Tocamos o interfone, entramos, pegamos o elevador, descemos as escadas, chegamos no portão dos quartos e tocamos, de novo, o interfone.
"blá, blá, blá,blá, blá, blá venire alla recepcione perque blá, blá, blá,blá, blá, blá "
"oi?"
"blá, blá, blá,blá, blá, blá venire alla recepcione perque blá, blá, blá,blá, blá, blá "
Afff, melhor ir na recepção.
Todo mundo espera aqui que eu já volto.
Volta pelo corredor, desce escadas, pega elevador, cruza todo o pátio interno, entra pelo corredor do outro lado, pega o elevador, desce escadas, e chego na recepção.
[Vou ligar a tecla SAP pra facilitar]
"Oi, a nossa chave não funciona..."
"Má voceis non eston mai naquele dormitório"
"Acho que não entendi nada. Repete tudo, por favor."
"Má voceis non eston mai naquele dormitório" Dessa vez, ele falou mais alto e devagar.
"Vixe... você pode falar de outro jeito... acho que estou entendendo errado"
Ele começou a gesticular, gritar, fazer mímica e, depois de muito tentar, acho que entendi: nossa reserva terminara ao meio dia, então eles colocaram em outro quarto; aliás bem ali, do lado da recepção... dava até pra ver a porta.
"E as nossas coisas?"
"Nói troxemo tutti"
"Peraí... eu falei ontem na recepção, pro meliante que acusou o Rodrigo de roubo, que ficaríamos mais um dia, e ele não falou que teríamos que mudar de quarto."
Va bene, pensei... mudamos, então, de quarto.
Toca a fazer todo o caminho de volta... ida e volta; isso depois de andar horrores naquele dia.
Bom... vamos ver o dito cujo.
Estava destrancado e, quando vimos, todas as nossas coisas estavam amontoadas dentro de grandes e pretos sacos de lixos, por sorte não eram usados.
Tudo, tudo que era nosso lá... roupa limpa, roupa suja, roupa dos meus pais, as nossas, o pente de cabelo, sapatos, mochilas, qualquer coisa que encontraram... tudo lá, do tipo junto e misturado.
Não teve jeito... tive um piti.
Cheguei pro recepcionista e falei que aquilo era um absurdo, como fizeram uma coisa dessas? Primeiro, mexeram nas nossas coisas sem autorização, e depois fizeram um 'nichixabi' total.
"Má sua reserva acabo... nói podia jogar tuas cosas na calçada..."
O quê ???? Não acredito que ele me falou aquilo.
Falei tanto que eu até parecia uma italiana, acho que era a convivência desses dias... era um tal de mão falar, boca xingar, saliva grudar na testa dele, sair frase em italiano, espanhol, inglês, portunhol; no final, acho que nem meus pais me entendiam... se eu fosse o casal sentado na recepção esperando sei lá o quê, acho que eu teria ido embora.
Fui pro quarto, quando eu percebi que ele ficou mudo.
Rearrumávamos as coisas, e víamos se não sentíamos falta de nada, quando o Vitor pediu pra ligar a televisão. Cade o raio do controle?
"Mãe, quando ele veio aqui, ele levou?"
"Ele não pode ter feito isso". Acho que minha cara deve ter se transformado porque até o Tiquinho estava desistindo de assistir.
Tadinho do italiano.
Pensando, hoje em dia, ele parecia um rapaz bom, talvez ele não fosse como o do outro dia... mas quando ele fez aquilo, virou pessoal.
"QUERO O CONTROLE DA TV", falei com fogo saindo dos olhos.
O erro dele foi querer dialogar comigo dizendo que as mulheres que arrumam o quarto não tinham encontrado o controle da TV do outro quarto.
"Quando você sai pra passear, você costuma levar o controle da sua televisão? Eu não saí pra ver o Coliseu levando o controle da TV dentro do meu bolso. Se elas não acharam, não é problema meu, não fui eu que saí daquele quarto por último. E o meu filho quer assistir televisão. EU QUERO O CONTROLE"
Ele ia reclamando muito enquanto eu saia com o controle que ele havia me dado... ainda voltei pra dizer que na saída eu não pagaria por ele... nem adiantava ele me cobrar.
"Isso non vale ni 10 dolares", esnobou ele.
"Nem que valese 100! eu não vou pagar"
Pra sorte dos meus pais, eles iam embora dali a pouco.
Fomos até a estação de trem, porque eles iriam de trem até o aeroporto.
Vi direitinho como fazia porque no dia seguinte seríamos nós que faríamos uma aventura intrépida: viajar de trem super rápido até Genebra, na casa do Cinho. Uh-huuu.
Estava estasiada com aquela possibilidade.
Meus pais se foram e nós também: pra Fontana de Trevi.
Descemos na Piazza Di Spagna e em 10 minutinhos era pra chegar... mas que nada. Foi um roda, roda que a gente se perdeu: o Tiquinho e eu.
Tiramos até foto numa fonte bem bonita... bem podia ser aquela, mas não era. e um bom italiano nos disse como chegar.
Chegamos mesmo, e foi outra surpresa às avessas: a Fontana de Trevi é linda, mas parece enterrada, porque ela fica numa rua abaixo do nível normal das outras ruas, tipo uma gracinha que fizeram só pra detonar com a gente no futuro, que é agora, e tem taaaanta gente que foi o 'ó' pra tirar foto e parecer que não tinha mas ninguém lá, somente o Vitor, eu e Fefê (Frederico Fellinni).
Perdi a foto.



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