[PAUSA PENSATIVA: Tão estranho pra mim pensar que teve gente vivendo nessa época... parece que, antigamente, somente as pessoas dos livros e dos filmes eram verdadeiramente as únicas sobreviventes desse período. Ironicamente a dos filmes são as mais irreais possíveis. Pois é... Parentes meus não só viveram como pareciam seres apaixonados, do tipo até que a morte os separe... e estou falando aqui de portugueses, pessoas que sempre me pareceram criaturas brutas e de coração frio... pelo menos os antigos. DESPAUSA]
Ana não podia ter Júlia com parteira, como era de costume e, então, foi para o hospital. A menina nasceu, os dias passavam e nada do marido vir vê-lá.
Teresa, inconformada, dizia: "quero ver meu marido. Por que ele não vem? Ele não me deixaria aqui sem me visitar... Se ele não vem, só pode estar morto."
Ninguém lhe dizia a verdade porque temiam pela sua convalescência... seu marido Miguel realmente estava morto, vítima da cólera. Ela se recusava a comer, enquanto não visse o marido... e acabou morrendo também.
Diz meu pai que morreu de saudade.
Eu não acredito que uma mãe, por mais amor que sinta por seu marido, prefira morrer e deixar quatro filhos perdidos no mundo. Por outro lado, imagino que podia ser mais fácil para as crianças, completamente órfãs, serem adotadas por outro casal; do que continuarem filhos de uma viúva...
Naquele tempo precedente da guerra e cheio de epidemia, sobraria a mendicância, na melhor das hipóteses... ainda assim, imagino que não deve ter sido uma escolha, mas sim uma fatalidade.
Como começou a história de amor deles, isso eu não sei... pois afinal a lenda diz que eles eram como unha e carne... não se desgrudavam e eram muito unidos... mas ela terminou de forma drástica e com os meninos sendo criados pela avó; e as meninas, por outra família, da madrinha Luciana (que lá, quem não era pai ou mãe, era padrinho ou madrinha). Se isso, por si só, já parecia inacreditável (porém aceitável em vista da situação); acabou virando desumano, ao pensar que eles não sabiam da existência uns dos outros, ainda que morando no mesmo 'bairro' (a Pousa não é grande nem hoje em dia... não sei como nunca se cruzaram por lá).
A Madrinha Maria nos contou, naquele dia em que estávamos na sua antiga casa, que uma vez ela e a irmã estavam brincando na rua quando uma vizinha (que bem podia ser eu, se eu fosse contemporânea da véinha... e podem me chamar de fofoqueira, nem tô!) lhe disse que elas tinham da irmãos.
"Não, senhora... não temos, não", ela disse.
"Tem sim... E já são moços", caguetou a mulher, "se quiser saber mais, pergunte pra Madrinha Luciana.
Madrinha Maria disse que voltou correndo para a tal fulana e ficou a tarde toda perguntando se era verdade e se podiam conhecer os irmãos. Por fim, ela concordou e levou as meninas... eles estavam super perto delas... bastavam subir o morrinho da frente.
"Mas, Madrinha Maria, a senhora nunca passeava por lá? Nunca se conheceram, mesmo sem saber que eram irmãos?", tá bom... sou curiosa mesmo, eu sei!
"Óh, manina...", ela sempre falava assim, meio queixosa "eu e minha irmã nunca saíamos da beira da porta da casa."
Incrível, não?
Mas a Madrinha Maria adorou saber deles... disse que o João, o pai do meu pai, falou que se alguém mexesse com ela, era só contar a ele, que ele daria uma surra. Imagina se ela não ficou feliz? Antes, os meninos que ficavam puxando as suas tranças e fazendo chacotas por não terem pai nem mãe, agora estavam lascados. João já devia ter seus 16 anos, ela devia ter seus 13. Ninguém sabia de ninguém até aquele encontro... E tudo, graças a uma mulher inconformada (e fofoqueira... faça-se justiça, mas ainda bem, né?).
No final, acabaram morando todos juntos de novo, com a avó. Imagino que não tenha sido ruim pra ninguém, afinal com as crianças maiores, já podendo trabalhar, o sustento da família estava garantido (e acho que a Madrinha Maria não deve ter tido saudades da outra casa. Meu tio contou que ela mesma disse uma vez que, para lavar os únicos vestidinhos surrados que tinham, a Madrinha Luciana colocavam-nas, peladinhas, embaixo da coberta, na cama, até que os mesmos secassem). Eita, miséria.
DOMINGOS, o mais velho.
Domingos também era o nome do nosso bisavô materno, o pai da minha avó Olinda.
Este Domingos, tio do meu pai, teve uma história não menos infeliz que o pai dele.
Ele arrematou um lote de lenha para a queima dos vasos, porque era ceramista também e lá foi ele buscar a madeira com dois carros de bois emprestados. Entretanto, não sei se ele tinha que cortar a lenha ou se a distância era longa, ou se os bois portugueses empacam feito os jegues brasileiros, mas o fato é que ele acabou voltando de noite. Como era habitual, ele acendeu uma tocha de palha de centeio e veio conduzindo os carros pela rua principal: ele ao lado do primeiro boi, segurando o fogo no meio da estrada para indicar aos automóveis, que vinham na outra direção, da sua passagem.
Não se sabe dizer ao certo o que aconteceu, mas um caminhão que transportava batata (sempre elas!) o atropelou com tanta violência, que o partiu em dois, separando as duas pernas e parte do corpo do resto.
Tamanha a cena de horror que ninguém parava para ajudar, até que passou um padre, e o enrolou com sua batina levando-o ao hospital.
Ele dizia que sabia que ia morrer, mas que queria ver sua família primeiro, e assim trouxeram sua mulher e filhos.
A Leonor, que atualmente é vizinha do meu pai, era um bebê de colo; e o filho e sua esposa é que, hoje, cuidam da Madrinha Maria.
Depois disso, ele morreu.
JÚLIA, a mais nova.
Esta eu sei que morreu e deixou uns 3 ou 4 filhos... mas se perdeu completamente o contato... talvez estejam na região do Porto.
MARIA, a Madrinha.
Nunca se casou, nem deixou filhos, não sei se é Madrinha mesmo de alguém e parece ser uma pessoa boa, embora pareça chorar toda vez que fala.
Ela não diz palavrão, coisa que dizia que os irmãos falavam muito e, toda vez que pé imitava falando dizia 'carvalho', ao invés do 'car*lho', que eu também não falo... :)
Infelizmente a véinha já está de cama e não anda mais pra canto nenhum.
JOÃO, o nosso avô.
Nós nem o conhecemos; minha mãe, sim.
A única coisa que sei dele é que era uma pessoa muito honesta, muito rígido com os filhos e muito trabalhador.
Vi a casinha que eles moraram, quem sabe foi a primeira deles... lá nasceram o Marinho, o meu pai e o Antonio. Uma pobreza de dar gosto... em 3 cômodos viviam ele, minha avó Olinda e os filhos. O Joaquim e a Arminda nasceram na casa de Póvoa de Varzim, já maior.
João, com seu instinto de desbravador do continente americano, veio só para o Brasil.
Ficou uns 5 anos por aqui e, quando voltou, foi para nunca mais voltar para terrinha do samba. Mas como nada na vida é para sempre... o meu pai resolveu que, se o meu avô não queria, tudo bem... ele queria. Um ano e meios depois, juntando dinheiro pra viagem e arrumando um 'padrinho', digamos assim, que o ajudaria a arrumar emprego por aqui... estava pronto para a viagem. Mas aí, o Antônio resolveu que queria vir também. Meu pai ainda mexia no torno de cerâmica, mas o meu tio, não!
Segundo o meu pai, meu avô disse assim: "Um nó-cego ir pro Brasil sozinho, ainda vá lá... mas DOIS!!?".
Juntaram mais dinheiro e resolveram vir todos os 3.
Depois de uns 3 anos aqui, chegou a vez do Marinho aparecer por aqui... e cerca de 10 anos depois, meu avô escreveu para minha avó e disse assim:"Ou tu vens pra cá, e a família fica junta de novo, ou tu ficas aí sozinha, porque os que estão aqui não voltam mais".
Ela veio com a Arminda.
Meu avô morreu novo... com 48 anos, vítima de leucemia.


















































