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16 fevereiro, 2013

Cansei... eu quero colinho.


Resolvemos ir até o Mosteiro da Nossa Senhora de Montserrat.
Parada obrigatória, sem dúvida, visto que é um lugar muito importante para qualquer catalão que se preze... independente até de culto: é um lugar mágico!
A ida para lá me fez voltar no tempo, na última viagem às Oropas até então, quando eu era mocinha e meus irmãos, umas pestes. Ficaram gravadas em nossas mentes, as inúmeras visitas a igrejas e museus portugueses (também... nosso guia era um padre!), o padre Vítor era muito competente e ficamos tão entendidos no assunto, que não entramos em edifícios cheios de escadaria por um bom tempo.
Principalmente porque o Cinhozite, pequenininho, vivia correndo escadas abaixo enquanto todos ainda estavam no sentido contrário. E lá ia meu pai correndo atrás dele, e voltava com o malacabado nos ombros, pela mão ou pela coleira. Já o macaco do Marcos, que sempre gostou de banana, se recusava comer qualquer outra coisa... e banana era cara! Os parentes portugas achavam que nós erámos muito ricos por dar tanta banana pro menino... meu pai descobriu isso da maneira lógica: quando foi comprar as ditas cujas na Feira de Barcelos e voltou dizendo que o gaijo teria que comer qualquer outra coisa. [Esse blog está ficando com tantas postagens que não consegui achar onde foi que eu escrevi isso antes, mas já devo ter escrito.]
Nossa aventura aos montes rochosos e deslumbrantes da Santa, começou quando resolvemos ir de metro.
Parecia fácil: a entrada do subterrâneo era ali, tão pertinho do nosso hostal... umas duas ou três quadras. Esther, minha prima adquirida por ser esposa do meu primo, nos deu todo o itinerário... agora, era só procurar o trem certo.
Compramos as passagens e fomos direto pro banheiro crímico químico que um homem tinha acabado de sair. Primeiro foi minha mãe, uma expert em qualquer tipo de banheiro; aí, fui eu.. quando dou uma de turista, vou pro que der e vier... além do mais tinha dado uma vontadezinha depois daquele café da manhã.
Era espaçoso, muito maior que os que eu já vi, mas nunca entrei, aqui no Brasil, tinha papel, lavatório, o vaso metálico, e o que parecia ser algum outro compartimento misterioso, mas não dava tempo pra descobrir: tinha um cheiro horrível aquele lugar e líquido pisado pelo chão. Não era preciso ser muito esperta pra saber o que era aquilo no chão, e nem pra saber que, europeu ou não, o ser humano fazia fedido mesmo!
Bom... voltemos pra Santa.
Começamos a andar. Um corredor, outro, passamos por várias plataformas, e nada da nossa... pedimos informações aqui e ali, mas o segredo era andar mesmo. Foram pelo menos uns dez quarteirões subterrâneos quando, enfim, viramos naquele que seria nosso último corredor ... BUT ... ele era enoooooorme, monstruosamente comprido, reto, quente, com gravuras, algumas pixações e músicos de chapéu ... :O ... o Marcos conseguiu resumir esplendidamente: "É... a gente vai poder dizer que Barcelona tem metrô ecológico: o metro fica parado, quem anda é a gente".............. :P
Quando chegamos, descobrimos que nosso trem tinha acabado de sair, então sentamos.


Essa foto quem tirou foi uma maluquinha: gordinha, de mini saia, sandália com meias que cobriam os joelhos, vestida com roupas escuras (preto emagrece em qualquer língua), uma sacola azul e um macaco de pelúcia marrom. Ele, o macaco, não era algo discreto: entre pés e tronco devia ter uns 70cm, mais uma cabeça pendura, e vestido com uma roupinha listrada em vermelho e branco... fora o boné, listrado de azul, ou todo azul, sei lá.
Tentei até tirar uma foto dela fingindo tirar da família, mas não deu!
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Mare de Déu de Montserrat


Bom... essa imagem é carinhosamente camada de 'La Moreneta', ou A Moreninha, porque ela é uma santa negra. Estranhíssimo isso, porque os únicos negros que eu vi em Barcelona eram os africanos assustados que vendiam bolsas clandestinas numa manta quadrada (já na cor de poeira) e com um fio em cada ponta que eles seguravam enquanto chamavam a clientela (assim, quando chegasse a polícia era só sair correndo que a mercadoria não ficava pra trás); ou os indianos, que tinham lojas estabelecidas pela Ramblas toda, e falavam a maioria dos idiomas conhecidos, desconhecidos e até os inventados.

Mas a história mesmo dela se perdeu na escuridão dos tempos.
Uma piedosa tradição conta que foi o apóstolo Pedro [sim, nada menos que ELE] que trouxe a imagem da Virgem Jerusalemitana para a sua viagem à península ibérica... eu li que esta tinha sido esculpida em madeira pelo apóstolo Lucas, mas aí acho que já é santo demais nessa história. Os catalães dizem que foi a viagem dele para Barcelona, não para a Espanha, que seja!

[Pausa pra explicação:   Pra quem não conhece o povo catalão, o meu amiguirmão Palalávius deu uma definição ótima (e até boazinha): "É um povo que se gosta". Eu diria que até demais... :P ... porque não sobra mais nada do verbo gostar pros outros espanhóis, ou seja, os 'africanos', como eles chamam os não catalães.]

A única verdade que se pode afirmar é que ela realmente era venerada na cidade, já no século VI.

Nossa Senhora Jerusalemitana... parecida mesmo com a outra.
Mas a história não pára e nem dá trégua para ninguém... então, com a invasão da Espanha pelos mouros que atravessaram o estreito de Gibraltar, os cristãos tiveram que esconder suas imagens embaixo da terra ou em antros inacessíveis das montanhas, com medo da profanação dos infiéis. Para esse fim, o monte serrado (cujos picos lembravam um serrote), ou mont serrat, oferecia grandes recursos... e a N. S. Jerusalemitana foi levada para lá por piedosos fiéis de Barcelona para ser escondida numa de suas cavernas naturais.
Praticamente dois séculos se passaram, e aqueles que a esconderam não ficaram pra semente... morreram. Então quis os céus que a lembrança daquele tesouro perdido fosse manifestada.
De fato, no sábado de um belo mês de abril, numa primavera florida, provavelmente, Lúcia, Jacinta e Francisco alguns pastorinhos, às margens do Rio Llobregat (e euzinha aqui me lembro desse rio nessa última viagem) viram um grupo de estrelas, mais brilhantes que o sol no alto da montanha, e cânticos angelicais que os deixaram extasiados.
Ficaram extasiados, mas não foram lá ver. Afinal, quem cuidaria do rebanho de ovelhas aqui em baixo?
Entretanto, sábado após sábado, o efeito maravilhoso de som e luzes aparecia no mesmo lugar. Intrigados (e lentos para se decicirem a isso), os pastorinhos contaram o acontecimento aos patrões que, como São Tomé foram lá para ver, e constataram o mesmo... mas o que sobrava de deslumbramento, faltava em vontade de subir aquela ribanceira rochosa.
Foi aí que chamaram o vigário de Olesa... mas ele não subiu, afinal quem cuidaria do rebanho dele também? "...mas peraí: tem o Bispo", alguém deve ter falado.
O Bispo de Manresa ficou pensativo e viu que só teria mais uma pessoa a quem recorrer: o Prefeito.
O Prefeito de Manresa conhecia sua importância, afinal essa cidade é o centro geográfico de toda Catalunya. "Esta bem, ó Bispo... vamos lá!"
"... vamos... ???", deve ter pensado o pobre homem que também conhecia a piranbeira que era a região.
Mas seus esforços não foram em vão, além de perderem uns quilinhos, ainda encontraram a magnífica imagem preta, isto é, enegrecida pelo tempo, da Virgem Maria com o Menino Jesus em seus braços.
Se isso acontecesse aqui no Brasil seria feito uma verdadeira romaria para que a santa fosse levada para o centro da cidade, numa bela igreja, onde pudesse ser venerada novamente... e foi justamente o que eles pensaram em fazer também. Os habitantes da região se uniram à igreja e lá subiram todos para buscar a imagem... só não contavam com a decisão da Santa: quando chegaram ao lugar onde se ergue o célebre santuário, ela simplesmente empacou. Como a espada do Rei Arthur, ninguém conseguia movê-la, ficou simplesmente imóvel, irremovível, paradinha da silva.
Como eu imagino que todos deviam estar cansados às bicas também, concordaram rapidamente que havia algo de sobrenatural ali e, assim sendo, seria mais fácil mandar construir uma capela naquele platô da montanha para abrigá-la do que subir lá uma outra vez.
Príncipes, gente do povo, a alta corte, até os reis de Aragão, de Castella e de Navarra subiram o monte humildemente (montaço, diga-se de passagem) para agradecer e pedir milagres. Foi com os donativos de todos que o majestoso edifício do Mosteiro de Montserrat foi erguido e entregue aos beneditinos.
Olha a coincidência: O atual papa é o Bento XVI, mas foi o Bento anterior, o XV, que deu o título de Abadia ao lugar. Imagino que isso deva ser uma coisa muito especial. Já Leão XIII, que devia ser bem bravo, declarou-a como a Padroeira Oficial da Catalunya.
A entronização (???) foi em 1947, não sei por quem.

Mas os santos dessa história não acabam por aqui.

Inácio, 13° filho de um nobre, nasceu no Castelo de Loyola, no País Basco; e ser o 13º filho deve dar mais sorte que ser o 7°, que vira lobisomem.
Em 1521, enquanto os conquistadores de além-mar ainda se perguntavam o que diabos eles faziam ali, naquela terra de índios e mosquitos; Inácio de Loyola já era soldado, e uma bala de canhão quase lhe arrancou as pernas na Batalha de Pamplona. Quando melhorou de sua longa convalescença, retirou-se em Manresa e aos pés da Virgem Morena atirou suas roupas de soldados e virou padre.
Junto ao seu seguidor e futuro São Francisco Xavier, fundou a Companhia de Jesus, em 1540. Os jesuítas tiveram vital importância na catequisação do Novo Mundo (e do Brasil, obviamente) assim como foram também a linha de frente da Contra Reforma, ou da Grande Cisão de Lutero com a Igreja Católica do Papa.

Moral da história: quando junta basco com catalão, vira tudo santo.

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