E já no entardecer, a placa de Benvindos à Pousa. Inacreditável!
Uau! Quanta coisa pra fazer e ver, mas na verdade as luzes lambiam languidamente as paredes de pedras pintadas, os muros mouros, e a igreja e escola do meu pai. As pessoas que passavam com pressa, os carros, as casas... tudo parecia cheio de poesia.
E lá... o meu pai.
Dava pra ver que as lembranças brotavam, e as emoções também. Apesar do cansaço de todos, grudamos nele... e só íamos atrás do bichinho. Luz pra que? Quem conhece o S’Ormindo sabe que aqueles olhos de lince acendem como lanternas de LED... principalmente quando estava com raiva da gente. Afff. [Quando meu pai ficava muito bravo, ele tinha vontade de descer a mão na gente, mas aí acho que batia o arrependimento mais cedo, e ao invés disso, ele ficava alisando a careca, andando meio que levantando só os joelhos (acho que pra conter também os chutes) e apertava a boca que nem o Patolino. Tomara que ele não leia isso.]
Primeiro que avistamos foi uma igrejinha que ele até se confundiu achando que era a que ele tinha sido batizado... bem que ele falava que tinha um cemitério do lado (aquela não tinha), mas vai que precisaram do terreno, queimaram tudo que era ossinho e colocaram dentro de uma cripta dentro da igrejinha? Tudo é possível, não?
Tá... mas não foi isso que aconteceu: ele se enganou mesmo (como que eu sei? Oras, depois achamos a verdadeira).
Por muito pouco nessa vida eu, e meus irmão, e filhos, e futuros sobrinhos, não deixamos de existir e tudo graças a uma saia... de padre.
Vou contar:
Meus avós, pais do meu pai, o João e a Olinda eram muito pobrezinhos, mas não deixaram de ter um monte de filhos (diga-se 4 homens e 1 mulher... bem mais perto da minha meta, que eram OITO filhos... tudo bem, hoje tenho só três... mas computando as Manuelita Lucinda e Natureza, a Chiquinha, a peste da Star e o bestão do Cherry já deu os oito, fora os beija-flores)... [onde eu estava mesmo?... peraí...]. Pessoas muito honestas mas rígidas. Meu pai não se lembra de ter ganho um beijo da minha avó quando era pequeno, mas era o costume, eu acho... o jeito até que eles mesmos foram criados. Era tudo diferente: a madrinha é quem escolhia o nome dos afilhados, mas era também quem ajudava a cuidar e, por isso, o meu pai foi morar uns anos com ela (acho que dos 4 até os 12). O maior sonho da vida daquela mulher, que ainda era mais severa que minha avó, era que ele se torna-se padre. Pro meu pai, tudo bem: ele bem que podia ser padre, desde que não tivesse que usar aquelas ‘saias’ que era costume da época (a batina que ia até o chão, mas tinha calça por baixo... é o que todo mundo dizia, pelo menos... mas não na cabeça do meu pai: pra ele aquilo eram ‘saias’).
A madrinha sempre falava:” Estuda bastante, menino, que ainda vais servir a Deus e se tornar padre”.
Se ela dizia que o bichinho tinha que estudar muito, o que ele fazia? O contrário, claro (realmente ele é teimoso feito uma porta, até hoje) e ficou 9 anos para completar a terceira série.
“Ela me mandava estudar tanto, que eu fazia cada ano três vezes... só pra ficar bem inteligente!”. O pior dele falando isso, é que ninguém acredita, até hoje: ele fala rindo, tentando arrumar uma justificativa pra não usar saia, por nada nessa vida.
Esta, sim, era a Igreja que ele frequentava e que deve ter inspirado muito a madrinha querer levá-lo ao sacerdócio... graças a Deus, ela não conseguiu... digo por nós todos. Ufa! Naquela época, nem sabíamos do risco que corríamos.
Da igreja passamos pela pontezinha do córrego que a fonte, tão visitada pelo meu pai e os amigos dele, criava.
Deu a maior dó... ficamos todos com o coração apertado: a escada ainda estava lá... igualzinha, segundo meu pai dizia... mas a fonte mesmo foi fechada com cimento. Bem ao lado, uma casa com plantação de qualquer coisa e o proprietário deve ter desviado para fazer irrigação. Eu mesma fiquei com um nó na garganta... imagino o meu pai.
Ele contou que quando vinham da escola, ele e os amigos, sempre paravam ali pra beber.
"E onde era a sua escola? Muito longe daqui?"
"Não... é bem nesse caminho", e apontou pra esquerda. "Eu vinha por ali, descia as escadas, bebia água e seguia pra minha casa que era prooutro lado", e apontou pra direita.
Realmente, a fonte ficava no meio do caminho.
"Se a escola não é longe, vamos ver se ela está lá ainda." sugeriu o Maurício, eu acho.
"Isso, isso... vamos, sim, caraito... vamos, sim...". [Perdão, queridos leitores... não falo palavrão... nem o dito cujo do 'caraito'... mas isso já é tão coloquial que já virou marca registrada do meu pai... ai, fazer o quê, né?] Por ouro lado, ele estava tão feliz... na Pousa, nos caminhos e lugares que ele fazia de pequeno e com os filhos... tadinho... que mais ele podia querer? Vamos lá, macacada... vamos ir pra escola.
Quando chegamos, duas surpresas: a escola estava ali... mas já era outra, mais moderna.
O terreno subia e a construção ficava mais no alto. Da calçada saia um alambrado e tinha um portão grande, bem à esquerda, que dava numa escadaria até que bem longa. Caláro, que ali só poderia entrar os estudantes, mas o meu pai não se fez de rogada... foi falando "Olha aqui a minha escola", e foi subindo... e nós três, até meio sem jeito, atrás dele. A peste do Marcos ainda falou: "Se alguém perguntar, vamos falar que a gente veio dar aula"... peste, por quê, né? Porque o malacabado fez referência ao atentado à escola do Rio de Janeiro... não é uma peste?
"Ai, credo, Marcos!" falei, mas ele até que tinha razão! Ninguém nos barrou. Fomos subindo, entrando, passamos pela lateral da escola e foi aí que ele viu... mais acima uma construção antiga: era a ESCOLA DO MEU PAI.
Achei que ele ia ter um treco. Mesmo da outra vez que viemos, não lembro dele ter achado a escola; logo, desde a época de MU (MUlek) dele que ele não via a dita.
Estava escuro, mas ele ia falando e falando.
Demos a volta pela escola (e o medão de ter algum cachorro guardando o lugar? Ninguém deu o braço a torcer, mas resolvemos voltar no dia seguinte).
Passamos pelo Rio Cávado também: foi o lugar que o meu pai aprendeu a nadar rapidinho: jogaram ele lá no meio. Ôh, dó.
Aquele dia, no hotel, meu pai sonhou com tudo aquilo... tenho certeza.
Passamos pelo Rio Cávado também: foi o lugar que o meu pai aprendeu a nadar rapidinho: jogaram ele lá no meio. Ôh, dó.
Aquele dia, no hotel, meu pai sonhou com tudo aquilo... tenho certeza.
Ele dizia, dormindo: "Minha mãe, minha mãe, minha mãe"
Como não poderia deixar de ser... vamos voltar pro hotel que já está todo mundo com o estômago nas costas.









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