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22 novembro, 2022

Você é quem sabe.





O dia que chegamos na Irlanda foi completamente fora do controle. Começou, claro, na alfândega, ou melhor, na imigração. Pegamos a fila dos europeus (sou ou não sou, nem sei mais) e combinamos que falaríamos que iríamos para estudar inglês (pra que falar o que o Gabriel nos orientou, né? Ele disse que era pra falar que íamos ficar na casa dele e que eu sendo espanhola, podia ir pra morar, e ele era meu marido, que tínhamos dinheiro, empresa... mas era conversa demais, então resolvemos fazer do nosso jeito...) Isso mesmo... fizemos e entramos pelo cano: a primeira pergunta que o cara fez foi saber ONDE iríamos estudar inglês. Affff
Aí começou a confusão e já fomos direto para o plano E, de Enrolação. 
Ele podia não estar de bom humor, mas depois de nós, o dia dele deve ter ficado insuportável porque ele começou a se irritar e nos mandou pra fila de não europeus (eu estava muito desesperada pra ficar indignada, então fiquei só depois). O problema é que a gente já estava no guichê, e pra pegar a outra fila, tinha que ir lá pro fim... minha cara de inconformidade deu vez pra cara de pau mesmo e furei a outra fila. O outro cabra, muito mais relax, disse que era impossível fazer o que queríamos, mas também não nos mandou embora, deixou a gente entrar na Irlanda mas teríamos que ir atrás da documentação do Lemão depois, lá na Polícia Federal deles. Que fofo.

Mas veja só: afinal, era a IRLANDA.
Que ficar chateado o quê... vamos aproveitar! Como estamos com fome, vontade de fazer xixi, e sem dinheirinho deles pra pegar ônibus, vamos comer alguma coisinha, arrumar uns troquinhos, ir no banheiro, pegar o ônibs e chegar na casa do Gabriel. Desarrumar as malas, descansar e aproveitar a casa só nossa. É a glória!
Claro que se desse tudo certinho nem ia ter graça, então acho que tem alguns dias que o sol nasce e elege algum grupinho pra deixar a vida emocionante. Certamente não fomos somente nós dois, mas começou a dar tudo errado.
Andamos camelamente até encontrar um banheiro, que ficava bem longe de umas cadeirinhas onde arrumamos pra sentar e comer. Nosso senso de muquiranice já veio ligado porque nada melhor que perder dinheiro logo que se chega num país diferente, e ainda mais em euros. Bom, vamos pro  mercadinho no aeroporto. Cadê o bom senso?
Tinha bastante opção de comida, e parecia que não era tão caro porque tinha muita gente pegando, comendo, pagando. O que faltou mesmo foi o inglês, ainda que sobrasse timidez de falar errado.
O carinha do caixa ficou um pouco aperreado, mas que se dane, não dá pra alegrar todo mundo.
O número do ônibus era o 18, lembro como se fosse hoje. 
Toca procurar o número 18: pelo google maps, dava um lugar; mas as placas do aeroporto indicavam outro... vamos pelas placas, esse GPS brasileiro na Irlanda... hehehe. E andamos, viu? Olha que esse número 18 devia ser escrito deitado, parecendo o símbolo do infinito, porque era do outro lado do mundo, e as nossas mochilas eram pesadas.
Por fim, o ponto do ônibus 18. Mas não era o NOSSO ônibus 18, porque aqueles ali iam somente para hotéis. Andamos muito de barriguinha cheia e paciência vazia, e resolvemos ir pelo google mesmo. Volta tudo pro começo.
E no fim, eu descobri: são dois números 18. Um pra ir pra cidade que era o google; e o outro, do aeroporto, não sei pra quê... acho que pros trouxas mesmo.
Achamos o dito cujo, mas não deu pra pegar... tinha que ser somente com moedas do dinheirinho deles, e nos centavos certinhos. Jisuis.......... que o ânimo começou a fraquejar. 
Volta pro aeroporto, compra qualquer bobagem e pega moedas, volta pro ônibus 18 (outro, que aquele já foi embora), paga com moeda e entra, senta e outra aventura que rapidamente se apossou de nossas cabeças: onde descer?
Google maps já funcionou uma vez, vamos por ele mesmo. Time que ganha não se mexe.
Era longe, mas já era esperado. Os aeroportos sempre são longe de tudo.
Tínhamos que fazer baldeação, então descemos no centro e ficamos encantados. 
Afinal, era Dublin.
Dublin do filme, da obra do Magazine, dos vickings ruivos com cara de bravo, que comiam batata e andavam com o machado do Thor por aí. A cidade estava meio estranha, meio vazia, mas com muita gente nas calçadas indo tudo pro mesmo lugar.
Que povo estranho! Parecia até aquelas seitas, ou zumbizisse bizarra que faz todo mundo agir igual. Depois fiquei sabendo que é o futebol deles, meio futebol nosso com o americano... esqueci o nome... pra ser bem sincera, acho que nem fiquei sabendo do nome.
Ficamos meio timidozinhos, e acho que eu ainda mais, porque eu estava com medo.
Bom... vamos pra casa do Gabriel, e aí arrumamos um lugar pra comer.
Chegamos no ponto certinho, depois de ficar acompanhando o percurso pelo celular, com aquele medo estranho de errar.
Encontramos a casa, e tinha mesmo o parquinho na frente, a igreja mais pro lado e conseguimos achar a casa com a entrada igualzinha da foto que o Gabriel mandou pra gente. Ufa! Mas aí vinha outro mistério a ser resolvido: tínhamos que achar uma vizinha brasileira, muito amiga da Patrícia, a Karen, que ia dar a chave da casa deles (do Gabriel) pra gente, mas como chegamos na hora que o Caetano (filhinho bebe dela) ia dormir, não podíamos tocar a campainha da casa dela, então ela ia deixar o porch(*) destrancado e poderíamos pegar o chaveiro amarelo na prateleira de entrada.  E........... eu sei o quanto eles foram legais com a gente, e que nos receberam e tentaram nos tratar da mellhor maneira que eles podiam, mas que foi um baque, isso foi. Parecia tudo errado.
Achamos a casa da vizinha, o porch aberta e parecia que estávamos fazendo alguma coisa errada, porque a casa não era nossa, e o medo de entrar na casa errada?
Desde que havíamos pisado em solo irlandês, foi um susto depois do outro; e quando achamos que o pior já havia passado, veio a casa do Gabriel.
Ela era antiga, mas não era só antiga: era velha, mofada, cheia de carpete vermelho, não era feia, era estranha. E, pelo que a Patrícia me falou depois, o pai do senhorio deles morreu e levaram a mãe não sei pra onde, mas as coisas dos velhinhos ficaram, e eles não poderiam se desfazer. Muita sujeirinha de séculos que a Patrícia não conseguiria acabar, nem se quisesse, mas acho que ela não se importava. Bem no alto do primeiro lance das escadas, logo que se entra na casa, lá estava ele: um quadro de Jesus, com olhar melancólico... acho que ele ficou assim depois que o Gabriel&Cia mudou pra lá.
Gente do céu... vamos comer.
Rodamos um pouco, já estava esfriando mais um pouquinho e achamos um pátio de food truck. Eram uns 3 carrinhos: bebida, comida frita e a outra de hambuguer e fritas.
O Lemão ficou com alergia nossa estadia toda, e não era nem só por causa da casa, descobrimos depois que é a época de uma alergia geral por causa do pólen de não sei que matinho que é crônico numa grande parte da população, sejam nativos ou não. Nem me pergunte como, mas eu não fiquei com essa alergia.
Nossa rotina era sempre a mesma: a gente acordava logo depois do Gabriel usar o banheiro e sair para o trabalho, e ele só voltaria lá pelas 17h, quando sentaríamos para beber alguma coisa, jogar conversa fora e irmos dormir. Quando saíamos do quarto, eu brincava com a Clarinha até a hora dela ir pra escola, aí tomávamos café e trabalho até de noite. Nosso almoço era quase sempre salada ceaser na Green Kitchen. Nesse meio tempo, oboviamente, dava pra perceber que a Patrícia não estava feliz com a gente lá, e ela dava sinais: não era pra usar a esponja da cozinha desse lado, era pra limpar o reservatório do aspirador depois de usar, pra lavar roupa tem que tomar cuidado porque tem que ligar a tomada não sei de que jeito ...... era tudo coisa que eu sabia fazer muito bem, ou seja, limpeza de casa. 

Talvez devéssemos ter saído logo de lá, mas não foi assim.
E o que eu fiz de muito errado é que eu levei uns 10 presentinhos, embrulhados com papel de presente pra Clarinha, e dava um por dia. 
Ela não gostou e no mesmo dia que ela disse que era pra gente não fazer mais isso por causa do desperdício de papel e consumismo desenfreado, foi o mesmo dia que o Gabriel me pegou de jeito antes de sair pro trabalho (naquele dia, eu acho que ele esperou a gente levantar pra falar, ainda que chegasse atrasado no trabalho). Disse que era pra eu ajudar a Patrícia, e não atrapalhar ela de manhã, que ela já fazia coisa demais, trabalhava demais e se eu ficasse brincando com a Clara toda manhã, ela sempre ia sair atrasada de casa. Ele foi grosseiro, rude e sem clemência.
Nós estávamos numa situação de fragilidade emocional, morando de favor, tentando agradar e engolindo aquela educação fajuta que eles davam pra Clarinha. A menina não podia se aborrecer: se ela queria continuar pintando, tinha que pintar, se ela não queria comer, ela não comia, eles não faziam ela chorar. Era uma história de que todos temos traumas gerados por causa da nossa criança interior, mas acho que eles leram só criança; então ela não teria traumas de infância.
Você entendeu? Não? Nem eu.
Eu fiquei tão machucada com a bronca, que o Lemão me arrancou da casa, fomos pro parquinho, e lá eu chorei muito.
A única coisa que eu sei é que a gente ficou mais isolado depois disso: não saíamos do quarto antes que as duas saissem de casa pra escolinha... e elas continuavam sainda atrasadas mesmo sem a gente ajudar; almoçávamos tarde, só quando elas chegavam da escola e muitas vezes íamos passear ou resolver qualquer pendência de tarde.
A Patrícia quase pediu pra sairmos do quarto de manhã porque a Clarinha queria brincar, mas ela nem finalizou o pensamento, dizendo que se a gente quisesse, a gente podia sair mais cedo e brincar um pouco porque a Clarinha estava com saudades.
Pois é, minha filha... vai torcer fralda de coco pra salvar o meio ambiente porque eu... never more.
Foi bom termos que arrumar coisa pra fazer de tarde porque aí saímos para comprar um monitor de vídeo de um cara que morava num bairro quase não comunista, e o cabra era ainda espanhol.
Eu disse comunista porque foi o país que mais tinha casas iguais que eu já imaginei ver no mundo ocidental. Todas as casas são iguais, na periferia, pelo menos. São bairros e bairros de uma mesma tipologia. Ou eram todas térreas, ou sobrados, ou edifícios conjugados, mas um monte igual. Podiam ter térreas e sobrados, mas todas as térreas tinham a mesma planta, assim como os sobrados também.
Nos primeiros dias que estávamos na Irlanda, o Gabriel fez um pequeno tour com a gente, e descobrimos algumas coisas bem peculiares: não se come nada sem batata frita, e as variações de comidas de boteco são asinhas de frango, costeletas de porco, ou hamburguers.
Uma coisa que muito me impressionou foi ver um naná.
Estávamos andando perto do centro, num canal que tinha uma linha de vegetação muito bonita ao longo de todo o riozinho. Existia uma cerca separando a área gramada da calçada, e sentado nesse gramado, de costas para a cerca: o naná(**).
Ele estava todo de preto, inclusive um capuz. A pele era branca e os olhos muito claros, acho que azuis. Uma cara de atormentado, meio drogado, com uma energia maléfica e acho que tinha um capuz dentro do outro, o que fazia um volume maior atrás da cabeça: Era a encarnação do Woldemort de nariz. Fiquei tentada a tirar uma foto, mas o Gabriel disse pra não olhar e não fazer nada.
Eu já tinha ouvido falar dos naná, mas aquela visão me deixou apreensiva. O Gabriel disse que estando em 3, e ele sozinho, ele não faria nada, apesar de sermos estrangeiros.
Outra coisa muito louca, e essa foi a última coisa ruim que eu vou falar da Irlanda, é sobre os moleques pré-adolescentes que andavam em bandos. Esses eram encrenca pura.
Se você cruzasse com algum deles, não olhe, não faça nada, só se afaste.
O que o Gabriel falou é que, por lei, não se pode fazer nada com eles, mas eles podem atacar as pessoas e até machucar. Os pais são chamados pela justiça, mas pouco é feito.

E se eu passei uma ideia de que o Gabriel pudesse parecer uma pessoa horrível, pelo que eu falei, devo aqui dizer o quanto ele me ajudou também.
Ele me ensinou, com muita paciência, a montar um curriculo, o que falar com os recrutadores, o que responder nos emails e a ter uma posição mais confiável. Ele me incentivou a falar inglês e eu sou extremamente grata a ele por isso.

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(*)PORCH - é aquele hall minúsculo antes da entrada da casa propriamente dita. Tem uns 80 cm, no caso dessas casas, até a porta de entrada. Normalmente é onde se tira o casaco e os sapatos e, no caso do Gabriel, é tudo isso e mais uma infinidade de pequenas coisas amontoadas.
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(**)NANÁ - é daqueles cabras drogados, os 'nóias' daqui. São os inúteis para a própria sociedade, mas não suportam estrangeiros. Eles batem, e batem muito; então, não ande sozinho e desvie deles.

03 outubro, 2022

Sonho de ser estrangeira




Eu acho que de tanto o meu avô falar que era descendente dos vikings, por causa do nome Servat (ele era Enric Tor Servat), eu sempre tive uma quedinha pelos paises gelados da peste, tipo Dinamarca... aquele povo indiscritivelmente diferente de tudo que eu podia pensar na vida, e de repente... a Irlanda virou uma possibilidade de viver no exterior. Nunca tinha pensado na Irlanda porque sempre foi mais distante, imaginativamente falando, que a Dinamarca... era um país idílico, inexistente. Foi aí que eu assisti o filme 'Casa comigo': uma mocinha fica sabendo de uma tradição irlandesa que somente no dia 29 de fevereiro, as mulheres podem pedir seus noivos em casamento. Ela achou uma ótima opção e lá foi ela, dos Estados Unidos pra Dublin, já que o rebento estava em terras eólicas (pensa num canto do mundo que corre o vento). Ela contrata um cabra pra servir de guia que, por falta de dinheiro em cash na sua vida aceita o convite. Eles acabam se apaixonando, mas ela casa com o chatão, descobre que ele é chatão, e volta pra casar com o guia. Mas o lugar que termina o filme são os Cliffs of Moher. E é lá que eu quero ir de qualquer jeito.

*PAUSA PRA FOFOCA*
Quando eu estava trabalhando pro Magazine Luiza, a própria ficou encantada por um remelento que nem era arquiteto porque ele fez uma reforma que ficou simplesmente maravilhosa, num galpão para ser o QG administrativo de Franca. Só que eu descobri que ele chupou, até as corzinha das almofadas, de um projeto de Dublin............ ai se essa mulher descobre que o remelento não teve nem a pachorra de mudar alguma coisinha. Eita falta de imaginação.
*FIM DA FOFOCA*

E tem um amigo,o Gabriel da Rê (que não é mais da Rê porque depois de casarem, e ela perder a aposentaria vitalícia por ser filha de milico, eles se separaram), que estava morando em Dublin, olha que coisa! E nos chamou para vir para a Irlanda!! E morar uns tempos na casa dele!!!

Viemos.

CHAPTER 1 - SPAIN

Chegamos pela Espanha, dando aquela passadinha básica por Barcelona e encontrando os primos velhos (menos a Magda que estava de covid, e a Montse, provavelmente covídica também); fomos comer paella, num restaurante à beira mar: Jordi, Esther e Pilar mãe. O papo foi bom, e depois eles nos levaram para o Ibis que ficava fora de Barcelona, num bairro workplace (como diria um corretor em Madri): Ripollet; só que eles ficaram falando tão mal do lugar que, pra gente que era bom, já não estava mais depois disso. Na verdade, eu tinha achado um lugar muito bom,pertinho da Sagrada Famìlia, mas o AirBnB cancelou de última hora e tive que pegar esse outro. A parte boa é que conhecemos um lado da Espanha que não teria sido possível se não fosse esse problema: vivemos uns dias na periferia de Barcelona, e fizemos amizade com a turma da padaria que íamos, do outro lado da carretera.

A paella foi bem no dia do meu aniversário e no dia seguinte, no casamento da Amanda, pisamos em solo irlandês. Um verdadeiro sonho pra mim... e era viver lá, falar inglês, era pra morar!!! 


CHAPTER 2 - IRELAND

Como tudo que eu faço, as coisas se atropelam.

O Gabriel mora em Dublin com a mulher, Patrícia e a filhinha Clara. Já chamei a Patrícia de Adriana (ainda bem que não na frente dela) porque era a anterior do Gabriel. Mas tem uma explicação psicológica: o que eu chamo de 'a teoria do esparadrapo frouxo na boca': um dia que eu errei, e conversando com o Lemão chamei a atual pelo nome da ex, o Lemão foi tão enfático em nunca, nunquinha, chamar ela assim de novo, que entrou de um jeito no meu cérebro, que no último dia de Irlanda, acabou saindo (e olha que eu me policiei tanto).

Ela, sempre a Patrícia, nunca a Adriana, não estava nem um pouco feliz de termos ido pra lá. Primeiro, porque os dois conversavam por whatsapp, combinaram e ele não deve ter pedido muito a opinião dela para nos receber lá com toda a amizade que ele tinha pelo meu marido Oscarito. Segundo que quando eu comprei as passagens, nem combinamos com eles, e eles iam sair de viagem (o que foi bom, porque chegamos com a casa vazia para nós)... sim, sim, foi uma falha grande. Terceiro que eles tem uma filha pequena, que gira tudo em torno dela (e vivenciamos isso demais). Quarto que a mãe dela viria um mês depois de nós para ficar por 3 meses. Pasmem! Se acha que é pouco, ainda viria o pior: a filhinha se apegou a mim, porque eu brincava muito com ela, e acho que a mãe ficou enciumada. O resultado foi uma grande bronca vinda do Gabriel, por conta do que a Patrícia falou pra ele, que me deu uma desestruturada. Quando eu falo desestruturada, quero dizer, sair da casa deles. Só não saímos porque literalmente não tínhamos para onde ir.
Segundo o que ele falava pra gente é que ficaríamos na casa deles por ns 3 meses, e que eles já sabiam e estavam preparados pra isso. ( # eles uma ova, só ele, o Gabriel, porque ela não estava preparada; e nem nós, que quando ele falou isso, deu o maior desespero na gente, e foi aí que a idéia de sair da Irlanda brotou # )

E depois de um mês exatamente, dia 10 de agosto, estávamos partindo da Irlanda com muitas gratas lembranças de  um povo amistoso e gentil, mas o divórcio foi inevitável. 


CHAPTER 3 - SPAIN AGAIN

Hoje estamos em Roquetas de Mar, um lugar fofo que acabamos vindo depois de tentarmos ficar em Madrid, que era nossa primeira opção, mas infelizmente (ou não, como diria Caetano) não conseguimos alugar nada... de novo. Olha que eu vou te falar, viu? Eu já estava me sentindo uma desalojada, imigrante sem lenço nem documento.
Ah, mas já que meu problema não era lugar, mas dinheiro ... e muquirana é a vovozinha... fui caçar um lugar legal e barato: AirBnB > preço de até mil euros > espanha. Liguei os filtros, coloquei no mapa e fui escaneando todo o litoral, já que apareciam as acomodações com os preços. Comecei por Barcelona (sonha, minha filha), fui pra Madrid (pensa numa pessoa teimosa) e aí, vim descendo pelo litoral, até encontrar um apartamento lindinho com cozinha azul, em Roquetas de Mar, Andaluzia.
Fiquei sabendo depois pela Magda que era o pedaço de solo espanhol mais barato do país. Meu primo deve achar que somos bem pobres, ou muquiranas mesmo (espero que você, caro leitor, não esteja dando razão interna a ele........... 💀)

08 junho, 2017

Férias de verão - 2012



Eu não contei antes sobre as minhas férias de verão, porque não tive tempo. Aconteceram tantas coisas e eram tantas coisas pra contar, que eu precisava estar inspirada e de fôlego renovado (tudo bem que demorou meros 5 anos pra isso acontecer e ainda me pergunto se superei tudo).
Bom, tudo começou com uma prova de esperteza minha de dar inveja ao Soneca, o da Branca de Neve... deve ser um parente distante meu, aliás... Adivinhem ONDE eu fui buscar uma pousada? Na internet.
Opções de pesquisa: apartamento (ou casa), com cozinha, para 5 pessoas, praia do Una, São Sebastião, Toque-Toque Pequeno... caramba... tudo muuuuito caro. BUT, como quem procurava era EU, eu achei um apartamento, maneirinho, bonitinho (tudo branquinho), novo e distante 750m da praia. Tinha tanta opção (laguinho, montanhas, trilhas, cachoeiras, bicicletas, pescaria, surf, etc), pensei: "Achei o lugar".
Fomos para a Praia de Juquehy. litoral norte de São Paulo.
A cidade é feia pra dedéu, ou pelo menos era, naquela época: uma rua principal com algumas saídas para a praia que eram todas de paralelelípedo mais ou menos assentado, em eterna reforma, e o resto era só aquele areião batido, cheio de buracos.
O meu Bãrids já torceu o nariz... mas só se eles me enganaram.
Chegamos, aos sacolejos, na 'pousada' sem nome, na Alameda Galo da Campina, 100.
Na verdade, era um prédio horizontal de dois pavimentos onde um proprietário colocou para locação na temporada.
Mas a nossa habitação, essa sim, era uma graça... igualzinha como na propaganda.



Entramos pela micro sala em conceito aberto com a cozinha, toda equipada e limpinha; de um lado a escada pro quarto no mezanino, e do outro lado, o banheiro e o outro quarto com televisão. Não era nem um pouco ruim... do lado de fora, a vegetação da mata atlântica, com um riozinho sinuoso, uma área de churras e a piscina. Perfeito.
Ficaríamos 1 semana, mas só pra garantir e não deixar os rebentos com fome, trouxe comida pra 1 mês.
Quando a gente começou a descarregar o carro, os vizinhos acharam que eram moradores novos.
Rapidinho descobrimos todas as atenções: o laguinho se formava em cada poça depois que chovia, porque a gente descarregou o carro com aquela chuvinha fina; as montanhas, estávamos no seu sopé, longe de tudo e de todos (menos dos vizinhos); as trilhas, era o caminho para chegar em casa da praia e vice-versa;as cachoeiras... passa pra próxima... bicicletaria era uma oficina de bikes, entre o nosso descanso merecido e a diversão garantida; pescaria e surf, quando chegou nesses quesitos, já tínhamos desistido mesmo.
Arrumamos tudo, mais ou menos, mais menos que mais... e praia.
Demorou um tanto pra chegar, mas ela era legal... só que de tombo... Surf, né, tchonga?
Pra molecada foi maravilhoso, apesar do tempinho, que acabou melhorando. Até hoje eles lembram da praia, da barraquinha de crepe (nossa maior atração turística) e de um hamburguer do tamanho de uma cabeça que os esfomeados pediram. O Henrique pede até hoje... quer voltar lá. kkkk
Embaixo, a cama de casal com TV. O Lemão não sairia de lá por nada... se a TV tivesse alguma programação, que não tinha.
Eu fiquei com as crianças... imagina que eu vou largar meus filhos, ainda pequenos (15, 14 e 10 anos) sozinhos lá em cima? Nem que a vaca tussa (cof, cof)

Saldo do primeiro dia: Dormi num colchão de ar que deu cãimbra até no dedinho do pé.
No dia seguinte aquele sol prometia, nada poderia dar errado.
Foi nesse dia, na verdade, que descobrimos a creparia e o dono mais mal amado do mundo. Ele nos atendia com cara de quem chupou limão, e ai de quem mudasse de recheio depois de pedir (não estou dizendo depois dele ter começado a fazer, estou dizendo só depois de falar mesmo). 
Foi um dia calmo, até chegar no apê e descobrir que o vaso sanitário estava sem água.
Jisuis!!! 
Pensa num marido feliz pra consertar a caixa de descarga porque tudo que não dava era ficar sem descarga.

Saldo do segundo dia: Umas duas dúzias de baldes jogados na privada e do alto, que é para dar pressão e poder fazer aquela meleca toda ir buraco abaixo.
Bom, nada melhor que um dia após o outro. Já nem estávamos mais nos importando com os buracos, o carro indo a 5 km\h e nem a cara feia das pessoas do caminho para a praia, nem ligávamos mais pros cachorros soltos e da cara de ETs dos vizinhos (o que será que eles achavam da gente?). Uma grande decepção nem foi descobrir que os 750m da praia não era nem se pegasse a distância em linha reta, passando por cima da mata... só para ter uma ideia, dali até o Shopping Monjolo, já dava perto de 1 km..........:P........... o verdadeiro desespero bateu quando resolvemos alugar umas bikes, o que foi impossível porque o lugar era só uma bicicletaria. E toda vez que batia aquela fominha, lá ia a gente no carrancudo dos creques. 

Saldo do terceiro dia: No caminho tinha uma rodovia, e nem pensar em passeio natural... vamos quebrar as molas do carro, Bãrids. (Foi o que aconteceu: ele amassou a saia da frente quando despenquelou num buraco básico)
Fomos então ao shopping e era bonitinho mas não achei nada espetacular.
Chega de crepe por hoje, PELAMORDIDEUS!
Sim, meus rebentos comeram um hamburguer impossível de imaginar, e ainda sobrou fome pra ajudar a gente no nosso...eita, poço sem fundo.

Saldo do quarto dia: Pois é, dizem que alegria de pobre dura pouco, né? A nossa não foi pouca, não, foi bem curtida de sol. Foi aquele calor de rachar coco e não conseguir ficar na areia sem sombra. Solução: vamos comprar um guarda-sol no mercadinho que tem de tudo mesmo: carvão, esparadrapo, vela de 7 dias, cerveja, pão, remédio e guarda-sol.
Não tinha tantas opções assim, mas tinha um vermelhinho de joaninha... mas vai ser esse
mesmo, além de tudo, estava na promoção.
E toca pra praia...
Abrimos o mais novo item recém adquirido guarda-sol, que era pra ser de joaninha, mas deu pra entender o por quê da promoção: era de melancia.
Todo mundo sabe que eu não ligo para coisinhas diferentes,mas dessa vez, uma lombriga mexeu dentro de mim. Só o nosso guarda-sol se destacava naquela calmaria de outros guarda-sóis. Descobrimos que viramos ponto de referência na praia quando, enquanto saíamosdo mar, o guarda-sol saiu voando e um homem lutou pra pegar o bichinho e infincar no mesmo lugar, do tipo, o cara realmente se empenhou. Agradecemos, mas aí ele explicou que era importante pra ele também porque os filhos dele, caso se perdessem, tinham que esperar no guarda-sol de melancia.
Isso só nos fez ficar com aquela cara de samambaia: será que a gente ainda agradecia ou cobrava?

Saldo do quinto dia: Tantos dias num só lugar, já estávamos praticamente caiçaras. Tinha dado umas garoinhas, mas e daí, né? Alguém amanheceu com a garganta raspando, tinha poça de água em cada buraco da pousada até a praia, tinha a rodovia no meio do caminho, mas pra que se apressar pra praia? Vamos curtir a piscina e o riozinho da própria pousada.
Na piscina ficamos pouco, porque veio uma família estranha, com jeito esquisito e música sertaneja desespero. Vamos pro riozinho, e aí vimos que era uma valeta de concreto de uns 1,20m mais ou menos com um riozinho de meio metro. A valeta começava no pé da montanha e seguia embora, cortando o terreno. Samambaias e outros matinhos caiam que nem paisagem de filme... era bonito. Toca todo mundo dentro do rio pra uma aventura legal.
Já estávamos na metade do riozinho quando começaram os borrachudos, eita pernilongo do capeta... aquilo morde doído, e aí ainda chegou um cabra pra dizer pra gente que, quando chove na cabeceira, vem água muito forte.
O passeio do riozinho foi curto. Saímos depressa e fomos pra praia mesmo encarar o cara dos crepes pra mais uma batalha.

Saldo do sexto dia: A gente já ia embora no dia seguinte, uma semana já estava ótimo pra descompor as energias, e foi nesse dia que andamos um pouco mais pela praia e achamos um bar que tinha música ao vivo e um polvo simplesmente maravilhoso. Foi caro mas valeu muito a pena. O cara que tocava guitarra, improvisou um sax com uma garrafinha de água cortada no meio com um filme plástico, nem me pergunte como, mas o cara fazia miséria com aquilo lá. Foi simplesmente magnífica a nossa última noite.
Pena que ela não tenha terminado por aí.
Por ser a última noite, o Lemão não queria mais dormir sozinho lá embaixo e usou de seu poder pátreo para dormir com as crianças, na parte de cima.
Tá bom, ne? Fazer o quê? Meio a contragosto, fui para o saco de dormir.
Usávamos o saco de dormir,que já tinha travesseirinho e fechávamos ele todinho com um zíper, ou seja, a pessoa ficava mumificada dentro dele.
Eu tinha acabado de apagar a luz, mas ainda era claro e pude ver, claramente, o apocalipse acontecer em questão de segundos.
Vou explicar, mas saiba que isso já me causa pânico, só de lembrar.
Estava eu acabada de me ajeitar, puxando o último pedacinho de zíper e preparando os olhos para fechar, quando escuto um helicóptero voar sobre a minha cabeça.
Por causa do calor, meu marido semppre dormia de janela aberta, e ele me convenceu a fazer o mesmo, só que uma barata gigante, dessas bem criadas, lustrosas e todas cheias de si, veio voando como quem flutua num dirigível, mas muito mais rápido, potente e intimidador.
Aonde ela pousou, eu não vi, porque meus olhos foram ofuscados pelo meu grito. O problema era o sarcófago, não dava tem po de abrir e sair correndo; a solução: fui pulando da cama até a escada. Cheguei mais rápido que o Lemão. Podia até ter ganho salto em distância, pensando agora.
Dormi com as crianças.

Saldo do sétimo dia: Na Bíblia diz que o sétimo dia era para o homem descansar... nós, pelo contrário, fizemos a maior bagunça: praia de manhã, crepe de despedida e arrumar bagunça, deixar bagunça e voltar para casa.



Pode deixar... tô ligada.



Chegando no terminal de Milão, não tínhamos tanto tempo assim de sobra, então fui até a plataforma indicada e, antes de entrar no vagão, tomei minhas precauções: perguntei pra umas 3 pessoas que estavam entrando se aquele trem ia pra Genebra.
"Sí. Ginevra"
Mas entramos mesmo só depois que mostrei a minha passagem pra um casal que entrava e ele me garantiu que estava tudo certo. Pelo menos se estiverem me enganando, já tenho alguém pra jogar pra fora pela janela.
Fomos até nossos assentos. Estavam vagos. O trem estava vago. Ainda confirmei mais uma vez... até o Vítor já estava me convencendo que o trem era aquele mesmo.
Não estávamos na janela... uma pena. Mas ninguém estava sentando do nosso lado.
O esquema das poltronas era bem legal: cada lado do trem tinha mesinhas dobráveis com 4 poltronas, e as nossas eram as 2 do corredor.


Até que veio um senhorzinho e sentou na janela.
Ele ficou caladinho até o trem andar, aí desatou em falar. Acabamos nos rearranjando, e o Vitor nem quis ficar na janelona, o negócio dele era montar e desmontar o seu brinquedinho Lego que comprei no aeroporto da Holanda.
O velhinho era italiano casado com uma espanhola.
Eles moravam em Andaluzia e seu nome era Ricardo.
(Marido, não leia... mas viajei com o Ricardão... kkk)
Ele tinha passado na Itália pra ver alguma papelada e estava agora indo visitar o filho que morava na Suiça. Ele foi bem agradável.
A paisagem, ainda dentro do perímetro urbano, era bem feinha, mas conforme ia passando o norte da Itália, iam aparecendo os campos, com aqueles fardos gigantes de alguma colheita. 
Na fronteira com a França, entraram alguns policiais, e como foi avisado pelo sistema de comunicação, estava com os passaportes em mãos; mas eles nem ligaram pra gente.
Daí a paisagem ficou, realmente, deslumbrante. Passamos pelos Alpes e vimos cidadezinhas completamente cinematográficas, pensei como seria morar lá, a beira daqueles lagos. Nesse trajeto um passageiro me chamou a atenção, e não era porque era bonito ou charmoso, era porque era uma pessoa muito branca. Não albina, somente muito claro, muito louro, até os cílios eram louros.
Um bom tempo depois, chegamos na divisa com a Suiça, e entraram de novo policiais de fronteira.
Esses bem mais mal-encarados e, passando por nós, perguntou, balançando a cabeça, se estávamos com o velhinho. Disse que não. Aí, ele queria ver nossos documentos (não do velhinho). Foi um tal de procurar passaporte, escolher o brasileiro (porque tinha o espanhol), e tira coisa da bolsa, e põe coisa na bolsa, e o homem ficando impaciente.
Perguntou, em francês, qual nossa nacionalidade.
"Brasilianos", respondi em italiano.
Aí, ele tentou falar com um inglês, inteligível. Por fim, foi embora.
Com a viagem chegando ao fim, estávamos muito falantes e o velhinho já se sentia da família.
"Põe o dedinho aqui", disse, indicando a parte de dentro da mesinha.
O Vitor colocou e o homem fechou, pegando o dedo dele.
Fiquei sem reação. Percebi que não foi por querer, foi aquela brincadeira besta que dá errado: o homem pensou que ele ia tirar e o Vitor achou que ele não ia fechar.
Eu ri, o homem ficou sem graça, e o Vitor com o dedo dolorido.
Acabou a viagem e o Cinho já nos esperava na estação.
Agora, vamos pra casa dele.

07 junho, 2017

Porca Miséria !!!



Chegamos ao Maledetohel, depois de uma caminhada de bota os bofes pra fora... uma aguinha, um banhinho e depois mais comida italiana. Ai, que alegria.
Tocamos o interfone, entramos, pegamos o elevador, descemos as escadas, chegamos no portão dos quartos e tocamos, de novo, o interfone.
"blá, blá, blá,blá, blá, blá venire alla recepcione perque blá, blá, blá,blá, blá, blá " 
"oi?"
"blá, blá, blá,blá, blá, blá venire alla recepcione perque blá, blá, blá,blá, blá, blá " 
Afff, melhor ir na recepção.
Todo mundo espera aqui que eu já volto.
Volta pelo corredor, desce escadas, pega elevador, cruza todo o pátio interno, entra pelo corredor do outro lado, pega o elevador, desce escadas, e chego na recepção.

[Vou ligar a tecla SAP pra facilitar]

"Oi, a nossa chave não funciona..."
"Má voceis non eston mai naquele dormitório"
"Acho que não entendi nada. Repete tudo, por favor."
"Má voceis non eston mai naquele dormitório" Dessa vez, ele falou mais alto e devagar.
"Vixe... você pode falar de outro jeito... acho que estou entendendo errado"
Ele começou a gesticular, gritar, fazer mímica e, depois de muito tentar, acho que entendi: nossa reserva terminara ao meio dia, então eles colocaram em outro quarto; aliás bem ali, do lado da recepção... dava até pra ver a porta.
"E as nossas coisas?"
"Nói troxemo tutti"
"Peraí... eu falei ontem na recepção, pro meliante que acusou o Rodrigo de roubo, que ficaríamos mais um dia, e ele não falou que teríamos que mudar de quarto."
Va bene, pensei... mudamos, então, de quarto.
Toca a fazer todo o caminho de volta... ida e volta; isso depois de andar horrores naquele dia.
Bom... vamos ver o dito cujo.
Estava destrancado e, quando vimos, todas as nossas coisas estavam amontoadas dentro de grandes e pretos sacos de lixos, por sorte não eram usados.
Tudo, tudo que era nosso lá... roupa limpa, roupa suja, roupa dos meus pais, as nossas, o pente de cabelo, sapatos, mochilas, qualquer coisa que encontraram... tudo lá, do tipo junto e misturado.
Não teve jeito... tive um piti.
Cheguei pro recepcionista e falei que aquilo era um absurdo, como fizeram uma coisa dessas? Primeiro, mexeram nas nossas coisas sem autorização, e depois fizeram um 'nichixabi' total.
"Má sua reserva acabo... nói podia jogar tuas cosas na calçada..."
O quê ???? Não acredito que ele me falou aquilo.
Falei tanto que eu até parecia uma italiana, acho que era a convivência desses dias... era um tal de mão falar, boca xingar, saliva grudar na testa dele, sair frase em italiano, espanhol, inglês, portunhol; no final, acho que nem meus pais me entendiam... se eu fosse o casal sentado na recepção esperando sei lá o quê, acho que eu teria ido embora.
Fui pro quarto, quando eu percebi que ele ficou mudo.
Rearrumávamos as coisas, e víamos se não sentíamos falta de nada, quando o Vitor pediu pra ligar a televisão. Cade o raio do controle?
"Mãe, quando ele veio aqui, ele levou?"
"Ele não pode ter feito isso". Acho que minha cara deve ter se transformado porque até o Tiquinho estava desistindo de assistir.
Tadinho do italiano.
Pensando, hoje em dia, ele parecia um rapaz bom, talvez ele não fosse como o do outro dia... mas quando ele fez aquilo, virou pessoal.
"QUERO O CONTROLE DA TV", falei com fogo saindo dos olhos.
O erro dele foi querer dialogar comigo dizendo que as mulheres que arrumam o quarto não tinham encontrado o controle da TV do outro quarto.
"Quando você sai pra passear, você costuma levar o controle da sua televisão? Eu não saí pra ver o Coliseu levando o controle da TV dentro do meu bolso. Se elas não acharam, não é problema meu, não fui eu que saí daquele quarto por último. E o meu filho quer assistir televisão. EU QUERO O CONTROLE"
Ele ia reclamando muito enquanto eu saia com o controle que ele havia me dado... ainda voltei pra dizer que na saída eu não pagaria por ele... nem adiantava ele me cobrar.
"Isso non vale ni 10 dolares", esnobou ele.
"Nem que valese 100! eu não vou pagar"
Pra sorte dos meus pais, eles iam embora dali a pouco.
Fomos até a estação de trem, porque eles iriam de trem até o aeroporto.
Vi direitinho como fazia porque no dia seguinte seríamos nós que faríamos uma aventura intrépida: viajar de trem super rápido até Genebra, na casa do Cinho. Uh-huuu.
Estava estasiada com aquela possibilidade.
Meus pais se foram e nós também: pra Fontana de Trevi.
Descemos na Piazza Di Spagna e em 10 minutinhos era pra chegar... mas que nada. Foi um roda, roda que a gente se perdeu: o Tiquinho e eu.
Tiramos até foto numa fonte bem bonita... bem podia ser aquela, mas não era. e um bom italiano nos disse como chegar.
Chegamos mesmo, e foi outra surpresa às avessas: a Fontana de Trevi é linda, mas parece enterrada, porque ela fica numa rua abaixo do nível normal das outras ruas, tipo uma gracinha que fizeram só pra detonar com a gente no futuro, que é agora, e tem taaaanta gente que foi o 'ó' pra tirar foto e parecer que não tinha mas ninguém lá, somente o Vitor, eu e Fefê (Frederico Fellinni).
 
    Perdi a foto. 


31 janeiro, 2017

Tudo por um sonho...




A águia, poderia viver até os 70 anos, mas para chegar a essa idade, ela teria que tomar uma série e difícil decisão por volta dos 40 anos. Nessa idade, ela está com as unhas compridas e flexíveis, impossibilitando caçar suas presas para se alimentar; seu bico alongado e pontiagudo, já se torna curvo; suas asas estão apontando contra o peito, envelhecidas e pesadas em função da grossura das penas, e voar está se tornando uma tarefa difícil.
Então, a águia só teria duas alternativas: morrer ou enfrentar um doloroso processo de renovação que irá durar cerca de 150 dias.
Esse processo consistiria em voar até o alto de uma montanha e se recolher em um ninho próximo a um paredão. Após encontrar esse lugar, a águia começaria a bater o bico contra a rocha até conseguir arrancá-lo. Esperaria, então, nascer um novo bico, com o qual arrancaria suas unhas.
Quando as novas unhas começassem a nascer, ela passaria a arrancar as penas velhas; e somente depois de cinco meses, ela sairia para o voo da sua nova fase.
E poderia viver, então, por mais 30 anos...
Mas pra que se contentar com uma miséria de 70 anos? 
A lenda da fênix que ressurgia das cinzas foi inspirada, provavelmente, na lenda primeira da renovação premeditada da própria ave que é ela: a águia. 
Este animal mágico viveria por até 97.200 anos e, diziam as más línguas, que uma única lágrima sua poderia curar qualquer enfermidade ou doença... diziam mais: que as cinzas, nas quais ela renascia, tinham o poder de ressuscitar até morto! Vai ver que é por isso que o imperador romano Heliogábalo (203-222 d.C) decidiu comer carne de fênix a fim de alcançar a imortalidade... tem italiano pra tudo... como ele não achou carne de fênix (dã), comeu carne de ave-do-paraíso mesmo. 
Não funcionou... e foi assassinado pouco depois.
Aliás este episódio marcou não só a inocência, como também o 'jeitinho' italiano (e isso foi bem antes do 'jeitinho' brasileiro). 
A 23° edição da Bienal o Humor em Tolentino, bem na panturrilha do mapa em formato de bota, disse que os italianos mentem todos os dias; e mais... deu números: 25 mentiras por dia, em média. (Mentirinha... são somente 5 por dia!). Tem dia que mais, tem dia que menos. Vai ver que é por isso que eles já caíram em tanta lorota.
Roma é uma dessas cidades fascinantes, com muito menos glamour do que eu esperava e muito mais italianos... gentis, bobões... de tudo um pouco.
No dia seguinte ao batizado, estávamos livres para irmos por aí.
Eu já sabia de uma lanchonetezinha, andando uns 3 quarteirões por trás do Maledetotel, e comprava nosso breakfast ali mesmo, defronte uma praça aberta no meio do quarteirão. Entrava falando 'Ciao', e saia falando 'take away'.
Decidimos, caláro, ver o Coliseu Romano. 
A ida já foi uma festa, tinha monumentos,igrejas, lojinhas e bares antigos, junto a lojas de grife; meu ponto máximo foi o lugar que a Diane Lane, interpretando o papel da apaixonante Frances ('Sob o Sol da Toscana') parou, deu uma voltinha e seguiu seu caminho, bem na frente do Monumento a Vittorio Emanuelle II. Eu me senti, profundamente, naquele momento, em algum lugar considerável, no velho mundo.
Andamos uns 5 quilômetros (mentira... acho que foram só 2) até chegar ao nosso destino e me pareceu que o Coliseu era bem mais pequenininho que eu pensava... achei que toda aquela pompa romana caberia lá dentro. Devo ser megalomaníaca, porque quando falam que em tal espaço cabem 20 campos de futebol, eu imagino uma aquele descampado da savana africana, só que com grama verdinha; tipo a perder de vista. Quando falavam do tamanho do Coliseu, era a mesma coisa... 



Qual não foi nossa surpresa ao chegarmos ao dito Coliseu, que não era grande, mas que tinha a maior fila de todos os tempos!!!
S'Ormindo já queria desistir, nem que a vaca tossisse ele ia enfrentar aquilo tudo (cof, cof). Até que descobrimos que, se pagássemos para um guia turístico poderíamos furar a fila, ter umas aulinhas do que acontecia ali, e ainda nem precisava pagar a entrada (oi? tá louca?), tudo por uma ninharia... era só penhorar os molares do fundo; mas quem precisa de dentes ali? Fomos lá com a nossa guia oriunda italiana que sabia falar grego (mentira... ela falava espanhol com o grupo).
Ela contou tudo o que eu pesquisei depois e vi que estava certa



O ruim é que eu queria o lugar pra mim, não queria dividir com aquele monte de gente que fica fazendo pose e não deixava eu tirar as minhas fotos, era um saculejo, um empurrão de cotovelos... aff... nem dava pra sentir a energia do lugar. Pensando bem, talvez tenha sido melhor assim... já penso demais em leão, acho que não preciso de mais inspiração.
Roma Antiga foi erguida sobre 7 morros de diferentes alturas; e, por pior que seja ter que acreditar, e isso não é mentira, o monte Velio, um prolongamento do monte Palatino ao monte Esquilino, foi completamente aniquilado. Diz-se que esse monte dava a todo o lugar o clima de 'sagrado' e foi desmantelado para a passagem da Via dei Imperio, do Duce (alcunha de Mussolini).
Aquela situação, realmente, pegou minha surpresa e arremessou na parede: fiquei pensando o que mais poderia ter acontecido, e veio a resposta: para abrir a grande avenida por onde poderiam passar toda a sua demonstração de força militar, existia uma fonte, que só não era mais antiga que a maçã que Eva deu pro Adão; parece que ela era linda, só que estava no lugar errado, porque era por onde o ego dele passaria arrancando tudo. Parece mentira de italiano, mas é verdade. 
Esses italianos já tiveram a Era da 'aquila romana', na antiguidade; da aquila do Duce (MaleDuce...hihihi), na modernidade e, para fechar com chave de ouro das malandragens políticas, a Era Berlusconi... tudo bem que esse não levava águia em insígnia alguma, mas suas garras eram tão fortes que podiam agarrar piranhas, gazelas e até vacas (blé)... mas, depois de uma deputada como Cicciolina, um presidente como Berlusconi não é nada.

PAUSA para Momento Mea Culpa
[O que é que eu estou dizendo??? Depois do Tiririca ter se desiludido como deputado (alguém acredita em palhaço triste?), a dupla Lula e Dilma pode surpreender ainda?]
DESPAUSA para Des Culpa

Bom, deixa pra lá... depois de rodar feito peão e se encantar com tudo, o que faríamos, o que farofa? Nossa guia-nada-boba engatou um pacote com outro guia, italianíssimo oriundo da Venezuela, que nos levaria aos arredores. Esse guia era uma piada... toda hora, ele parava de mostrar para atender o telefone com chamada internacional (da Venezuela, onde ficara sua mãe e filha) até que, numa determinada hora, parou de tocar. Caiu o sinal de Hugo Chávez e as nossas esperas por atenção.



Só andamos mais uns 300 quilômetros dentro da Via Sacra, passando pelas ruínas do Forum Romano, adentrando entre os palácios de nem sei quem morou lá; eram ruínas, passagens subterrâneas (agora desenterradas), mostrando toda a mentalidade de auto-preservação do poder a qualquer custo. Jardins, com toda simetria e prédios adjacentes, saunas, banheiros, salões, corredores por onde passaram escravos com comidas e todas as outras extravagâncias que os poderosos exigiam.
Numa dessas passagens subterrâneas, o guia nos mostrou o lugar onde Júlio César teria sido emboscado, esfaqueado e proclamado sua frase tão emblemática: "Até tu, Brutus?", e foi num corredor de serviçais. Mas depois que o ex-prefeito de Ferraz, o Dr. Jorge, foi pego junto com o irmão fugindo por um dos canos de infraestrutura de pluvial, vestidos de mulher... isso mostra o quanto o ser humano pode se rebaixar; e o quanto as pessoas podem emburrar, porque ele foi eleito prefeito numa outra ocasião novamente.
Mas, continuando... em Roma, nosso guia estacou, num determinado instante e perguntou: "Existem duas coisas aqui que não combinam como lugar, o que seria?"
Todo mundo parecia um grupo escolar em aflição, ficamos olhando em volta, mas ninguém falou nada.
Aí, ele comentou sobre uma arvorezinha, encima de um morrinho nada-a-ver de terra, e um pequeno palacete bem moderno, no meio daquele lugar.




A arvorinha no morrinho indicava um ponto geográfico onde arqueólogos destacavam um lugar a ser explorado no futuro, quando houvesse tecnologia que não agredisse o local; e a construção, era uma casa das casas do MaleDuce (não sei se moradia ou pra despachos), que protagonizou uma foto famosa, e se via mesmo, na portada, a águia nazista; seu subsolo pode conter restos de um mundo muito mais distante que a antiguidade, a Era paleozóica. Hoje em dia, funciona o Museo Palatino lá.
Mussolini queria entrar pra prosperidade, e o carcamano conseguiu.
Voltamos a pé, praticamente mortinhos da silva para o nosso Maledetotel... no dia seguinte, bem cedinho, meus pais voltariam pra Suiça; o Vitor e eu, ficaríamos um dia mais, para então, partirmos para a maior de nossas aventuras: o Trem para Milão!



11 novembro, 2016

Quem matou Odete Roitman?






Só quando chegamos de novo no Maledetotel é que ficamos sabendo o que tinha acontecido para que Rafa e Rodrigo não participassem do batizado e o porquê toda a demora do resto do povo de Aracaju: O sem-vergonha-filho-duma-italiana-mal-falada-mãe-do-recepcionista-do-hotel acusou o Rodrigo de roubar o quarto de um casal de hóspedes e levar o dinheiro. Pensa bem: "quem poderia roubar senão os brasileiros? ", pensou o recepcionista.

Depoimento 1: No dia anterior ao batizado, a tropa aracajuzense foi passear e gastar dim-dim porque ninguém é de ferro; mas Rafa passou mal e quis voltar para o hotel. Rodrigo a acompanhou e, como a chave do quarto ficara com S. Nilo, pediram uma sobressalente ao sem-vergonha-filho-duma-italiana-mal-falada-mãe-do-recepcionista-do-hotel que, de muita má vontade disse que usasse e trouxesse rapidamente pois era uma chave mestra reserva.
Naquela agonia de acabar com a cólica que arrancava a alma, Rafa tomou remédio, tomou banho, tomou passe, tomou conta da cama e foi deitar... só aí, uns tantinhos de tempos depois, é que Rodrigo levou a dita cuja pro sem-vergonha-filho-duma-italiana-mal-falada-mãe-do-recepcionista-do-hotel.
Acabou aqui o relato do acusado.

Depoimento 2: No dia seguinte de ter batido na quina do armário, ainda meio mancando, o sem-vergonha-filho-duma-italiana-mal-falada-mãe-do-recepcionista-do-hotel foi para seu trabalho sempre desafiador, conversando com hóspedes de todo o mundo (naquele dia mesmo, à noite, teria uma mulher do Equador que conversara com ele, poliglotamente, e ficaria uns dias em Roma). Um brasileiro chegou e veio com uma historinha de que precisava sacudir, quero dizer, acudir a namorada que passava mal. Ele achou estranho; entretanto, pela insistência e convencimento das quase lágrimas derrubadas pelo rapaz, ele forneceu a chave mestra reserva... não antes de passar todo um rosário de preocupações, como as mães fazem.
Certamente tudo fora muito bem arquitetado pois, saindo dali, engambelaram o circuito interno de TV e correram para o quarto das vítimas, que não estavam lá, por sorte... do contrário poderíamos não estar desvendando um roubo, mas um assassinato duplamente qualificado.
Os miliantes (Rodrigo e Rafa) furtaram o dinheiro do cofre (por sorte os passaportes não estavam ali) e, num prazo recorde: ela foi para o quarto, sem acordar o sistema interno de TV, que dormia profundamente nessa hora, e o líder do grupo voltou com a chave e a maior cara de pau para a recepção.
Acabou aqui o relato do sem-vergonha-filho-duma-italiana-mal-falada-mãe-do-recepcionista-do-hotel

Desvendando o caso: Era um dia como outro qualquer, o sem-vergonha-filho-duma-italiana-mal-falada-mãe-do-recepcionista-do-hotel subia no autobus e reclamava das dores causada pela surra que levara no dia anterior da saracusa italiana, a Máfia. Ele até era um bom rapaz: trabalhador, gentil, mas perdia a cabeça no seu 'acetosa' perna-de-pau (alazão, em italiano, óh, ignorantes). Se ele pudesse, pelo menos, recuperar o dinheiro investido... eles deram o recado: ele não passaria daquele dia se não levasse o dinheiro na bibóca das ruínas do czar romano José Gesoino. O que faria? O que farofa? 
Ele viu aquele casal de velhos turistas saindo do hotel... e nem largaram a chave com ele. Isso vai contra as regras do hotel. Em seguida, chegaram os brasileiros com jeito de quem não brigam com ninguém e pediram a chave. 
Um turbilhão de ideias passaram pela sua cabeça agitada de apostas frustradas: sim, ele entraria no quarto dos velhos, pegaria o dinheiro e jóias do cofre (os velhos perguntaram como colocar uma senha... então deve ter coisa de valor lá), e colocaria a culpa no casalzinho. Perfeito! Mas eles não podem demorar em devolver a chave mestra reserva, senão os velhinhos poderiam chegar e seu plano, e sua vida, estariam comprometidos.
Ele acompanhou o trajeto do casalzinho... [espera]... porca miseria, eles estão demorando com essa chave... [espera mais um pouco]... 'fancullo' (tradução: Vá tomar no ...)... que demora!... 
Finalmente a chave.
Ele esperou, então, o rapaz adentrar em seu quarto, saiu correndo, passou pela entrada do edifício, deu uma olhadinha lá fora pra ver se o casal vinha... se ele corresse bastante, mesmo que o casal chegasse, eles eram lentos. Daria tempo... abriu a porta com a chave mestra reserva, foi direto ao cofre que estava aberto (é... eles não conseguiram mesmo entender), não tinha jóias, mas tinha dinheiro. Pegou tudo, saiu correndo de volta para a recepção e ficou lá, com cara de paisagem.
Como as vítimas levaram a chave, totalmente contra as normas da empresa, não poderiam dizer que foi ele.
De noite o nervosismo ainda era tamanho, que ele teve que pedir ajuda a uma linda outra mulher brasileira, morena, alta, simpática, e ainda falava inglês e espanhol........ euzinha aqui!.............. Esse fora um dia de sorte para ele.
Ele voltou para sua casa, e pagou diretamente para o Zé Dirceu, na sua pizzaria sem levantar qualquer surpresa.
Acabou aqui o relato dos agentes Salsicha e Scooby-Doo que, além de desvendar o caso, tiraram o rosto falso do sem-vergonha-filho-duma-italiana-mal-falada-mãe-do-recepcionista-do-hotel, e todos puderam ver: Berlusconi em pessoa, que saiu esbravejando e rogando praga. Pediu somente que o colocassem numa prisão feminina.
Por sorte e muita conversa de bastidores internacionais, não houve qualquer resquício de carceragem ao nosso jovem mancebo e sua amada, mas eles perderam a cerimônia de batizado de Lilóvsky. Por sorte, esta não estava nem aí com ninguém.  

03 outubro, 2016

Cabeçuda eu?


Como a gente sempre precisa de uma desculpa pra viajar, arrumamos uma: o batizado da Lilóvsky.
Como o Bibi e a Cacá já foram pro Equador com os meus pais, agora seria a vez do Tico viajar comigo. Eita, dureza que não vamos todos juntos... iremos um dia... (Na verdade, não tínhamos previsão para irmos ainda nessa época, mas como o post foi escrito ANOS depois, já tivemos nossa viagem familiar ao exterior, que foi maravilhosa. Atenção aos capítulos a seguir).
E assim, começa nossa nova aventura.

Depois de algumas horas no avião, você parece um panda preguiçoso lambido por uma vaca... e não adianta ficar horas na cabelereira antes de ir pro aeroporto, porque o glamour dos cachos vai durar somente até a hora do jantar do desgosto dentro da aeronave. A pele vai ficando esbranquiçada, e logo aparecem as olheiras, o seu corpo vai ficando lento, o tempo ganha outra cadência e a sensação é de que só se come e não se gasta energia nenhuma... e nada disso é pior do que acontece com o cabelo: ele vai descendo, vai se transformando numa grande pasta e vai escorrendo até que, quando você menos espera, ele já está todo grudado na testa. Pra quem não vive sem chapinha deve ser uma maravilha, mas no caso das cabelereiras-pirulitos-de-vaca (eu, minha filha, minha mãe, minha yaya... ou seja, uma família inteira femininamente de cabelo escorrido) é catastrófico. Quantas vezes não coloquei uma roupa elegante e desconfortável, comprada somente para o momento da chegada no outro país, e acabo parecendo uma louca imigrante com cara de traficante? Bom... não foram taaaantas vezes assim, afinal... mas também não importa. 
Chegamos por fim em Schiphol, o aeroporto de Amsterdã. 
O meu filho Vitor e eu, a caminho do batizado da Lilóvsky, em Roma, e depois Suiça e Espanha.
Mas que gente chique que eu sou, né?
Em 2007, esse aeroporto foi eleito o melhor da Europa ... era melhor mesmo que fosse muito bom: iríamos ficar ali por 8 horas! O rapazinho que me 'ajudou' a comprar as passagens só não tinha me dito esse pequeno detalhe...
Como a gente não tinha pressa fomos correndo pegar as malas na esteira (eu sou um pouco preocupada de que alguém resolva roubar minhas malas vermelhas da Le Postiche,  recém-compradas em 10X no cartão). Uma certeza eu tinha: se elas não tivessem sumido  na Holanda, no Brasil, ou no caminho entre os dois, pelo menos eu não teria surpresas desagradáveis de que alguém tivesse mexido nas minhas coisas... afinal meu Marids embalou as maravilhosas com aquele plástico etiquetado verde limão super chique e que disseram que vem com chip de localização.
Passou uma, outra, mais um milhão de malas e... por fim... elas! As maravilhosas vermelhas revestidas de plástico verde.
Veio a grande primeiro. Pego como quem não sente o peso das lembrancinhas.
E não é que os fiosdumaégua dos carregadores quebraram a alça metálica retrátil? P@##$%
Vamos esperar a outra... já nem tava tão feliz assim, mas a pequena veio inteira.
Imagine a cena: eu com uma mochila muito mais vermelha que as duas maravilhosas nas costas, as duas maravilhosas sendo arrastadas (porque eram daquelas que tem 3 rodinhas e não precisa tombar pra andar), um menininho bunitinho do meu lado com uma mochila preta nas costas e o Bart Simpson no colo... com um detalhe importantíssimo: eu estava com um sapatinho de salto, que não perco a pose por nada!
Que faremos? Que farofa? Banheiro, é claro.
Dilema na porta do banheiro: mas eu não vou deixar o meu bichinho entrar sozinho no banheiro dos homens e ser abduzido por nenhum chupa-cabra-maníaco-assintomático-europeu. "Não, senhor... você vai comigo no das mulheres."
Ele quis a morte, mas ele também tinha medo da Loira do Banheiro (e loiras aqui são muito comum, sabe?). Entramos.
Fui na frente e vi que não existia vivalma.
"Rápido, Vitor... pro último banheiro" Por sorte a cela pipictórica era bem grande e, enquanto eu fazia xixi, ele olhava pro outro lado. Vice-versa, of course.
Saí pra dar aquela arrumadinha no visual. Tô lá me maquiando, escovando as madeixas e, só dá gente entrando... espio que, lá da última cela, uns olhinhos espiam também tudo com pesar... acho que ele se perguntava em como sair dali sem chamar atenção.
Na hora de ir embora, chamo o bichinho... nada... vou até lá... ele se recusa a sair com tanta mulher (umas duas) por ali. Ficamos uns minutinhos dialogando, quando saí, vi uma mulher desconfiada me olhar... dali a pouco sai ele, com um pano cobrindo os olhos e me segurando pra saber por onde andar. Nem morto que ele ia ficar olhando mulheres num banheiro de mulher. Até a mulher riu.
Bom, que faremos agora de novo? Taí uma pergunta que não me abandonou por um tempão. Comer, é claro.
Dentre tantas opções, o tanqueirinha-mor queria o quê? Um McDonald's. Tentei explicar que o gosto era igual no mundo inteiro porque se tratava de uma comida em pasta modeladacom formato de hamburguer, mas que nada! Ele queria ter certeza e tirar a prova dos nove. Vamos, né? Afinal eu já estava com dozinha dele por tudo que ele já tinha passado e ainda passaria... culpa minha, não dele de ficarmos ainda tanto tempo ali. Aliás, culpa do operador da agência de viagem, mas deixa pra lá.
O piso do aeroporto todo era um piso frio... mas, não sei por que cargas d'água, BEM NA FRENTE DO MCDONALD'S existia um pedaço de piso de madeira... pra dar um charme, né?... mas foi bem ali que eu fui pro chão, espatifei, fiquei feito um ovo estalado, esparramado, com os cascos pra cima e toda a dignidade pra baixo. Fez um barulho do cão e isso muito me preocupou, afinal, primeiro mundo devia ter medo de atentado e nada mais discreto do que um ser como eu, acima de qualquer suspeita, para ser uma mulher-bomba... atenção, inhorantes: mulher-bomba; nunca mulher-canhão!
Só não fiquei com mais vergonha do que a vergonha que eu fiz o Tiquinho passar; mas ele manteve a pose e me acudiu, e ainda olhou o meu joelho e cuidou de mim.
Depois daquele incidente, quem levava as malas era ele, e quem dizia por onde ir também......... :P
O esquema da comida era um pouco diferente porque a gente pedia primeiro e ia com a comida no check-out (caixa) pagar. Como aqui a gente paga primeiro e depois pega a comida, deixei a comida lá, fui pagar, vi as pessoas com a comida pagando, voltei pra pegar o lanche e paguei. E atenção: Isso tudo sem mancar depois do tombo na frente de todos eles. Pois é... ninguém me acudiu, mas devem ter me achado um pouco estranha. 
Estranhos são eles, povo branco e de cabelo amarelinho (ainda que nem todos fossem assim).
Bom... depois de comer, fomos andar. 
Nós dois e as malas andamos muito. Por sorte,por sorte o aeroporto era grande e tinha muita coisa pra fazer.
Lojas, bares, banheiros, chaveirinhos de tamancos. Gente comendo, conversando, gente bonita no geral... e nós andando. As lojas eram pequenas e sem muito atrativo para nós, porque eram roupas, artigos de luxo, jóias, relógios. Que a gente ia querer?
Depois de andar muito e mapear todo o lugar (estava me sentindo naquele filme: "O Terminal", com Tom Hanks), já sabíamos onde comer, onde ficavam os guardinhas e que tinha uma funcionária da limpeza que era mal-humorada, como no filme.
Ela não nos deixou ficar numas cadeiras porque ela ia limpar. Claro, demos razão a ela, saímos... mas depois vimos que a grande limpeza dela não passava de um paninho muito do mal passado e enxaguado numa água suja pra burro. Começamos a rir porque, pra fazer uma porquice daquelas a gente podia ter ficado onde estava mesmo; ela percebeu, falou algo que a gente não entendeu com um outro lá, mas nos vingamos falando mal dela em uma língua que ela também não entendia: a nossa! E rimos de novo.
Passamos por uns restaurantes chiques e achei que tinha visto um mafioso. Melhor sair dali.
Fomos num espaço tipo galeria de arte aberta com pessoas sentadas em bancos psicodélicos. Eram umas pessoas estranhas com jeito esquisito, saímos de lá também.
De tanto que andamos, ficamos cansados, e a dor de garganta de quando saímos do avião começou a querer ficar pra sempre, e se manifestar. Caramba... melhor comprar um remédio.
E agora? Como comprar anti-inflamatório sem falar nem o meu inglês macarrônico? Cadê uma farmácia? Bom... existia uma drogaria lá do outro lado de onde a gente acabara de vir. Toca voltar. Chegamos feito retirantes: cansados, com sede, arrastando os pés e, tenho certeza, se a gente levantasse a palma da mão, davam uns trocadinhos.
Entramos, mas era uma perfumaria... tinha de tudo: cosmético, fragrâncias, desodorantes, protetor solar... cadê os remédios? O Tico me mostrou, mas eu não consegui escolher qual. Vamos procurar mais. 
Dali a pouco, o bichinho sumiu. Dali outro pouco, chega ele e uma moça com um remédio na mão: ele já tinha explicado que eu, a mãe dele, estava com dor de garganta e ela havia pego o remédio, no mesmo monte que ele tinha me mostrado antes.
Ele cuidou de mim. Que gracinha.




Olha a farmácia aí ------------>




Quando saímos de lá, paramos numa loja de brinquedos. Comprei um lego que se transformava num barco-anfíbio, num helicóptero ou num avião super-sônico.
Descobrimos, depois de somente umas 3 horas, que tinham poucos lugares pra gente ficar.
Fomos pro mais quietinho, na parte de cima. Era legal porque eram cadeiras de dormir, colocadas em duplas, viradas para o vão do pé direito duplo do hall principal.
Tinha gente dormindo, com as malas largadas perto das pernas, mas não tinha um par de cadeiras juntas sobrando... esse povo não tinha medo de ser roubado. Ficamos numas mesas ali perto, pelo menos o Tico montou e desmanchou o lego várias vezes.
Cansei de descansar, vamos andar. 
Nós e as malas andamos muito de novo. Por azar, o aeroporto não era tão grande assim e não tinha mesmo muita coisa pra fazer.
A internet gratuita não funcionava, então compramos, num bar, acesso por meia hora... queria dizer que ainda estávamos vivos e bem. Até o barman ficou com dozinha do Vitor, do jeito como ele me tratava e me ajudava, e deu um agrado a ele: um desses brindes gratuitos da cerveja Heineken. Era um radinho AM FM em formato de bola de futebol, com uma fita pra colocar em volta do pescoço e  fones de ouvido. O homem foi tão gentil que não tivemos coragem de dizer que o radinho não funcionava... quando chegasse no Brasil ia ver se eram as pilhas, mas não vi até hoje.
Num outro lugar, aquele que a internet grátis não pegava, estávamos comendo alguma coisa quando vimos, na mesa do lado, uma mãe e duas filhas comendo também. A menina mais nova estava de pijama cor-de-rosa... hihihi... sim, pijama. Eita, povo esquisito.
Quando conseguimos sentar numa daquelas cadeiras de descanso, vi um árabe dormindo. Ele tinha muito jeito e cor do deserto, e usava turbante. Tinha uma mala de couro bem bonita, mas não parecia que tinha muito dinheiro, não.
Quando dei por mim, já estava na hora ... ALELUIA ... vamos pro embarque de novo.
Chegamos, por fim, ao nosso gate, quase correndo, que eu só não posso perder esse avião e ficar mais meia hora sequer nesse aeroporto de novo.
Ainda bem que tinha bastante tempo porque andamos pra dedeu. Descemos umas escadas e pronto! Agora era esperar o avião abrir as portas.
Que vontade de ir no banheiro.
Toca subir tudo de novo (e com as malas na mão, porque não tinha escada rolante) pra voltar de novo lá pra baixo pra pegar o avião.
Quando deu tudo certo, abriram os portões... e fomos a pé pro avião, andando pela pista, no meio dos carrinhos de malas e outras aeronaves.
A última vez que eu andei na pista pra pegar um avião, quase morri... mas isso é outra história.