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03 maio, 2012

Vivendo (sempre) Perigosamente !!!


"Armindolinha... tu vais servir a Deus: vais virar padre!"
Toda a família que se prezasse haveria de ter um padre para encomendar as almas mais rapidamente para o céu... e assim decretou Madrinharmindolinha (descobri que os planos dela também não dão certo) a toda a freguesia: investiria em seu expresso para o paraíso.
Para o meu pai ser padre, só havia UM empecilho: não era nunca poder se casar ou ter filhos, nem ficar rezando um monte de missa; não era, sequer, o joelho deformado de tanto ficar rezando o dia inteiro ali, quietinho, como todo bom padre há de fazer até hoje (oi?)... o maior empecilho para a sua vida de devoção eram as saias que o padre ficava arrastando por toda parte. Podiam-lhe chamar de padre, mas de 'mulherzinha'? Nunca!
"Estuda, Armindolinha... e muito!... porque padre estuda toda a vida, e deves se formar na escola para poderes ir ao seminário."
Armindolinha levou ao pé da letra... em cada série do fundamental repetiu duas vezes; ou seja, chegou à terceira série nove anos depois de iniciar a primeira... :P... sua lógica: "Se alguém me perguntar, digo que estou estudando tanto que repeti as séries só pra entender tudo direitinho", mas a verdade era que ele estava sabotar a vontade da madrinha (ninguém pode ser tão obtuso assim).
No dia que passamos pela fonte que os moleques se refrescavam na volta das aulas, também fomos à escola. De início, meu pai só sabia a direção... fomos a pé (Marcos, Maurício, meu pai e eu)... qual não foi sua supresa, no final de uma tarde fresca, ver uma escola nova bem onde se encontrava a dele.
Os estudantes já estavam saindo... eram todos já adolescentes ou jovenzinhos. Acho que era por causa do horário.
Entramos no contra-fluxo.
A escola era toda gradeada e o portão era no lado oposto do original, mas igualmente grande, com uma escadaria generosa. As instalações ficavam logo nesse platô, com muito vidro, cortinas e se viam pessoas lá dentro... pela teoria traciana (qualquer dia explico), eles podiam nos ver também, e isso me preocupava um pouco. Estva vendo a hora que nos mandariam embora.
[Em abril de 2011, um ex-aluno-maluco-carioca invadiu uma escola no Realengo e matou 12 adolescentes, em nome de Alá... idiota... deve estar queimando no mármore do inferno agora. E enquanto subíamos as escadas, eu reclamei que seríamos expulsos, o Marcos (aquela candura de pessoa) disse: "É só falar que a gente veio dar um curso"... essa foi a desculpa do matador para poder entrar... sem comentários, né, seu bobão!]
Nem rodamos muito... fomos direto para os fundos da escola e aí, sim... se o meu pai não tinha freio, agora é que o homem desembestou a andar: ELE AVISTOU, INTACTA, SUA ANTIGA ESCOLA! Ela estava no patamar de terreno acima da atual. Subimos outros tantos de degraus.
A noite já estava escura... víamos pouco... e eu (fatídica) logo pensei: "Ai, cumcaraito (eu não falo pelavrão, mas penso) que deve ter um rotweiler pra destroçar uma destroçar os abelhudos... no caso, todos nós"
Ainda bem que não tinha, porque chegamos por dentro, pelo que seria o pátio.
Uma avalanche de histórias surgiram na cabeça do meu pai e, mesmo na escuridão, seus olhos de gato brilhavam.
Voltaríamos no dia seguinte.

[Pausa para a noite... e no dia seguinte...]

Já entramos com carro, família, lanchinho e a já lustrada cara-de-pau. Não sei como o Marcos conseguiu, mas foi por cima que entramos... nem lembro de portão nenhum, mas devia ter.
Do alto, víamos a subida em chão batido, bem à nossa esquerda, que era por onde eles (meu pai e o resto da trempa toda) chegavam à escola.
A fachada tinha duas imensas portas em verde escuro com umbrais trabalhados em cimento, terminando num pequeno ornamento que lembrava uma folha, no centro (QUANDO O MEU IRMÃO MARCOS ME DER AS FOTOS DO LUGAR, EU PUBLICO). A edificação era de dois pavimentos, com salas de aulas; um pequeno anexo era onde ficava a diretoria, provavelmente.
De lá, vimos a casa (que não era cor-de-rosa) da Professora Rosinha.
Estávamos lá, perdidos em nossas divagações quando aparecem duas figuras estranhas. Um homem gordo e barbudo e uma mulher (também com barba). Ele era o diretor da escola e queriam saber o que fazíamos ali. Toca a contar o terço! Meu pai já estava quase mandando plantar batatas, quando descobriu que ela era filha do amigo dele, o Rato.
Quase fomos visitá-lo... pena que não deu.
Esse amigo Rato era deficiente físico desde sempre, pelo que eu sei. Mas o que meu pai disse é que ele vinha de uma família de ferreiros e, na época da ditadura com Salazar, eles eram obrigados a pregar tachinhas embaixo das botas dos soldados. O calor do fogo, por causa daquele trabalho castigante e ininterrupto, o deixou assim: torto. Sempre pensei que pudese ter sido por doença. Meu pai contava que ajudava o Rato a subir a entrada da escola. Ele, o Rato, tinha uma espécie de skate que ficava sentado e que o levava para todos os lugares... mas a subida ninguém merecia, né? Quando chegavam na porta, meu pai apanhava porque chegava atrasado... e não tinha esse lero-lero de estar ajudando o amigo. Parece que agora ele já estava muito enfermo, direto na cama. E Rato era o sobrenome da família, não um apelido pejorativo...
Por falar em chegar na escola atrasado e apanhar, tinha também as vezes que meu pai ajudava o Quico.
Este era já um homem feito, trabalhador e muito bom. Órfão de pai e mãe (que morreram, possivelmente da peste), tinha uma irmã surda e muda. Ele trabalhava a anos para uma família, na lavoura. Mas eis que lhe deram a incumbência de fazer um serviço brutal... sei lá, tipo, colher todo o feno de um campo... e aí o bichinho ficou suado e foi tomar banho no rio. Só que era outono, ou primavera, e as águas estavam muito frias. O choque térmico o deixou assim: tisío.
Gente mais má... depois que ele já não servia muito bem, mandaram-no embora (eita, portuguesa sem coração). Depois disso só queria saber de ficar bêbado pelas tavernas e meu pai o levava para casa, já que o achava beijando a sarjeta. Ele dizia que, quando fingia que não o via, para não chegar atrasado na escola, o Quico o chamava: "Armindo.... óh, Armindo... me leva pra casa, Arminso...." lá ia meu pai... sabendo que apanharia na volta. A casa de Quico era suja, escura, muito pobre, e a cama que meu pai deitava o amigo era, na verdade, uns paus atravessados com capim no meio.
Em meios a tantas lembranças, fomos embora de Portugal... não vimos sua casa em Póvoa de Varzim, que era a que eles moraram quando já eram maiores, e a última antes de virem ao Brasil.

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