Angelina se casou com Miguel, filho de outro Miguel que meu avô Enrique salvou de ser morto com a família. No dia do casamento deles, dia de San Jordi, minha casa estava de luto por causa de minha Bis-yaya Carmem (ôh, nome lindo!) e somente a minha mãe foi no casório e ficou super deslocada, no alto dos seus 14 anos, usando seu vestidinho cinza (por causa do luto) com quadradinhos azuis, que sua madrinha ajudara a pagar.
Miguel e Antonia, os sogros de Angelina, eram ricos, tinham fábricas de cestos de vime espalhados no interior de Barcelona e, provavelmente, não deram muita atenção à ascensão do 'africano' Franco (depois explico). Esta besta hululante, o Franco... e o bom de xingar quem já morreu é que, no máximo, eles vem puxar os pés da gente de noite... esta besta-mor quadrada adotou, como os mesmos de sua laia, a grande solução de matar quem não o apoiasse. Infelizmente, muita gente morreu por isso e, para sorte dessa família, era o meu avô que vigiava a fronteira com a França para que gente, como eles, não conseguissem fugir.
Meu avô quis saber o motivo da fuga e, quando soube que era porque eram monarquistas (meu avô era republicano), ele achou que ter ideias diferentes não era motivo pra ninguém morrer e, assim como essa família, outras também acabaram cruzando a fronteira, ainda que fosse tudo muito perigoso.
Essa atitude acabou gerando uma enorme afinidade entre as famílias, e eles foram os padrinhos da minha mãe. Minha yaya e Antonia se tornaram amigas e, todas as vezes que se encontravam, minha mãe ganhava alguns quadradinhos de chocolate e um copo de refrigerante de ameixa (que estranho). No dia da primeira comunhão, ela que deu o pano do vestido, que minha yaya costurou... mas teve um preço: ela queria ver a calcinha da minha mãe. Deixa eu explicar logo: naquela época, as meninas andavam com as calcinhas cheias de renda e, sabendo que minha mãe era muito tímida, fez o dito pedido. Ah, sei lá... coisa de louco.
Da casa que minha família morou de favor com eles, existe agora um prédio... super sem graça, diga-se de passagem. Foram os outros filhos, que não ficaram com ela que resolveram vender enquanto Antonia, na época viva e viúva, foi fazer uma visita na casa de Angelina e Miguel (o filho). Ela dizia que gostava de ficar lá, mas que queria voltar para a sua própria casa... que dó... não se conformava que sua casa não existia mais. Depois de sua morte, Miguel, o neto (é verdade... os catalães só conhecem uma meia dúzia de nomes) se mudou pro quarto da avó e não mudou em nada a decoração. Não teve coragem de tirar a foto dela, alguns santos normais e a estátua de uma santa de quase um metro sobre a cômoda. Mas esta foi a única parte triste da nossa visita a Angelina.
Ela nos tratou como família, apesar de não sermos. Vimos sua varanda com flores, comemos crema català, cuja receita ela me passou, e curtimos demais a paixão de todos, mas sobretudo dela, pelo Barça.
Toda a vez que o time ganhava, e não eram poucas as vezes, ela decorava o elevador do prédio com novas fotos de revistas. Perguntamos sobre os vizinhos, e ela: " Ah, já estão acostumados!"
Uma pessoa com muita imaginação!
Aqui o marido mostrando, orgulhoso, a sua carteirinha de artesão oficial.
Aquele dia, eu dormi sorrindo.







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