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06 julho, 2013

Uma sendo a outra, sem ser exatamente a primeira

Dia de muitas emoções.
Já devo ter esquecido algumas sensações dessa viagem porque já faz tanto tempo que estou escrevendo sobre ela, que está sendo surpresa pra mim mesma recordar algumas coisas... graças a Deus, existem fotos.
Quando o trem ainda estava em movimento, pude admirar as pessoas... tão estranhas. Era tudo familiar, mas distante de mim. Outro dia mesmo eu percebi que eu tenho uma sensação parecida com os homens endinheirados de Minas, Brasília ou da região nordeste. Não esses meio fajutos que eu conheço, mas aqueles que tem um jeito de pensar muito distinto do meu... nem melhor ou pior, só diferente. 
E as paisagens, então? Fomos saindo da cidade por baixo dela e, quando me dei conta, lá estavam as montanhas... tão íngremes.
Não era a toa que os pastorinhos que descobriram a imagem de Montserrat estivessem com preguiça de ir lá em cima. Nós fomos pelo bondinho, parecido com  aquele da Urca, e ficamos vendo o rio Llobregat, o viaduto e a estação ficarem cada vez mais pequenininhos... mas teríamos outras duas opções, se quiséssemos: um bondinho terrestre ou a pé mesmo; mas nenhuma parecia melhor que a do bonde nosso pendurado porque, ou a gente chegaria com torcicolo ou não chegaríamos nunca, porque subir aquilo lá, ninguém merece.
O lugar é bonito, com o toque alaranjado dos tijolos e uma escultura fascinante, logo no caminho de entrada, de um 'Jesus' à la Gaudi que parecia nos seguir com os olhos, onde quer que fôssemos. Outro ponto indiscutivelmente lindo é um mirante ladeado por arcos góticos com a visão do vale... só que, nessa hora, meu pai já estava com fome então quase não ficamos lá.
Mas o que importava mesmo era a imagem da Santa. Foi pra isso que fomos lá, afinal.
A Igreja não faz jus à grandiosidade da crença: ela é pequena e escura, ainda que reluzente a ouro por todos os lados. Se pensarmos numa gruta, o Santuário realmente remete à meditação.
Não se deve tirar fotos lá dentro... como não podia nas Nações Unidas também, mas tiramos.




A imagem de Jesus que fica seguindo a gente com o olhar






Hoje sinto até uma pontada de vergonha, ainda mais tendo que colocar isso no blog porque isso depõe contra a minha chiqueza; mas naquela hora parecia impossível não fazer: Eu precisava registrar a Dona Mont em Montserrat.
Assim como eu precisava, por tudo nessa vida, registrar o mundo do meu irmão em Genebra. Preciso de mais coisas que eu preciso, eu acho.
Depois de rezar na nave principal olhando a imagem bem acima de todos, fomos pelo corredor lateral para fazer a visitação... e olha que andamos, viu? Nem parecia que a Igreja era pequena. Subimos degraus  e, enfim, a Santa.
Ela envolta em vidro, somente com um furo para o mundo que ela segura numa mão. E, no mesmo mundo, a mão da minha mãe, a Dona Montserrat, pedindo pelos netos, pela família, amigos e tanta gente que já partiu, com certeza.
Uma santa segurando a mão da outra.



Foi emocionante.

Viemos de longe para isso e era o momento dela, que ninguém estragaria.
Fomos para a capela atrás da Imagem. Eu tenho certeza que todos nós ali queríamos que minha mãe conversasse com a Mãe de Todos tudo que ela quisesse... e assim foi.
A saída foi tão interessante porque tinha uma parede inteira dedicada às velas, e eram de todos os tamanhos também.


A única coisa que eu sei é que, de uma hora pra outra, tínhamos que voltar logo pro bondinho. Parece que o horário de fechamento era por aquelas horas... e voltar a pé... nem pensar.
Analisando toda aquela imensidão que nos separava do mundo lá embaixo, o Marcos resumiu direitinho: Os monges não eram obrigados a ficar lá na clausura... eles podiam ir onde quisessem, desde que estivessem em seus quartos às 8 da noite.......... kkkkkkkkkk

Um grande momento de tensão: na última hora do último minuto para o embarque do último bondinho, meu pai sumiu.
Acho que ele foi no banheiro... e essa aguinha do joelho iria lhe custar uns 5 dias de descanso nas pernas.
O bondeiro já reclamava e, enquanto andávamos devagarinho, devagarinho, para a caixinha voadora, eis que ele chega. Vambora, S'Ormindo. Por último ainda entrou mais um homem atrasado... ele deve ter agradecido a gente.
Sei que todos fomos bem quietinhos, já bastava a cara do bondeiro, com aquele humor de fim de dia, que queria ir pra casa. Do nada surgiu o assunto do bondinho ser seguro e aí o bondeiro contou que já deixaram um maleta suspeita, uma vez ali.
Depois da descida, o mundo real.
Saímos todos quando, de repente... sobrou uma mochila !!!
Como sobrou uma mochila? Marcos é sua!
Não, não é não.
O bondeiro já começou a perder a cara boa de mal-humorado dele e agora estava realmente ficando estranha.
"No, no... perdona... és mia." , era do homem atrasado... ai, carácoles.
Parecia até que era uma piada sem graça com o pobre funcionário.
Acho, até hoje, que ele achou aquilo uma brincadeirinha dos brasileiros... mas eu juro que a gente não conhecia aquele homem.


Esta pessoa sem nariz, sou eu.
Uma linda paisagem
Tadinhos dos monjes ... hihihi


S'Ormindo achando que o último bonde se foi (antes de sumir pra fazer xixi)
Seria um furo de reportagem se na mochila tivesse uma bomba
De volta no trem pra civilização... tudo bem.
Fomos em pé, tinha muita gente no trem. Hora do rush. Gente cansada, gente sem expressão no rosto, gente querendo só chegar em casa, e nós.
Não sei o que falávamos, sei que já tínhamos conseguido sentar... e o assunto era a minha mãe. De repente eu disse: "... mas ela não tem culpa, né? Casou com um português."
Meu pai, que estava quieto o tempo todo, disse, como o Gato de Botas do Shrek: "Mas eu tô aqui quieto, e a culpa é minha? Isso é bullying !"
Naquela hora de extremo cansaço, todos nós caímos na risada. Foi tão intenso e espontâneo que o vagão inteiro olhou pra gente, e pude ver uma moça... só uma... que ria como a gente.
Quem sabe ela não era brasileira também, e tinha entendido tudinho...

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