Chegamos em Barcelona... uma viagem infinita.
O Tuim com fome. Mentira, mas como eu fiquei com dozinha da viagem e como ele queria aquela porcaria de balinha ou chiclete que tinha no Brasil (eita, menino patriótico), e a peste do meu primo não tinha chegado ainda, fui comprar numa lanchonete circular quase em frente ao desembarque. Nesse meio tempo, o Jordi chegou e não nos achou, porque estávamos no redondo oposto da visão de quem vai para a porta de desembarque e nós, que não sabíamos que ele já tinha chego, ficamos rodando na lanchonete. Imagina aquela coisa maravilhosa do desencontro. No fim, bem no fim, deu tudo certo e fomos direto pra casa da Pilar.
A cidade é linda a noite.
Depois de pouco falatório: cama. Ainda bem que ela é uma ótima anfitriã. E que bom que ela nos deu hospedagem, porque a grana ainda era curta e eu ainda estava um pouco insegura de sair assim pro mundão.
No dia seguinte, como eu, praticamente já sou uma expert em Barcelona (cof-cof), vou liberar minha anfitriã para mostrar a 'Sagrada Família' para o meu filho. Tá, tudo bem... de novo? Pois é. Não sei o que me deu, mas eu queria algo que ele pudesse identificar como marco da cidade e se lembrar da viagem toda vez que o visse. Então... vambora.
No caminho, fomos vendo as praças, as 'carnicerías' (açougues), peruquerías (cabelereiras) e ríamos de tudo. Caláro que ele não ia se contentar somente em ver as coisas, e queria um donut porque, possivelmente, lembrava o Hommer Simpson; "Chega de bobagens, animalzinho... andando", mas eu sou coração mole mesmo e acabei compensando os donuts por umas cartinhas do Pokemón (ai, desgraça): era um jogo de tabuleiro, com umas pecinhas pequenininhas e umas cartas.
Aí, deslumbramento para mim: a igreja de Gaudí. Enquanto dávamos a volta na dita cuja pra achar o fim da fila da entrada, ele deixou cair um botton do jogo dentro do tapume que protegia algumas obras internas, e eternas, da Sagrada Família. Caraca... nem compramos e já perdeu? Mas o desespero opera milagres, talvez pelo clima espiritual do lugar, afinal, as pessoas são meio rabujentas por lá, mas um operário que passava por ali e que eu vi pelo vãozinho entre tapumes (algo impossível, por isso o milagre) nos ajudou (esta é a parte 2 do milagre) e nós, por conseguinte, desistimos de entrar (parte 3, porque só eu queria, o Tuim, não).
Ai, que ainda é o primeiro dia e eu já tô morrendo.
Do outro lado da rua, na lateral esquerda da entrada principal, tem uma pracinha aconchegante, com caminhos lindinhos, algumas barraquinhas arruinadas e um lago. Como estávamos com fome e a Pilar só ia nos encontrar no final do dia, o jeito era se arrumar por aqui mesmo. Imagina um lugar que não tem nem um salgadinho de saquinho digno, então, era lá. Compramos uma batatinha frita que nem o meu filho queria comer de tão ruim. Imagina, né?
Por sorte, tinham uns banquinhos de praça pra gente perder um tempo, porque as perninhas curtas do animalzinho faziam que ele se cansasse a todo momento (tá bom... eram as minhas).
Caia mais batatinha no chão que na boca, e foi quando ele percebeu que tinha um camundonguinho roubando as migalhas.
Pra quê?
Foi um tal de alimentar esse mickey que um senhor, de lá mesmo, esperando pela morte (quem sabe hoje?), percebeu o que o Vítor fazia e ria, discretamente.
Por outro lado, o meu filho não se contentava somente em alimentar... tinha que tirar fotos: do ratinho, da ratinha, do amigo rato, dos outros parentes... sim, tinha um monte deles naqueles matinhos. Eu até comentei com aquele velhinho: "Vem gente do mundo todo pra tirar foto de lá (e apontei a Igreja), e ele tirando foto dos ratinhos". O homem se divertiu quando compramos mais comida pros bichinhos.
Passamos o dia andando e comendo bobagens, meus pés queriam um banho de imersão; voltamos nos arrastando pro apartamento dela.
Ela não estava. Fui comprar um donut pro bunitinho.
Esperamos, esperamos, esperamos, e nada. Já não aguentávamos mais, comprei outro donut pro Vitor e ele sentou na calçada mesmo. Umas 3 hora depois do combinado, chega a Pilar pedindo perdão: a Lolin tinha parado no hospital. Pensei comigo que, se ela demorasse mais um pouco, seríamos nós que ela teria que procurar no hospital.
Reza a lenda, e a Pilar, que antes de morrer, o tio do Jordi, também Jordi (uma imaginação pra nomes), fez que ele jurasse de pé junto que não deixaria Lolin desamparada e que cuidaria dela.
E a promessa se cumpriu, todo mundo foi cuidar dela, e ninguém de nós.
Maria Dolores era o nome verdadeira de Lolin que se casou com um catalão, mesmo sendo uma murciana. Deve ter sido um escândalo na família, como foi quando o rei Eduardo VIII; mas imagina um rei torto: era ele.
Gostava de mulheres mais velhas e casadas, e acabou abdicando da coroa por causa de uma 2X divorciada americana que, pelo que dizem as más línguas, era quem segurava o chicotinho da relação. Se não bastasse, ele era, supostamente, simpatizante com o nazismo e, por isso, foi designado governador das Bahamas. Mas ela, que não era boba nem nada, preferiu acabar seus dias na noite boêmia da França que catando coquinho no Caribe. Esse escolheu a dedo. hihihi
Então...
O que lembro de Lolin era de uma mulher loira, parecendo a Farrah Fawcett espanhola, muito bonita; mas com voz grossa de homem. Aff Falava pelos cotovelos e também gesticulava muito. E, quando novinha, recém chegada de Múrcia, foi trabalhar na Canjorba. Imagina o antigo Mapping, ou o Corte Inglés, nos seus primórdios... acho que ela caixa lá. E foi conquistada pelo olhar apaixonado de Jordi: um mancebo, magrelo, narigudo e 10 anos mais novo. Pelo menos ela não era casada.
Dessa relação não surtiram filhos, mas pelo que meu vô Enric falava, eles tinham dinheiro. Jordi, o marido, morreu do coração, e Jordi, o sobrinho, tinha ganho de presente a herança e a mulher do tio: já meio senil e sem muita firmeza nas pernas. Por isso ela caiu... foi num descuidinho da enfermeira que ela caiu de nuca no chão. Outro milagre do dia: ela não ter morrido.
Pois é... entendemos tudo isso. Pilar se redimiu com o Vitor quando preparou um macarrão cheio de manteiga: coloque uma colher de manteiga no prato e jogue o macarrão escaldante por cima. Misture e fique em forma o resto da vida (forma de bola). A mim, ela me conquistou com uma taça de vinho e sem manteiga no meu macarrão.



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