Nós ainda morávamos na casa da árvore... sim, nós damos números para os filhos e nomes para as casas.
[Pausa da história inicial]
A genética de casa deve ter dado alguns mal-contatos porque desde quando eu era pequena, meu pai errava os nomes dos filhos... e pior, minha própria mãe também. Por aí se vê que, se puxar de um lado ou de outro da família, o caos está instaurado; e comigo não foi diferente, também erro o nome dos rebentos.
Quero chamar a Cacá, sai Bibi... vou chamar o Tico, vem o nome da Cacá... berro o nome da Shakira quando quero o Bi... um verdadeiro sapato largo.
A solução genial não é minha, devo confessar, vem do Mc Donald´s: você pode chamar por nome ou número.
A Cacá é a Número 1; o Bibi, o Número 2; e o Tico, o 3.
Temos um amigo que sempre foi meio doido e que adorava ficar chamando meus filhos pelos números, quando eles respondiam ou olhavam, ele dizia: "Não é nada, não!". Puro prazer de comprovar o que eu chamo de Nomenclatura McDonaldiana.
E as casas?
Como vou explicar pros meus filhos pequenos (cof, cof) de qual casa estamos falando? (e cigano é a vovozinha, antes que eu me esqueça).
Por isso já moramos na 'Casa da Travessinha', vizinha do nosso excelentíssimo ex-vizinho cabelereiro Alberto Roberto. Quando ele, sozinho, se trancava pra fora, ele escalava o meu muro e pulava pra casa dele. Sem pedir ordem e sem saber como a matriarca estava resplancendentemente vestida.
Moramos também na "Casa das Águas'. Um nome bucólico para uma casa dosinferno: toda vez que chovia, caiu um dilúvio dentro de casa. Juro! Chovia mais dentro que fora.
A molecada gostava porque tinha um jardinzinho na frente de casa sem jardim; logo, o barro que formava virava pista de patinação de pobre.
Uma alegria, e o pior que era mesmo: quando não chovia, eu mesma jogava água.
Aquela frase de 'somos tudo pobre e limpinhos' não se aplicava muito em alguns dias. A gente era pobre, mas bem sujinhos.
A Shakira e o Bi nasceram na Casa Travessinha; o Tico, no nosso único apartamento... e só por isso, não ganhou nome.
Foi lá que ganhamos o nosso primeiro canarinho.
Ele era bem amarelinho-canário, quase branco, e era canária, porque quando levei na faculdade de veterinária de Jaboticabal, descobri que a doença dela era câncer em alguma parte feminina... nem sei como chama.
Nesse predinho tinha um povo estranho. A turma do fundo era meio louca, mas gostava da gente; em cima deles, uma japonesada completamente oriental,e, em cima da gente, um casal de bib's, calmíssimos. Por outro lado, na frente do predinho, tinha um bar!
Ai, como eu já xinguei aquele povo: era música sertaneja o fim de semana inteiro.
O que eu podia fazer? Grávida e histérica por silêncio? Mandava o marids.
Quando a gente saiu de lá, eles me adoravam e achavam o Lemonito um chato...... maldade, né?
Nossa última casa de aluguel foi a Casa da Árvore.
Fomos muito felizes lá.
Era naquela casa que eu colocava a batedeira no chão para fazer bolo e biscoitinhos de Páscoa com a mulecada, e eram os 3 enfiando as colheres de pau no meio das pás.
A batedeira durou muito. Ganhei de casório da Amélia, viúva do Jorge, que queria casar primeiro com a minha mãe, mas ela não deu bola. Ele era irmão da Tia Iva... outra malukinha familiar.
A yaya foi enterrada no túmulo emprestado da família deles, e fui eu que levei os seus restinhos pro cemitério perto de casa, depois de 5 anos de falecimento, eu acho, pra ficar perto do Vô.
Eu tinha uns 19 anos e estava morrendo de medo, depois de ver os poucos pedaços do vestido azul e do xale rosa que ela tinha sido enterrada, com palpitação na garganta... mas eu pensei assim: 'Caramba... é a minha yaya... que mal ela ia querer me fazer?'
Foi assim que vim o caminho todo.
Tenho tantas saudades deles.
Adoro sonhar com quem já se foi, porque é um jeito de matar as saudades... eu já rezei pra sonhar assim.
Bom, foi daquela casa que a Dibutuca fugiu, e pra onde a Chiquinha veio, num presente de Papai Noel.
A copa-cozinha tinha azulejos lindos. Era toda branca com uma faixa de azulejo de paisagem azul. Naquelas paredes eu colava figuras bonitinhas com o nome em inglês, tipo uma bruxa e 'witch' embaixo.
Eles aprenderam bastante, mas já devem ter esquecido tudo.
Foi lá que a Shakira ganhou seu primeiro quarto sozinha, e os meninos ganharam suas primeiras metades de quarto: Pintei a primeira metade de verde, e ficou pro Tico; a segunda metade era azul, do Bi.
Foi marcante porque o Bi só quer azul, e o Tico, verde.
Falando em bruxa, o Chaves tinha a Bruxa do 71, mas nós tínhamos a Bruxa da casa de cima.
Aff, ô mulher chata.
A Casa da Árvore se chama assim por tinha uma Sete Copas, bem da mequetrefe, na calçada fazendo nada de sombra e indo até a altura da fiação elétrica.
Naquela época a gente fazia churrasco no quintalzinho da frente, que era murado, não se via da rua mas abria inteiramente pra dentro da sala.
O problema era o sol.
A solução foi deixar a árvore crescer.
Ela, realmente, cresceu, cresceu, mas cresceu tanto que a vizinhança queria me matar. A danada solta todas as folhas no inverno, e são umas baitas folhonas que vira o maior tapete.
Não entendo o porquê de tanta irritação, afinal a casa da mulher só tinha um portãozinho e um portão de carros num muro gigantemente alto.
A cabelereira, da outra esquina, tinha só a lateral da casa pra árvore; mas as duas não suportavam aquelas folhas... mais ainda: a velha de cima reclamava que a árvore fazia sombra na piscina dela.
Meus filhos queriam saber porquê ela fez a piscina dela ali se já tinha a árvore.
Era uma boa pergunta pra quem nem sabia perguntar muitas coisas.
A Dunivi e eu varríamos todos os dias as calçadas das duas, mas nem assim elas se davam por satisfeitas.
Quando fui embora, de mudança, vi um pedaço de papel escrito assim:
'Você esqueceu de levar a sua árvore'.
Fiquei tão brava que quis fazer boletim de ocorrência, mas o guardinha não deixou porque o tiro podia sair pela culatra, se eu não tivesse provas.
Deixa pra lá... antes de cortarem a árvore mudou pra lá um esotérico que não cortava árvore (kkkkkkkkk)
Elas si fu.
Ficaram com mais 4 anos aturando a Sete Copas e suas folhas, porque ele não era como nós que varríamos.
Um dia eu lembro que eu cheguei da escola, com as crianças no carro, e vi uma escada na árvore e galhos no chão.
Briguei tanto com um negão que ficava lá pendurado, que se ele quisesse me bater, seria até covardia: foi a bruxa de cima que queria cortar 'a parte dela da árvore'. Louca. A árvore estava todinha na minha calçada, ela só queria deixar a árvore capenga... perigoso ela até cair.
Quando o inquilino saiu, elas cortaram tanto a árvore que parecia um toquinho, mas fizeram isso antes de entrar outro inquilino.
Mandei o guarda do Meio Ambiente lá e alguém pagou uma multa.
[Despausa]
Voltando aos finalmentes, foi lá, na Casa da Árvore que o Bãrids ensinou meus filhos andarem de bicicleta.
Essa casa era de esquina, então na rua de baixo que era mais reta, lá iam eles... um filho encima da bicicleta e o marido segurando o banquinho atrás. Uma vez a Cacá e outra, o Bi.
A bichinha até que pegou rápido, o Bibi é que demorou um pouquinho mais... mas foram.
E segunda-feira passada, foi a primeira vez que o Bi foi pra escola de bike.
Eu fiquei emocionada, de verdade.
O Vitor vem de ônibus da escola, na parte da tarde... e a Cacá já até se perdeu no centro de tão
Isso acabou me fazendo lembrar de um causo do Lemão.
Ele era muleque mesmo e acabou que atropelou um carro na descida e numa curva. Ainda saiu correndo, sem prestar socorro ao motorista... que deve ter ficado durinho, morto de susto.
Mas isso é mais velho que o lago em Bauru, com formato de homem...quem faz isso no meio de um nada pra ser visto de avião? Bom, talvez fosse parente do Niemeyer.
Lá estava ele, o rebento de Barbacena do Norte de Ribeirão Preto: Muleke magrelo, loirinho, o menor de uma gangue de uns 8 mulekes. E o barato era andar de bicicleta, como quem foge da polícia.
Lá foram eles, destemidos e sem breque (pelo menos, o meu marido... todo mundo já andou de bicicleta sem breque uma vez na vida) numa descida aterrorizante que culminava numa curva. E vinha um carro!
Fico chateada pensando na alma amiga que estava naquele carro. Estava, porque não deve estar mais entre nós desde aquela época. Imagina você vindo de um supermercado, pensando na morte da bezerra, em como se controlar para não torcer o pescocinho dos filhos porque a louça do almoço ainda vai estar lá, esperando a bronca santa de todo dia, quando... não mais que de repente, um animal sem rabo e de 2 rodas voa por cima do seu capô, com tudo, cai atrás do carro, e .................. sai correndo, lógico, senão ainda vai ter que dizer onde moram os pais, e estes vão ter que consertar todos os amassados e arranhões causados na lataria.
Pois é... esse é o meu Bãrids.
Sempre disse ao meu Oscarito: "Se os nossos filhos puxarem pra você, ou pra mim, estaremos perdidos". Não sei pra quem puxaram... acho que pra algum primo mais certinho de Barbacena do Sul.




