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16 fevereiro, 2012

A Saga da outra Família.


Clara e João (ou Custódia e João) tiveram muitos filhos...  mais filhas que filhos.
Homens tiveram dois: Mário e Isaias. E mulheres foram Arminda, Elísia, Olinda, Florinda, Olívia e Alice.
Clara morreu da gripe espanhola (eu tenho quase certeza), mas João morreu foi de saudades da esposa... 15 dias depois dela, porque não comia.Essa coisa de morrer por inanição, praticamente um suicídio pela boca... devia estar em alta, naquela época... e pode ser que eu não esteja completamente enganada, afinal no final do século XVIII e começo do XIX surgiu uma corrente filosófica, artística e política: o Romantismo, e morrer de amor era quase o ápice de toda uma vida. A única questão, muito relevante nesse caso, é que eu não acredito que os meus parentes tinham acesso a qualquer "visão de mundo". Embora tenha sido a primeira a nascer, a Madrinha Arminda foi uma das últimas a ir desta para melhor. Meu pai e minha tia são chamados de Armindo e Arminda em homenagem a ela mesma que, sendo legitimamente a madrinha de ambos, era quem tinha o poder da escolha dos nomes. Blá! Por extrema falta de dinheiro, meu pai morou com ela dos 3 aos 8 anos... era o diabo em pessoa, vivia descendo o porrete (palavras do meu pai) e, ainda que ele não se lembre da mãe dele lhe dar um único beijo, de pequeno, minha avó era uma candura de pessoa perto da irmã dela. Como bem resumiu minha tia Arminda: "Eles (os nossos antepassados) não tinham tempo, nem dinheiro... iam ficar de beijinhos?"? Essa frase tem um efeito desconcertante em mim, ainda hoje. A comida era, basicamente, sopa todos os dias e em todas as refeições... aliás, sopa era modo de dizer: era água de batata com uns feijões boiando... outra opção eram as famosas 'papas': sopa grossa de fubá com couves tronchudas. Depois veio Mário, homem muito trabalhador. Diziam que trabalhava muito, feito um touro, mas um dia, numa construção, uma viga de concreto caiu na sua cabeça e, como em toda a nossa boa linhagem, ela se mostrou bem dura... ele não morreu, mas ficou meio lelé-da-cuca. Sem conseguir trabalhar, mandaram-no embora e ele ficou muito violento. Quando ele vinha por um canto, os outros (meu pai e tios) saiam pelo outro com medo de apanhar. Elísia, sem sombra de dúvida, era a mais boazinha de todas as irmãs... mas não sei mais nada. Da Florinda, sei só o que me lembro da minha primeira ida a Portugal: os patrões de uma das filhas dela. Eles eram imensamente altos e brancos... eram um homem e uma mulher, irmãos, velhos e aterrorizantes. Para mim, que era ainda uma menina, mais me pareciam fantasmas de verdade... lembro também que, apesar de nenhuma relação de parentesco, ainda assim tentaram de tudo para nos receber tão carinhosamente... mas eu morria de medo deles. A mais rica de todas foi Olívia (e a mais doidinha também). Como arrumou lá a sua pequena fortuna, eu não sei; afinal, não se casou e passou a vida trabalhando para os padres... vai saber, né? :P ... Só sei que falava pelos cotovelos. Da Alice, a história mais inusitada: Embora fosse uma boa moça (será?), ela se casou com um pirata trambiqueiro de verdade, e tiveram piratinhas. Como bom devedor, fugiram da Pousa antes que lhes confiscassem seu papagaio de ombro, e foram pra onde? Para onde qualquer pirata que se preze poderia ir: para o Porto, oras! E sumiram de vez.