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27 dezembro, 2012

Uma tarde na praia


Conchita! Eis o nome da minha tia-yaya.
Taí alguém que sempre perambulou na minha cachola, desde que soube de sua existência... alguém com esse nome, teria que ser especial. Somente por esses dias que  descobri que o nome verdadeiro da bichinha era Concepció... gostava mais de Conchita.
Quando fomos para Barcelona, naquela primeiríssima vez, quando ainda o lançamento dos aviões eram por estilingues gigantes, eu a conheci. Falante, baixinha, cabelinhos enrolados, curtos e bem penteados. Um apartamento pequeno, entulhado de coisas,  escuro... e ela lá... sozinha e feliz por nos ver, mas que eu não entendia nada porque  ela falava muito rápido, como quem não tem tempo a perder, e em soprano.
Ela, como a minha yaya, devia ser linda e a única pedra no sapato (das suas) era o pai, um homem rude chamado Arcádio. Eita homem bravo. Aliado a isso (o pai) ainda existiam os costumes daquela época, quando uma jovem manceba tinha que arrumar seu bofe pra casar antes dos 25 anos, ou ficava pra titia. 
Estou falando da década de 30. Uma época desgraçada e dita, por aqueles que a viveram, como sendo a pior década do século XX, pois começou com uma Grande Depressão e terminou em muitas guerras. Nesse período, subiram ao poder Mussolini, na Itália; Stalin , na Rússia; Salazar, em Portugal; Franco, na Espanha e o Hitler, na Alemanha, com a sua ideia de raça pura. Loucos alucinados... acabaram com a alegrias e estruturas de muitas famílias. 
O mundo não facilitava a vida de ninguém... e nem o pai, então o melhor era casar logo pra sair de casa.
Sabe-se lá como Conchita conheceu Doceteo (fala sério: só não perde pra Epimeteu!). Do jeito que o homem tinha lábia devia ficar falando pra ela : "Sou Doce e todo Teo"  ............ :P ............. o que se sabe é que se casaram ainda antes que minha yaya, que era mais velha que ela.
O pai delas gostava muito mais de Doceteo do que do  meu avô, apesar dele ser galego. 
Ele trabalhava com mármore e era muito controlado com o dinheiro; já meu vô Enrique nunca teve emprego fixo por muito tempo e, da mesma forma como ganhava dinheiro, tão facilmente o perdia, porque era um verdadeiro gastão. 
Naquela época um emprego era para sempre. Meu bisavô Arcádio, por exemplo, entrou numa marcenaria quando ainda era um garoto e saiu de lá quando morreu de pressão alta. Aliás, Jordi, o primeiro filho de Conchita, nasceu no dia da morte do avô Arcádio. Era costume usar o luto fechado, mas tentando poupar Conchita de saber da morte do pai nesse dia, as mulheres não foram de preto; entretanto, ela acabou descobrindo mesmo assim por causa da cor das meias que elas usavam. Que triste... por mais pedra no sapato que fosse esse homem, era o pai dela... uma mesma data de alegria e de tristeza.
Depois de Jordi, o casal teve outros filhos: Carmem, Juanito e Lluís.
Jordi está morto, Carmem está viva, Juanito sumiu na Legião Estrangeira e não deu mais notícias, e Lluís casou com uma mulher do sul da Espanha... sumiu também.
Uma família desestruturada, onde a mãe apanhava do pai e todos passavam necessidades.
Doceteo, na verdade, era um homem muito sem vergonha e muquirana. O galego dormia com um facão embaixo do travesseiro com medo que alguém o pegasse durante o sono... vivia dizendo que era viúvo para ser consolado por outras mulheres e devia gastar muito do seu dinheiro com elas. Juanito se mandou ainda cedo para a Legião Estrangeira para se ver livre dos maus tratos do pai.
Mas o troco divino viria a cavalo, ou cavalo-marinho, se preferirem; afinal, foi numa tarde de sol à beira mar que a vida de Conchita mudaria para sempre.
Doceteo, aquele filho-duma-mãe, almoçou num restaurante e, pelos médicos, deve ter se fartado.... aí, foi para a praia e acabou dormindo estendido feito um lagarto. Só que, aquele dia, estava não somente quente, como escaldante... e seus intestinos cozinharam.
Primeira pessoa na vida que ouvi dizer que teve seus intestinos cozidos... o que sei é que o cabra sofreu demais. Não sei quantos dias durou sua agonia mas, com a morte dele, quem foi 'dessa' para a 'melhor' foi a situação psico-financeira-emocional-apaixonante de Conchita.
Apesar de estar mais velha, ela não estava acabadinha. Colocava um vestido bem decotado e lá ia buscar a pensão do morto no banco. Lluís, o caixa, gostava tanto das cruzadas de pernas dela que acabaram se casando apesar dele ser uns 10 anos mais novo que ela.
Neste casamento ela foi feliz, muito feliz, enquanto durou... o novo marido morreu primeiro que ela. Quando a conheci, ela já era viúva de novo.
O mais interessante é que conheci, na primeira dessa última vez que estive na Espanha, outra senhorinha que muito me lembrou Conchita. 
Seu nome: Angelina.

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