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13 novembro, 2012

A força de uma vontade.




O que pode acontecer na história de uma pessoa que foi entregue por uma cegonha disléxica? Tudo.


E foi tudo que aconteceu na vida de Hans 'Joan' Gamper.
Florbela, a cegonha, se atrapalhou toda e entregou o eminente personagem catalão pra família errada... e ele nasceu suiço, pra depois morar na França. Mas, como Deus escreve certo por linhas tortas, Hans rodou, rodou e acabou em Barcelona... seu destino desde sempre: Hans estava de partida para África e passou em Barcelona para visitar um tio... só que ele acabou apaixonado pela cidade do Gaudí. Da noite para o dia, abandonou muitas coisas e se instalou no bairro de Sant Gervasi de Cassoles.
Só que a Catalunya tem um quê de frescura e, provavelmente por isso, ele não foi parar no clube da cidade, o coitadinho do Espanyol, então resolveu fundar um outro... imagina só qual seria: o Barça... coisa pouca, né? Como era de se esperar, seu início não poderia ser normal: Hans colocou um anúncio num jornal ... !!! ... e vieram uma meia dúzia de estrangeiros, entre suíços, britânicos e madrilenhos, em resposta.
Imagina se o Real Madri pudesse imaginar que seus próprios desgarrados fundariam o time mais pedra-no-sapato do mundo?


Hans-Max Gamper Haessig ficou conhecido por 'Joan' Gamper, o seu nome catalanizado, foi homenageado com a carteirinha de N°1 do clube... tem até um troféu e uma rua da cidade com o seu nome; mas tudo isso são recompensas depois de muito calvário.
Um bando de estrangeiros protestantes, recrutando milhares de sócios e ainda um clube com nome da principal cidade catalã... para a ditadura de Primo Rivera eram uma corja de aliciadores religiosos que queriam roubar fiéis católicos; ou, no mínimo, estavam instigando a independência da Catalunya, afinal o escudo do time era o mesmo da cidade, num clamor claro de sentimento patriótico. Ditadores tem uma visão distorcida da realidade, sejam eles americanos, africanos ou europeus... independe do país.
As cores blaugranas, uma das suas grandes identidades,  aconetceu meio sem-querer. Joan Gamper queria que fossem os mesmos vermelho e azul do primeiro clube dele, mas o desenhista não tinha o vermelho disponível, e assim ficou aquele roxinho mesmo.
Outra curiosidade que só os catalãos podem achar graça é a forma como carinhosamente também são chamados: os les culés (ou 'os cus'). Culpa da arquitetura do primeiro estádio que, nos dias de jogos, só se viam os reguinhos dos torcedores sentados nos muros das arquibancadas.......... :P
Por essas e outras, Joan Gamper só se ferrou na cidade que escolheu como a de seu coração. Que dó e que sorte!
Sorte porque, com tudo isso (e como todo bom sanguinho catalão), a teimosia deve ter sido um impulso milagroso quando, depois de deixar o time como jogador, virou presidente do clube, em plena pré-guerra, pré-ditadura, pré-caos total.
[Pausa explicativa:
A guerra civil espanhola foi uma das mais sangrentas de toda a Europa. O país estava tão arrasado que nem participou da Primeira Guerra Mundial por total falta de condições humanas]
Sua contribuição foi imensa: uma gestão de sucesso e o clube independente financeiramente; conseguiu construir o primeiro estádio próprio (o Carrer Industria) e ajudou na idealização de um outro muito maior (o Les Corts), quando o quadro de sócios passou de algumas centenas para mais de 10.000. Um feito!
O maior azar de sua vida foi, igualmente, o clube que amava.
Os catalães e os bascos sempre foram a pedra no sapato da Espanha, pois queriam suas independências. Eles se consideram (ainda hoje) um povo engolido pela força. Assim, quando Primo Rivera, num golpe de Estado, teve o poder de decisão de vida e morte dos seus concidadãos (como todo bom ditador), decidiu que a unidade espanhola deveria ser demonstrada com todo fervor, e a nada que ferisse essa autonomia seria tolerado. A primeira coisa foi a proibição, por completo, da língua catalã e qualquer outra manifestação da cultura regional.
O que Primo Rivera nunca imaginara era que essa atitude autoritária acabaria por direcionar todo o nacionalismo catalão para dentro do campo de futebol da cidade, transformando-o numa ilha de alívio para o povo ... porque ali, sim, o catalão corria solto, para desespero das autoridades nacionais; ou seja, esse clube era um pervertido... e além de tudo, campeão!!!
Nessa época o clube começou a ganhar menos e o Real Madri muito mais. Os árbitros apitavam com o apito das autoridades políticas.
A primeira grande manifestação do povo dentro das dependências do clube foi numa apresentação da banda da Real Marinha Britânica: os torcedores viaram o hino espanhol, com todo o ódio contido pela repressão cultural da política nacional.
Não deu outra... tudo recaiu nas costas de quem? De Joan Gamper, seu presidente na época, e o seu castigo foi maior que ele poderia suportar: o exílio forçado no seu país de origem. Culpa de Florbela.
Joan se suicidou em seu país natal, cinco anos após sua expulsão da Espanha.
A versão oficial diz que foi o Grande Crack da Bolsa de 29, que o deixou endividado e em grandes dificuldades econômicas; mas eu prefiro acreditar nas más línguas, nos seus mais próximos, que testemunharam uma depressão mais profunda que a de dinheiro e que não teria tido mesmo outro fim que não fosse dar fim à sua própria vida.
A célebre frase, e hoje escrita nas arquibancadas do novo estádio, o Camp Nou: Més que un club, foi primeiramente dita no discurso de posse da presidência do clube por Narcís Carreras e deixava muito clara a expressão política do Barça e de todos os barceloneses e catalães, porque tinha uma dimensão muito maior que somente um clube de futebol. O clube resumia um sentimento nacionalista pela Catalunya; mas foi outro ditador, o Franco, que acabou facilitando o vínculo desse sentimento ao clube, que se expandiu por toda  Catalunya, devido à continuidade da repressão cultural, política e econômica imposta por Primo Rivera.
Que sorte e que desgraça, Joan.

Catalunya... enfim!!!


Já faz tanto tempo que tudo aconteceu, eu nem me lembro mais de data nenhuma...
Vou começar pela minha primeira vez (claro, né... dã!) em Barcelona. Digo primeira embora não tenha sido... mas é como se fosse, porque na primeira, de verdade, eu tinha só 14 anos... e essa já é uma outra história!
Onde mesmo eu tinha parado?
Ah, sim... nossa aventura para sairmos de Portugal pela fila dos preferenciais. Verdade... que coisa boa irmos atrás dos nossos direitos, né?
Chegamos com, pelo menos, uma hora de atraso fora a uma hora a mais  pra percorrer todo aquele avião da rabeira até a ponta da frente. Se, naquela época, eu soubesse o que fiquei sabendo a pouco tempo, ficaria mais feliz por estar no fiofó do avião: segundo um estudo (mentira que eles derrubaram um grandão no deserto pra isso...), a primeira classe seria a primeira a morrer; as primeiras filerias da segunda classe, só teriam pernas e braços quebrados, mas a sobrevivência, mais uma vez, é do povão, ou seja... nós! Bom, isso se não houvesse uma explosão, porque daí ia todo mundo mesmo pro beleléu.
Enquanto isso, os meus primos que nos pegariam no aeroporto, comeram, beberam, colocaram a conversa em dia, fizeram um tour pelo aeroporto... e nada da gente. Por sorte eles não desistiram e foram embora.
Quando vimos o portão de desembarque ali, bem aberto à nossa frente, fomos feito boiada... bem tipo: salvem-se, quem puder.
Quem saiu primeiro? Euzinha aqui que vos fala escreve,of course.
Tinha um mundo de gente esperando o outro mundo que saia... fazia tanto tempo que a gente não via nenhum familiar... como eles seriam? Estariam mais gordos, magros, ricos? Dali a pouco só escuto minha mãe, discretíssima como ela só: "AAAAHHHHH... OOOOiiiiiiii". 
Olhei pra ela e ela correndo, em slow-motion, com os cabelos ao vento se atirando nos braços da prima. Pergunta se ela viu que tinha um cordão de 3 polegadas no meio das duas, tipo separando quem chega de quem espera !!? Não, né?


A foto está tremida (e é a única do momento histórico) por dois motivos:
1- porque eu ainda tinha vergonha de que eles pensassem que eu tirava foto feito cameraman, tipo: tirava foto, quadro  a quadro, pra montar um filme depois; e
2- a máquina da minha mãe era uma porcaria (desculpa, viu, mãe... mas ela tem um tantinho de preguiça).

Fomos direto para o hostal da amiga da minha querida prima louquinha como minha mãe. Na verdade, fomos 'quase' direto porque ela se perdeu (acho que o gps interno dela deve ter a mesma carga genética daquele do meu irmão Marcos) e, quando chegamos, meu primo já disse que estava lá há um tempão...... :P ....... eles foram embora... mereciam.
Quem nos recebeu lá foi o Pepe.
Lembro dele ao telefone e FALANDO EM CATALÃO, talvez não devesse ser nenhuma novidade já que estávamos na capital da Catalunya; mas, para mim foi absolutamente incrível... a língua que eu escutava quando criança e que, pra mim, parecia que somente os velhos sabiam falá-l, de repente, um cara normal falando no telefone. E eu entendendo tudo... talvez a primeira impressão que ele teve de mim pode não ter sido tão boa. Tipo: "oh, gente louca... vai ficar olhando, é?"
Meu avô não se importava em ser chamado de 'yayo' (avô, em catalão) mas a yaya fazia questão. Minha mãe faz questão... e eu vou fazer também. Barcelona não parecia, assim, um mundo tão estranho... era familiar... era como se fosse um lugar que há muito não víamos, mas conhecíamos.
O dia que eu fui buscar a minha passagem para o paraíso cidadania espanhola, eu estava feliz; mas, como todo bom espanhol que se preze, o homem do consulado tratou a gente mal pra caramba. Pra variar, quem foi comigo nessa barca-furada foi minha mãe.
Primeiro que ali só tinha gente com nariz empinado e a existência deles já era um favor para a humanidade.
Fui bem vestidinha pra causar uma boa impressão.
Depois de muitos "sim, senhora" pra cá, "gracias" pra lá, fomos parar num xilindró numa salinha com um velho gordo que tinha a cara do Frank Tagliano, do Lilyhammer.
De repente, ele me encara e pergunta amigavelmente (na medida do possível):
"Você já foi pra Espanha?"
"Ah, sim... e lá é tudo muito bonito.", achei que o cara de concha até podia ser legal.
"Pra onde mais você foi?"
"Portugal, França...", tipo: ah... muitos lugares. Cara legal... puxando conversa assim...
"E qual o lugar que você mais gostou?"
"Barcelona. É tudo tão diferente lá, tão maravilhoso..." Pronto! Aqui eu já estava totalmente amiga de infância dele...
"Barcelona não é tão maravilhosa assim".
" ? " Como é que é? Fica aí puxando conversa pra tirar uma com a minha cara, homidusinferno? Ai, que ódio... mas eu devia saber mesmo que esses africanos não poderiam falar bem da Catalunya mesmo. 'Africanos' é a forma que os catalães chamam quem não são catalães, e não é por causa da cor, não... é por causa do início da Guerra Civil Espanhola. Outro dia eu conto essa história.
Mas, afinal, eu estava ali... onde tantas coisas tinham acontecido.
Em vários momentos, nessa primeira viagem, eu parava só pra ficar escutando algumas pessoas falando, como no dia que estávamos no trem para a montanha de Montserrat: duas meninas, um pouco mais velhas que a Cacazinha, vestidas de góticas, ou qualquer outro disfarce emotivo (só que feios) falando pelos cotovelos, falando alto como todos da idade, mas tudo em catalão! Que doideira.
O hostal era muito parecido com o que eu lembrava do apartamento do Tio Pere e da pensão da minha prima (ela já fez muitas coisas, eu acho): o elevador era só pra quem subia... pra descer, tinha que ser pela escada, que serpenteava o fosso do elevador, todo bonitinho, metálico e cheio de cabos. Que medo.
Rose e Marcos ficaram com a suíte grande, mas sem cortinas; Manu, Maurício e Rafa, o dormitório grande, mas sem banheiro, e eu com o quarto minúsculo... sem cortinas e sem banheiro. Tinha outra suíte, ocupada por alguéns.
Deu repente, deu um tilt em todo mundo... AAAAIIIIII, VAMOS EMBORA DAQUI.
Montse, a amiga da prima e dona do hostal, vivia no andar de baixo com o Pepe e deu um jeito nas cortinas do quarto do Marcos, mas não conseguiu colocar um banheiro no quarto do Cinho. Decidimos ficar hospedados lá mesmo, afinal era o aniversário da anfitriã e ela estava comemorando com a família e amigos... tiramos a bichinha umas duas vezes da festinha dela.
Depois que Manu e Rafa voltaram para a Terra da Branca de Neve, Cinhozite e eu mudamos para um quarto MA.RA.VI.LHO.SO!!! O problema é que a boiada durou só uma noite... na seguinte fomos remanejados para outros dois quartos minúsculos... de novo.

ho fotos disponíveis 

1- O MEU liiindo fosso de ventilação. Esta foto foi tirada do hallzinho, logo depois da porta maldita (vocês ainda saberão porquê).
2- Euzinha (morta de tanto andar), no meu quarto Nº1, do hostal.
3- A minha janelinha pro fosso.
4- O meu magnífico quarto Nº2, com detalhes no teto e uma varanda pra rua Baillen.
5- A varandinha !
6- Eu fui boazinha e só tirei a foto depois que a minha vizinha de hostal (sim, a varanda dela é irmã de coração da minha), saiu pra tirar a camisola. Peguei a bichinha preparando seu "esmozar", ou café da manhã... (e engolindo-o, depois de se sentir vigiada, tadinha)
* O quarto N°3 não tenho fotos disponíveis, porque tirei da máquina do meu irmão Cinhozite e ele ainda não me entregou... tudo bem, as do Marcos (que eu pedi a quinhentos anos também não chegaram ainda)  ... :P ... *