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12 julho, 2016

Como os anjos nascem




O sentimento era de total desespero, um fogo que comia o peito e que, apesar de todo preenchido pelas chamas, ainda ardia com num vazio desolador. Certamente ele fora um covarde; é claro que ele poderia ter tirado aquela criança de lá, se não tivesse sido covarde daquele jeito. O touro já não importava mais... uma vida tinha ido. E a culpa era dele... ele não chegou a tempo... eu não cheguei a tempo.
Retrocedendo um pouco a cena, é possível ver uma casa numa parte mais elevada de um terreno quase plano. Ela era toda em madeira, desde as paredes até o telhado, toda muito rústica, e com uma grande varanda na frente. A porta se abre e o homem, de uns 38 anos, sai de dentro dela. É um entardecer, mas ele parece estar sorrindo, e olha para frente, na minha direção.
Ele vê a menina, uns 4 anos, novinha e inocente, e ela vai entrar na baia onde o touro esta. Esta baia não é grande, é estreita e comprida, feita por toras de pinheiro.
É como se eu estivesse no epicentro de um furação porque ele olhava na minha direção, com uma expressão muito diferente de quando saiu da casa, ele abana e grita, então sai correndo, em disparada para algum lugar bem à minha esquerda. Ele não me vê; eu não me viro de novo para ver a cena, e todo o mal segue seu curso, como antes.
Avançando para uma hora depois de tudo que aconteceu, ele ainda está lá, largado no chão da sua casa, inconformado, tentando entender e querendo que aquilo nunca tivesse acontecido. Agora ele carregaria aquilo para sempre.
Seu rosto já não chorava, ele estava em estado de choque, o tempo não passava.
Eu fui até ele, e eu sentia tudo que ele estava sentindo porque ele era eu também. Fiquei bem na sua frente, e tentei falar que ele não tivera culpa, que ele poderia superar tudo aquilo... tentei falar muitas coisas, mas nem as palavras saiam. Ele me olhava mas não me via, não me sentia, era como se eu não estivesse ali; mas eu, ao contrário, sabia e sentia tudo que passava dentro dele.
Num acesso imenso de amor que eu tive por aquele ser em profundo sofrimento, e sabendo que nada do que eu falasse seria possível confortá-lo, eu o abracei por cima de suas costas e disse, com convicção: "Eu vou cuidar de você".
Nessa hora, eu já não era o homem e nem a pessoa disposta a ajudá-lo, mas um observador externo e a cena que eu vi era de uma anjo abraçando alguém.
Eu entendi o 'SOMOS UM', e presenciei o nascimento de um anjo.
Ainda que não fique conectada àquele ser o tempo todo, sei que uma parte de mim ficou com ele, e que ele cuidará do outro.

11 julho, 2016

Eu? Jamais!



Um capítulo à parte para a nossa ida ao Guarujá.
Rebobinando...
Quinta-feira - Helena, a articuladora cuidadora do meu tio, liga e diz que o homem foi internado porque não fazia xixi: Inflamação dasbraba. 
Minha mãe aqui, em Ribs, pro meu niver da sexta.
Sexta - Helena, a desesperada amiga do meu tio, chora porque ele está com insuficiência renal.
" Também... O S'Enrique não toma água. Só bebe suco e come fruta, e diz que a fruta tem água." (Helena)
"Você acha melhor eu ir aí?" (Mãe)
"Não, Dona Montserrat, só dá mesmo pra dormir uma pessoa com ele no quarto, e tem que ter força pra levantar o homem. A senhora ia ficar sem fazer nada aqui" (Helena)
"Bom, vamos nos falando, então" (Mãe)
Sábado - Estamos meu Bãrids e eu na Neuzelaine quando a Carol me liga, e segue diálogo:
"Mãe, a yaya disse que a Helena ligou e disse que o tio pode morrer a qualquer hora e que era melhor ela ir lá ver o irmão" (Carol)
"Dãhhhh?" (oi?)
"Ela quer saber se você vai com ela" (Carol)
Pouco tempo depois, minha mã, meu Bãrids e eu estávamos indo pro litoral.
No caminho, já sabíamos que o estado não estava tão ruim assim. Meu irmão, que tinha ido no dia anterior com meu pai, disse que ele estava xingando bastante, então não estava tão ruim assim.
Pois é, a mulher que a Helena arrumou pra passar a noite com ele era a manicure que cuidava do pé dele e disse que ele foi uma crica do cão. Que não conseguiu dormir nada, que ele só resmungava, que não saia xixi, que ela era 'muy amiga' de arrumar essa casca de ferida pra ela, e outros 'quês' infinitos. Foi a manicure que achou que o meu tio estava tendo um surto xingatórico de morte-não-súbita e que, em vista desse quadro, só havia uma saída: abotoar o terno de madeira.
Ai, tem dó, né, doida? 
Só não foi pior porque ele ficou bem feliz de ver a gente, quero dizer, o Lemão e eu, porque a minha mãe ele nem olhava: a braveza veio porque a Helena, a estrategista, bota toda culpa na minha mãe pra ela se safar. "Mas foi a D. Montserrat que mandou isso..."
Enquanto estávamos lá, ela veio com uma história que revistaram as nossas bolsas pra não entrar cigarros no hospital.
Em minutos, o quarto virou uma farra. Era a Helena e minha mãe de um lado, meu marido no celular, e eu com meu tio de outro.
Quando já era hora de sair, perto das 20h, chega a Camila, sobrinha da Helena, trazendo a enfermeira da noite.
E ele pedindo cigarro pra ela, que fumava também.
Todo mundo dizendo que não podia, e blá, blá, blá. Eu fiquei com dó, porque o bichinho estava na abstinência desde quinta. Pra quem fumava um maço por dia...
No dia seguinte, soubemos da noite anterior.
A Camila tinha dado um cigarro escondido, que ele fumou no banheiro (provavelmente jogando a fumaça direto na janela, que ele é velhinho mas não é nada bobo). Mama nia, e a enfermeira? Ela resolveu acobertar a arte dele, porque não tinha jeito mesmo, e começou a borrifar perfume, que ela trazia na bolsa, pelo quarto todo.
Entrou uma enfermeira da enfermagem, torceu o nariz e perguntou se ela fumava.
"Claro que não! Eu também sou enfermeira, sei que não pode ..." acho que foi aí que ela conquistou ele, que devia estar naquela posição de velhinho indefeso e olhar inseguro de que a vida foi mal com ele. Que artista!
Dali um outro tanto de tempo, entraram dois seguranças reclamando que tinha cheiro de cigarro, e o único paciente que fumava naquele andar, era quem? O próprio.
Diz ela que, nessa hora, o cheiro já tinha sumido bem, então não deu pra afirmar que era dali.
Lembrei de uma história que o Josep, ou Papito, primo da minha mãe contou, de uma época que ele ficava na casa da minha yaya, em Barcelona: um dia meu avô Enric jogou um vaso com planta e tudo pra acertar o meu tio que estava mais abaixo do terraço porque ele voltava tarde da gandaia, e não adiantava mais brigar... aí ele tentou métodos novos. Sorte que não acertou a cabeça, e acho que nem o orgulho, porque ele continuou.
Com o meu tio razoavelmente bem, minha mãe foi na missa, e meu marido e eu fomos andar, antes de irmos ao hospital de novo.
Saímos de uma ponta da Praia de Pitangueiras e fomos ao final da Praia de Astúrias. 
O problema não foi nem a puxada de um milhão de quilometros que fizemos, mas eu não fui preparada para caminhadas, e eu tinha uma botinha maior que meu pé e com salto anabela.
Pensa numa pessoa torta que não entrega a pose. Ai, meus calos.
Quando chegamos no hospital, ele dormia como um bebê.
Não tinha dormido até as 4 da madrugada, e ficou contando toda a sua história de vida pra enfermeira que encobriu a arte dele do dia anterior.



Na época em que vacas voavam




Todo mundo sabe que pescador é um ser que tem na genética cromossômica supercalifragilística um 'quezinho' de mentira (ô pai, nem tô falando de você... sua época de pantanal já foi, né? Tudo é fase na vida)... então, mas uns pescadores foram presos por causa disso, e pasmem: nem eram portugas ou gregos... eram japoneses!!! Que feio, Terra do Sol.
Eles foram resgatados do mar enquanto seguravam nos destroços do barco que já chamaram de seu e, quando perguntados o que aconteceu, disseram que foram acertados em cheio por uma vaca que caiu do céu. Todo mundo pra cadeia... eles só podiam querer dar um tomé na seguradora. Vai que eles tinham feito seguro do barco contra mamíferos leiteiros alados, ou queriam notoriedade para virar filme hollywodiano. Pois é, não aconteceu nem uma coisa nem outra, mas como consolo, virou um filme arrentino, o 'Un Cuento Chino' (devo admitir, é arrentino mas é muuuito bom). Duas semanas depois do ocorrido, a notícia dos japinhas presos deve ter chegado à Russia e que, com o coração mole e a garganta molhada de vodca que somente Bóris Yéltsin teve, o governo russo admitiu: alguns tripulantes de um avião cargueiro da força aérea russa roubaram uma vaca que pastava próxima a um campo de pouso na Sibéria. Aparentemente, eles a pegaram para ter carne fresca por um tempo; mas, como não eram preparados para o transporte de carga viva, a bichinha ficou claustrofóbica e começou a se debater violentamente buscando um pouquinho de ar. Ela pode ter pensado, também, que fora abduzida por extraterrestres... muitos seres de duas pernas juram isso ainda nos dias de hoje.
Sem ter muito o que fazer, abriram a comporta e lá se foi a Mimosa voadora. Devem ter olhado para aquele monte de picanha indo ladeira abaixo. Triste para eles, e pior para ela. Estavam sobre o Mar do Japão. Mas, se eles saiam da Sibéria, pra onde estariam indo pra passar sobre o Mar do Japão? Pro Hawai? Porque pra Moscou é que não era.
Agora, se vocês, caros leitores assíduos e persistentes, pensam que vacas voam somente no exterior, estão redondamente enganados. Há um município, até bem perto de Ferraz que já existia na época das vacas voadoras. E elas não caiam, não... elas voavam. E quando soltavam fertilizante do céu, este caia e o som quando chegava ao chão era: POÁ. Nascia uma cidade.
Mas nada se compara a fazer aniversário numa data como a que eu faço: 8 de Julho.
Eu que sempre quis, de pequena, um niver alegre e quentinho, tinha que me contentar em brincar de esconde-esconde de esquimó, tanto era o frio que se fazia. A coisa boa é que tinha morango no meu bolo. E eu queria de chocolate. Tudo bem, mãe. Eu te entendo.
O do ano de 2.014 (aposto que nenhum brasileiro se lembra mais que houve uma Copa do Mundo por aqui) foi, digamos, marcante; o de 2.015 foi maravilhoso porque tive Petit Gâteau com parabéns cantado e acompanhado de um acordeon numa cantina daqui de Ribeirão. Só não foi mais legal porque lá é muito caro e o Vitor não foi. Animalzinho ocupado.
Mas este aniversário não tivemos muita escolha: fomos num restaurante japonês. A Lei Divina é maravilhosa porque eu estava programando ir no japa só no sábado (mal sabia que teríamos que ir ao Guarujá porque disseram que o tio Enrique estava indo dessa para melhor), então qual a solução? Um carro branco, num desenho que não favorecia o ocorrido, bateu num poste de energia elétrica, e derrubou-o: ele e outros dois postes. Ficamos sem luz até as 22h. Ou seja, fomos jantar sushi, sem sequer tomar banho. 
Pelo menos estava frio também.

09 julho, 2016

Acabe-ei, acabe-ei ...



Por que tanta felicidade por acabar de escrever uma viagem? Porque ela aconteceu a QUATRO ANOS ATRÁS!!!
Já aconteceram tantas outras: Peru, Chile, outra pra Espanha, Suíça e Itália; e, por fim, esta está no fim.
Eis o motivo da alegria. É como o fim de uma era: a Era do Atrasado.
Vou escrever rapidinho todas as outras e aí, sim... a liberdade sonhada.

Meu Bãrids toca 'O Pato' no violão, o Bibi toca 'Fantasma da Ópera' no piano, a Kátia Flávia pinta a óleo, a natureza morta; e o Vituim faz decalque de papel em madeira, dentre tantas outras habilidades... Uma família de artistas, como se fosse possível não ser, afinal temos algum sanguinho de Josep Carreras, Monstserrat Caballé, Gaudí, Miró, Dalí, Picasso... esse último tem que falar bem baixinho porque o filho-da-mãe não é catalão, descobri só hoje. Afff. Aliás, antes que alguém fale, o meu Marids não tem sanguinho catalão, mas a convivência comigo foi uma benção pra ele, virou artista: dança o dia inteiro (hihihi).  Descobri, hoje, também que o meu outro querido, o Calatrava usava demais o arco parabólico quaternário, assim como Gaudí, uma forma muito comum na natureza, pois usa o desenho das forças da gravidade para sua própria formulação. Já me sinto uma gênia por saber tudo isso.
Tentei entender Gaudí: de família meio pobre, não morreu rico; morreu, sim, atropelado e solteiro, casquinha de ferida por ser politicamente um verdadeiro catalão, e corre o risco de ser beatificado pelo Papa. Nada mal... mas fiquei pensando o que a sua mãe sofria por ele.
Fomos ao Parc Güell, no nosso último dia de Espanha... meu, pelo menos.
Naquela época de quando a gente era pequeno, lá em Barbacena do Norte, também viemos a este parque, e quer saber? Não mudou nadica de nada e, pelo que eu me lembro, nem o entorno.
Quando a minha mãe era pequena, porque mães já foram pequenas por mais estranho que possa parecer, ela ia para a escola OU pelo caminho da favelinha de Cambaru, que tinha gente boa e uma escadaria da Penha; [pausa - afinal, como toda boa lei de Murphy, ela morava num lado do Mont Carmel (Carrer Montserrat de Casanovas, 215) e, é claro que o Col.legi N. S. das Graças, ficava no pé do outro lado do morro,numa pracinha que só existe na cabeça da minha mãe, a praça Sanllehy, que eu acho que era o Parc de les Aigües - despausa]; OU cortando caminho pelo Parc Güell, que era o caminho mais comprido... então não sei como uma pessoa pode cortar caminho por ali. E, o Parc Güell era um parque do povo local, o povo pobre que morava por ali, e se reuniam de domingo naquele lugar meio bizarro, a la Gaudí, para dançar Sardana e fazer piquenique.
Nós fomos de metro e andamos até as tripas sairem pelo umbigo, num terreno íngreme, cheio de matinhos parecidos com a vegetação do nosso cerrado, e uma terra arenosa da chapuleta que nos deixava com o suor grudado no corpo pela poeira. Uma verdadeira delícia de óleo de fígado de bacalhau. Agora, se é assim em tempos atuais, com vendedor ambulante vendendo garrafinha a torto e a direito, imagina na época dos piqueniques... Pois é.
A D. Mont conta que a casa do Carmel era linda pois quem construiu era o dono de uma marmoraria, então tinha muito mármore pela casa toda. Claro que tinha mármore também no sótão, onde eles moravam, mas hoje tem um predinho muito do sem graça.
Eu adoraria ver aquela casa, mas imagino que para as pessoas da redondeza era só uma casa velha que deu oportunidade a mais pessoas morarem lá. E quem vendeu a propriedade foi a Magda, herdeira da Justa, a tia dona da dessa casa.
As fotos, fico devendo: perderam-se no tempo. Isso que dá demorar tanto. Snif.
Dalí, fomos direto pra casa da Pilar pra uma despedida regada a vinho e tapas... e quando digo direto, é porque foi mesmo: saímos atrasados e nem deu tempo de tomar um banhinho no nosso hostal (sabe aquele abraço meio de longe? foi o que rolou lá).