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25 julho, 2011

Pára de aprontaire, ó 'manino'.


O meu avô, pai do meu pai, tinha fama de muito honesto e de ser um verdadeiro expert na arte ceramista... mas era um ser de pouca paciência. Numa ocasião, meu pai me contou que o Bãrinho (irmão do meu pai) combinou com um mulek vizinho que este daria umas mudas de cravos, se ele fizesse a lição de casa dele (será que era isso mesmo, meu Deus? ELE fazendo tarefa pros outros? Esse cravos deviam ter cheiro de rosas... e o vizinho devia ser turco!) Lá veio ele, feliz da vida, e cavou uns buraquinhos, e plantou os cravos ganhos com todo o cuidado do mundo... bem na entrada da casa, pra que todos admirassem. Acho que devem mesmo ter ficado muito bonitos.
Quando o pai chegou e perguntou se o Fulano (pai do mulek vizinho) tinha dado as cravinas? Não, claro que não... mas não eram roubadas, o filho lhas tinha dado. O filho? E filho lá tem alguma autoridade? Vai lá e devolve tudo, planta  no mesmo buraco que tirou... e ainda ganhou uma sova, pra não fazer aquilo de novo. O Bãrinho, de estopim curto (quem será que ele puxou, né?) arrancou tudo e jogou mesmo foi num canto qualquer.
Meu avô não era bolinho, mas gostava de brincar de roxinho (de deixar os filhos roxinhos).
Mas o avô do meu pai, em compensação, e ainda bem, era o salvador da pátria. Meu pai conta que, quando a surra era certa, ele fugia pra casa do 'paisinho', como chamavam o avô naquela época.
Então... vamos atrás da casa do 'paisinho'.
Nós fizemos o caminho inverso da escola... passamos por umas ruelas e acabamos numa construção. Ao fundo, um riozinho e depois outro morro. Era lá!

Fomos.
Largamos o carro e seguimos um caminho beirando o rio... um charme só. Qualquer um podia pensar que era paisagem de filme... não parece?

Passamos por uma casa que, depois da explicação que meu pai deu pra dona do lugar (porque deu pra ver que a curiosidade reinava ali),  deu pra concluir que o 'paisinho' era o salvador da pátria de qualquer neto: o Bãrinho já tinha passado por ali procurando também pela mesma casinha.
Meu pai, que já não se aguentava no lugar, foi logo na frente. O resto do povo: minha mãe, meus irmãos e eu, seguíamos em seu encalço. Andamos pela beiradinha, e depois subimos o morro... lá chegando, descobrimos que perdemos meu pai.
Melhor esperar, qualquer lugar que fôssemos estaríamos perdidos mesmo.
Olha a D. Mont feliz da vida que se superou na subida...


A vista era bonita. Uma olaria abandonada, pinheiros bem altos, e um cheiro bem característico de lá por causa dessas árvores, muitas pedras que saiam do solo.
Eu fiquei imaginando como seria viver lá, sem nada dessas modernidades, na época do meu pai.
Ele era bem pobrezinho.
Dali a pouco meu pai: "É isso mesmo, é por aqui"; e seguiu o caminho contrário que tinha vindo (?), melhor não perdê-lo mais de vista, né? Seguimos bem rápido.
Depois de algumas voltas, meu pai achou, no meio do mato alto, a casa do meu bisavô:
Um casebre de tijolos, telhas de barro e madeira.
Pelo que eu pude entender, eram três cômodos pequenos na frente e um maior no fundo, mas somando tudo não dava 85m². Os cômodos na frente: um quartinho, uma varanda coberta e a cozinha; e atrás, um cômodo do tamanho dos três da frente, que era um quartão, eu acho. A varanda era a oficina do meu bisavô... acho que ele era marceneiro. Será que era isso? Esqueci.




Foi uma emoção poder andar por tudo ali... foi pra mim, mas tenho certeza que meus irmãos também estavam todos emocionados. Pensei no João lá... mas o melhor era ver a felicidade do meu pai. Realmente tem coisas que não tem preço. Ele ia, voltava, especulava, andava de novo, fuçava... achamos até uma chave... mas acho que ficou por lá.
As histórias afloravam e, às vezes, meu pai ficava quietinho... só olhando.


O lugar que ele vivia era mesmo bonito, mesmo depois da urbanização de tudo por ali... Portugal cresceu e expandiu... era o esperado, mas deu uma dó de saber que aquilo tudo (ou todo aquele pouco ali) já não mais existiria, provavelmente, numa próxima viagem.
Mas o lugar não perdeu a identidade de freguesia... de bairro pequeno, ou subsditrito, sei lá.

De lá meu pai quase não esperou ninguém, de novo, e seguiu tentando achar a casa onde ele vivia e onde ele nasceu.
Nós? Tentávamos acompanhá-lo.

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