Estávamos todos meio largados nas poltronas à espera do nosso avião. Cansamos fisica e psicologicamente, afinal aquelas subidas e descidas traumáticas do ônibus tinham deixado todo mundo, até os homens, meio quietos. Não conseguimos poltronas na frente exatamente do nosso portão, mas tudo bem... não tinha muito o que fazer... não ia comprar nada no duty-free agora mesmo... Marcos e eu fomos numa banca de revistas comprar revista de bebê pra Rose.
Ele até que se interessou por um livro de receitas. Vimos em várias línguas, mas não em português.
"Moça...", perguntou gentilmente o meu irmão para uma rapariga meio estressada com o movimento de um monte de gente que não tem nada pra fazer, "tem deste livro em português?". Ele perguntou em português... e ela respondeu, em português também. "Tem... tá ali", e apontou pra onde tínhamos acabado de vir.
"Não... ali não tem"
"Tem sim, pode ir lá que lá tem".
Fomos e constatamos o óbvio: não tinha.
Voltamos para a gaija, e o Marcos disse em português com o auxílio de mímica... vai ver que ela não entende muito bem o português, né?
"Ali... óh... não tem...", agora foi a vez dele apontar pra lá.
"Mas tem", ela disse.
"Não tem", ele disse.
"Então tinha", sentenciou ela.
"Será que não tem lá pra dentro?" (Tipo, no estoque)
"É ali que tem, senão tem... tinha"
Meu irmão, quase calmo, veio embora batendo o pé... corri atrás porque ele estava até me esquecendo.
Chegando perto das poltronas, a constatação: uma serpente humana sem fim se fazia em frente ao nosso portão. Fomos para o fim dela, e rápido, porque não a cobra não parava de crescer.
Tive tempo... fiquei pensando: aposto que estavam todos escondidos, tipo em algum jogo... e foi só a gente sair que todo mundo resolveu furar a fila que a gente não tinha nem começado.
Aí... começou o que eu chamo de "a Grande Revolta"
Minha mãe ficou revoltada porque eles eram da terceridade (ela e meu pai), e as grávidas eram grávidas... os maridos eram os maridos das grávidas... e nós, Rafa e eu, não éramos nada. Fomos as únicas que continuamos nas fila, o resto saiu atrás dos seus direitos de passar a perna em todo mundo.
E descobrimos, para o espanto geral da nação, que direito de furar a fila... só aqui no Brasil. Lá nas Oropas, os véinhos tem que ficar de pé mesmo. No Japão, por exemplo (que é Ásia, não Europa) deve ter fila preferencial pros jovens... hehehe... [lá é tudo mundo velhinho... tudo bem: piada besta].
Sei que, dali um tempinho, veio a minha mãe nos buscar: íamos todos furar fila. Que poder de convencimento desse povo brasileiro, né? Que maravilha!
Só que tudo tem um preço, né?
Existiam 3 esteiras de raio-X e uns 6 agentes de alfândega para a filona toda... só nós ficamos com QUATRO agentes e DUAS esteiras.
Em suma: revistaram até as calcinhas usadas.
O pente fino foi pra lá de piolho: meu pai quase foi preso porque o apito apitava quando ele passava... quase teve que ficar pelado; minha mãe jogou dois estojos, fechados, de fragrância dos States que ela ia dar de presente pra Pilar; nem sei quem mais saiu no prejuízo ali... acho que todos... cada um estava muito preocupado em xingar seu próprio agente.
Eu mesma estava desconsolada: ELES ME FIZERAM JOGAR MEU DEMAQUILANTE NO LIXO! Eu sei que a culpa foi minha... eu que esqueci, mas Putz-cutz-parutz, que raiva.
Sempre desejo uma semana de desinteria para os meus desafetos do dia-a-dia, mas pra eles desejei um ano inteirinho.
Acho que Rafa resumiu bem: como estávamos passando na frente de todo mundo, eles judiaram da gente.
Bom... entramos.
Entrei como quem entra em qualquer avião (medão, é calaro, dessa porcaria cair). O comissário falando as coisas tipo: por favor, não obstruam a passagem de quem vem atrás... sejam breves... coloquem suas malas de mão nos compartimentos e fechem-nos quando lotados. Só que em inglês.
Eu entendi tudo, mas fiquei com dó dele... ninguém dava atenção pra rapazinho. Fiquei ali, como quem nunca tinha entrado num avião. "Ah, tá... thank you", mas quando se desanuviou aquele mar de gente (que tinham passado na nossa frente, pela segunda vez, enquanto estávamos lá expondo todas as nossas malas mais íntimas praquele povo com vontade de achar de tudo que a gente tinha trazido de errado pro avião), eu vi: o avião não tinha fim.
A empresa Jetnet, Netjet, sei lá... era bem popular [pra não dizer pobre], e não tinha área vip ou separação de classes [tá bom... vou mudar o status da empresa para 'bem democrática']; assim só se via um mar de poltronas, ocupadas por ordem de chegada na dita fila! Só que a impressão que me deu foi outra: "Esta me##*a vai cair!"
Fiquei em choque. Devo ter ficado com os olhões arregalados...
Um passageiro, logo nos primeiros assentos (nem vou chamar aquilo de poltrona mais) deve ter se sensibilizado e começou a me explicar, em inglês, tudo de novo, o que o comissário tinha acabado de me falar e que, no presente momento do monólogo do portuga bonzinho, ele (o comissário) já me empurrava pra andar... tipo, EU estava empacando a fila agora.
Minha reação foi balançar a cabeça em sinal afirmativo e, ainda sem olhar pro portuga, comecei a ir de encontro com o meu destino... fosse ele qual fosse... lá no fundo... bem no fundo da nave.
Por que sei que ele dizia a mesma coisa do comissário? Porque eu não conseguia tirar o olho do fundo do poço avião, mas ouvia tudo perfeitamente... como num sonho. E por que eu sei que o gaijo era portuga? Porque, depois que eu sai andando feito zumbi, ele se voltou pros amigos e numa gargalhada disse: "Ela naum intendeu nada, ó pá". Entedi, sim, portuga dosinferno.
Depois de tudo, tudinho, que a gente passou: nervoso, raiva, decepção... passamos fome.
Os outros comissários, todos novinhos, tinham cara de estrangeiros: brancos, tímidos e sem graça. A mocinha da comida não chegava nunca (a gente estava na rabeira, lembra?) e ainda tinha que pagar: o serviço não estava incluído; além de que nem preciso dizer que acabamos com o estoque de comida do avião. Depois de nós, ninguém mais comeu... mesmo porque estávamos pousando em Barcelona. Aleluia.
O bom é que a fome não me deixou pensar na viagem e na queda da aeronave, e as uma hora e meia de vôo passou rapidinho.



3 comentários:
que porcaria não entrou ,UIiiiiiiiiii!!!!!!!!!
Bom agora que já me lembrei vou falar de novo eu estou rindo socinha e baixinho p/ Magda está ao meu lado,e como não conhece está historia ,até eu contar já é o dia dela ir embora p/ ela não se contenta explicando um pouco.............e eu também não tenho tanta PACIENCIA!!!!!!!!!!!!!
mas que ri socinhakkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk
hihihi... agora, lembrando da situação, até foi engraçado, mas que na hora deu uma vontade de matar os portugas... ai, isso deu, né?
:P
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