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28 novembro, 2022

Limpeza profunda



Dias passados na casa dos nossos amigos, e eu ainda não tinha desentalado o meu inglês... foi difícil pra mim porque eu me sentia muito cobrada, além de sentir vergonha. É aquela coisa da vergonha alheia, mas eu sou a alheia também. 
A gente só ia até o Green Kitchen comer salada ceaser, então faltava interação. Pra resolver isso, a Patrícia sugeriu algo bem pontual: pegar lixo na pracinha! Pode parecer estranho mas é a vizinhança que mantém os arredores limpos.
Elá fui eu pra frente da Green Kitchen (sempre ela). Eu me indentifiquei, mostrei minha casa (do Gabriel) e disse que queria ajudar; eles ficaram super contentes de terem uma brasileira mas também não me esperaram muito, não. Foi cada um pro seu lado e eu fiquei com a organizadora, a Siobhán. Ela foi super gentil, entregou um saco azul gigante, um par de luvinhas e um bastão. Lá fui eu, com o saco mais leve que a minha consciência.
Se eu tivesse um grilo falante, ele provavelmente diria: "Minina, volta pra casa, teus rebentos precisam de ti, Cacá está maluca, Bibi está sozinho e Vituim... bom, ele deve ser o único feliz, porque nem nossos anfitriões estavam"
Na verdade, eu só fiquei mesmo rodando em volta da pracinha e da igreja (* tem que entender que eu não sabia onde era o limite da operação, porque eles falaram que era daqui até ali, e de lá até o outro lado, senão a gente entraria na jurisdição do lixo alheio); numa outra ocasião, eu tinha entrado pra ver, e era igual como qualquer outra. Só que eu percebi que o povo chegava, deixava o saco bem cheio de sujeira, dava aquela risadinha de comemoração e saia de novo, e o meu saco vazio de tudo. Como eu não queria 'perder' o jogo do lixo, resolvi dar uma roubadinha: primeiro, comecei a colocar algo mais vultuoso que só os saquinhos que eu encontrava, e comecei a por algumas pedras; só que aí eu percebi que eu ia ficar carregando peso. Bom, o que foi, foi, mas tinha que mudar de estratégia. Não pensei duas vezes: fui até em casa e pedi algum lixinho pra colocar no meu saco. E que saco, a Patrícia não me deixou roubar muito, e o Lemão ficou do lado dela.
Apesar de usar indevidamente a minha inteligência, fui a que tinha o saco mais vazio no final.
Por outro lado, a Siobhán tirou minha foto, publicou no facebook do grupo e ainda me passou seu número de telefone. Disse que eu era a mais animada da turma (por que será, ne?)
As duas meninas que sairam na foto comigo deram o maior trabalho pra Siobhán.
Uma delas era moradora do bairro, com certeza, a outra não tenho certeza; mas deve existir uma lei moral de ajudar na faxina do bairro, e a mãe obrigou as duas a irem catar lixo. 
Que programão. 
Elas não estavam nada felizes e, por isso, sumiram. Mas, às vezes, o destino dá uma rasteira em nós, os pais dessas crias sem coração, e uma emergência fez com que as meninas tivessem que voltar pra casa com urgência.Caláro que o desespero ficou só com a minha nova amiga irlandesa porque ela ficou na maior gastura, rodando feito peão de rodeio pra ver se a energia das bichinhas atraiam ela pra algum lugar; mas elas apareceram, com a paz dos anjos que não se descabelam nem no juizo final. Elas foram tranquilas pra casa, e a Siobhán voltou a catar lixo.
Aborrescente é a mesma coisinha em qualquer lugar do mundo.
Eu ter ficado ali feito uma boba rodando e matutando em como arrumar mais lixo, só pra não ter aquela sensação de não estar usando todo o potencial do saco azul (o desperdício aqui é tido como uma grande infelicidade humana), fez eu ter a certeza que meu lugar não era ali: em algum momento teríamos mesmo que partir. 
Partimos aquela tarde em busca de casa, aluguel, sala de home office, qualquer coisa.

22 novembro, 2022

Você é quem sabe.





O dia que chegamos na Irlanda foi completamente fora do controle. Começou, claro, na alfândega, ou melhor, na imigração. Pegamos a fila dos europeus (sou ou não sou, nem sei mais) e combinamos que falaríamos que iríamos para estudar inglês (pra que falar o que o Gabriel nos orientou, né? Ele disse que era pra falar que íamos ficar na casa dele e que eu sendo espanhola, podia ir pra morar, e ele era meu marido, que tínhamos dinheiro, empresa... mas era conversa demais, então resolvemos fazer do nosso jeito...) Isso mesmo... fizemos e entramos pelo cano: a primeira pergunta que o cara fez foi saber ONDE iríamos estudar inglês. Affff
Aí começou a confusão e já fomos direto para o plano E, de Enrolação. 
Ele podia não estar de bom humor, mas depois de nós, o dia dele deve ter ficado insuportável porque ele começou a se irritar e nos mandou pra fila de não europeus (eu estava muito desesperada pra ficar indignada, então fiquei só depois). O problema é que a gente já estava no guichê, e pra pegar a outra fila, tinha que ir lá pro fim... minha cara de inconformidade deu vez pra cara de pau mesmo e furei a outra fila. O outro cabra, muito mais relax, disse que era impossível fazer o que queríamos, mas também não nos mandou embora, deixou a gente entrar na Irlanda mas teríamos que ir atrás da documentação do Lemão depois, lá na Polícia Federal deles. Que fofo.

Mas veja só: afinal, era a IRLANDA.
Que ficar chateado o quê... vamos aproveitar! Como estamos com fome, vontade de fazer xixi, e sem dinheirinho deles pra pegar ônibus, vamos comer alguma coisinha, arrumar uns troquinhos, ir no banheiro, pegar o ônibs e chegar na casa do Gabriel. Desarrumar as malas, descansar e aproveitar a casa só nossa. É a glória!
Claro que se desse tudo certinho nem ia ter graça, então acho que tem alguns dias que o sol nasce e elege algum grupinho pra deixar a vida emocionante. Certamente não fomos somente nós dois, mas começou a dar tudo errado.
Andamos camelamente até encontrar um banheiro, que ficava bem longe de umas cadeirinhas onde arrumamos pra sentar e comer. Nosso senso de muquiranice já veio ligado porque nada melhor que perder dinheiro logo que se chega num país diferente, e ainda mais em euros. Bom, vamos pro  mercadinho no aeroporto. Cadê o bom senso?
Tinha bastante opção de comida, e parecia que não era tão caro porque tinha muita gente pegando, comendo, pagando. O que faltou mesmo foi o inglês, ainda que sobrasse timidez de falar errado.
O carinha do caixa ficou um pouco aperreado, mas que se dane, não dá pra alegrar todo mundo.
O número do ônibus era o 18, lembro como se fosse hoje. 
Toca procurar o número 18: pelo google maps, dava um lugar; mas as placas do aeroporto indicavam outro... vamos pelas placas, esse GPS brasileiro na Irlanda... hehehe. E andamos, viu? Olha que esse número 18 devia ser escrito deitado, parecendo o símbolo do infinito, porque era do outro lado do mundo, e as nossas mochilas eram pesadas.
Por fim, o ponto do ônibus 18. Mas não era o NOSSO ônibus 18, porque aqueles ali iam somente para hotéis. Andamos muito de barriguinha cheia e paciência vazia, e resolvemos ir pelo google mesmo. Volta tudo pro começo.
E no fim, eu descobri: são dois números 18. Um pra ir pra cidade que era o google; e o outro, do aeroporto, não sei pra quê... acho que pros trouxas mesmo.
Achamos o dito cujo, mas não deu pra pegar... tinha que ser somente com moedas do dinheirinho deles, e nos centavos certinhos. Jisuis.......... que o ânimo começou a fraquejar. 
Volta pro aeroporto, compra qualquer bobagem e pega moedas, volta pro ônibus 18 (outro, que aquele já foi embora), paga com moeda e entra, senta e outra aventura que rapidamente se apossou de nossas cabeças: onde descer?
Google maps já funcionou uma vez, vamos por ele mesmo. Time que ganha não se mexe.
Era longe, mas já era esperado. Os aeroportos sempre são longe de tudo.
Tínhamos que fazer baldeação, então descemos no centro e ficamos encantados. 
Afinal, era Dublin.
Dublin do filme, da obra do Magazine, dos vickings ruivos com cara de bravo, que comiam batata e andavam com o machado do Thor por aí. A cidade estava meio estranha, meio vazia, mas com muita gente nas calçadas indo tudo pro mesmo lugar.
Que povo estranho! Parecia até aquelas seitas, ou zumbizisse bizarra que faz todo mundo agir igual. Depois fiquei sabendo que é o futebol deles, meio futebol nosso com o americano... esqueci o nome... pra ser bem sincera, acho que nem fiquei sabendo do nome.
Ficamos meio timidozinhos, e acho que eu ainda mais, porque eu estava com medo.
Bom... vamos pra casa do Gabriel, e aí arrumamos um lugar pra comer.
Chegamos no ponto certinho, depois de ficar acompanhando o percurso pelo celular, com aquele medo estranho de errar.
Encontramos a casa, e tinha mesmo o parquinho na frente, a igreja mais pro lado e conseguimos achar a casa com a entrada igualzinha da foto que o Gabriel mandou pra gente. Ufa! Mas aí vinha outro mistério a ser resolvido: tínhamos que achar uma vizinha brasileira, muito amiga da Patrícia, a Karen, que ia dar a chave da casa deles (do Gabriel) pra gente, mas como chegamos na hora que o Caetano (filhinho bebe dela) ia dormir, não podíamos tocar a campainha da casa dela, então ela ia deixar o porch(*) destrancado e poderíamos pegar o chaveiro amarelo na prateleira de entrada.  E........... eu sei o quanto eles foram legais com a gente, e que nos receberam e tentaram nos tratar da mellhor maneira que eles podiam, mas que foi um baque, isso foi. Parecia tudo errado.
Achamos a casa da vizinha, o porch aberta e parecia que estávamos fazendo alguma coisa errada, porque a casa não era nossa, e o medo de entrar na casa errada?
Desde que havíamos pisado em solo irlandês, foi um susto depois do outro; e quando achamos que o pior já havia passado, veio a casa do Gabriel.
Ela era antiga, mas não era só antiga: era velha, mofada, cheia de carpete vermelho, não era feia, era estranha. E, pelo que a Patrícia me falou depois, o pai do senhorio deles morreu e levaram a mãe não sei pra onde, mas as coisas dos velhinhos ficaram, e eles não poderiam se desfazer. Muita sujeirinha de séculos que a Patrícia não conseguiria acabar, nem se quisesse, mas acho que ela não se importava. Bem no alto do primeiro lance das escadas, logo que se entra na casa, lá estava ele: um quadro de Jesus, com olhar melancólico... acho que ele ficou assim depois que o Gabriel&Cia mudou pra lá.
Gente do céu... vamos comer.
Rodamos um pouco, já estava esfriando mais um pouquinho e achamos um pátio de food truck. Eram uns 3 carrinhos: bebida, comida frita e a outra de hambuguer e fritas.
O Lemão ficou com alergia nossa estadia toda, e não era nem só por causa da casa, descobrimos depois que é a época de uma alergia geral por causa do pólen de não sei que matinho que é crônico numa grande parte da população, sejam nativos ou não. Nem me pergunte como, mas eu não fiquei com essa alergia.
Nossa rotina era sempre a mesma: a gente acordava logo depois do Gabriel usar o banheiro e sair para o trabalho, e ele só voltaria lá pelas 17h, quando sentaríamos para beber alguma coisa, jogar conversa fora e irmos dormir. Quando saíamos do quarto, eu brincava com a Clarinha até a hora dela ir pra escola, aí tomávamos café e trabalho até de noite. Nosso almoço era quase sempre salada ceaser na Green Kitchen. Nesse meio tempo, oboviamente, dava pra perceber que a Patrícia não estava feliz com a gente lá, e ela dava sinais: não era pra usar a esponja da cozinha desse lado, era pra limpar o reservatório do aspirador depois de usar, pra lavar roupa tem que tomar cuidado porque tem que ligar a tomada não sei de que jeito ...... era tudo coisa que eu sabia fazer muito bem, ou seja, limpeza de casa. 

Talvez devéssemos ter saído logo de lá, mas não foi assim.
E o que eu fiz de muito errado é que eu levei uns 10 presentinhos, embrulhados com papel de presente pra Clarinha, e dava um por dia. 
Ela não gostou e no mesmo dia que ela disse que era pra gente não fazer mais isso por causa do desperdício de papel e consumismo desenfreado, foi o mesmo dia que o Gabriel me pegou de jeito antes de sair pro trabalho (naquele dia, eu acho que ele esperou a gente levantar pra falar, ainda que chegasse atrasado no trabalho). Disse que era pra eu ajudar a Patrícia, e não atrapalhar ela de manhã, que ela já fazia coisa demais, trabalhava demais e se eu ficasse brincando com a Clara toda manhã, ela sempre ia sair atrasada de casa. Ele foi grosseiro, rude e sem clemência.
Nós estávamos numa situação de fragilidade emocional, morando de favor, tentando agradar e engolindo aquela educação fajuta que eles davam pra Clarinha. A menina não podia se aborrecer: se ela queria continuar pintando, tinha que pintar, se ela não queria comer, ela não comia, eles não faziam ela chorar. Era uma história de que todos temos traumas gerados por causa da nossa criança interior, mas acho que eles leram só criança; então ela não teria traumas de infância.
Você entendeu? Não? Nem eu.
Eu fiquei tão machucada com a bronca, que o Lemão me arrancou da casa, fomos pro parquinho, e lá eu chorei muito.
A única coisa que eu sei é que a gente ficou mais isolado depois disso: não saíamos do quarto antes que as duas saissem de casa pra escolinha... e elas continuavam sainda atrasadas mesmo sem a gente ajudar; almoçávamos tarde, só quando elas chegavam da escola e muitas vezes íamos passear ou resolver qualquer pendência de tarde.
A Patrícia quase pediu pra sairmos do quarto de manhã porque a Clarinha queria brincar, mas ela nem finalizou o pensamento, dizendo que se a gente quisesse, a gente podia sair mais cedo e brincar um pouco porque a Clarinha estava com saudades.
Pois é, minha filha... vai torcer fralda de coco pra salvar o meio ambiente porque eu... never more.
Foi bom termos que arrumar coisa pra fazer de tarde porque aí saímos para comprar um monitor de vídeo de um cara que morava num bairro quase não comunista, e o cabra era ainda espanhol.
Eu disse comunista porque foi o país que mais tinha casas iguais que eu já imaginei ver no mundo ocidental. Todas as casas são iguais, na periferia, pelo menos. São bairros e bairros de uma mesma tipologia. Ou eram todas térreas, ou sobrados, ou edifícios conjugados, mas um monte igual. Podiam ter térreas e sobrados, mas todas as térreas tinham a mesma planta, assim como os sobrados também.
Nos primeiros dias que estávamos na Irlanda, o Gabriel fez um pequeno tour com a gente, e descobrimos algumas coisas bem peculiares: não se come nada sem batata frita, e as variações de comidas de boteco são asinhas de frango, costeletas de porco, ou hamburguers.
Uma coisa que muito me impressionou foi ver um naná.
Estávamos andando perto do centro, num canal que tinha uma linha de vegetação muito bonita ao longo de todo o riozinho. Existia uma cerca separando a área gramada da calçada, e sentado nesse gramado, de costas para a cerca: o naná(**).
Ele estava todo de preto, inclusive um capuz. A pele era branca e os olhos muito claros, acho que azuis. Uma cara de atormentado, meio drogado, com uma energia maléfica e acho que tinha um capuz dentro do outro, o que fazia um volume maior atrás da cabeça: Era a encarnação do Woldemort de nariz. Fiquei tentada a tirar uma foto, mas o Gabriel disse pra não olhar e não fazer nada.
Eu já tinha ouvido falar dos naná, mas aquela visão me deixou apreensiva. O Gabriel disse que estando em 3, e ele sozinho, ele não faria nada, apesar de sermos estrangeiros.
Outra coisa muito louca, e essa foi a última coisa ruim que eu vou falar da Irlanda, é sobre os moleques pré-adolescentes que andavam em bandos. Esses eram encrenca pura.
Se você cruzasse com algum deles, não olhe, não faça nada, só se afaste.
O que o Gabriel falou é que, por lei, não se pode fazer nada com eles, mas eles podem atacar as pessoas e até machucar. Os pais são chamados pela justiça, mas pouco é feito.

E se eu passei uma ideia de que o Gabriel pudesse parecer uma pessoa horrível, pelo que eu falei, devo aqui dizer o quanto ele me ajudou também.
Ele me ensinou, com muita paciência, a montar um curriculo, o que falar com os recrutadores, o que responder nos emails e a ter uma posição mais confiável. Ele me incentivou a falar inglês e eu sou extremamente grata a ele por isso.

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(*)PORCH - é aquele hall minúsculo antes da entrada da casa propriamente dita. Tem uns 80 cm, no caso dessas casas, até a porta de entrada. Normalmente é onde se tira o casaco e os sapatos e, no caso do Gabriel, é tudo isso e mais uma infinidade de pequenas coisas amontoadas.
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(**)NANÁ - é daqueles cabras drogados, os 'nóias' daqui. São os inúteis para a própria sociedade, mas não suportam estrangeiros. Eles batem, e batem muito; então, não ande sozinho e desvie deles.

03 outubro, 2022

Sonho de ser estrangeira




Eu acho que de tanto o meu avô falar que era descendente dos vikings, por causa do nome Servat (ele era Enric Tor Servat), eu sempre tive uma quedinha pelos paises gelados da peste, tipo Dinamarca... aquele povo indiscritivelmente diferente de tudo que eu podia pensar na vida, e de repente... a Irlanda virou uma possibilidade de viver no exterior. Nunca tinha pensado na Irlanda porque sempre foi mais distante, imaginativamente falando, que a Dinamarca... era um país idílico, inexistente. Foi aí que eu assisti o filme 'Casa comigo': uma mocinha fica sabendo de uma tradição irlandesa que somente no dia 29 de fevereiro, as mulheres podem pedir seus noivos em casamento. Ela achou uma ótima opção e lá foi ela, dos Estados Unidos pra Dublin, já que o rebento estava em terras eólicas (pensa num canto do mundo que corre o vento). Ela contrata um cabra pra servir de guia que, por falta de dinheiro em cash na sua vida aceita o convite. Eles acabam se apaixonando, mas ela casa com o chatão, descobre que ele é chatão, e volta pra casar com o guia. Mas o lugar que termina o filme são os Cliffs of Moher. E é lá que eu quero ir de qualquer jeito.

*PAUSA PRA FOFOCA*
Quando eu estava trabalhando pro Magazine Luiza, a própria ficou encantada por um remelento que nem era arquiteto porque ele fez uma reforma que ficou simplesmente maravilhosa, num galpão para ser o QG administrativo de Franca. Só que eu descobri que ele chupou, até as corzinha das almofadas, de um projeto de Dublin............ ai se essa mulher descobre que o remelento não teve nem a pachorra de mudar alguma coisinha. Eita falta de imaginação.
*FIM DA FOFOCA*

E tem um amigo,o Gabriel da Rê (que não é mais da Rê porque depois de casarem, e ela perder a aposentaria vitalícia por ser filha de milico, eles se separaram), que estava morando em Dublin, olha que coisa! E nos chamou para vir para a Irlanda!! E morar uns tempos na casa dele!!!

Viemos.

CHAPTER 1 - SPAIN

Chegamos pela Espanha, dando aquela passadinha básica por Barcelona e encontrando os primos velhos (menos a Magda que estava de covid, e a Montse, provavelmente covídica também); fomos comer paella, num restaurante à beira mar: Jordi, Esther e Pilar mãe. O papo foi bom, e depois eles nos levaram para o Ibis que ficava fora de Barcelona, num bairro workplace (como diria um corretor em Madri): Ripollet; só que eles ficaram falando tão mal do lugar que, pra gente que era bom, já não estava mais depois disso. Na verdade, eu tinha achado um lugar muito bom,pertinho da Sagrada Famìlia, mas o AirBnB cancelou de última hora e tive que pegar esse outro. A parte boa é que conhecemos um lado da Espanha que não teria sido possível se não fosse esse problema: vivemos uns dias na periferia de Barcelona, e fizemos amizade com a turma da padaria que íamos, do outro lado da carretera.

A paella foi bem no dia do meu aniversário e no dia seguinte, no casamento da Amanda, pisamos em solo irlandês. Um verdadeiro sonho pra mim... e era viver lá, falar inglês, era pra morar!!! 


CHAPTER 2 - IRELAND

Como tudo que eu faço, as coisas se atropelam.

O Gabriel mora em Dublin com a mulher, Patrícia e a filhinha Clara. Já chamei a Patrícia de Adriana (ainda bem que não na frente dela) porque era a anterior do Gabriel. Mas tem uma explicação psicológica: o que eu chamo de 'a teoria do esparadrapo frouxo na boca': um dia que eu errei, e conversando com o Lemão chamei a atual pelo nome da ex, o Lemão foi tão enfático em nunca, nunquinha, chamar ela assim de novo, que entrou de um jeito no meu cérebro, que no último dia de Irlanda, acabou saindo (e olha que eu me policiei tanto).

Ela, sempre a Patrícia, nunca a Adriana, não estava nem um pouco feliz de termos ido pra lá. Primeiro, porque os dois conversavam por whatsapp, combinaram e ele não deve ter pedido muito a opinião dela para nos receber lá com toda a amizade que ele tinha pelo meu marido Oscarito. Segundo que quando eu comprei as passagens, nem combinamos com eles, e eles iam sair de viagem (o que foi bom, porque chegamos com a casa vazia para nós)... sim, sim, foi uma falha grande. Terceiro que eles tem uma filha pequena, que gira tudo em torno dela (e vivenciamos isso demais). Quarto que a mãe dela viria um mês depois de nós para ficar por 3 meses. Pasmem! Se acha que é pouco, ainda viria o pior: a filhinha se apegou a mim, porque eu brincava muito com ela, e acho que a mãe ficou enciumada. O resultado foi uma grande bronca vinda do Gabriel, por conta do que a Patrícia falou pra ele, que me deu uma desestruturada. Quando eu falo desestruturada, quero dizer, sair da casa deles. Só não saímos porque literalmente não tínhamos para onde ir.
Segundo o que ele falava pra gente é que ficaríamos na casa deles por ns 3 meses, e que eles já sabiam e estavam preparados pra isso. ( # eles uma ova, só ele, o Gabriel, porque ela não estava preparada; e nem nós, que quando ele falou isso, deu o maior desespero na gente, e foi aí que a idéia de sair da Irlanda brotou # )

E depois de um mês exatamente, dia 10 de agosto, estávamos partindo da Irlanda com muitas gratas lembranças de  um povo amistoso e gentil, mas o divórcio foi inevitável. 


CHAPTER 3 - SPAIN AGAIN

Hoje estamos em Roquetas de Mar, um lugar fofo que acabamos vindo depois de tentarmos ficar em Madrid, que era nossa primeira opção, mas infelizmente (ou não, como diria Caetano) não conseguimos alugar nada... de novo. Olha que eu vou te falar, viu? Eu já estava me sentindo uma desalojada, imigrante sem lenço nem documento.
Ah, mas já que meu problema não era lugar, mas dinheiro ... e muquirana é a vovozinha... fui caçar um lugar legal e barato: AirBnB > preço de até mil euros > espanha. Liguei os filtros, coloquei no mapa e fui escaneando todo o litoral, já que apareciam as acomodações com os preços. Comecei por Barcelona (sonha, minha filha), fui pra Madrid (pensa numa pessoa teimosa) e aí, vim descendo pelo litoral, até encontrar um apartamento lindinho com cozinha azul, em Roquetas de Mar, Andaluzia.
Fiquei sabendo depois pela Magda que era o pedaço de solo espanhol mais barato do país. Meu primo deve achar que somos bem pobres, ou muquiranas mesmo (espero que você, caro leitor, não esteja dando razão interna a ele........... 💀)

11 julho, 2022

As coisas só terminam quando acabam






Pois é, gente... as coisas chegam ao fim.
Para os desgraceiros de plantão que acharam que esse blog já tinha batido com as dez, podem esquecer... estamos firmes e fortes feito prego na areia.
Cheguei à conclusão que o que passou, passou. Chegamos ao fim de uma era de hitorinhas antigas contadas por mãozinhas esquecidas, ou seja, eu e, de agora em diante, tudo coisas fresquinhas do cotidiano, que nem legume na barraquinha de verdura. E eu nem tinha me ligado que tomate é fruta.
Vou ver se acabo,então de uma vez com as postagens antigas para seguir em frente
(sim, eu sei, sou apegada, fazer o que?), mas também sou adiantada porque já fiz o que faria depois e postei as antigas que estavam entralacadas em mim.

10 julho, 2022

O começo de tudo


A minha yaya sempre foi meio maluquinha (ai, que saudades): ela passava as horas fazendo crochê e assistia Sílvio Santos todo santo domingo. ‘Ah-há, Ih-hi, Lombardi... vai pro trono ou não vai?’ (Se bem que esse daí acho que era o Chacrinha, junto com o ‘Quem quer abacaxi?’ e ‘Teresinha’... até hoje não sei quem era a Teresinha que ele tanto chamava.)
Eu gosto de ouvir o catalão porque me faz lembrar dela e do meu avô; quando ela era viva e eu pequena, ela falava em catalão e eu respondia em português, porque ela não sabia falar porutguês... e descobrimos que, lá na Espanha, ela só falava em português (coisa que aqui ela jurava de pé junto que não conseguia), porque dizia que já havia se acostumado e não conseguia mais falar catalão. E as poses pra fotos?... affff. Até aqui, desavisados leitores, vocês até podem pensar se tratar de uma pessoa completamente normal, mas não era. 
Ela tinha uma história que, um dia, um raio entrou pelo cabo de um ferro de passar roupa que estava ligado na tomada e saiu pela janela (se a dita história não foi bem assim, eu não sei, mas é o que eu me lembro... acredite, se quiser!) e aí, toda a vez que chovia, ela já começaca a ficar preocupada. Um dia, minha mãe conta que ela tinha saído da casa da minha mãe, que fica até hoje em cima de um morro, para a casa dela, que ficava no morro seguinte, só que no meio do caminho caiu o mundo, um baita de um pé d'agua, com tantos  raios e trovões que não teve jeito: minha mãe pegou um taxi e foi àprocura da minha yaya.
Eu imagino a felicidade da D. Mont que saiu por aí perguntando se alguém tinha visto uma senhora descabelada e nervosa dando piti por aí. Ela acabou encontrando. Estava dentro da casa de uma mulher que ficou com dó dela (mas acho que se arrependeu depois): minha yaya estava debaixo das cobertas, deitada na cama da mulher, tremendo e esperando a chuva passar. 
Já que estou falando dela, preciso dizer que ela salvou minha vida. Um dia fomos as três mulheres (hehe... eu devia ter uns 2 ou 3 anos, eu acho) pegar o trem pra Mogi; mas eu acabei caindo no vão que fica entre o vagão e a plataforma. Minha sorte é que a minha yaya estava me segurando pela mão e não me largou... eu fiquei com a minha roupa todinha suja e ainda perdi uma pulseirinha. A única coisa que eu me lembro é da minha mãe se descabelando e xingando todo mundo dentro do trem, que ninguém se levantou pra ajudar e que eu podia ter morrido, e eu morrendo de vergonha porque, além de tudo, estava imunda.
Naquela época achei que a culpa era minha por ter sujado a roupa, mas ela gritava porque ninguém veio ajudar, e o trem ia partir e eu morrer. Poderia ter sido o triste fim desta Policarpa Quaresma... Obrigada, yaya. 
Lembro que quando a gente ia ao dentista, em Mogi na Dra. Alguma coisa Brasil, na volta era inevitável uma paradinha num prédio que tinha uma doceria meio escondidinha e onde eu sempre pedia um pedação de torta de morango, daquelas bem basiquinhas com massa podre, creme de baunilha e gelatina com pedaços de morango. Eita, coisa boa. Às vezes ainda peço essa torta porque me traz a lembrança dessas andaças :) Meu vô Enrique era muito bravo em tudo, até na sua bravura: ele foi um guerreiro na guerra contra o Franco: salvou muita gente que estava marcado para morrer só porque era contra o regime. Ele foi soldado de fronteira e deixava o povo fugir, até que o denunciaram... aí o perseguido era ele, of course. Numa das suas rotas de fuga, ele passou pelas ilhas Canárias (devo ter parente lá) e seu objetivo era a Venezuela, mas acabou no porto de Santos mesmo. Uma das unhas da mão esquerda dele tinha uma fenda enorme que ele me contou que fez na prisão e que doeu muito, mas não entrou em detalhes. E eu acho que puxei a unha do meu polegar da mão esquerda dele: é quadradinha igual. (A Cacá é toda feliz porque tem uma orelha pontudinha igual a do SÔrmindo... ela tem a quem puxar, afinal) .
Mas meu avô era um verdadeiro mulherengo, e a minha yaya disse que o que o disvirtuou foi ter entrado para os Mossos d'Esquadra, uma polícia independente de Barcelona, eu acho que a mais antiga da Europa!!!
Esse uniforme fazia as mocinhas ficarem apaixonadas, nem importava se era casado ou não.
Eu, sinceramente, acho que tenho muitos tios e tias por aí. E a minha yaya já ficou tão irritada com ele que num determinado momento da vida dela, ela proibiu o meu avô de ver ela pelada.
Quando eles se mudaram para a última casa deles (eles já eram velhinhos) e que tenho orgulho de dizer que é minha agora, era só ela entrar no banho que ele tentava ver se conseguia espiar pela janela. A minha yaya ria, quando contava isso.
Os pais da minha yaya eram mais pobres que do meu avô.
Ele era guarda florestal, numa épocada vida dele, e a minha bisavó andava quilometros para visitar a casa da minha yaya e os netos dela. Pois, no dia que minha bisyaya ia visitar minha yaya, meu tio com uns 12 anos de idade, não tomava café, esperava que ela chegasse e ainda desse pãozinho na boca dele.
Teve uma ocasião que minha yaya queria cortar o cabelo curto, isso antes de se casar, e pedia pro pai dela que nunca deixava. Um dia, ela resolveu fazer sem a permissão dele.
Quando ele viu, ele disse que ficou bonito, mas que tinha sobrado umas pontinhas, que ele ia levá-lapara o barbeiro dele só pra acertar, mas quando chegou lá, o homem virou o demo: mandou raspar careca.
Estamos falando dos anos 30.
Minha yaya pegou os cabelinhos do chão e costurou numa boina de croche dela, mas é claro que todos percebiam e os meninos ficavam tirando sarro dela na rua.
Ela mesma nunca me contou dos pais, só lembro da Conchita, a irmã dela.

Não conta pra ninguém, hein?




Meu bisavô, Felip e minha bisavó ..., tiveram três filhos: Pere, Josep e Enric, o meu avô materno. Eles viviam em Gysclareny, num dos pontos mais altos das montanhas dos Pirineus, divisa com a França... consequentemente, muito fria também.
Pere teve dois filhos: Lluis e Jordi.
Jordi se casou com Lolin, uma espanhola do sul da França que trabalhava numa loja de departamentos como caixa, era tipo um "El Corte Inglès", mas tinha outro nome. Não era à toa que minha yaya tanto gostava de lá; nessa época, em  São Paulo, acho só que tinha o Mappim e a Mesbla.
Ela era quase tudo de bom: falante, engraçada, loira, jovem, lindíssima... mas não era catalana. Jordi mandou, então, tudo às favas e eles se  casaram, mas não tiveram filhos.
Não é por nada, não, mas eu acho que foi praga do tio Pere, que não queria casamento fora da Catalunya...
A primeira impressão que tive dela não foi das melhores... ela tinha uma voz grave e lembrava muito a tia Iva (meu Deus... essa é outra tortinha) e parecia que estava constantemente embriagada... Na última vez que a vi foi a primeira da última vez que estive lá, vai fazendo cálculo ai, e ela continuava falando alto, com sua voz grossa, mas com uma amargura que a idade trás juntos com as rugas: ela estava doente, meio esclerosada e quase surda.
Morreu anos depois de seu marido Jordi, poucos dias antes do ano de 2013.
Ela começou a apresentar esclerose e ficava vegetativa por alguns períodos, como se ligando e desligando da tomada. De repente, falava e se movia, para depois voltar ao mesmo estado de antes.
Na última viagem, não pude ver Lolin porque ela se acidentou com a enfermeira. (Não pergunta porque também não entendi).
Ela foi pro hospital porque ela se engasgou num jantar e acabou ficando sem ar por algum tempo até que o socorro chegou e a levou para lá. Sua debilidade física e mental não suportou tamanha falta de vida, e ela se foi.
Jordi, seu marido, morrera de AVC. Pelo que sei foi tranquilo, pois quando se programava para ir visitar seu irmão doente LLuís, ele disse que não poderia ir aquele dia pois acordara vendo tudo dobrado: iria a um médico. Era o derrame, que o levou dois meses depois de sua manifestação. Jordi, meu primo, filho de Lluís, prometeu ao tio que cuidaria dela, da Lolin, até o fim... e assim o fez.
Lluís morreu de alzeimer, eu acho.
Nesse meio tempo, as desgraças aconteceram a rodo.
As vacas do marido de Maria Pilar se revezavam em morrer, cada dia, uma. Ela se casou e foi morar em Bellver porque a família do marido era da pecuária, e a mãe Pilar (esposa do Lluís, filho de Pere e Antonia, e pai de Maria Pilar e Jordi) me confidenciou que ela não achava que esse casamento ia durar... afinal, nunca imaginara a filha morando no interior e cuidando de vaca. Já Jordi e Esther, esses sim, tinham chances de serem felizes e ser o casamento perfeito, de tanto que combinavam. Pois é, esse não deu certo.
Esther me contou que ela e Jordi moravam próximos e faziam faculdade juntos, então ele dava carona para ela, e ela pagava pela carona; até o dia que ele disse que não precisava mais pagar pelas caronas. Casaram na Iglesia Santa Maria del Mar, da série da Netflix que eu assisti inteirinha.
É estranho como acabamos sabendo das coisas, mas um passarinho me contou que era porque ela era frígida, ainda assim, tiveram duas meninas: Alba e Mar. As duas outras netas da Pilar, filhas de Maria Pilar com o vaqueiro, não me lembro nem como chamavam.
Mar teve um problema seríssimo no cérebro, quando bebezinha, fez cirurgias por causa de tumor e chamaram até um padre pra dar extrema-unção, mas ela viveu por milagre, e até foi capa de revista da época, contando sua saga. Foi triste, e hoje eu imagino que ela leve uma vida normal, ou bem próxima disso.
Pere era o filho do meu bisavô Felip mais covarde.
Ele engravidou Antonia e se casou porque foi ameaçado pelos irmãos dela, e Pilar contou que ela era uma mulher triste, sempre fora, porque sabia que o marido não a queria.
Ele é tão covarde, que os filhos compraram uma loja num local muito bom e colocaram no nome do pai, como uma homenagem. Pois ele se mostrou com muita raiva porque tinha medo que o fisco viesse atrás dele, e encarou isso como uma afronta dos filhos que queriam ganhar dinheiro a custas dele.
O negócio do tio Pere e filhos, e do meu primo Jordi, sempre foi loja de roupas. Tiveram 3: D'acord , Avui e Tor's. Essa última, e o pomo da discórdia, em frente à Boqueria.
Josep, era o filho do meio, e o mais moderado. Ele foi o pai da Magda e tiveram uma boa vida.
Sei que, quando ele morreu, ela herdou uma pousada, mas ela tinha instrução e se deu bem na vida. Só que ela ficou órfã cedo também.
Hoje ela vive com Montse, e um dia ela me confidenciou que já tivera um namorado que quase se casou, mas ficou tão desolada e decepcionada, que nunca mais arrumou um outro amor. Eu sempre pensava que ela era lésbica, mas ela deu a entender que não.
Sei que, quando fui visitá-la, na época do batizado da Lily, eu fiquei conversando muito com a mãe da Montse, a Lola.
Depois Montse me escreveu dizendo que a mãe agradecia ter me conhecido, porque todos a tratavam como uma 'yaya em série' e eu escutei ela de verdade, perguntando da vida dela, e dando atenção. Ela nunca esqueceu. Mas já morreu.
Elame contou que tinha tido uma outra filha que morreu, não sei por qual infortúnio, e o médico com receio dela entrar em depressão profunda e enlouquecer, sugeriu que fosse fazer caminhadas nas montanhas. Ela disse que foi por todos os Pirineus e outras montanhas ainda, que nunca mais parou e descobriu uma paixão. Mas, depois, ela ficou velhinha, e não pode mais andar.
Que saudades de Lola, gostaria de ter conversado mais com ela.
E o último filho de Felip, Enric, era tido por todos como o mais valente, o meu avô.
Ele teve dois filhos com a minha yaya, Angela.............. ai, que saudades doloridas dela: o meu tio Enric e a minha mãe Montserrat. Toda família catalana que se prezasse tinha que ter um Jordi e uma Montserrat.
O dia de San Jordi é espcial na Catalunya porque os homens dão flores às mulheres, e estas dão livros aos homens... gente desconhecida recebendo presentes, bancos com flores para alguma mulher levar, é desse jeito. Lindo, ne?
Um dia assistindo a novela da Globo "Salomé", apareceu uma mocinha com o cabelo comprido, mas com umas ondinhas achatadas no cabelo, tipo a image, e ele falou, todo saudoso, que ele conheceu a minha yaya com o cabelo todo assim. Ela sempre passava em frente à loja que ele trabalhava.
Ele fez de tudo um pouco, e chegou a ganhar dinheiro, mas o sogro dele costumava dizer abrindo uma das mãos com a palma pra cima, que todo o dinheiro que entrava por um lado, saia pelo outro; ou seja, não sabia gerenciar, só gastava.
Meu primo me contou que numa ocasião, quando Barcelona estava sitiada pelos inimigos franquistas, e já faltava alimento. Pois ele e os amigos doidos pegaram um trem, não sei de onde, com comida que os rebeldes haviam preparado, e passaram pela barreira de soldados embaixo de tiros. Foram recebidos como heróis.
Num outro feito, estavam ele e os amigos, não sei se os mesmos, mas certamente tão malucos como,  que descobriram que do outro lado do muro tinham soldados. Como eram poucos, começou a negociação: desse meu lado tem x soldados, do meu tem y e uma granada, mas do meu tem mais não sei o quê e, de conversa em conversa,seguiram os dois grupos em paz; provavelmente, ambos ficaram blefando.
Esse era o meu avô herói, mas tinha sempre o avô meio malandro na jogada.
Ele dizia que, pra arrumar uns poucos trocados, quando era cobrador de ônibus, ele fingia que esquecia de dar o troco, ou dava pela metade; se a pessoa reclamava, ele pedia desculpas, dizia que se enganara e dava o troco certo. Ele foi também avaliador de antiguidades, e nessa época foi que ele mais ganhou dinheiro.
Ele tinha uma técnica: enquanto os outros avaliadores davam o preço de mercado pelos móveis de pessoas que se mudavam e não levariam nada, ele olhava bem a casa, e se visse alguma coisa que interessasse a ele (um quadro, uma louça, ou outra coisa), ele não levantava a atenção para o que ele queria, ele começava a pagar mais pelos móveis.
As pessoas não costumam pensar direito numa negociação, e achavam que saiam ganhando com ele,mas foi assimque ele conseguiu um autêntico Picasso da primeira fase.
Picasso esse que era uma mulher pelada. A gravura ficou com meu tio que colocou num quadro, mas a tia Iva (sempre ela) ficou com ciúmes e rasgou a perereca da mocinha... ficou amputada. Nem sei onde anda a gravura... acho que a yaya disse que o vovô escondeu num pedaço da estante da sala dela.
Mas se desgraça pouca é bobagem, ainda tem mais: Pilar.
Descobri que ela vem de uma família de mulheres fortes e solitárias.
A avó dela casou com um homem queeu nem sei se ela gostava ou não, porque naquela época era assim. No começo, ele a tratava bem mas isso foi mudando com o tempo, e quando a filha dela nasceu, ela tomou uma decisão: nunca mais ter outro filho; na verdade, elateve uma filha, a mãe da Pilar.
O pai estava no bar, bebendo porque acho que era alcólatra, e mesmo sabendo que a filha nasceu, e por ser filha, voltou pra casa três dias depois.
A mãe da Pilar também não teve muita sorte, porque dizia que não teria a vida que a mãe teve, e jamais se casaria se fosse praficar sozinha. Conheceu o pai da Pilar, ficaram apaixonados e se casaram mas ele, apesar de ser um homem bom e trabalhador, gostava muito de jogo e assistia a todos. Num deles,caiu uma chuva torrencial, mas ele não desistiu de ver o jogo e depois disso, pegou uma pneumonia e morreu. Apesar de serem muito apaixonados e companheiros, ela ficou só.
Pilar se casou com Lluís e ele morreu de algum tipo de demência, porque ele esquecia quem ele mesmo era e se tornava violento, batendo em todo mundo com o que estivesse na mão. Um dia, nessas crises, ela disse que se não se lembrasse de tudo o que eles tinham passado, que batesse nela. Ele nunca bateu.

01 julho, 2022

Como Iviana era besta!



Nas palavras do sábio Gilberto Gil: "Marmelada de banana, bananada de goibada, goiabada de marmelo..." e o Quarteto Fantástico virou o Sítio do Quebra-Pau Amarelo.
Por um lado, temos o Senhor Fantástico e do outro, O Coisa. Um não gostou nadica das declarações que o outro deu e resolveram que era melhor peruca voando pra um lado, cílio postiço voando pra outro! É, minina, pancadaria que ainda não aconteceu!
Mas e Iviana nessa história? 
Pois é, você não sabe, e nem eu...
De Iviana só se podia esperar assuntos sem interesse, aquela lenga-lenga, algumas vezes até mesmo desconcertantes, e certamente numa dessas mordidas de línguas que ela foi largada de vez. 

Tocha Humana
O quanto é grandioso pensar que uma chama de uma velinha pode virar um incêndio arrebatador por onde passa! Assim era ela: dona de uma beleza clara, acalentadora e enigmática. Parecia que precisava de ajuda, e foi aí que Iviana apareceu em sua vida: queria ajudar, dar conselhos, mas ela se intrometia mais do que ajudava; acho que ela queria ser notada.

Senhor Fantástico
Ele não era fantástico somente no nome, era também na inteligência, na astúcida, era o desbravador-mor. Foi em torno dele que todos do grupo se aglomeravam e obedeciam.
Era somente ele gritar, e até Tocha Humana apagava.
Iviana gostava dele, desde pequenininho, desde de lá de Barbacena do Norte quando ele chorava no bercinho do quarto dos pais, e ela chegava antes que qualquer um dos dois tivesse ainda levantado, só pra colocar a chupetinha na boca.

A Mulher Invisível
Com toda a certeza, essa era a mais temível do grupo. Ela era claramente uma mulher maravilha porque não havia nada que não pudesse fazer bem feito... e bem feito foi o que fez com Iviana. 
Bem feito que ela é uma faxineira.
Bem feito que Tochinha era somente uma velinha que podia ser apagada e acendida a seu bel prazer.
Bem feito que ela tinha a coisa do Coisa em suas mãos, porque assim ela teria predicativos que outros jamais teriam.
Bem feito que o Senhor Fantástico é tão senhor de si, crente na força do poder das palavras e tudo no universo que possa ser moldável, porque assim seria fácil manipular para que ele se tornasse seu aliado. E assim foi feito. Bem feito pra ele... sofre e não enxerga um palmo na frente do nariz.

O Coisa
Este sempre foi estranho, sempre foi rude, nunca media suas palavras; pelo contrário, o que nunca deixou de medir, na verdade, foi o dinheiro. Ele era bom nisso e conquistou tanto que acreditou que era mais que Iviana, esquecendo de perdoar apesar de Iviana ter ido ao pelourinho, quando ele era ainda só um rebento, apanhar no lugar dele. E foram muitas vezes.

Tantas lembranças...

Tochinha e a Mulher Invisível se tornaram inseparáveis, e formou um trio com a chegada da Medusa... um trio estranho... parecia que tinha algo no ar... Mas foi somente depois que Iviana entendeu que de toda a família de Medusa, ela era a mais autêntica: apesar de não dizer nada, seus olhos mostravam o frio cultivado em seu coração enquanto todas as outras somente fofocavam a maldade em suas costas. Hoje eu agradeceria Medusa e pediria desculpas por ter ido em suas bodas, uma vez que ela destilada desprezo ao longe.
A que doeu mais para Iviana foi Tochinha... essa queimou mesmo porque Iviana acreditou nela.
Da Mulher Maravilha, o que ela quer, ela consegue. Conseguiu fazer a própria mãe de Iviana gostar mais dela que da filha; e gostava tanto do que fazia, que quando a mãe escolhia a Invisível, ela ria de felicidade verdadeira vendo a tristeza estampada no rosto de Iviana.

Mudanças...

Como Iviana era besta! 
Mas tudo muda, talvez mais devagar do que Iviana gostasse... era melhor parar logo de pensar no grupo devil, mas Iviana continua besta... espero que por pouco tempo. 

Somente agradeço imensamente, muito, muito, terem permitido que eu ficasse perto dos filhos.

09 abril, 2019

Gente... eu me esforço!




Este dia de hoje, 09 de abril de 2019 seria milagroso não fosse a minha memória... afinal, são quase dois anos sem escrever aqui... seria milagre se eu me lembrasse das coisas que eu tenho pra eternizar.
Se o blog fosse do Henrique, seria muito provável que ele se lembraria, por alguns motivos listados abaixo:
- ele é novinho
- ele faz um depósito de imagens pra não esquecer
- tem o cabelo e a barba de Jesus e, agora que ele furou a palma da mão lavando um copo (que ele quebrou), acho que consegue realizar milagres... estou até dando um copo de água pra ele quando não tem vinho em casa, mas ele é tímido.

Bom... do que eu lembro do final da nossa viagem (e vai sem fotos até eu encontrá-las de novo):

A casa na Suiça do Cinho e da Manuelita é pequena mas tem 3 andares; quase não tem frente, mas tem quintal no fundo que dá até pra plantar uva; tem garagem, mas é do outro lado da rua... diferente, né?
Eu lembro que o lavabo da casa ficava bem na entrada, quase de frente pra porta da cozinha que tinha a janela pra rua e, pro Vitor olhar o espelho, subiu na tampa do vaso,  que era de acrílico, eu acho... e ela quebrou. Oh, peste do Vitor, e do meu irmão. Este último fez um escarceu... ainda bem que não estávamos e, Londres, senão ele teria quebrado uma legítima louça inglesa. Isso foi na véspera da nossa viagem de volta pra Espanha, então implorei pro meu pai ir comprar e trocar a budega da tampa pra mim. Acho que nunca paguei essa dívida, mas também não sei se ele comprou.
Lembro da Manu dizer: "... mas vocês já vão? Só uma semana aqui?" _ desculpa, Manu, mas meu irmão não tem o trato de anfitrionismo que se é esperado de alguém da família.
Aliás, parente é uma daquelas pessoas que menos tem dó da gente. Eu sei que já fiz das minhas também...
Uma vez, lá em Barbacena do Norte de Barcelos, estávamos pernoitando num mosteiro.
Era nossa primeira viagem pras Oropas depois que meus pais vieram pro Brasil, e nosso guia turístico era um primo (todo mundo lá é primo, parece turco) e padre. Dá pra entender porque no nosso "hotel" tinha que rezar. 
E sei que eu fui dormir, devia ter uns 12 anos, mas já era muito vaidosa: na Europa e com espinhas... nem pensar! Passei uma meleca verde no rosto, só que minha mãe bateu na porta bem baixinho pra falar comigo. Agora, imagina a emoção de ver um fantasma 3D de uma menina num convento de padres... e brava, porque estava me atrapalhando e eu queria ir dormir logo. Nem preciso contar o resto... filho é assim.
D. Mãe, desculpa.
Dali pegamos um voo pra Barcelona again, mas com um intuito muito mais familiar que só ir ver s Sagrada Família: minha missão era Gisclareny.
Que coisa bucólica.
Uma cidade fantasma, com casas (bem boas até) muito espaçadas, e mais um tanto de entulho de casas arruinadas mais espalhadas ainda.
No que se pode dizer que era a porção principal, tinha um conjunto com a igreja, a prefeitura, a casa do prefeito e da amante. Acabou. Ah, e o cemitério, que era pequeno mas concentrado... muitos Tor ali. Sério.
Fomos nós, os brasileiros, a Pilar e o filho Jordi, com a filha Mar e a Magda.
A Mar e o Vitor viraram amigos de infância (uma característica do meu filho em ter amigos para sempre em todos os cantos do mundo); a mulherada falou até dar calo na língua... e olha que foram histórias de família. Aí se espera de tudo: brigas, romance, traição, morte. Mas a natureza chama e não tinha nem banheiro de rodoviária, que dirá um  restaurante limpinho... miramos no cemitério.
Íamos em duplas: Pilar e Mar, Vitor e eu. E toca ficar de cócoras pro xixi sair naquele friozinho de arrepiar até os cabelinhos de baixo. Pro Vitor tudo bem, a anatomia ajuda, mas eu, uma verdadeira dama, não estou acostumada, sabe? Demorou tanto que a Pilar veio ver se eu ainda estava viva, e se falando de cemitério cheio de parentes, é uma grande coisa. O problema é que a visita dela só me deixou mais atrapalhada e acabei dando uma escorregadinha nas pedras, cai sentada nuns matinhos, mas depois disso, liberei pra acabar logo. O problema é que era matinhos tipo urtiga: a Pilar disse que esbarrou e ficou com os dedos inchados... IMAGINA EU!!!!  :O
Deus ajuda a quem cedo madruga: três dias depois, estava quase sarado.
Muito interessante foi um mirante na cidade, que tinha um mural com a história da cidade... não tem ninguém lá, mas tem mural explicativo... e contava que, nos áureos tempos, existiam escolas, 3 hospitais, não sei quantas casas... era uma metrópole. Provavelmente, na época do meu avô Enric devia ser uma potência em declínio vertiginoso.
Meu primo conta que meu avô acabou levando um monte de gente, na base da lábia (que nisso ele era bom) pra Barcelona, e acabou conhecendo minha yaya lá, quando ela tinha um caminho pra casa dela que passava na frente da loja que meu avô trabalhava.
Que fofo.
Numa outra história, conto o que ainda me resta de lembranças desses 'causos' que me contaram a família catalã no pé de uma cruz no meio da praça vazia de lá.


08 junho, 2017

Férias de verão - 2012



Eu não contei antes sobre as minhas férias de verão, porque não tive tempo. Aconteceram tantas coisas e eram tantas coisas pra contar, que eu precisava estar inspirada e de fôlego renovado (tudo bem que demorou meros 5 anos pra isso acontecer e ainda me pergunto se superei tudo).
Bom, tudo começou com uma prova de esperteza minha de dar inveja ao Soneca, o da Branca de Neve... deve ser um parente distante meu, aliás... Adivinhem ONDE eu fui buscar uma pousada? Na internet.
Opções de pesquisa: apartamento (ou casa), com cozinha, para 5 pessoas, praia do Una, São Sebastião, Toque-Toque Pequeno... caramba... tudo muuuuito caro. BUT, como quem procurava era EU, eu achei um apartamento, maneirinho, bonitinho (tudo branquinho), novo e distante 750m da praia. Tinha tanta opção (laguinho, montanhas, trilhas, cachoeiras, bicicletas, pescaria, surf, etc), pensei: "Achei o lugar".
Fomos para a Praia de Juquehy. litoral norte de São Paulo.
A cidade é feia pra dedéu, ou pelo menos era, naquela época: uma rua principal com algumas saídas para a praia que eram todas de paralelelípedo mais ou menos assentado, em eterna reforma, e o resto era só aquele areião batido, cheio de buracos.
O meu Bãrids já torceu o nariz... mas só se eles me enganaram.
Chegamos, aos sacolejos, na 'pousada' sem nome, na Alameda Galo da Campina, 100.
Na verdade, era um prédio horizontal de dois pavimentos onde um proprietário colocou para locação na temporada.
Mas a nossa habitação, essa sim, era uma graça... igualzinha como na propaganda.



Entramos pela micro sala em conceito aberto com a cozinha, toda equipada e limpinha; de um lado a escada pro quarto no mezanino, e do outro lado, o banheiro e o outro quarto com televisão. Não era nem um pouco ruim... do lado de fora, a vegetação da mata atlântica, com um riozinho sinuoso, uma área de churras e a piscina. Perfeito.
Ficaríamos 1 semana, mas só pra garantir e não deixar os rebentos com fome, trouxe comida pra 1 mês.
Quando a gente começou a descarregar o carro, os vizinhos acharam que eram moradores novos.
Rapidinho descobrimos todas as atenções: o laguinho se formava em cada poça depois que chovia, porque a gente descarregou o carro com aquela chuvinha fina; as montanhas, estávamos no seu sopé, longe de tudo e de todos (menos dos vizinhos); as trilhas, era o caminho para chegar em casa da praia e vice-versa;as cachoeiras... passa pra próxima... bicicletaria era uma oficina de bikes, entre o nosso descanso merecido e a diversão garantida; pescaria e surf, quando chegou nesses quesitos, já tínhamos desistido mesmo.
Arrumamos tudo, mais ou menos, mais menos que mais... e praia.
Demorou um tanto pra chegar, mas ela era legal... só que de tombo... Surf, né, tchonga?
Pra molecada foi maravilhoso, apesar do tempinho, que acabou melhorando. Até hoje eles lembram da praia, da barraquinha de crepe (nossa maior atração turística) e de um hamburguer do tamanho de uma cabeça que os esfomeados pediram. O Henrique pede até hoje... quer voltar lá. kkkk
Embaixo, a cama de casal com TV. O Lemão não sairia de lá por nada... se a TV tivesse alguma programação, que não tinha.
Eu fiquei com as crianças... imagina que eu vou largar meus filhos, ainda pequenos (15, 14 e 10 anos) sozinhos lá em cima? Nem que a vaca tussa (cof, cof)

Saldo do primeiro dia: Dormi num colchão de ar que deu cãimbra até no dedinho do pé.
No dia seguinte aquele sol prometia, nada poderia dar errado.
Foi nesse dia, na verdade, que descobrimos a creparia e o dono mais mal amado do mundo. Ele nos atendia com cara de quem chupou limão, e ai de quem mudasse de recheio depois de pedir (não estou dizendo depois dele ter começado a fazer, estou dizendo só depois de falar mesmo). 
Foi um dia calmo, até chegar no apê e descobrir que o vaso sanitário estava sem água.
Jisuis!!! 
Pensa num marido feliz pra consertar a caixa de descarga porque tudo que não dava era ficar sem descarga.

Saldo do segundo dia: Umas duas dúzias de baldes jogados na privada e do alto, que é para dar pressão e poder fazer aquela meleca toda ir buraco abaixo.
Bom, nada melhor que um dia após o outro. Já nem estávamos mais nos importando com os buracos, o carro indo a 5 km\h e nem a cara feia das pessoas do caminho para a praia, nem ligávamos mais pros cachorros soltos e da cara de ETs dos vizinhos (o que será que eles achavam da gente?). Uma grande decepção nem foi descobrir que os 750m da praia não era nem se pegasse a distância em linha reta, passando por cima da mata... só para ter uma ideia, dali até o Shopping Monjolo, já dava perto de 1 km..........:P........... o verdadeiro desespero bateu quando resolvemos alugar umas bikes, o que foi impossível porque o lugar era só uma bicicletaria. E toda vez que batia aquela fominha, lá ia a gente no carrancudo dos creques. 

Saldo do terceiro dia: No caminho tinha uma rodovia, e nem pensar em passeio natural... vamos quebrar as molas do carro, Bãrids. (Foi o que aconteceu: ele amassou a saia da frente quando despenquelou num buraco básico)
Fomos então ao shopping e era bonitinho mas não achei nada espetacular.
Chega de crepe por hoje, PELAMORDIDEUS!
Sim, meus rebentos comeram um hamburguer impossível de imaginar, e ainda sobrou fome pra ajudar a gente no nosso...eita, poço sem fundo.

Saldo do quarto dia: Pois é, dizem que alegria de pobre dura pouco, né? A nossa não foi pouca, não, foi bem curtida de sol. Foi aquele calor de rachar coco e não conseguir ficar na areia sem sombra. Solução: vamos comprar um guarda-sol no mercadinho que tem de tudo mesmo: carvão, esparadrapo, vela de 7 dias, cerveja, pão, remédio e guarda-sol.
Não tinha tantas opções assim, mas tinha um vermelhinho de joaninha... mas vai ser esse
mesmo, além de tudo, estava na promoção.
E toca pra praia...
Abrimos o mais novo item recém adquirido guarda-sol, que era pra ser de joaninha, mas deu pra entender o por quê da promoção: era de melancia.
Todo mundo sabe que eu não ligo para coisinhas diferentes,mas dessa vez, uma lombriga mexeu dentro de mim. Só o nosso guarda-sol se destacava naquela calmaria de outros guarda-sóis. Descobrimos que viramos ponto de referência na praia quando, enquanto saíamosdo mar, o guarda-sol saiu voando e um homem lutou pra pegar o bichinho e infincar no mesmo lugar, do tipo, o cara realmente se empenhou. Agradecemos, mas aí ele explicou que era importante pra ele também porque os filhos dele, caso se perdessem, tinham que esperar no guarda-sol de melancia.
Isso só nos fez ficar com aquela cara de samambaia: será que a gente ainda agradecia ou cobrava?

Saldo do quinto dia: Tantos dias num só lugar, já estávamos praticamente caiçaras. Tinha dado umas garoinhas, mas e daí, né? Alguém amanheceu com a garganta raspando, tinha poça de água em cada buraco da pousada até a praia, tinha a rodovia no meio do caminho, mas pra que se apressar pra praia? Vamos curtir a piscina e o riozinho da própria pousada.
Na piscina ficamos pouco, porque veio uma família estranha, com jeito esquisito e música sertaneja desespero. Vamos pro riozinho, e aí vimos que era uma valeta de concreto de uns 1,20m mais ou menos com um riozinho de meio metro. A valeta começava no pé da montanha e seguia embora, cortando o terreno. Samambaias e outros matinhos caiam que nem paisagem de filme... era bonito. Toca todo mundo dentro do rio pra uma aventura legal.
Já estávamos na metade do riozinho quando começaram os borrachudos, eita pernilongo do capeta... aquilo morde doído, e aí ainda chegou um cabra pra dizer pra gente que, quando chove na cabeceira, vem água muito forte.
O passeio do riozinho foi curto. Saímos depressa e fomos pra praia mesmo encarar o cara dos crepes pra mais uma batalha.

Saldo do sexto dia: A gente já ia embora no dia seguinte, uma semana já estava ótimo pra descompor as energias, e foi nesse dia que andamos um pouco mais pela praia e achamos um bar que tinha música ao vivo e um polvo simplesmente maravilhoso. Foi caro mas valeu muito a pena. O cara que tocava guitarra, improvisou um sax com uma garrafinha de água cortada no meio com um filme plástico, nem me pergunte como, mas o cara fazia miséria com aquilo lá. Foi simplesmente magnífica a nossa última noite.
Pena que ela não tenha terminado por aí.
Por ser a última noite, o Lemão não queria mais dormir sozinho lá embaixo e usou de seu poder pátreo para dormir com as crianças, na parte de cima.
Tá bom, ne? Fazer o quê? Meio a contragosto, fui para o saco de dormir.
Usávamos o saco de dormir,que já tinha travesseirinho e fechávamos ele todinho com um zíper, ou seja, a pessoa ficava mumificada dentro dele.
Eu tinha acabado de apagar a luz, mas ainda era claro e pude ver, claramente, o apocalipse acontecer em questão de segundos.
Vou explicar, mas saiba que isso já me causa pânico, só de lembrar.
Estava eu acabada de me ajeitar, puxando o último pedacinho de zíper e preparando os olhos para fechar, quando escuto um helicóptero voar sobre a minha cabeça.
Por causa do calor, meu marido semppre dormia de janela aberta, e ele me convenceu a fazer o mesmo, só que uma barata gigante, dessas bem criadas, lustrosas e todas cheias de si, veio voando como quem flutua num dirigível, mas muito mais rápido, potente e intimidador.
Aonde ela pousou, eu não vi, porque meus olhos foram ofuscados pelo meu grito. O problema era o sarcófago, não dava tem po de abrir e sair correndo; a solução: fui pulando da cama até a escada. Cheguei mais rápido que o Lemão. Podia até ter ganho salto em distância, pensando agora.
Dormi com as crianças.

Saldo do sétimo dia: Na Bíblia diz que o sétimo dia era para o homem descansar... nós, pelo contrário, fizemos a maior bagunça: praia de manhã, crepe de despedida e arrumar bagunça, deixar bagunça e voltar para casa.