Era um dia como outro qualquer na vida de Armindolinha: a sacolinha de trapo que fazia as vezes de mochila de escola de uma alça só, que vinha do ombro pra ficar largada na barriga ou nas costas; e os pés descalços, que andavam na terra ou no gelo, e que era o seu orgulho por ter um casco tão grosso que entortava até espinho.
Todos os dias ele ficava de castigo no começo das aulas porque ajudava o Quico, que era homem já feito (de azar) que trabalhava para uma família. Um dia ele trabalhava no rio, ou descascava milho e depois foi tomar banho no rio, sei lá... o fato é que, pelo choque térmico que eu levou, ficou corcunda. Veja bem... ele não ficou com um calombo nas costas, ele ficou encurvado a 90 graus em relação às suas pernas, e sua locomoção ficou completamente comprometida, fazendo qualquer caminhada virar um verdadeiro sacrifício.
De família, ele tinha somente uma irmã surda-muda, acabou perdendo o emprego por causa da deficiência adquirida e acabou perdendo o gosto pela comida... só gostava mesmo era de beber... vinho. Alguns ficavam com pena dele, e lhe davam vinho. Coisa que ele ficava bebendo fazendo até a hora que meu pai passava para ir à escola.
"Óh, Armindolinha... me leva pra casa, Armindolinha... por favor", ele pedia.
"Ai, Quico... está bem... mas anda depressa que eu ainda tenho que ir para a escola ainda"
Quico correndo? E ainda com as pernas trançando por causa da bebida? Não podia dar certo mesmo, né?
Quem chegava com as pernas doendo era Armindolinha na escola, depois de correr da casa do Quico até lá. Ele morava bem perto da porta da escola, mas tinha que chegar até lá, afinal de contas, e a subida era animal.
"... mas eu só estou chegando atrasado por causa que levei o Quico pra casa...". já implorava Armindolinha.
"E o quico tenho a ver com isso?" e apanhava mesmo.
Conhecemos a sua escola... e, apesar de ter sido erguida outra mais nova, a antiga ainda permanecia lá, com todas as suas paredes de tijolos grossas, e os arcos ornados nas duas entradas, e até o pátio de terra batida nos fundos. De lá, avistamos a casa da Professora Rosinha, que morava na rua dos fundos... e que não era cor-de-rosa, era amarela.
Provavelmente era nessas mazelas do seu dia-a-dia que ele pensava...
De repente... um baita dum estrondo!!!"MEU DEUS... SERÁ O FIM DOS TEMPOS?", pensou ele, "mas, peraí... ainda não é o ano 2000!" Sim, porque Armindolinha acreditava quando lhe diziam: "Dos 1000 passarás, mas nos 2000 não chegarás"... (melhor pensar que o mundo acabaria mesmo no ano de 1999... pelo menos faltava ainda uns 45 anos pela frente).
Mas nem deu tempo de fazer muitas contas, Armindolinha sempre se assustava com ele que era, praticamente, uma baleia dentuça e cuspidora de fumaça diesel. Tá bom... na verdade era somente um caminhãozinho que abastecia de batatas a venda do Zé Galinheiro (ué... ele não vendia galinhas?).
Provavelmente, o motorista sempre achava graça em ver aquele moleque franzino se arremessar pra dentro da valeta que serpenteava junto à rua de terra.
Mas nesse dia... esse dia fatídico em sua vida... seus miolos não responderam com a mesma velocidade felina dos outros dias, ou talvez seja porque Monicaminhão o encontrou bem no meio de uma curva, ou pode ser ainda que o motorista quisesse fazer mais graça pro filho do patrão que sempre estava ao seu lado na boléia... seja qual for o motivo, o que aconteceu foi que Armindolinha foi atropelado pela parte traseira da carroceria. Desta vez, Armindolinha se ferrou! Voltou pra casa, para os cuidados (nem tanto, né?) de sua mãe... que olhou e sentenciou: "vai sarar".
A sua raiva era crescente, e toda vez que ele ouvia o barulho de Monicaminhão se aproximando, aquilo ia remoendo dentro dele, na sua barriga cheia de fome e com muita sede de vingança.
Foi aí, que despertou em sua cachola um plano... sim, um plano infalível: ele acabaria de vez com aquele sorriso dentuço e de lata daquele ser amaldiçoado.
Na verdade o plano demorou um pouco para ser preparado e isso pode ter sido decisivo para o final da história que teve, mas afinal, ele precisava primeiro sarar do braço quase degolado e que ficou um bucado de tempo roxo e dolorido.
Ainda assim, Armindolinha seguiu seus instintos... pegou uma pedra. Pequena não adiantava... tinha que ser grande... sim, bem grande... a maior. E agora? O jeito era encher a sacola da escola de pedras e subir no muro pelo portão, que era bem bonito (mas isso não vinha ao caso), das Irmãs Leais.
Caramba... era bem alto aquele portão e...
VRUUUMMMMMMMM ...
O raio do caminhão passou, e ele estava somente na metade do caminho para o alto do muro.
"Ai, carvalho... não acredito que aquela coisa passou mais cedo hoje..."
A persistência de Armindolinha era maior que tudo (alguns chamariam isso de teimosia... será?). Faria isso numa outra oportunidade... agora já fizera esforço suficiente.
Enfim... o Grande Dia Chegou!
Tudo deu certo.
Difícil seria atacar uma, ou mais, talvez, dessas pedras da mochila no motorista-quase-assassino-de-Monicaminhão (já foi complicado subir com ela... que o dirá atirar... e acertar o alvo).
Chegou cedo, escalou o portão com primazia, levou a mochila pesada e se posicionou já todo paramentado.
Armindolinha ficou lá... e lá ficou esperando. Por minutos, horas... onde estaria o pobre diabo? Pois é... ninguém sabe.
Monicaminhão nunca mais passou por lá.
O Plano de Armindolinha... falhou, mas foi por pura falta de vítima.
Séculos depois, em terras distantes, um tal de Graciano, que casou com uma portuguesa que nem era da Pousa, veio se instalar em sua cidade... e ao saber que Armindolinha vinha dessa região, disse:
"Pois, é... da Pousa eu me lembro de um moleque em especial. Todas as vezes que nós passávamos de caminhão pra levar as batatas do meu pai... acho que ele tinha medo do caminhão... porque se arremessava pra beirada da rua... numa vala", e ria... alto.
Armindolinha ria, mas só por fora... melhor não contar que ele quase morreu, né?



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