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14 julho, 2011

Missão Impossível I


Finalmente... decidimos que, ainda que esteja ficando escuro, turista que é turista, aproveita o dia até o último raio de sol... mas pra que lado mesmo será que fica esse lugar? O GPSSGdoM (GPS-Sem Graça do Marcos) não nos levava a lugar algum, e a memória do meu pai, que nunca foi lá grande coisa, ficou ainda mais avariada por tantas emoções. Eu já estava começando a acreditar que esse lugar era fruto da imaginação coletiva da nossa família... ou talvez esse pedaço de Portugal tenha sido engolida pelo progresso desenfreado... quem sabe a Pousa nunca existiu. Já pensou? Pousa virtual. Mas enquanto eu ia pensando nessas coisas tão adequadas pro momento (ainda que eu não falasse pra ninguém), apareceu um certo João no caminho. Nem sei como. Só apareceu e acreditem: ELE SABIA ONDE FICAVA A POUSA REAL... comecei a desconfiar se ele era real mesmo, mas fomos por onde ele indicava... tiramos até a foto do possível João-anjo. Meu pai parecia que era o único que prestava atenção (de tanto, nem dava pra vê-lo muito bem), o Marcos estava desconfiaaaado e o Cinho, procurava mesmo uma saída sozinho...


E já no entardecer, a placa de Benvindos à Pousa. Inacreditável!


Uau! Quanta coisa pra fazer e ver, mas na verdade as luzes lambiam languidamente as paredes de pedras pintadas, os muros mouros, e a igreja e escola do meu pai. As pessoas que passavam com pressa, os carros, as casas... tudo parecia cheio de poesia.
E lá... o meu pai.
Dava pra ver que as lembranças brotavam, e as emoções também. Apesar do cansaço de todos, grudamos nele... e só íamos atrás do bichinho. Luz pra que? Quem conhece o S’Ormindo sabe que aqueles olhos de lince acendem como lanternas de LED... principalmente quando estava com raiva da gente. Afff. [Quando meu pai ficava muito bravo, ele tinha vontade de descer a mão na gente, mas aí acho que batia o arrependimento mais cedo, e ao invés disso, ele ficava alisando a careca, andando meio que levantando só os joelhos (acho que pra conter também os chutes) e apertava a boca que nem o Patolino. Tomara que ele não leia isso.]
Primeiro que avistamos foi uma igrejinha que ele até se confundiu achando que era a que ele tinha sido batizado... bem que ele falava que tinha um cemitério do lado (aquela não tinha), mas vai que precisaram do terreno, queimaram tudo que era ossinho e colocaram dentro de uma cripta dentro da igrejinha? Tudo é possível, não?
Tá... mas não foi isso que aconteceu: ele se enganou mesmo (como que eu sei? Oras, depois achamos a verdadeira).


Por muito pouco nessa vida eu, e meus irmão, e filhos, e futuros sobrinhos, não deixamos de existir e tudo graças a uma saia... de padre.
Vou contar:
Meus avós, pais do meu pai, o João e a Olinda eram muito pobrezinhos, mas não deixaram de ter um monte de filhos (diga-se 4 homens e 1 mulher... bem mais perto da minha meta, que eram OITO filhos... tudo bem, hoje tenho só três... mas computando as Manuelita Lucinda e Natureza, a Chiquinha, a peste da Star e o bestão do Cherry já deu os oito, fora os beija-flores)... [onde eu estava mesmo?... peraí...]. Pessoas muito honestas mas rígidas. Meu pai não se lembra de ter ganho um beijo da minha avó quando era pequeno, mas era o costume, eu acho... o jeito até que eles mesmos foram criados. Era tudo diferente: a madrinha é quem escolhia o nome dos afilhados, mas era também quem ajudava a cuidar e, por isso, o meu pai foi morar uns anos com ela (acho que dos 4 até os 12). O maior sonho da vida daquela mulher, que ainda era mais severa que minha avó, era que ele se torna-se padre. Pro meu pai, tudo bem: ele bem que podia ser padre, desde que não tivesse que usar aquelas ‘saias’ que era costume da época (a batina que ia até o chão, mas tinha calça por baixo... é o que todo mundo dizia, pelo menos... mas não na cabeça do meu pai: pra ele aquilo eram ‘saias’).
A madrinha sempre falava:” Estuda bastante, menino, que ainda vais servir a Deus e se tornar padre”.
Se ela dizia que o bichinho tinha que estudar muito, o que ele fazia? O contrário, claro (realmente ele é teimoso feito uma porta, até hoje) e ficou 9 anos para completar a terceira série.
“Ela me mandava estudar tanto, que eu fazia cada ano três vezes... só pra ficar bem inteligente!”. O pior dele falando isso, é que ninguém acredita, até hoje: ele fala rindo, tentando arrumar uma justificativa pra não usar saia, por nada nessa vida.
Esta, sim, era a Igreja que ele frequentava e que deve ter inspirado muito a madrinha querer levá-lo ao sacerdócio... graças a Deus, ela não conseguiu... digo por nós todos. Ufa! Naquela época, nem sabíamos do risco que corríamos.


Da igreja passamos pela pontezinha do córrego que a fonte, tão visitada pelo meu pai e os amigos dele, criava.
Deu a maior dó... ficamos todos com o coração apertado: a escada ainda estava lá... igualzinha, segundo meu pai dizia... mas a fonte mesmo foi fechada com cimento. Bem ao lado, uma casa com plantação de qualquer coisa e o proprietário deve ter desviado para fazer irrigação. Eu mesma fiquei com um nó na garganta... imagino o meu pai.


Ele contou que quando vinham da escola, ele e os amigos, sempre paravam ali pra beber.
"E onde era a sua escola? Muito longe daqui?"
"Não... é bem nesse caminho", e apontou pra esquerda. "Eu vinha por ali, descia as escadas, bebia água e seguia pra minha casa que era prooutro lado", e apontou pra direita.
Realmente, a fonte ficava no meio do caminho.
"Se a escola não é longe, vamos ver se ela está lá ainda." sugeriu o Maurício, eu acho.
"Isso, isso... vamos, sim, caraito... vamos, sim...". [Perdão, queridos leitores... não falo palavrão... nem o dito cujo do 'caraito'... mas isso já é tão coloquial que já virou marca registrada do meu pai... ai, fazer o quê, né?] Por ouro lado, ele estava tão feliz... na Pousa, nos caminhos e lugares que ele fazia de pequeno e com os filhos... tadinho... que mais ele podia querer? Vamos lá, macacada... vamos ir pra escola.
Quando chegamos, duas surpresas: a escola estava ali... mas já era outra, mais moderna.
O terreno subia e a construção ficava mais no alto. Da calçada saia um alambrado e tinha um portão grande, bem à esquerda, que dava numa escadaria até que bem longa. Caláro, que ali só poderia entrar os estudantes, mas o meu pai não se fez de rogada... foi falando "Olha aqui a minha escola", e foi subindo... e nós três, até meio sem jeito, atrás dele. A peste do Marcos ainda falou: "Se alguém perguntar, vamos falar que a gente veio dar aula"... peste, por quê, né? Porque o malacabado fez referência ao atentado à escola do Rio de Janeiro... não é uma peste?
"Ai, credo, Marcos!" falei, mas ele até que tinha razão! Ninguém nos barrou. Fomos subindo, entrando, passamos pela lateral da escola e foi aí que ele viu... mais acima uma construção antiga: era a ESCOLA DO MEU PAI.
Achei que ele ia ter um treco. Mesmo da outra vez que viemos, não lembro dele ter achado a escola; logo, desde a época de MU (MUlek) dele que ele não via a dita.
Estava escuro, mas ele ia falando e falando.
Demos a volta pela escola (e o medão de ter algum cachorro guardando o lugar? Ninguém deu o braço a torcer, mas resolvemos voltar no dia seguinte).
Passamos pelo Rio Cávado também: foi o lugar que o meu pai aprendeu a nadar rapidinho: jogaram ele lá no meio. Ôh, dó.


Aquele dia, no hotel, meu pai sonhou com tudo aquilo... tenho certeza.
Ele dizia, dormindo: "Minha mãe, minha mãe, minha mãe"

Como não poderia deixar de ser... vamos voltar pro hotel que já está todo mundo com o estômago nas costas.

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