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15 março, 2010

Cai fora, garota.


... ele abriu a porta do carro, enquanto ela dava alguns passos pra trás. Não sei dizer o que passava na cabeça daquele idiota, mas a raiva já não era mais contida. Os cabelos dela eram curtos, sem movimentos, de um loiro que parecia tingido por um balde de água oxigenada, porque os que estavam mais abaixo eram mais amarronzados... eram cabelos de água e sabão... e olhe lá... mas foram eles, perto da nuca, que foram puxados com força pela mão bruta do rapaz... e ela acabou caindo na calçada. Provavelmente a pelezinha curtida do sol deve ter doído com a arranhada no cimento... ela devia ter a idade do Tiquinho, e pedia dinheiro no semáforo.
Ela era frágil, e completamente desprovida de defesa. Se ela era boa gente? Não sei. Provavelmente não... mas ainda era uma menininha. Apesar de deitada no chão, com aquele bruta-montes segurando sua nuca e com o dedo da outra mão quase encostando no seu nariz, em nítido gesto de dominância e violência... ainda assim, ela tinha uma força! Devia já estar acostumada a ser tratada assim. Ela não chorava, nem gritava, só discutia com ele... ou se desculpava. E ele, no alto de sua completa arrogância e superioridade, agia com o orgulho de ser poderoso.
Por quantas violências como aquela ela não devia passar durante o seu dia?
Por que ele não se rebelava com quem a levava pra lá, pra ser pedinte? Ele era covarde.
Eu?
Eu só estava passando do outro lado da avenida... juro que a minha vontade foi gritar... foi descer do carro e segurá-lo, mas eu não fiz nada... como o cara do carro de trás do agressor... também olhava incrédulo, mas só olhava... assim como toda a fila de carro atrás deles, esperando o sinal abrir.
Eu me senti conivente com aquela situação... não fiz nada.

15 de Março de 2.010

2 comentários:

Manu disse...

O mundo está mesmo cheio de injustiças que gostaríamos de sanar. Às vezes, essas situações nos pega desprevenidos e não há como reagir. Também já senti muita culpa de ter me omitido. Mas me consolo dizendo que faço o melhor que posso!
beijos

eu mesminha... disse...

Agradeço, Manu... não somente pelas suas palavras, mas também pela sinceridade... Não consigo esquecer.

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