastecia de batatas a venda do Zé Galinheiro (ué... ele não vendia galinhas?).
Provavelmente, o motorista sempre achava graça em ver aquele moleque franzino se arremessar pra dentro da valeta que serpenteava junto à rua de terra.
Mas nesse dia... esse dia fatídico em sua vida... seus miolos não responderam com a mesma velocidade felina dos outros dias, ou talvez seja porque Monicaminhão o encontrou bem no meio de uma curva, ou pode ser ainda que o motorista quisesse fazer mais graça pro filho do patrão que sempre estava ao seu lado na boléia... seja qual for o motivo, o que aconteceu foi que Armindolinha foi atropelado pela parte traseira da carroceria. Desta vez, Armindolinha se ferrou! Voltou pra casa, para os cuidados (nem tanto, né?) de sua mãe... que olhou e sentenciou: "vai sarar".
A sua raiva era crescente, e toda vez que ele ouvia o barulho de Monicaminhão se aproximando, aquilo ia remoendo dentro dele, na sua barriga cheia de fome e com muita sede de vingança.
Foi aí, que despertou em sua cachola um plano... sim, um plano infalível: ele acabaria de vez com aquele sorriso dentuço e de lata daquele ser amaldiçoado.
Na verdade o plano demorou um pouco para ser preparado e isso pode ter sido decisivo para o final da história que teve, mas afinal, ele precisava primeiro sarar do braço quase degolado e que ficou um bucado de tempo roxo e dolorido.
Ainda assim, Armindolinha seguiu seus instintos... pegou uma pedra. Pequena não adiantava... tinha que ser grande... sim, bem grande... a maior. E agora? O jeito era encher a sacola da escola de pedras e subir no muro pelo portão, que era bem bonito (mas isso não vinha ao caso), das Irmãs Leais.
Caramba... era bem alto aquele portão e...
VRUUUMMMMMMMM ...
O raio do caminhão passou, e ele estava somente na metade do caminho para o alto do muro.
"Ai, carvalho... não acredito que aquela coisa passou mais cedo hoje..."
A persistência de Armindolinha era maior que tudo (alguns chamariam isso de teimosia... será?). Faria isso numa outra oportunidade... agora já fizera esforço suficiente.
 Enfim... o Grande Dia Chegou!
Tudo deu certo.
Difícil seria atacar uma, ou mais, talvez, dessas pedras da mochila no motorista-quase-assassino-de-Monicaminhão (já foi complicado subir com ela... que o dirá atirar... e acertar o alvo).
Chegou cedo, escalou o portão com primazia, levou a mochila pesada e se posicionou já todo paramentado.
Armindolinha ficou lá... e lá ficou esperando. Por minutos, horas... onde estaria o pobre diabo? Pois é... ninguém sabe.
Monicaminhão nunca mais passou por lá.
O Plano de Armindolinha... falhou, mas foi por pura falta de vítima.

Séculos depois, em terras distantes, um tal de Graciano, que casou com uma portuguesa que nem era da Pousa, veio se instalar em sua cidade... e ao saber que Armindolinha vinha dessa região, disse:
"Pois, é... da Pousa eu me lembro de um moleque em especial. Todas as vezes que nós passávamos de caminhão pra levar as batatas do meu pai... acho que ele tinha medo do caminhão... porque se arremessava pra beirada da rua... numa vala", e ria... alto.
Armindolinha ria, mas só por fora... melhor não contar que ele quase morreu, né?

27 dezembro, 2011

Como é feia uma mulher pelada!



Todo mundo conhece a Hebe Camargo e o Sílvio Santos.
Minha yaya adorava o Show de Calouros e todo domingo a família já sabia qual o canal assistiríamos (era sempre a mesma coisa... naquela época não tinha essa história de escolher... lembro que eu ficava chateada por não poder ver o Domingão do Faustão, como todos os meus amigos... mas a chateação durou só o tempo de conhecer o programa... realmente, eu não estava perdendo nada mesmo); mas, em compensação o meu pai sempre odiou a Hebe.
Sei que eu devo ter assistido parcos programas da dita cuja... mas o meu pai jura que assistiu a vez que ela falou da Pousa e de alguns parentes de lá... sim, leitores de pouca fé, ela é praticamente da família!!! Também estou incrédula... mas lá, na Pousa, todo mundo casou com todo mundo e, assim, todo mundo tem um primo, irmão ou cunhado na casa vizinha.
No caso da Hebe eram as Irmãs Leais.
O pai das moçoilas era muito rico e sempre se preocupou com as duas filhas, acreditando que todos os rapazes que se aproximavam tinham a malfadada intenção de se apossar das suas posses (hehehe... trocadilho). Pois bem, acabou construindo uma casa muito grande num local bem distante de tudo já naquela época, e lá toda a família morreu... menos as irmãs muquiranas, solteironas e, muito provavelmente, mal-humoradas.
Tudo na vida andava nos conformes... até que, un dia, a casa foi roubada.
Um ladrão entrou, sorrateiramente, e levou as jóias das coroas.
Como não tinham mordomo, a culpa recaiu sobre a empregada... esta jurou que, na hora do fato, tomava banho. Segundo relatos armindianos, a mulher foi presa mas, de tanto jurar inocência (ou porque não tivessem provas contra),deixaram-na sair.
Dias depois, ou meses vai saber, ela trabalhava na feira e, ao ouvir um gaijo ( meu corretor ortográfico insiste que é 'gajo') dizer: "... mas como é feio uma mulher pelada", ela imediatamente começou a gritar: "Prendam-no que ele é o ladrão das Leais". A polícia acreditou e prendeu o cafajeste... mas exigiu uma explicação, que ela mesma contou: "Seu policial, no dia do roubo eu tomava banho (vai ver que era sábado,né?) e, quando me olhava no espelho, eu disse para mim mesma 'Como é feia uma mulher pelada'. A porta estava entreaberta, afinal só tínhamos nós, as Leais e eu em casa, então ele deve ter passado e me visto falar isso... Quando ele me viu na feira, ele disse a mesma coisa; por isso, pode prendê-lo que é ele o ladrão."
Certo que ninguém faria uma exposição tão objetiva e realística de si mesma daquela forma forma... tão nua e crua, digamos assim... o delegado acreditou nela e fez um enorme sucesso ao recuperar parte das jóias (que nem lá se encontra todo o material roubado para a devolução, oras bolas!).
Só para quem possa interessar: a empregada, além de muito honesta e feia, tinha lá o seu orgulho e não voltou a trabalhar para as velhas infames e precipitadas parentes da Hebe Camargo.

18 dezembro, 2011

Conversas antigas

A Madrinha Maria.

Velha... bem velhinha.
Antes de irmos pro buraco (captou? hahahah), fomos visitar o Severino. Foi na casa dele que ficamos da última vez que fomos a Portugal, e ele continuava o mesmo: solteiro, bonzinho e só isso... não conversamos praticamente nada. Ele me chamava de Fátima, e eu respondia (até que alguém o corrigia dizendo que eu era a Carminha... Fátima era a filha do Bãrinho)... mas a casinha... que diferença!
Uma nova se amoldara ao lado da antiga, completamente destruída e com suas ruínas preservadas para a nossa comtemplação saudosista. Vimos o antigo fogão onde, eu me lembro, as mulheres tiravam comidas deliciosas para irmos saborear numa mesa comprida, regada a pão e vinho.


A casa nova (a velha é esse telhadinho que sai na lateral)

 A casa velha. Se não me falha a memória, as duas portas entravam na cozinha cheirosa.

 A escada da casa nova.

Olha no cantinho, o fogão!

O Severino

A velha casa da Madrinha Maria.

O Marcos se lembrava de um tanque de água (tiramos até foto) que era onde, eu acho, ele devia ter dado muito trabalho tentando se afogar enquanto os adultos conversavam ou corriam atrás do Cinhozite... duas pestes... afff. 

Eis o tanque que meu irmãozinho tomava banho e fazia arte.

O caminho, na lateral da casa velha, que ia para a lavoura e para o tanque do Marcos.

  As videiras (não sei quem plantou estas)

Minha mãe, outro dia, ficou surpresa ao saber de um sobrinho (o Marcelo, eu acho) que a fama dela, quando todos éramos pequenos, era de uma pessoa brava. O tempo é sábio... ela foi descobrir isso quando eu já tive tempo de descobrir, também, que ela tinha motivos para ser assim: trabalhando em casa, somente aturando os rebentos e xexelentos dos filhos dela (e dos outros, porque só andávamos em bando)... é compreensível.
Ah... soma-se a isso uma inflação cavalar naquela época em que o preço de alguma coisa de manhã, já era outro de tarde.
Pensa que eu esqueci, né, Dona Mãe? Mas eu vou contar: Ela já foi muambeira... hihihi.; mas durou pouco, isso é verdade.
Meus irmãos pequenos e meus pais ficaam na casa do Severino. Eu e o João ficamos em outra casa... um sobrado. E no quarto que dormimos, tinha uns anjinhos de porcelana no criado-mudo (que eu quebrei um). Lembro do medo de ir praquela casa, com gente que eu não conhecia e longe dos meus pais. Confiamos.

Mas eu estava dizendo da Madrinha Maria, que fez questão de nos fazer conhecer a casa dela (que, hoje, já não é mais, eu acho... mas é de algum parente, com certeza, pois entramos sem dificuldade e com a intimidade de um morador). Ela mostrou o quarto, e a vista da cozinha... pra um monte de casinhas, que não pudemos distinguir a que ela nos mostrava como sendo a que minha avó tinha morado... mas dissemos que vimos.
De volta ao quarto, sentada pra descansar um pouco, ela começou a nos contar sobre a vida dela e da irmã quando crianças e como só vieram a conhecer os irmãos quando eles já eram quase homens feitos. Sim, porque separaram os irmãos quando os pais morreram.
Saímos de lá com a certeza que uma parte da história da família tinha nos sido revelada.

Esta é a última imagem que tenho dela: despedindo-se de nós, na certeza que seria esta a última vez que todos nos veríamos.

12 dezembro, 2011

A Última Sobrevivente.


A nossa próxima parada era muito esperada, principalmente pelo meu pai, mas pra mim... sei lá... era como uma mistura de sentimentos... não sabia o que esperar. O que eu sabia que tinha pressa era a nossa fome; então fomos encher o bucho antes da ir ver a Madrinha Maria.

[Batatinha fritas em euros... ai, ai... só nóis mesmo!]

A Madrinha Maria devia ser madrinha de alguém, mas não saberia dizer de quem... do mesmo jeito que lá todo mundo é meio parente do outro, ela é madrinha por título adquirido.
Ela é a última de toda uma geração... a última de sua espécie... a última irmã sobrevivente do pai do meu pai e, por isso, quando a encontramos, foi uma emoção incontida.
Não sei se quem começou a chorar primeiro, se foi o meu pai ou a Madrinha Maria _eu senti um nozinho na garganta, devo admitir... mas guentei firme_ depois vi minha mãe limpando as lágrimas por baixo dos óculos; o Marcos, ele só tem cara de carrancudo... no fundo, no fundo, é um emotivo também; o Maurício_ai, meu Jisuis, se ele está chorando, acho que vou chorar também_a ROSE CHORANDO???_nessa hora não teve como segurar... se até a RochadaRose pode, eu posso... BUÁÁÁÁ . A Manu, não conta... ela é como eu, então tá bom. Mas foi quando eu vi a Rafa, a irmã da Manu chorando que eu pensei: ""Vixe, se ela que nem faz parte da família tá chorando, é porque a coisa descandou de vez." _ aí praticamente soltei o berreiro. Até a turma de Portugaile estava enxugando as parcas lágrimas que insistiam em não cair pra dentro... :O



  

Pronto... o caos estava instalado.
"Mas, ó, xente, bichinha... até tu, Rafa?"
"Eu vi seu pai chorando, sua mãe, seus irmãos... ora, pois se estava todo mundo lá chorando... deu vontade também".
No auge da comoção, meu pai sacou-lhe um presente: uma estatuazinha que meu pai trouxera com todo amor e carinho da Sagrada Família, no maior cuidado para que não se quebrasse ou que se extraviasse. Não fez sucesso nenhum. Pronto! Acabou a choradeira.





Conversamos pra caramba... quero dizer, ouvimos pra caramba; aliás, nem era 'pra caramba' de verdade: um monte de coisa a gente nem entendia... eles tinham um dialeto próprio.
Falaram de todos que já morreram.
Dos sobreviventes, fomos visitar Severino; não o achamos mas encontramos amigos de infância do meu pai no caminho, na verdade, um primo casado com a Quinhas.
"Mari-Quinhas?", perguntei.
"É... o nome dela é Maria!", respondeu meu pai e eu descobri a América...
Fiquei sabendo que foi na casa da Quinhas que vivia o tio do meu pai, o Domingos... antigamente, né? Foi ele, junto com o outro Domingos (não o irmão, mas o tio do pai do meu pai _ entendeu? Não! Nem eu! Ô, gente econômica pra dar nome) quem ensinaram a arte de fazer vasos de barro pro meu pai.
Soube também que o tio Domingos (não o tio, do meu avô... só o tio do meu pai) era o pai da Eleonor, a prima do meu pai... cuja mãe morou na Quinta do Potigo, que era o atalho que meu pai pegava quando estava e fazia vasos na casa da Quinha.


Em destaque, o filho do primo, eu acho.


Aqui a Teresa, que cuida da Madrinha Maria, e a filha... esqueci o nome. 


Aqui a Quinhas. 


A casa da Quinhas.


A Quinta do Pontigo.

Conversamos ali mesmo, no meio da rua. Foi rápido mas deu vontade de ficar mais tempo... todos eram tão amáveis e gostavam da gente... nem nos conheciam, praticamente.
Olha só que lugar mais liiindo (Pai, clica na imagem que ele fica maior):


Na volta só nos sobrou o quê? Comer! E fomos direto pr'O Buraco... de hoje não passava.

11 dezembro, 2011

Mulher forte sim, Senhor!


Somente quem passa pelo que nós, mulheres porretas, passamos... é que pode entender o que Manuzinha está passando.
Família longe, marido perto, mãe longe, filhotinha beeeeem perto!
Desejamos que este ano que se inicia na sua vida seja espetacular; na certeza que tudo há de melhorar. Daqui a pouco a Titiquinha vai ser tão sua amiga... quando ela te chamar, buscar o teu colo (porque visita é bom... mas tem hora que só coloc de mãe e de pai mesmo)... as alegrias se somarão, você vai ver!
Que você tenha muita saúde, felicidade e braço... porque ela é levinha agora, mas você vai ver como ela vai ficar pesada! :)

Beijo em seu coração, e tudo de bom na sua vida.

08 dezembro, 2011

Eu posso explicar.


O que a gente faz quando fica de bode?. Convida a cabra.
Ainda tô pra descobrir porque é que eu quero ficar mais bela (mais??? Num tem espelho, não?) Oras, bolas... não me irrita, não, que eu tô com o dente lascado.
Quer dizer, não é bem o meu dente... é um remendo-sem-necessidade que minha dentista colocou porque eu achava ele feinho. Já nem sei se eu contei essa história ou não, mas quando eu era pequena, lá em Barbacena do Norte (e viva o pai da Glória Pires), eu usava aparelho nos dentes... fiquei só uns milhões de anos com ele. Quem aguentava menos? Eu, com aquela cara de robocop-japa-miniatura (japa por causa dos meus cabelos lisinhos que nem vento desarrumava), ou a minha mãe que tinha que pagar pelo IGPM e a cada mês ela levava o dim-dim numa sacola de gangster maior ainda? Pois então... no último aparelho (juro que eu acho que já contei isso) que era só pra segurar os dentes no lugar (os malacabados não iam ficar quietos por conta própria), eu quebrei o dito cujo dos infernos. Como na última quebra de aparelho minha mãe disse assim: "Se você quebrar DE NOVO o aparelho, eu quebro a sua cabeça!" (Tá bom, mãe, é mentira... só exagerei pra dar dramaticidade ao fato). Pois é, aí eu fiquei bem muda e calada... só tinha quebrado um pouquinho... bem em UM DOS DENTES DA FRENTE!!! Ia falar pra quê, né?
Mês seguinte pra receber alta, minha mãe e eu, levamos o maior tapa na cara do tipo: pra arrumar agora, vai ter que fazer outro aparelho e usar mais um tempo.
(Tá louca???)
Fingimos que nem escutamos... fomos embora rapidinho.
Isso não me abalou até eu precisar ficar mais linda e maravilhosa. O resumo da ópera é que, embora saudáveis, um ficou pra frente, uns dois milímetros, do outro. Pouquinho, né? Mas põe massa lá que você vai ver só.
Aí eu fui comer um simples e ingênuo pessego e não é que eu tasquei o dente no caroço? E amanhã é a formatura da Maria Quitéria... (minha filha, pra quem não sabe).
O recado que me chega da dentista é Beijomeliga. Blé. Tá certo que não é a primeira vez que eu lasco o danado (a primeira vez foi com uma costelinha de porco ma-ra-vi-lho-sa... aí ela me disse: "Bom, vamos ver quanto tempo dura". Não foi muito).
Se isso não bastasse, ainda perdi minha carteira cheia de dinheiro documentos e cartão de créditos já estourados no limite (Graças  a Deus porque assim ninguém pode gastar).
Marido: "Vai comprar um bolo que é aniversário da Keila."
Eu: "Ai, não vou não... tô com prigui..."
Marido: "Se você não for, não compro a passagem de volta de São Luiz... você nunca mais vai ver teus fios"
(Verdade, gente... por causa das milhas que tinha, só deu pra comprar a ida pra nós dois... a volta tinha que disponibilizar mais.)
Eu: "Tá bom... já volto, então".
Fui numa padaria, não tinha nenhum bolo (isso já te ocorreu?), fui na outra... gastei uma fortuna em pão de queijo (porque o Quindim, meu Fio Número 2, veio comigo) e tive que comprar um bolo de cenoura pra cantar parabéns porque não tinha outro.
Cheguei bufando porque ela tinha horário pra ir e, como todo ano, ela só estava esperando a festinha surpresa... não podia atrasar. Surpresa foi a minha que não teve nem Parabéns. Ela cortou, comeu e foi embora. (Cara de tacho!), e ainda perdi a carteira na padaria.
Toca fazer boletim de ocorrência pela internet (adoro a tecnologia), mas vou ter que ir no banco pra sustar as parcas folhas de cheque que meu marido vai soltando em conta-gotas pra mim (eita, homi muquirana).
Acho melhor ir dormir logo. Amanhã deve ser outro dia... melhor!

27 outubro, 2011

♥ Cupido Desastrado ♥


Nem um dia sequer se passou... e ela já manda nele.
Ele vem fazer carinho, leva uma bicada... toda vez que ele ameaça cantar (coisa que já desistiu), ela apita mais que ambulância.
De nada valeu tantas dancinhas, nem juras de amor... acho que ele se ferrou mesmo. hihihi
Pediu, não foi? Agora aguenta.
Acho que chegou uma hora que até ele se encheu, e vi a bicada que ele desferiu na buzanfinha dela... mas macha como ela só, deu uma outra bem no alto do cucurucu dele.
É bem aquela música "Entre tapas e beijos..." (ainda que, até agora, tenham sido somente os tapas).
O Cherry sempre foi temperamental (chato mesmo... sempre foi um tal de bicar qualquer um ... menos a Cacá, lógico... não deixava nem cuidar da gaiola direito)... e como eu sofro, até hoje, toda vez que ele resolve voar. Sim, porque é sacanagem cortar as asinhas eu acho; só que eu surto, porque o animal vive deixando as marcas das penas nas janelas... caramba, ainda não parou de tentar quebrá-las? O pior é que fica uma marca em formato de avião... bem aerodinâmico mesmo.
Li um livro ("Guia Politicamente Incorreto da História do Brasil", de Leandro Narloch) e sabe que ele me convenceu que Santos Dumont não foi mesmo o Pai da Aviação? Pelo menos não foi o que fez o avião voar primeiro, mas foi o que fez o aviar voar passando do estado 'parado' para 'voando'; ou seja, os Irmãos Wright lançaram seu avião como um estilingue. Mas ainda prefiro acreditar que ele se suicidou por causa que sua invenção foi usada para matar. Pelo menos é uma versão bem mais romântica.
Ai, Cherryzinho... vamos esperar que ela melhore.


Pois, é, bichão... agora não adianta reclamar... foi você que pediu. hihihihi 


♥ Cupido Esperto ♥


"Desde o primeiro momento que eu a vi... eu fiquei perdidamente apaixonado.
'De olhos vermelhos, de pelo branquinho'... não e sim: não, porque ela não era exatamente uma coelha; e sim, porque ela era a minha coelhinha. Branquinha, assustada... tão linda.
Ela passou por mim num minuto, e no minuto seguinte, ela foi ao lavabo.
Com certeza ela se ajeitaria, passaria um batonzinho e logo estaria de volta.
Nossa... mulheres demoram no banheiro... isso porque ainda não foi com nenhuma outra. Elas sópodem ficar falando de nossas qualidades, que são inúmeras, por isso demoram tanto naquele minúsculo cômodo.
Caramba... mas como ela demora. Vou assobiar, pra ver se ela resolve acordar.
"Fiu-fiu"
Nem assim. O jeito é esperar.

[pausa]

Esperar sentado, né?
Já estou achando que foi tudo um sonho.
Sim... só pode ter sido uma alucinação. Preciso desencalhar e meu cérebro fica fazendo isso comigo... já não bastasse minha solidão...

[No dia seguinte...]

Que linda voz...
É ELA!!!
Não foi um sonho... ela existe.
Como fazer pra chamar a sua atenção?
Já sei... vou dançar... não vai ter como ela não me notar."

E foi assim que o nosso Cupido acertou uma flechada certeira no nosso querido Cherry, o bestão da casa.
Assim que ele viu a Cherreca (mentira, o nome dela é Ma Petit) ficou todo emplumado, querendo parecer mais forte do que era e encurvou a cabeça pra frente. Ficou tanto tempo andando de um lado pro outro no puleiro, com aquela cabeça retorcida, que ele deve ter tido um baita torcicolo... mas pelo amor, tudo vale a pena.


Ele cantou, dançou, esperniou; mas só a colocamos em sua casinha quando a Cacá e o resto da tropa chegaram da escola. Até lá, eles aproveitaram para de sonhecer (e ela pra descansar, porque a gente sabia que o bichinho seria implacável com ela).


Aqui, ele tentando chegar mais pertinho... 


... e ele tentando arrancar a portinha de qualquer jeito!


Conseguiu, hein, bonitão?


Conquistando...


Tentando, pelo menos, né? 


Não foi um sonho... ele conseguiu!!!

24 outubro, 2011

O melhor vinho de Portugal




Saimos da propriedade pela rua que deveríamos ter entrado, ou seja, saímos pela frente mas que, para nós, parecia ser os fundos e seguimos, uns tantos metros, para virar numa ruinha de terra batida... e não é que, no meio do caminho (ou mato), encontramos isso:


UMA PLACA SUPER BONITINHA NO MEIO DO NADA!
Deve ser bom ser carteiro lá.
Pegamos todo mundo de surpresa, ainda assim nos ofereceram o que tinham de melhor: pão e vinho.
Lembro da primeira e mais longíncua vez que fui a Portugal, e que eu comia uma broa de milho... não sei se acabei me acostumando, mas a lembrança que eu tinha era que era uma delícia. Não comi novamente daquela broa, mas a que nos foi oferecida foi ótima... além do vinho, produzido (orgulhosamente) pelo próprio dono do lugar. Não vou entrar em detalhes da sua produção... afinal, todo mundo deve saber como os vinhos são feitos artesanalmente. Nem vou falar nada.

[pausa]

Tá bom, ó inúmeros leitores que eu tenho, vou contar: são esmagados com os pés. Eca!
Prefiro acreditar que os mesmos sempre são limpos com água sanitária e bombril... mas também, nunca perguntei nada.
Não sei com quem eu conversava sobre a China e suas comidas exóticas, e sei que eu disse que o meu irmão rico, quando foi lá, contou que viu uma menininha... dessas bem novinhas, com uniforme de escola de saia e maria-chiquinha no cabelo, parar numa barraquinha tipo cachorro-quente de calçada. Quando ela se virou é que ele pode ver o que ela segurava: um espetinho de escorpião frito, e era daqueles enormes e pretos.
Aff, que se sou eu fazia ela largar aquilo na base do tapa e voltar pra casa direto da próxima vez.
Essa outra pessoa que não quer se identificar (mentira, não me lembro mesmo), disse que um amigo nunca passou fome lá, mas também nunca perguntava o que era.
[Ahhh, lembrei: era a minha dentista Lígia]
Então, é como o meu pai sempre fala: "Se o cozinheiro comer primeiro, eu como também".
Em suma, algumas vezes na vida, melhor ficar na ignorância mesmo.

[Do que é que eu falava mesmo? Ah, a esmagação do vinho]

Então... eu cheguei a pensar em qual a sensação de ficar esmagando as uvas com os pés, mas isso só quando eu era pequena, agora nem pensava mais, e eu acho que eu achei que era meio que pisar na lama bem mole... só que tinha o agravante de ser bolinhas... então devia ser como pisar em cocô mole de cabrito. Não que eu tenha já pisado em cocô de qualquer coisa que seja (bom, exclua-se daí o cocô de cachorro e de cavalo, que nem é tão pequeno assim, mas às vezes a gente anda distraída, né?). Mas devo dizer (e dar a mão à palmatória) de como era bom aquele vinho! Tão bom que minha própria mãe bebeu...tudo bem que eu não sei se foi a emoção do momento, ou o calor dos infernos, mas que ela tomou... ah, isso ela fez, e não foi um golinho só, não.


A Rosa, esposa do Antonio (já falei que eu tenho um tio chamado Antonio e que a professora do meu pai era Rosinha? Pois é...), ela parecia muito brava, mas com certeza não era porque nem parecia se importar em ceder sua sombra ao seu cãozinho: ia lá ela pra cá, e ele a seguia (por trás, danadinho) e parava na sombra dela... ia lá ela para o outro lado, e o espertinho de quatro patas ia lá se ajeitar de novo na sombra da boa mulher. Acha que eu ia perder a oportunidade? Tirei foto pra documentar.


Mas quem eu mais me identifiquei, entretanto, foi uma 'agregada' da família: a viúva de um filho. Agora não me lembro o nome dela... mas era totalmente doidinha. Era ela que subia e descia as escadas conforme as ordens da matriarca e era quem fazia as melhores poses pras fotos... nem ligava muito para a aparência... dava uma esticada nos cabelos e já punha as mãos na cintura, esticava uma perna, ou empinava o pescoço. E qualquer motivo era motivo para uma foto também: o boi dela, os filhos dele (do boi), a pastagem, a videira... fosse o que fosse. Uma figura!


A sensação que eu tive daquele lugar foram de pessoas simples, um pouco rude, mas com uma vontade enorme de agradar. Acho que fomos assunto deles por muito tempo. Gostaria de ter sentido melhor todo aquele lugar par tentar me reportar aos tempos que meu pai vivia lá. Era até mais perto da casa do 'paizinho' do que eu imaginava, e dava mesmo pra correr lá e se safar de uma boa surra... mas do jeito que meu pai falava, parecia que ele corria quilometros.
Meu pai conta que, quando era pequeno, não se lembra da mãe dele dando um beijo... tempos difíceis... ainda bem que a realidade mudou. E bastante.
:)

23 outubro, 2011

Onde o meu pai nasceu!


[Recado pro meu pai: Paiê, fica olhando pra figurinha ai em cima que ele vai abrir o maior berreiro.
Depois do visto o berreiro: Legal, né?]

Nem bem a gente resolveu seguir o meu pai, na sua aventura de encontrar a casa em que ele nasceu, e pronto... já o tínhamos perdido novamente. Eita, que quando o bichinho quer, aquelas pernas funcionam mesmo. Afff.
De repente, ele chegou com um senhor... que tinha uma cara tão boa! Sei lá... de gente honesta, modesta e confiável... e o melhor: ELE era o dono das terras que minha vÓlinda possuia, ou seja... ELE era o dono do pedaço de terra que meu pai pisou pela primeira vez nesse mundão.
Aí, nem perdemos tempo... seguimos os portugas.
A propriedade era bem menor que eu imaginava.
Ficar imaginando que era por aquelas paragens que meu pai brincava de aviãozinho de madeira, que (sei lá por ali) o meu tio Toni ficava cuidando dos melões... como alguém podia ficar tomando conta dos melões??? Será que os da terrinha saiam correndo? Era ali que o Bãrinho plantou as cravinas e se ferrou por isso. Era dali que o meu pai saia rumo à escola da Professora Rosinha. Todas as professoras deviam se chamar Rosinha.
Meu pai sempre falava do vinho... e do porre que ele tomou um dia... ai, caramba... será que eu já contei essa história? Bom, a primeira vez que deram vinho pro meu pai (depois da fase de dar vinho na chupeta), ele era um rapazote e ficou bêbado. Aí, diz ele, que mirou bem a porta do quarto e pensou assim (mesmo de porre, ele ainda pensa como um português): "Bom, é só ir reto, e rápido pra não desviaire a rota, que eu caiu na cama, ó pá!" . E lá foi ele... deu tudo certo: ele acordou mesmo só no dia seguinte, mas com a testa cortada no meio... as paredes de Portugaile andam!
[Mas onde eu estava mesmo? Ahhhh... o vinho]
O cara que morava atualmente lá era um desocupado: em pleno dia de semana, ele olhava pro cachorro que nem latia pra gente... estava mesmo sem fazer nada, e já ganhou toda a ingratidão do meu pai: eles tinham arrancado toda a parreira de uvas que meu avô tinha plantado... nossa, meu pai ficou irritado, já dizendo que o cara tirou mesmo tudo aquilo porque não queria trabalhar (isso ele resmungou só pra gente escutar)... só ficar lá, olhando pras nuvens (e era o que ele estava mesmo fazendo), mas esse era o filho do portuga legal, que abriu as portas da casinha onde meu pai veio ao mundo.



[1] Meu pai simplesmente inavdindo a terra alheia
[2] A casinha. Era somente essa parte que aparece na foto que existia na época... TODO o resto foi ampliação dos novos proprietários.
[3] Acho que aí ficava a cozinha. A porta do primeiro e minúsculo quarto, à esquerda, foi onde meu pai nasceu.
[4] Esse cômodo era coberto... era o quartão.
[5] Ainda o quartão, por outro ângulo: a parede dos fundos.
[6] Eis o quarto onde o meu pai nasceu.
[7] A lateral da casa... a janelinha foi fechada, nem sei porquê... ela dá pro meio do mato!
[8] O campo exterminado das videiras, bem em frente à casa.
[9] Um restinho de nada de parreira, que meu pai já nem tinha certeza de serem as originais.
... e outras fotinhas do entorno.

Engraçado que eu não tinha certeza se meu pai estava feliz ou não. Acho que estava triste de lembrar a vida desgraçada que eles e todos os meus antepassados deviam ter tido... ele nasceu na época da guerra... mas acho que estava satisfeito de mostrar aquilo pra gente.
Sei que várias lembranças surgiram, mas como ele era muito arteiro, acho que resolveu guardar tudo pra ele mesmo.
"Ó, caraito (faz parte do dialete deles)... mas vamos lá em casa tomar vinho que eu mesmo produzi", convidou o mais velho já praticamente amigo íntimo do meu pai.
E fomos de bom grado.