Meus pais foram direto pra casa da Pilar... quem sabe estivessem mortinhos da silva de tanto andar, né? Ela deve ter feito um lanchinho muito gostosinho a base de jamón, queijo, pão e vinho. Mas e nós, pobres mortais?
Por sorte bem na esquina do nosso hostal, tinha um barzinho-lanchonete. A Rose queria água... melhor, então, já sentar e comer, né? As lombrigas já estavam disputando o quarto maior dentro das tripas, de tanto espaço vazio que tinha.
Sentamos na parte de dentro porque lá fora já batia um ventinho.
O barman-garçon é que nos olhou com uma cara meio de poucos amigos... oh-oh... parece que ele não quer nos dar comida! Comecei a ver nossa saga por comida novamente, como naquele dia em Portugaile, que quase matamos de fome um monte de gente faminta. O mais interessante é que, quanto mais eu achava que não teria comida, mais fome me dava.
O Marcos foi falar com ele... já deve ter chegado falando que era um retirante rico do Brasil, que veio a nado por causa de uma promessa e que ainda trouxe a mulher grávida de uns 5 filhos (porque até daria pra acreditar) só pra fazer romaria em Montserrat e que, enfim, cumprira seu legado e cá estavam: todos mortos de fome e aquele ser ma-ra-vi-lho-so em sua frente surgia como seu grande salvador.
"E aqueles outros ali?", deve ter perguntado o gaijo espanhol com cara de muçulmano, nosso garçon.
"Encontramos na travessia do Atlântico e resolvemos adotá-los", respondeu o Marcos.
Claro que as frases eu não podia ouvir, mas o tom era esse. Certeza.
A verdade é que tanto fazia o que ele falou, o importante é que deu certo.
A chapa já estava desligada, então teríamos que comer lanches frios. Tudo bem.
"Bom, e o que vocês vão querer? Escolham rápido antes que ele mude de ideia"
Pronto... foi aquela avalanche de pedidos de comida e bebidas, parecíamos mesmo uns desesperados.
Quando chegou a comida... "Vixe, não foi isso que eu pedi"
Vai... tira o tomate, coloca o jamón, um pouco mais de azeite... e lá foi o Marcos de novo. Tudo ele!
"Não, deixa pra lá... eu como isso", "... e eu como aquele..." foi mais ou menos assim o coro, quando a gente viu a cara do marroquino se transformando num dos guerreiros de Genghis Khan, com aqueles olhos malvados e puxadinhos. Isso porque o Marcos pediu pra consertar o que nem sequer ele tinha entendido direito com o portunhol misturado com catalão que corre nas veias de meu querido irmão.
Esse episódio me fez lembrar da primeiríssima vez (no ano de mil novecentos e zerente zero) que viemos a Barcelona, quando a Magda ainda tinha a pensão nas Ramblas: meu pai, cansado porque essas viagens é sempre muito relaxante para o cérebro (afinal nem dá tempo de pensar no tantão de dinheiro que você está gastando), mas para por aí o relaxamento porque o corpo fica moído. então... meu pai pediu para que o João e eu fôssemos nas lojinhas de baixo para comprar duas metades de cabeça de carneiro assado.
Lembro que minha mãe ainda retrucou: " Mas eles? Sozinhos?" e meu pai disse: "Pois se é aqui em baixo, é só descer, pedir e subir". Pois é... quase tudo funcionou dessa forma senão fosse um pequeno contratempo: não sabíamos falar nadica de nada que não fosse português. Claro que o catalão a gente entendia por causa do vô e da yaya.
Só chegamos e pedimos: "Queremos duas metades de cabeça de carneiro", e apontávamos pras cabeças.
O homem detrás do balcão perguntou umas quinhentas vezes e ainda trouxe um amigo pra nos traduzir. Quando ele começou a abanar a cabeça, declarando positivamente, que tinha nos entendido, abanamos a nossa também, concordando com ele.
E esperamos, esperamos, esperamos. Outros clientes passavam na nossa frente e a gente cochichava que, se a gente fosse gente grande, eles não fariam isso... mas a gente não podia ir embora, porque nosso pai estava esperando as cabeças pra almoçar.
Que impasse!
De repente, o homem começou a colocar no balcão um monte de sacolas com um monte de cabeças dentro. Olhei pro meu irmão, que olhou pra mim... ambos incrédulos. "Que é que nós fizemos?"
E pra explicar pro outro que eram só duas cabeças e não duas dúzias de cabeças... mesmo porque o dinheiro não daria.
Que desastre!
Até que chegou um outro... bravo que só (achei que ia bater na gente) e nos deu as duas metades, pegou o nosso dinheiro e ficou lá xingando o outro pelo prejuízo. Quando chegamos em 'casa' meu pai disse que já estava se aprontando pra ir atrás de nós.
Acho que os traumas nascem assim, né? Por isso eu comeria até joelho de camelo tostado no mel e mostarda, se fosse pra deixar aquele homem muito bravo, feliz.
"Ah, então está tudo certo? Não é pra mudar nada?", perguntou o Marcos, na frente daquele brutamontes com olhar perpetrantemente gélido para nós.
"Não, não precisa mudar nada... tá ótimo assim..."
O Marcos veio pra mesa. Comemos e, na hora de pagar, um pouco mais de encrenca... mas aí eu já estava no meio do caminho de casa.
Bom, nada melhor que um pouco de paz num dia conturbado como esse. Fomos dormir.
No dia seguinte fiquei sabendo: a água que a Rose queria, o Marcos tinha esquecido de pegar, por isso voltou no bar do Genghis Khan.
O Marcos falou que, quando o garçon viu que ele entrava de novo, ele simplesmente não acreditou, porque ainda não tinha se recuperado da raiva que passara, mas ainda assim vendeu a água. Acho que ele pensou que meu irmão não batia bem da cachola... voltar sozinho... ele podia apanhar.
Ai, Marcos, que você é um bobão mesmo. Ele disse que até pensou em ir em outro lugar, mas estava tão cansado e tudo já estava fechando... então foi lá mesmo............. :P



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